segunda-feira, 20 de novembro de 2017

i
sobre  o casario estira-se a sombra
cobre o volume de cada coisa

há um modo embriagado de tomar o tempo,
aos tragos, sentindo-o no corpo

há o esvoaçar dos pássaros, libertador,
trespassa a sombra a golpes de asa e eleva-se

ao casario
em cujo ventre os dias habitam miudezas

ii
as cidades são de um respirar ofegante
correm pela pressa de chegar
geram o burburinho da partida que preenche e
apazigua os ruídos do próprio corpo
encobre a internalidade do dia, desodoriza
e o ar corre inodoro sensabor

impaciente, a cidade estende-se
devorando o tempo, imune aos esvoaços
e ao quebrantar da sombra
interpretando a criatura que a zelará

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

mãe, meu olhar sente-só
a saudade abunda no jardim
os lírios perguntam teu nome
as rosas desfolham-se
e teus passos não as acolhem
as pétalas vão no vento
errantes, sem destino
perdidas sem teu olhar

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

da tormenta à boa esperança

lançar o poema do avesso
ferrar o hálito da sede
fitar a pupila do vazio
dobrar o abismo da saudade
afundar na profundez do céu

terça-feira, 14 de novembro de 2017

o rio até à nascente
o alpendre sossega
as folhas esvoaçam
todos os outonos passam
aguardam um pouco e vão

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

há sítios onde estou, sempre
saboreando a permanência
dos ninhos nas palavras,
perpétuos, eu delirando
cada partícula, desfolhando-a
como um livro, orgulhoso
como se um poema me lesse

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

poder-se-ia colher a tarde e
como um fruto maduro, saboreá-la
suculenta doce carnuda cheia e
sobretudo...
sobretudo olhá-la de dentro
pulsar nela
ser o pulsar dela e dela ser
pertencer-lhe
como do jardim são os seres vivos e
os bancos, esses seres ondulantes
que tomam os olhares e acolhem
corpos em despojamento

poder-se-ia colher a tarde
sobretudo
enquanto a brisa a sobrevoa e
perpassa o corpo
hum.... morno de regaço que embala
amamenta e, colhendo-se,
sobretudo
não se consome

afinal é disso que se fazem as tardes
sentidos e corpo envolto em brisa
abraços que as tardes têm

domingo, 22 de outubro de 2017

o silêncio ensurdece quem dele abusa
é uma estirpe fastidiosa
de colher tédio

os regalos volatizam-se
soam a carrossel
suspendem-se na melhor volta
pelos olhos me incendeias
uma verdade forjada a fogo
indelével, a paixão
o sonho é
uma forma poética do desejo:
imiscui-se nas realidades e urde
o encantamento: o mesmo que
compõe cantos dos chilreios
escuta murmúrios nos marulhos
sorve frescura no gélido:
é ser inocência sem idade:
toma o pico de uma euforia sem tempo
alimenta a serenidade do entardecer