quinta-feira, 13 de abril de 2017

sobre o jardim que já não é
sopra a aridez as flores
desabotoam-se cinzas
no tom escurecendo
o breu longo do silêncio
dá sentido ao infecundo

sexta-feira, 17 de março de 2017

teu nome é
verbo em verso
aberto
seio em concha
par-em-par
explicar como se respira
uma inutilidade

comprar um colar vazio
uma inutilidade maior

explicar a inutilidade
uma heresia

querer um poema útil
uma heresia maior
a vida conjuga-se com viver
outros verbos conferem-lhe o tom
ora temporário, pouco definitivo
em tom de riacho
ameno
límpido
corrente
jorra o teu sorriso

ser azul

ser azul
tomar-se de várias cores, de azul
ser céu ou para lá rumar, em azul
estar inverso a inundar, de azul
e abarcar a terra, em azul
pintada da cor do mar, azul
e não caber, transbordar azul
de azul ser
tenho felicidades tuas, ainda
as cuidavas pela manhã, colhi-as
como quem as surripia, levei-as
no meu andar, passeio-as
voando na passada, trauteio
um tom de assobiar

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

eu corro em
teu sorriso simples e cheio como desenho de infância
colorido de recreio
eu pulo e rodopio
eu voo
eu me embalo
e permaneço

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

é dezembro, porém
as manhãs despertam maio
é em março que se inicia a primavera
corre um fresco que se fará doce ao florir
o vigor de junho alaga o corpo de alma
em setembro vindimam-se carinhos
e a pequena ave desponta do nobre ninho
em dezembro também
se o verbo parasse
e o movimento não fosse
de dentro da palavra
sucumbiria

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

pós-humanidade

houve tempo, os homens eram de pau
aparência seca, acastanhada, aqui
e ali uma greta na madeira fendida

flutuavam na água e no vento
sentiam-se primos das árvores
com ligação pueril à fauna
no peito suspiravam pelo pulsar universal

uns existiam no tempo do sol e das intempéries
outros especializavam-se, espantar as aves, por exemplo
alguns tomavam a vontade superior como sua,
diariamente, usavam cordões
e se moviam pela habilidade de mãos do criador

todos, mas todos mesmo, temiam o fogo que arde e queima
curtiam na boca o sabor a lenha
e adormeciam ao som do crepitar do inferno

hoje, nos tempos de hoje, os homens são
...

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

do fundo
além da crosta no furo e na fenda
limita o saco além da boca
rompe no peito o sentimento
tão forte e profundo como o pensamento
profundo profundo profundo
base suporte e balanço do mundo