segunda-feira, 15 de abril de 2013

compreender

uma criança berrava no restaurante. incómodo mesmo: os pais envergonhados, tentavam controlar a situação, furiosos ora com o filho, ora com os clientes; estes viam o seu merecido descanso posto em causa por aqueles pais irresponsáveis e aquele puto mimalho e seus olhares ora sopravam raiva ora escorriam consternação.

uma senhora, sozinha à mesa, olhou a criança com um sorriso volumoso e suave e tocou-lhe na mão. a criança sossegou, aconchegou-se e partilhou com ela um brinquedo que antes rejeitara. para ali estiveram convivendo diante do olhar silencioso de todos.

esclareceu, a senhora, levantando os olhos: - "a mim também me apetecia chorar..."

paixão

todos os dias se esmerava: fazia-se bela e saía à rua.
fora assim que conhecera o amor, se apaixonou e nunca mais deixou de amar...

amor eterno

todos os dias aquele pássaro lhe vinha comer às mãos, sem medos.
ela gostava de o alimentar, sonhando com o amor que lhe beijara as mãos. era leve, colorido, vivo, irrequieto e confiante como aquela ave, cujas bicadinhas sentia como beijinhos (tão lindos e amorosos), agora que ninguém parecia apaixonar-se por ela... a não ser aquele pássaro muito amado.

...

aguardo por ti, como se aguarda
pelas badaladas do relógio
sei que estás, sei que chegarás
e eu aguardo por ti, sem adormecer
não quero perder nenhuma badalada

domingo, 14 de abril de 2013

a caixa

a caixa
aquele esconderijo pessoal
onde se guardam intimidades:
cartas de amor e outras importantes
fotos doces
diário, se houver
aquele objeto investido
da importância de um momento grande

a caixa
vai crescendo com a idade
e com as memórias
pode ser sempre caixa
pode evoluir para mala e para arca

a caixa
é coisa de gente que amou
que ama a vida passada
que nela guarda o presente
que amará no futuro

a caixa
é a herança mais rica
que alguém pode deixar

a caixa
é coisa de gente idosa

sexta-feira, 12 de abril de 2013

inclassificável, o sonho

aquela melodia, no fundo do jardim
aquele canto dos pássaros, tocado a vento
aquelas flores balançando, entregues ao sol
aquele sol espelhado em diamantes de orvalho
aquela rua de quadros, molduras de sonhos pintados
aquelas ruínas de muros, obra e arte de gente
aquela alegria infantil, gritada em recreio de escola
aquele latir de cão, participando na algazarra
aquela voz de gente ao longe, bradando à vida
...
porque a vida é assim, um sonho, total e inclassificável
os retalhos mirrados ou quebrados pelo medo de sonhar, são o limbo
sítio de mortos-vivos, sem lugar para a poesia

excerto

...
lembras-te...
do silêncio cúmplice do nosso olhar?

lembras-te quando nos contámos
quantos sonhos havia no verbo amar?
...

saudade

amor
larguei meu corpo e procurei-te
precisava encontrar-te
percorri meio mundo e lá estavas tu
aguardando-me no sorriso
que teceste para mim
depois beijaste-me, senti-o
e regressei ao meu corpo
tão distante do teu

prometemos, ainda
quando nos encontrarmos
tocaremos nossos corpos
de almas abraçadas

amigo alemão

meu desejo mais ardente
ajudar um amigo a perceber
como é diferente sujeitar e conviver
que a Europa não é algo a dominar

100 anos, tantos arrependimentos
tantas vidas mortas, tantos lamentos
e o nosso amigo cavalga a história
exercitando-se para ocupar
com sentido de vitória
outra vez um lugar

nas memórias das derrotas e dos tormentos...

será triste se nada fizermos...

6.ª feira

este é o dia com a tarde mais linda da semana...

quarta-feira, 10 de abril de 2013

sonho nascido

o que tenho para dizer
é pura imaginação
ouve-se no vento
escreve-se nas nuvens
e lê-se de olhos fechados
e de sonhos abertos

e as palavras sendo belas
são rudes instrumentos toscos
como o amor, sempre belo
pode ser tosco e rude
ao invés da poesia
sonho nascido, sã humanidade

terça-feira, 9 de abril de 2013

metamorfose

enrolavam-se, redondas
como caveiras, as ondas
geradas no mar
que banharam as rochas
bateram na areia
gelaram os pés
refrescaram a face
salgaram os lábios
piratearam pensamentos
destinos de memórias
tesouros da existência
que o mar assaltou
lavou e levou para o fundo
lá se afogaram
reaparecendo caveiras que não reconhecemos

imensidão

havia um mar, imenso
de água, areia, nuvens
e raios de sol

havia um abraço, imenso
como o mar de pensamentos
aconchego e carinho

havia um momento, imenso
como o amor e o horizonte
que fundimos e trouxemos no peito

pensamento solto

não há medo maior
que aquele que resulta de não sonhar

segunda-feira, 1 de abril de 2013

sombras ferozes

batem as portas
rasgam-se as janelas
fende-se o céu
ofendido de nós, por nós
quebra-se o chão
sopra o sol
vento gelado
acidificante, queimando
velas ardentes
demoníacas figuras
instigam nas paredes
sombras de corpos
nós ensombrados
num teatro chinês
atores sem assistência

menino, em mim

há um menino
haverá sempre um menino
em mim

amará pelo colo
mimará pela traquinice
tenteará nos braços o passo mais ousado
procurará um olhar sorridente e será confiante
birrará para se afirmar autónomo
precisará dum embalo ao adormecer
crescerá para saber o que oferecer ao filho acabado de nascer
nesse dia recordará tudo o que viveu
e exclamará

há um  menino
haverá sempre um menino
em mim

poesia do poema

havia alguém que entendia a poesia
pela arte de fazer poemas

um dia deu consigo extasiado
ao ouvir um outro alguém lendo um poema
chorou de alma e de lágrimas
só depois entendeu que aquele escrito fora seu
e que agora era muito mais rico
ele e o escrito que viajou no peito de quem o leu

ignorância

olho para mim
sem espelho
para que me veja melhor
fito os olhos
querendo lê-los profundos
toco na alma
que me soa amiga
conheço-lhe o toque
a voz
o sorriso que nunca vi
e olho para mim
e volto a olhar
pouco sei
pouco entendi

sábado, 30 de março de 2013

batismo

caiu-me no corpo
a poesia
soltou-se a escrita de mim
sentido
da vida: vivida e sonhada
que não desuno
de mim
umbigo e furacão
uma qualquer imagem
da simples emoção

sexta-feira, 29 de março de 2013

frio

o frio
enregelou-me as mãos
entrou-me pelos dedos
creio
por baixo das unhas
viajou-me pelos braços
instalou-se-me no peito
minha vida esfriou
e eu tive frio

tarde

era tarde
eu sabia, mas eu queria ver-te
precisava, era isso, precisava ver-te
porque tinha de alimentar minha alma
encher meu peito e regalar-me pelos olhos
quando te encontrassem
sabia que desejaria tocar-te, sentir-te
mas eu precisava, sabia
que era tarde

à noite, toquei-te no sonho
beijei-te de um profundo enorme
e quando acordei tu estavas ali
colada a meu corpo, dormindo em paz
querendo meu beijo
não era tarde

quinta-feira, 28 de março de 2013

criação

grande, o tempo feito de mar
compassos de ondas
partir, andar
um dia regressar
navegando. surfando, mareando

longo, o vagido bramido pelo mar
cadenciado, compassado,
companhia, murmúrio,
cantiga do marinheiro, voz da sereia
entoando, cantando, soando

farta, a imaginação brotada do mar
sonhos segredados, desejos confessados
lamurias soltas ao mar que macera,
compassado, cadenciado
volve, revolve e devolve num ato de criação

a que fez o mar, o tempo e a imaginação

quarta-feira, 27 de março de 2013

arroubamento

o poema que li estava escrito em ti
tinha a forma de corpo, gracioso
recortado à luz do cortinado
curvas amenas, entregues
à vastidão do movimento
longo e leve como o contemplar

como a poesia, seduzia
pela volúpia do aroma
impregnando os sentidos
fecundando a imaginação

na mensagem do poema
segredada na rouquidão, doce
de voz suada, transpirada
de emoção da paixão e do desejo
desvendava-se o bramido
gerado na entrega maior

terça-feira, 26 de março de 2013

infinito

o que tenho para ti
conjuga-se no infinito
aberto, disponível, amplo, sem fim
como amar e crescer
florescer, descrever e embalar
e beijar, abraçar e beijar
até ao infinito de mim

de pai para filho

tenho medo, filho
é um medo filho da puta
e se eu não souber ser o pai que mereces?
e se eu não souber rir contigo?
e se eu não souber dar-te colo?
e se eu não souber ralhar-te?
e se eu não te ensinar a sonhar?
e se eu não te der confiança para acreditares?
e se eu não conseguir mostrar-te o sol
e o mar, que são imensos?
e se eu não conseguir falar-te de amor
da tua mãe e de ti?
e se meu medo me atrapalhar
e tudo me sair errado
quando eu mais queria acertar?
meu medo aterrador, filho da puta, de pai babado.

quinta-feira, 21 de março de 2013

quarta-feira, 20 de março de 2013

hosana

quando meu coração
se elevou de amor
tocando no céu
da tua boca
pulsaram palavras
beijadas, mordidas
melodia de sol, envolta
corpo benzido
tocado, abençoado
entregue às palavras
amor maior.

marear

vou marear-te, mar
é que em mim se confunde
amar e marear
enquanto tu,
clarividente como sempre,
marulhas,
adoro teu marulhar
sem barulho,
meigo murmúrio
teu conforto de mar.

terça-feira, 19 de março de 2013

sem nome

porque amor é pouco, parece termo pequeno
para aí caber a imensidão do sentimento
que se gerou em mim e me fez grande
maior que eu mesmo, orgulhoso
de tudo, especialmente de ti
do que senti e do que sinto
superlativo, que o é teu dom meu filho
o meu sentido de pai.

segunda-feira, 18 de março de 2013

nas nuvens

seria nuvem caso renascesse
leve, luminoso, sisudo e harmonioso
seria polimorfo e moldar-me-ia
num sonho de criança
num desejo de poeta
na volúpia de um banco de jardim
no voo de uma gaivota vadia
entregue ao prazer de voar
sem dono, sem deus e sem mar
rasaria os montes só para tocar o chão
e formaria um arco-íris tão longo e amplo
quanto a grandiosidade
de uma nuvem amante do mundo.

deleite

meu amor,
escorre em mim
a recordação de ti
conforto do beijo
calor do corpo
macio do lábio
doce húmido da língua
excitante da tensão
que teu corpo projeta
impregnando-se no meu
e segredas-me a tua paixão
na dobra do ouvido
onde guardo a tua voz
que aconchego com um dedo
enquanto aprecio as nuvens
dançando a volúpia
que aprenderam de nós.

...

era noite escura
e o sol que dela nasceu
foi amado, tanto, tanto
que encheu a lua
e com ela a noite de luar
todos se quiseram unos
unidos num só dia.

domingo, 17 de março de 2013

lugares da vergonha

resvalaram-me os olhos
para o chão lamacento
para a cratera profunda
fugindo, envergonhados
da culpa, oculta
que não abafa o olhar.

esgotaram-se as lágrimas
partiram, fugiram nos olhos
também elas envergonhadas
foram com o dia de chuva
nele vivem, nele se misturam
sem que se façam notar

encarquilhou-se meu peito
seco deserto, mirrado
vergonha, fonte de agonia
dor da alma vazia, sumida
incapaz de sentir
uma centelha de vida.

enrugou-se meu corpo
amarfanhado em si mesmo
sufocou-se, amargurado
escondeu-se nas rugas
onde escreveu as mágoas
de corpo envergonhado.

lágrima de ódio


como era vermelha aquela lágrima
despontou, um vermelho raiva
sem pinta de sangue
ódio puro, negro de escuridão
turvo como o olhar
gélido de tão cortante.

sexta-feira, 15 de março de 2013

medo

hoje meu dia é escuro
fez-se breu
meus amigos são despedidos
alivia-me, não ter sido eu
que traste me sinto.

sossega-me
que meu patrão não me olhe;

alegro-me, em silêncio
que não me apontem;

amargura-me
o dia que espero não chegue.

que traste me sinto
que traste que sou.

quinta-feira, 14 de março de 2013

essência do poema

vi no grafismo de um poema
a arte da poesia
eram linhas tricotadas
talvez fossem palavras
e a criança, como o poeta
desenhou para narrar
histórias belas de encantar.

mulher

sentia-se no dia mais feminino da sua vida
via-se linda, sem deslumbramento, luzente
amava cada olhar em que tocava
jorrava uma aura de amor espesso
azoratava a multidão
que abraçava em passos largos
como o seu amor matizado de mulher.

conforto: êxtase

o sol entra na vidraça aquecendo-lhe os aposentos.
sorriu-se da ideia... e do prazer do calorento que, agora, lhe envolve o corpo: tornara-se consciente deste quente com toque de amante.
as memórias chegaram e com elas os aromas.
aromas de amor, inspirados à janela, e um corpo confortado pelo sol que penetrou a vidraça.
e um gole de café morno.
depois, uma passa profunda num cigarro, um calafrio vigoroso, confidente do corpo arrebatado que o fumo abençoou.

quarta-feira, 13 de março de 2013

partida

alegrou-me saber que partiste
que foste contigo mesma
que me largaste
não porque me abandonasses.
mas porque teu lugar não era ali
e o meu também não.
quase me irrito comigo mesmo
dorido que estou pela tua ida
aliviado me sinto pela tua partida

a minha coragem é uma réstia
some-se na linha do horizonte
como um adeus sem palavras.

segunda-feira, 11 de março de 2013

manhã

manhã
do sol tenta furar as nuvens
ignorando que ambos fazem parte do cenário.

manhã
do sol que cumpre a sua função, as nuvens também
ambos fazem parte do cenário.

manhã
olho para o exterior e faço composições com os elementos
integrando-os em cenários com que defino o dia. só isso!

domingo, 10 de março de 2013

desamparados


soube que te chamavas a ti mesma de minha mãe
contaram-me.
sempre soube que o colo onde me aconchegava não era meu
senti-o. senti-o sempre que me aconcheguei
acreditava que tinha um para mim, como todos os meninos
mas não era aquele. recebia-me, amava-me
mas algo não se moldava, no corpo
nos corpos algo não correspondia
por isso percebi cedo que teria de procurar-te
melhor, teria de encontrar-te
e... , quem sabe, ver teu colo que tão bem conheço
pela ausência...
não consigo chamar-te mãe
e muito menos usando o pronome possessivo minha
nunca nos pertencemos, de facto.
abandonados na vida, só nos ligou um colo
e agora este poema
em que te chamas minha mãe
e, secretamente, me vejo o teu menino.

quinta-feira, 7 de março de 2013

infindável

teus olhos
acordam-me
memórias de ti
o dia faz-se grande
memorável
até ao fim do mundo
infinito
como o amor
como a saudade
como a paixão
tu
teus olhos

meu escrito

escrevo em minúsculas porque meus escritos são excertos, narrativas retiradas dos meus pensamentos, diálogos internos, que se iniciam e prolongam bem além do texto. nestes diálogos, as palavras são nomes e os nomes são palavras que convivem sem sobranceria. é a sua natureza.

a pontuação, essa escreve o ritmo do pensamento, de cada pensamento, de cada diálogo interno, e também tem um significado: o sentimento do pensamento que pariu e aconchegou cada uma das palavras.

viver

somos cúmplices: eu e a vida
amamo-nos apaixonadamente
até ao desespero, que se faz ódio, quase...
sem desilusão (talvez): cumplicidade, nossa
como nossa é a senhora que exclamamos
a sorte que bendizemos
e a miséria que vociferamos
e seguimos namorados desajeitados de desejo
que se mordem no beijo
se machucam no abraço
correm, gritam, se batem,
desafiam-se, injuriam-se
e terminam unindo os corpos
cópula perfeita
de quem nasce para o outro.
minha relação com a vida.

umbigos dos dias

há dias que saem debaixo do travesseiro. são enfadados: amassados, entorpecidos, agarrados ao escuro e mártires de si mesmo. por uma dinâmica neurótica, martirizam-se por vocação, porque seu fim é chorar martírio ao redor dum umbigo de quem se preste.

também há os dias nascem lá fora, aparecem no horizonte e trazem o reboliço que, espevitando, se forma a si mesmo a partir da alma de tudo o que é vivo. estes dias também têm umbigos, plenos de sensualidade e perfumados de gente, que só vistos nos outros. o umbigo de cada um usa-se para alindar porque se é suficientemente ousado para o oferecer, no reboliço gerado na alma e que espevita o dia.

vago, alto e salgado

deixa-me contar-te um segredo
daqueles que se soltam no ar
na ventania
se semeiam nos montes áridos
sobranceiros e isolados
se confessam ao mar
num dia de tempestade

deixa-me olhar-te profundo
nos gestos das tuas mãos
que dançam no ar
nos olhos despertos, elevados
amplos como a montanha
na alma leve, abençoada
salgada de mar

e nada mais haverá a esconder
nada mais para partilhar

quarta-feira, 6 de março de 2013

absurdo

abandalhei no papel
gatafunhei a vida
pintei a manta na tela
escolhi as cores do dia que vivi
escrevi nas paredes e muros
ruínas de poesia
desastres em caligrafia
sóis negros, luares soturnos
mimos desajeitados
estimados como ódios sem vocação
por tudo o que fiz
o mesmo tudo que não gostei
eis tudo o que sou!

perfeição

sempre fora comedida como uma menina deve ser.
sorria sem rir alto.
falava sem vociferar.
sabia ouvir e sabia falar, por ser preceito de menina sem defeito.
sentava direita, sempre direita mesmo a andar.
tinha cuidado com as pernas em cada passo e no sentar:
alinhadas, pouco abertas e de preferência encostadas.
usava decotes reduzidos os adereços comedidos.
o penteado era sóbrio, a maquilhagem reduzida evitando o pouco próprio.
só em idade mais avançada se dispunha a que fosse um pouco mais carregada.
perfumes florais ou frescos mas suaves, bem suaves e frugais.
seus olhares eram limpos, castos e ingénuos, porque quem mal não pensa mal não vê.
também eram curtos para não serem desvendados.
olhava os outros na testa para que não lhes decifrasse a alma ou o desejo que poderia ser pecaminoso.
ela nunca tivera um orgasmo nem lhe percebia a necessidade.

um dia decidira-se fazer tudo o que nunca fizera: e inverteu as regras.
ainda não percebe a necessidade do orgasmo, mas adora-o sem comiseração.

terça-feira, 5 de março de 2013

vestido amarrotado

entristeceu-me
teu olhar desolado
pelo vestido amarrotado
compunhas, ajeitavas, acariciavas
para que se moldasse ao teu corpo
rígido, tenso, encurvado
via uma lágrima escorrente
em teu rosto, também ele amarfanhado
absorvida pelo vestido
sem nódoa que se veja
pronunciar-lhe o engelhado.

alegoria duma vida:
o vestido da vestida.

teu vestido colado

teu corpo reconhecido
agradece à linha do vestido
o estilo, o corte, o feitio
que te enaltece o corpo
e o engrandece, ao vestido
que teu corpo ama e cola
para se ver pronunciado
bem vincado
do vinco do decote
ao recorte da virilha
da curvatura da anca
ao doce trinar dos seios
é na racha do vestido
peco pelo olhar, teimoso, foge-me
eleva-se em teu ventre
e aí sonho o aconchego
que tanto quero e mais desejo
seja um pássaro, o teu vestido
lindo, elegante, vistoso
que bata as asas e queira voar.

segunda-feira, 4 de março de 2013

teu vestido

descobri-te na ourela dum vestido
escarlate de vermelho
que teu corpo tornou vivo
tentador, tal o maneio que me atirou
seduzindo-me pela imaginação.

nada vi além desse vestido
cujo destino conheço:
ser despido, lentamente corrido
e caído no chão. sonhei-o todo
sonhei tudo até ser apanhado
e novamente pendurado
pelo teu corpo sem vestido
sem segredos, desnudado, doce odor
com amor, também pelo vestido
que apanha, cuida e alisa
que não quer amarrotado
o teu vestido sedutor, vazio
tece um esguio movimento
para que o sonhe sempre
um vestido encorpado.

tentação

teu joelho traiu-me
despertou-me, não que eu dormisse
reluziu-me, convite para que o olhasse
sonhando-lhe o calor, o toque
movimento perfeito
doce inquieto, redondo
robusto, gracioso aceno
discreto movimento
que leio para mim
despontou-me teu joelho
desse vermelho cetim
que usas vestido.

a deus


custa a crer como conseguimos
acordar no impossível
adeus que tanto nos assustava
lembro-me...
como era doloroso separarmo-nos
pela eternidade de um minuto
doía até às lágrimas...
têm o mesmo sabor, as lágrimas
de hoje. parece que o sal é o mesmo
que dizíamos abençoar
o nosso amor
e o que agora bendiz a nossa despedida
é para nosso bem, acreditamos
e entregamos a deus
o nosso próximo encontro.
assim o decidimos.

impronunciável adeus

partiste e deixaste teus olhos comigo
guardo-os,
guardá-los-ei eternamente
acariciá-los-ei
quando estiver sozinho, contigo
sorrindo, desafiando um beijo
como o primeiro, que guardo
aconchegado aos teus olhos.
jamais te direi adeus.

árido, de despedida


secaram-nos as veias
que alimentavam aquilo a que chamávamos amor.
deixou de bater, o nosso coração
melhor, inverteu a batida 
agora é surda e desconfortável:
eco surdo nas veias já vazias
como todo resto em nós
é vago e ecoa.
desconheço a tua pele
que agora me arrepia, de estranho
e no teu olhar onde só leio banalidades
às quais respondo com a indiferença
como pudemos declarar-nos amados?
amantes?
como nos arrefeceu o corpo?
como ficamos sem pinta de sangue?
respondemo-nos com um adeus
porque assim o fazem a pessoas civilizadas.

despedida

amargam-se-me as entranhas
torpor com que aguardo
e adio a despedida
que só concebo trágica.
despeço-me dos teus olhos
que agora procuro vagos
da tua pele que concebo fria
e do nosso abraço, o último
decifro-lhe os defeitos
que enalteço
para te mostrar que mereço
este adeus.

lento e longo adeus

despedimo-nos um pouco todos os dias
com aquele sorriso
que só nós entendemos.
sorrimos como as crianças
porque não sabemos dizer
o que ambos entendemos e calamos
aproveitamos-nos mais um pouco
despedimo-nos mais um bocado
a pouco e pouco...
nunca estaremos prontos
mas sabemos que nos portaremos bem
é o nosso conforto
adeus, mais um pouco de adeus

até amanhã

rebento de saudades
ao dizer-te até amanhã.
é uma enormidade
de tudo, incluindo tempo
deixa-me levar um pouco de ti
comigo, algo que não precises
só para não ter de despedir-me
de ti, na totalidade.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

estória sem fim

a sua história era simples e contava-se em duas linhas: uma para iniciar e outra para acabar.
quando a escreveu, leu-a e sentiu-se pequeno, vazio, amarrotado e a definhar.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

presente

terei um beijo para te dar
quando chegares, entregar-to-ei
num embrulho bonito
porque será um presente
o melhor que tenho
e eu deliciar-me-ei
apreciando-te desembrulhá-lo.

fortuna

se só tiveres um tostão
gasta-o num beijo
numa flor
no que achares de melhor
e não deixes para amanhã
o que podes amar hoje.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

saudade

gritou-me a escabiosa senhora
bem do alto do seu trono:
- chora, grita, desespera-te
de rojo, que para isso nasceste
nessa faixa de praia e serranias
de onde teus avós aprenderam a dor da despedida
e a da ausência
e as maceraram na alma
até que se tornassem seu destino.
e assim foi, cumpriu-se o desígnio,
geramos a saudade: esta forma sentida de ser
com nome de mulher
que deu voz ao fado
e a que chamamos mãe.

brisa da minha existência

parti no vento
por ele voei
bem alto, bem longe
lonjínquo, pairei
pelo céu, cruzei o mar
mergulhei com o sol
acompanhei-o no levantar
viajei nas folhas de outono
com elas saboreei a aragem
aconcheguei-me nas nuvens
plantei um arco-iris
que se fez primavera
ungiu-me um beijo leve
benção de suave brisa
chegada no vento
e com ele parti

decente conjugação

indigno-me eu
indignas-te tu
indignamo-nos nós
decente conjugação
parece-me a mim
parece-te a ti
parece-nos a nós.
desejo-nos discernimento
para continuarmos
indignadamente bons.
decente conjugação.

comigo próprio

escrever pensamentos...
(delicia-me fazê-lo)
à cadência do diálogo interno:
de mim para mim
de si para si
de mim para si
ou de si para mim...
não importa.
têm uma métrica própria
sente-se!
como o olhar que corre
estanca ou prolonga-se
onde deve prolongar-se;
um pulsar subterrâneo, invisível
e presente, sempre.
depois há as ideias
que podemos espraiar em frases
ligadas, desligadas, interligadas
(também não importa)
porque os pensamentos
por natureza acontecem
com a fluência e com o sentido
do diálogo interno
onde nos recriamos
(consumimos, zangamos, sorrimos)
construindo a paz
connosco e com o mundo.

divertimento

encontrei-me com o diabo
topei-o em mim
conversámos, rimos, sonhámos
rimamos e agradecemo-nos
ficamos amigos
combinámos um futuro
e seremos divertidos.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

ensaios sobre o fim

I - meu fim

vi-me apaixonado
correndo num jardim
abraçando uma flor
sabendo ser dela
para sempre, sem fim.
ofereci-lhe uma rosa
que se revelou por mim;
confessei-me às estrelas
recordando no silêncio
todas as falas
mesmo as não faladas;
e fechei meus olhos
incorporando, por fim
o que se passou e o que há de ser.


II - meus fins

desfrutei o final do dia
recebendo o seguinte;
apreciei a euforia
de acabar um poema;
curti a ânsia de iniciar outro;
alterei de sentido
da frase que escrevi;
fiz o meu desejo
conviver com o pavor;
fui ao fim do mar
soltar meus pensamentos;
explorei, explorei-me
momento a momento


III - fim

fim é início
e pode ser descanso
nostalgia ou alegria
poderá ser êxtase
mas não é esperança
porque essa nasce e renasce
nunca terá fim.