quarta-feira, 20 de junho de 2018

o rubor ao soletrar-te, agarravas-me
pela mão, o dia nascia
inteiro, a nós se fazia
e o mimávamos, depois

montávamos nesse alazão
não pelo partir, só para chegarmos
onde as pétalas são

terça-feira, 15 de maio de 2018

se o sono corre atrás do que perdemos,
já perdemos tudo
pinta com teu amor
todas as coisas lindas que procuras
serão tuas ainda antes de respirares
minha mãe revela-me o mundo inteiro
a cada beijo
a cada carícia
a cada olhar
que eu vou descobrindo aos poucos
serei as promessas que faço a mim mesmo
que as soube, sempre, ainda antes de ocorrerem,
desejos serem, ambições até,
utopias a engrandecerem do peito para fora,
tal sol quente
que aquece
porque irradia o que lhe vai por dentro

quinta-feira, 10 de maio de 2018

eutanásia

o que de nós perpassa
é o gume frio do orvalho lúcido da manhã
ou o entardecer embalado pelo rumor do dia?

ontem recortávamos bonecos de papel
que desdobrámos pelas janelas. a casa era nossa e
a alegria pertencia-nos.

o jardim corre (ou corria?) para nós,
toma-nos para uma roda. e abandonámos a mão...

os olhares não urdem
nada.

é outono. a folha cai sem significado.
ao gelo da madrugada responde o adormecimento.

entardece invernoso e escuro.
o horizonte hoje não veio.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

teu nome

teu nome
escreve-o 3 vezes
lê-o 3 vezes
ouve-o, escutando-te
3 vezes, soletra-o
corre-o de trás para a frente
e no inverso
se zoar íntimo
teu nome será

a palavra

a palavra em si mesma é
inacabada
o som que perpassa dá-lhe
íntimo
no verso suspende-se, a palavra
viva
brinca, paira
no poema a palavra enche
prenhe
a cor e forma
a leitura corre tonalidades
de onde despontam...
primaveras
claro, isto são dizeres de
imperfeições suspensas
pendentes de intimidades
talvez fecundas, como as estações

segunda-feira, 9 de abril de 2018

empurravas-me
encosta a baixo que me fizesse ao voo
eu agarrava-te na vertigem do chão que fugia
e ficavamos-nos nos braços pairando
na permanência de quem se ama

sexta-feira, 6 de abril de 2018

glossário ainda sem título

nascer
a imortalidade em ideia
o voo ao futuro

imortalidade
tédio como modalidade
inalcançável

ideia
explosão na vacuidade
a luz
o estrondo
eureka
se germina é inodora
insonsa e insonora

voar
a arte de pairar
batendo asas
ou não

futuro
uma probabilidade
em que se acredita
escrita com efe ou fê
como fé

poemar
sem tempo
reformar o sentido para sentir
voar de pés na terra
voar nos pés da terra
poderia até
de um gesto acender a luz
que ilumina o firmamento
para ser todo
para ti

sexta-feira, 23 de março de 2018

alimento
a profunda angústia para escrever
impossibilidades que vão em mim
o desassossego de as tornar possíveis
as ânsias de as encarar