segunda-feira, 11 de novembro de 2013

descoberta

descobrir lentamente
a noite por trás de escuro
a luar ao redor da lua
o dia seguindo o sol
a via à volta tua
o vazio da tua ausência

sábado, 9 de novembro de 2013

amor

queria tanto ver-te
que te procurei
primeiro no improvável
depois no impossível
e encontrei-te no inexgotável

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

envelheço

envelheço
e me antiguo
por ordens
me desconcerto
descompasso
de um tempo
que não tem passo
sem volta
sem 2º oportunidade

envelheço
e me antiguo
sem que entenda
sem que me entendam
espanta-se a lógica
deixam-me escárnios
em sorrisos e berros
querem que saiba
que envelheço
e me antiguo

peregrinar

se quiseres deixa-me
deixa-me. sei que nem sempre continuar é abandono
às vezes é só continuar por caminhos diferentes
quem se senta precisa ponderar a caminhada
quem muda de caminho segue a consciência
assim é a jornada de preregrino

minhas tias

quando minha alma me parece vazia
vou à infância e lá me deixo, em colos
onde aprendi a sentir a ternura em carinho
chegado na voz soada a peito
no aroma a corpo aconchegado
no prazer íntimo de colo gerado ali mesmo.
as minhas pequenas mãos lhes tocavam os rostos
para lhes sentir os sorrisos e acabavam beijadas.
agora, quando nos encontramos ainda sou puxado
para o colo das minhas tias
entre os meus 50 anos e os 70 delas somos crianças
amando-se com toda a meninice.
ao cruzarem-se, os nossos olhares resplandecem
um infinito brilho de iluminar a alma
de quem se ama almadamente.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

biografia ii

nasci a 4 de novembro de 1961, no Porto, gorducho de querubim em mão de fadas , pulava entre colos e sorria, e a felicidade, de pudesse ser emoção, seria a única que sabia. com os tios conheci a traquinice e com eles fui diabinho radiante. aprendi a ser feliz sendo angelical e amando a travessura.

a minha adultez chegou precoce. quando  aprendia a escrever as letras, depois as palavras e os textos, sonhava com um modo inintelegível de palavras que se decifravam por si como se não resultassem da justaposição de letras. era assim que via a escrita de adulto e enchia "lousas" e "lousas" de desenhos hieroglíficos que sonhava fossem palavras. um dia escreveria assim, afirmava secretamente para mim.

trabalhei imenso para ser um adulto bem comportado e aspergido de traquinas. licenciei-me em psicologia, fui pai de 2 filhos que me ensinaram a escrever depois de ter casado com aquela que o destino incumbiria de assolhar as rasuras que escrevi rasurando (e que apelidou de poesia.)

porque há algos que se perpetuam, ainda hoje sou impelido para desenhar linhas que deixo enovelar em sonâncias de alma, algures entre o silêncio e a euforia. assim abraço palavras com que urdo poemas; escritos, suspiros de vadias emoções sem céu nem inferno, tal como o horizonte que nunca teve linha e muito menos divisória.

neste vadiamento assumi-me assim e do advérbio de modo fiz meu nome por me soar mais almado antónio assim d'oliveira e o senti-lo mais apropriado ao meu ser desenhador.

nada

passei o dia no meio de nada
rodeado de coisas
coisas de nada que se espinhavam
e os pássaros, sempre espertos, nelas se empoleiravam

depois, o dia passou sem que partisse, mudou
e quando eu passei, se é que passei, que eu nem notei
nada não me arranhou, segurou o pássaro
e eu voltei, quando não sei, para mais um dia no meio de nada

espraiar

ouves?
este mar, onda a onda
espraiar...
na areia
tanto prazer numa dança
num enrolo
ouves
espraiar...
o ronceiro som do mar

ouves
tem sonância de corpo na cama
espreguiçar...
soada de lençol
escorregar...
ouves?
espraiar...

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

idealizando

viveria onde pudesse pairar
que os toques, a existirem, fossem de alma
e por eles se sustentassem os corpos
as mentes e as ideias
as mesmas que sustentam ideais
as âncoras da humanidade

pairaria incauto, como deve ser
uma existência feliz

ondear

quero um lugar de onda
onde possa ondear
mas não quero ser onda
que essas são filhas do mar
e eu que só me sinto perdido
é lá que quero estar
enterrado até ao pescoço 
mergulho a cabeça na água 
para me sentir renascer
ou para me fazer renascido
sem frutos que tenha de dar
possa meu estado ser peco
bravio, sem poda, vadio
resistente ou moribundo
como arbusto daninho
que vive para ondear

contemplação

bem no alto do calhau que nomeei meu
contemplo
as rugosidades do tempo
que chegam nas nuvens
salgadas, carregadas de mar.
toco com a língua no meu calhau
sinto-lhe o sal e a lisura da brancura
tão pura que eu amo tanto;
como amo este meu território
de guardar no bolso junto ao corpo
onde me sinto livre
verdadeiramente liberto
para lhe conhecer a grandiosidade

terça-feira, 5 de novembro de 2013

mirada

o mundo, do tamanho e forma de uma gota de água
resplandece quando tocado pelo sol
de tão cristalino que é
tal como as gotas de orvalho
e as lágrimas,
venham elas dos lados da alegria
ou nascidas da tristeza.

o sol, eternamente quente
que existe redondo que já o vi
tem o reluzente que sempre habita em nós
e alimenta-se de sentimentos
e cintila na emoção

pequenezes que fazem sorrisos
olhares radiantes
e belas fotos

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

domingo, 3 de novembro de 2013

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

testamento

se puderem, se vos for possível deixem-me morrer
sossegadinho, calminho como o respirar de um conto infantil
era uma vez... e eu morri.
e começa o enredo de magia e fantasia infinitas.
peço que não escolham réis, príncipes e princesas
nem animais de colo
prefiro vadios e transviados
e se quiserem mesmo animais, convidem os acossados.
criem um conto preferencialmente sem moral
sem felicidade final
somente uma história que possa continuar com todos
e tenha um dia seguinte.

doçura

era noite
queria que me agarrasses
como um favo, me abanasses, apertasses
tirasses de mim toda a minha doçura
que meu mel te cobrisse
que dele te deliciasses

e tu obreira rainha
fadando a noite
fizeste de mim o favo mais doce
atulhado de mel

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

intuitivamente

havia poemas nascidos
de quem ainda não escrevia
porque não sabia;
de quem sonhava e sonhava
sem paisagem e sem história,
via-se com uma pena
que da mão lhe saía, em linhas
encadilhadas em algos
a que dava voz.
os olhos moviam-se
para o céu, para si e para dentro
como acontece com os poemas
ele sabia
sem que soubesse porquê
ali havia poesia.

do estado das pessoas

ela abeirou-se
precisava saber se tudo estava bem
não estava, não estava...
nada estava bem
mas agora que se viram
tudo parecia melhor
e assim ficou...
melhor

sábado, 26 de outubro de 2013

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

cega paixão

desejo pedir-te, mesmo suplicar-te que me ames
que me ames como se não houvesse mais ninguém
a cegueira da paixão não me deixa entender
como serei mais amado quando me escolhes de entre outros

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

biografia

minha biografia escreve-se de banalidades, como as letras que a integram. nasci a 04.11.1961 e sinto que desde logo me pularam de colo para colo: pais, tias e avós. fui deles e eles meus, por inteiro. durante 6 anos fui a única criança daquele reino de fadas mimentas que me fizeram sentir querido, lindo e inteligente. aprendi a ser príncipe, a ser ouvido; senti o conforto do colo e o prazer de trocar carinhos pelas mãos, pelos sorrisos e pelas palavras, em noites à lareira, enquanto me crescia a fantasia dos contos lindos de impossíveis, do meu avô. ouvi-os vezes sem conta e nunca se repetiram. que lindos, dizia então; que poesia, lembro hoje.

o tempo impeliu-me a escrever fantasias. primeiro com um ardor dorido de adolescente (sempre apaixonado) em plena revolução. passei a jovem adulto, profissional de psicologia, competentemente adulto, que por um ímpeto sempre inexplicável pecava: perdia tempo escrevendo devaneios que obnubilariam qualquer adultez, os quais sempre fui encobrindo, não sei se por cobardia intelectual se por um desejo intrínseco de culto do secreto. foi um tempo de treino, talvez de experiência.

recentemente, já sem noites e sem lareira,  sem nevoeiros e sem manhãs,  sem mais nada para além da impetuosa necessidade de fantasiar, escrevi da minha alma os vagidos e as traquinices tal como os ouço e me tocam e dei por mim parindo-me a cada letra, verso a verso, umas vezes com a delicadeza brotante da nascente, outras com a crueza estrondosa do vagalhão, deixando emergir o que em mim sempre esteve e para a qual não encontro outro nome, senão mesmo natureza. foi então que me apropriei do advérbio que me define o modo e dele fiz nome meu; antónio assim d'oliveira.

solidão

a solidão dela fizera-se de abandonos
abandonos de memórias
primeiro as boas, depois as más
que antes de partirem escorraçaram tudo

um livro, só
um livro numa mesa
de pé de galo
ladeado de uma chávena, só
vazia de tudo
também havia uma caneta, só
e uma folha de papel
uma folha, só
quando chegou alguém
puxou uma só cadeira
sentou-se à mesa, só
de tudo debandou a solitude

dito e não dito

quando me olhaste: — doçura
eras meu mel

quando me sorriste: — bom dia
eras meu sol

quando soltei: — querida
gritava: — meu amor

quando te beijei: — bom dia
como desejava morder-te

terça-feira, 22 de outubro de 2013

frágil intelegibilidade

a fragilidade com que escrevi meu nome
como o constatei quebrável, sem que fosse cristalino
frágil; mole, sem que fosse moldável, sem que fosse flexível...

a fragilidade com que escrevi meu nome escorrente no papel
como tinta aguada, como gordura ao sol
sem forma, sem textura, sem mensagem

não entendo, porque não me aceito frágil

boa água

tanto espero e mais desejo
que meus olhos saibam dizer-te
o que eu não sei
o que não me perpassa os lábios
o que a garganta não desata
o que a língua não modela
a ideia que baralhei e não encontro
e na qual tropeço diariamente
constantemente

tanto espero e mais desejo
que meus olhos saibam contar-te
o rio em que minha alma se transformou
o prateado brilho, onde navegas
que em mim resplandece teu vogar
toque, corpo, água e sol
teu sorriso colorindo a janela
uma lágrima gritando
boa água

conversas ocas

foi tudo dito
tudo está dito
restam glosas e mais glosas
no mesmo tema
no mesmo assunto
sem nada acrescentado
sem nada mudado
sem novas vistas
falar e abafar silêncios
verborreia e mais verborreia
oiçamos o silêncio
entendamo-lo, sapientes

domingo, 20 de outubro de 2013

mudema

gosto das letras mudas
por mim, todas as letras seriam mudas
as palavras pronunciar-se-iam mudamente
com os olhos bem coloridos de expressão
os poemas seriam almados, plenos... enormes
os poemas seriam declamados com olhares

meu espelho

agasta-se dia a dia
o espelho em que me vejo
pica-se-lhe o espelhado
amarelece
ao ritmo das paredes onde se aninha
enquanto as rugas se lhe desenham
na imagem do espelhado
e no olhar que me reflete
vejo-lhe o brilho
que o espelhado imagina

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

nascente

onde a lua voa
e o pássaro passeia
onde as nuvens navegam
e a chuva caminha
onde as poças chapinam
e as crianças brincam
afaga-se a liberdade
e o poema corre rio

memórias

contam-se as memórias
uma a uma
sem contas, sem ordem
como a memória
sucedem-se
ligadas num punhado
fossem cerejas

assolham-se, limpam-se
alindam-se e guardam-se
tesouros sem tesouro
brilhos sem brilhantes
essência de existência
velam-se e ostentam-se
em pensamentos secretos
sorrisos enigmáticos
olhares perdidos

o indecifrável da compreensão

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

banho de vida

se te parece
que a vida te cai aos pés
não a pises
não a evites
não a ignores
sobretudo
nunca te lamentes
chapina nela
até te sentires mergulhado
de vida

trovoada

dormente
este céu de nuvens
espessas
penedos flutuantes
contundentes
quase ruidosos
quase faiscantes

tateei o luzente
simples
como um caminho
vadio
tinha aroma a tardio
despreconceituoso

um poema
talvez extraviado
ainda incompreendido
ansioso
para ser desvendado

fizemo-nos companhia
embrenhados na trovoada

o dia rompeu
não havia poema
nem eu

nós

teu dia chegou-me
perfumado de ventre
onde o sol nasce
meu dia enleou-se no teu
e conjugaste-nos com todos os segundos

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

verdade

assim
dispersa pela cidade
numa situação verdadeira
mente insustentável
fizeste-te de aragem
tal a tua ânsia de chegar
a todos, teus amantes
alguns indignos de ti
verdade
pela qual existem
muros e pássaros

pariu-me o vento
batizou-me o temporal
enchi-me do nada
do ar e voei
já que não podia andar
minha mãe chamava-me
cabeça-no-ar
compreendia-me

voto de humanidade

espero que a idade me cure
desta forma infiel de viver
não renascer em cada estação
não apreciar o vento e a neve fria

que eu ganhe cor e verdor
e ao ser homem seja alguém

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

desejo

se eu pudesse
correria até voar
rumaria com o vento
dançaria em teus cabelos
rebolaria em teus seios
abrigar-me-ia em teus dedos
confortar-me-ia em teu ventre
flutuaria no luar
voaria num só pé
brilharia como os rios
seria cristal sem tesouro

emociomar

deixem o mar destapado
o mar precisa-se aberto
cheio de água fervente
espuma tudo o que sente
vociferando encapelado
sintam o mar por perto
pois o mar é sagrado

fumar

o prazer de um cigarro
esfuma-se, no fumo
a memória aloja-se nos ossos
daí se solta
com o calafrio

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

desalento

caíam as mãos
peso do desapego
amargo da consciência
depois o corpo cansado
até para as mãos

que caíam
escorrendo pelo corpo
à frente dos braços
agora escorridamente longos
mais longos
tão longos que jamais abraçariam
e as mãos caídas, separadas
jamais se acariciariam

os anéis
tornaram-se largos
afastaram-se, impercetíveis

terça-feira, 8 de outubro de 2013

ídolo

sossega
o peito
pulsar
demais
pode ser
defeito

menina
corada
respiração
pesada
grito
engatilhado

pro herói
da banda
rosto
de revista
que canta
que dança
que artista
perfeito

não pulsa
demais
sossega
o peito

indecisão

vou
não vou
ainda
aqui estou
depois
de desejar
tudo
alcançar

se a poesia fosse um templo
os poemas seriam vitrais
contempláveis de dentro da capela

(baseado em Goethe; "Poemas são como vitrais pintados")

mais além

sentir-te é ir além dos sentidos
o mais além, sem distâncias
sentir-te a doçura da memória que te assalta
e te desconcentra
sentir-te o pensamento que me reservaste
e te contraria o momento
sentir-te a ligeireza com que te desprendes do dia
enleada te deixaste num detalhe de nós
sentir-te pelas incompreensíveis noções
de alma gémea, química, telepatia, seja lá o que for
sentir-te por algo que sinto como essência
do que chamamos amor
que nasceu de nós, cresceu
desmesuradamente, sem controlo
é o que sinto
e o que sinto diz-me que sei muito pouco
e o que sinto nunca se conjugou com medida e controlo

domingo, 6 de outubro de 2013

sorriso de pássaro

o sorriso num pássaro
tem voo e tem chilreio
tem olhar: primeiro um olho
depois o outro
tem distinção de plumagem
tem confiança: de se deixar mirar
e de vir comer às mãos
e não há alma que não lhe sorria

sábado, 5 de outubro de 2013

boa água

meu poema jamais se re-escreverá
jamais de repetirão as letras de que nasceu

o que minhas tristezas parem, não se escreve
e não há palavras para a insipiência deste sol peco

meu poema foi rio abaixo
boa água
por ali vogará
compondo-se no horizonte
onde os olhares se põem

viagem

segui a voz do cantar
acendi o sonho do poema
tocou no horizonte, a melodia
um pouco de mim não quer regressar

as viagens são assim

algo de nós por lá fica
algo de lá nos acompanhará, sem fim

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

urdêncios

um poeta vive nos silêncios
fios dobados, anovelados
deles urde poemas
em paciência de enxoval
em amor virginal, de entrega
um dia...

assolha-os ao tempo
ao vento
em silêncio, trauteando
um tesouro...

silêncios

silêncio, a soada que não se ouve
o silêncio escuta-se e entende-se
o silêncio de uma gargalhada
o silêncio da palavra
o silêncio do olhar
o silêncio do sorriso
o silêncio da tarde
o silêncio de um olhar sorrido num final de tarde
o silêncio de um poema
o silêncio de estarmos connosco
em silêncio

terça-feira, 1 de outubro de 2013

ressequido

esvaziámos nossas carícias
primeiro ocas, agora ressequidas
magoámo-nos na aspereza do toque
já não há corpo nem meio nem lugar
para as carícias

debandaram como corvos negros
gralharam horizonte fora
até ficarmos aliviados
agora magoamo-nos se nos tocamos

tempo de brincar

vi tantas histórias nos montes da areia da minha ampulheta;
cresciam em camadas, os montes e as histórias.
podiam ser doces, pareciam-me de açúcar
amontoado, destinado a um bolo guloso;
eram sagradas de sal imaculado
como o do batismo na minha igreja,
que só a santa mão do sacerdote tocava;
via-as areias de um deserto que alguém galgava
com ou sem amada, sempre uma aventura.
então o tempo parava e a hstória mudava,
o personagem renascia num outro episódio,
feito camada a camada,
que os meus olhitos de menino namoravam
e nelas se alimentavam brincando.
quando eu sabia brincar com o tempo.

a ampulheta

lembram-se da ampulheta?
instrumento maravilhoso
acumula o tempo
solta-o, devagarinho
caindo, em montinho
de cima para baixo
trabalho da gravidade
e o tempo lá dentro
não foge, caindo
se cima para baixo
depois tudo pára
também há a pausa
conhecem? a pausa?
ampulheta tem sempre pausa

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

à janela

aquele amor perfeito
com que iluminaste a janela
a cada dia que a espreito
por ele te vejo nela
então sorrio, para ela
um sorriso que é teu
flor da minha janela

introspeção

no reboliço de uma conversa
de mim-para-mim, aprendi

recostei-me no silêncio
sem tempo
que deixei em paz
sabia que ali devia estar

tudo o que aprendi
sempre esteve comigo
sem o saber

palavras

serão eternas as palavras
as nascidas do teu nome
as crescidas em teu nome
que os dias guardam
memórias, imortalidades

palavras espalhadas no ar
fossem dente-de-leão
palavras viventes no chão
fossem pedras do caminho

a imortalidade do dia
que eterno se fez
de palavras
em teu nome evocadas

bocejamar

então mar?
ainda bocejas?
onda a onda
ruidosamente

venho ouvir-te
gosto de ouvir-te
preciso ouvir-te
ver-te
só depois cheirar-te
e sentir a tua aura
a neblina
a frescura
a beira-mar

no caminho para cá
senti-te
teu chamamento
minha necessidade
amigos
um chama
outro precisa
nunca se sabe quem

e hoje bocejas
oh, se bocejas
preguiçoso
quem não te conheça
ver-te-á vigoroso
há vigor na preguiça
espraiaste tu
satisfeito

tu e eu
venturosos
bocejando
onda a onda
passo a passo
amigos
ruidosamente amigos

viver, como árvore

como árvore
enterro os pés na areia
que espreguiço como raízes

como árvore
preciso do fresco do chão
para viver

como árvore
embrenho os braços ao céu
para sentir o celeste

como árvore
preciso do divino ar
para viver

como árvore
ofereço-me pelo meu tronco
à poesia de amantes

como árvore
preciso de um coração de amante
para viver

meu dia

de tão estranho que me seja
lembrou-se de mim, o dia
teve-me, quis-me
amou-me como filho
rondou-me, libertou-me
deixou que lhe mudasse o curso
deixou-me aprisionar-me
deixou-me crescer, escolher
deixou-me gavinhar
sempre com a complacência
de quem olha amando, acaricia
não importa o concordar

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

desesperança

e depois, mateio-o
disse-o ela
tom de lamento sem confissão
doía-lhe tanto
a cada palavra sentia na mão
o cabo vibrando da lâmina entrando
no corpo que sentira seu.
cortou-lhe o peito, o olhar surpreendido
pânico de morrer.

e depois, era tarde
arrependimento, de nada valeu
se ainda pudesse
ofereceria ao golpe, o corpo
que sendo seu, nascera para sofrer.
tanta dor, tanto doer...

(a propósito do telefilme português E depois, matei-o)

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

morrimento

morrer-se por dentro
acontece antes do corpo

depois
seremos o que formos
mais que alguém sem uma parte
seremos quem sabe e quem sente
morta uma parte de si

o tempo da  metamorfose
o modo do renascimento

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

o sol

o sol
luminoso e quente
da felicidade
nasce no peito

quando se põe
pela razão de ser necessário
dá lugar ao conforto
que só a noite conhece

o sol
o astro sol
é a inspiração
sem a qual este texto
seria destituído de sentido

natureza da água

de toda a água
a da nascente, é a mais vigorosa
a do rio, a mais livre
a da chuva, a mais generosa
a do mar, a mais viva
a da nuvem, sonhadora
a da lágrima, a mais salgada

o u t o n o

o gesto que se me esvai das mãos
escreve outono
o-u-t-o-n-o
foge-me o sentido destas articulações
de dedos, de letras, de pensamentos
outono
ou tono
outo no
vá lá entender-se um corpo
anatomia de ossos, nervos e músculos
sem ideias?
vá lá entender-se um corpo
mergulhado, enrolado
em outono insignificado?

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

fim

à beira d'água nascem os rios
à beira d'água despede-se o mar
para logo nos reencontrar
marulhando-nos como rios
que nem sempre correm
espraiam-se preguiçosos
quiçá temerosos
o vazio do acabar

sabe-se que o mar vai e vem
enganando-se perpetuadamente
ignorando que renasce nas marés
onda após onda

natureza pássaro

chilreiam os pássaros no nascer do dia
chilreiam os pássaros na ramagem das árvores
chilreiam os pássaros no entardecer
chilreiam os pássaros dentro do poema
aquele lugar que deus quis para eles
e que os poetas criaram inspirados neles

domingo, 22 de setembro de 2013

a vida, como um poema
um conto cheio de histórias
uma em cada dia
uma em cada verso
uma em cada parágrafo

sábado, 21 de setembro de 2013

não aos escritos
não às palavras, gastas
deformadas, de tão mal tratadas
encalhadas
por pregões, vendilhões
e galifões que as usam
em cânticos matinais
para escurecer o povo
do olhar até à alma
a quem levam o sol e luar
para hipotecar.
sequiosas criaturas
do sangue e das lágrimas
a quem confiámos
o céu que nos ofereceram
os infernos que agora temos

carrego nas mãos o mesmo que no peito
no corpo, às costas, no colo, no regaço
palavras sem dono,
palavras nunca amestradas
jamais dedicadas, palavras sem amo
como as verdadeiras palavras são
do vento, onde viajam
do ar, de que se proferem
do peito onde se sentem
da alma onde se fazem
uma a uma, sílaba a sílaba
para que nunca sejamos sós

que nos fizemos gregários como palavras
que nos concebemos como agregação de sílabas

fazem-se muros de palavras
pintam-se muros para as palavras
constroem-se palavras para os muros
quando o papel não chega
para a grandiosidade de escrever
de um punhado de areia
quando uma  montanha nos vai no peito

acolhi um olhar perdido
regressado não sei de onde
pronto para partir
soubesse ele o destino
soubesse ele onde pousar

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

o sol
a lua
tocam-se
pelas pontas
talvez dos raios
sem olhares

um olá
um adeus
algures
entre
um entardecer
e um anoitecer

terça-feira, 17 de setembro de 2013

fantasia

perfuma-me a tua voz de fresco ar
e leva-me pela mão
onde os contos ganham princesas
onde as bruxas sucumbem
onde o bem sempre sobrevem
por mais adulto que eu cresça

colhe minha alma de menino
embala-a pela tua voz
veste-lhe um personagem duma história tua
e deixa-a fruir que será feliz

marmóreo

esclerótico
aquele olhar tudo gelava
acre de branco
parecendo imaculado
era só branco
nenhuma cor estava
olhar de mármore
marmoreava

garatuja

desenhos à margem, no caderno de notas
insistentemente à margem, das notas
que desenhas, enquanto anotas
a tua liberdade, e nem notas

um pensamento, um ritual sem tento
em desenho, o teu momento
em que fugiste, em que voltaste
sempre por dentro
daquele registo, daquele diário
daquele desenho, onde anotas o tempo

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

despedida

quando ela lhe disse que ia regressar, ele não entendeu.
quando cruzaram olhares, ele gelou.
quando ela pousou o olhar no infinito, ele chorou.
jamais cruzariam os olhares
e ele jamais sentiria a mornidade do conforto

sobre hipocrisia

a hipocrisia não se combate, nunca se vence, tem pele de vítima.
a hipocrisia não se tolera; ideais e liberdade, desprezam-na.
quando associados à inteligência, mirram-na.
porém, à mais pequena distração surgirá colossal.
a mais daninha existência.

sabores do fado

sabem-me os lábios à ausência
a que me habituei
sabem-me os olhos à saudade
que nasceu comigo
sabem-me os dias à mingua
que o luar me deixou
sabe-me o tempo à aventura
que o partir me dói
sabem-me os sonhos ao reencontro
que o renascer pariu

à beira-mar

meu beijo descobriu-te
húmido frio
é da chuva, brincaste
sabíamos ser da neblina, do mar
hm, hm; enrolou ele
no seu tom de bem-estar

sábado, 14 de setembro de 2013

um pensamento escrito

mãe,

chego com um sorriso, sem pedido de perdão, sem declaração de amor e muito menos uma exposição de admiração. tudo o que tenho é um texto escrito ao ritmo do pensamento: um pensamento escrito para ti. não conheço nada mais espontâneo. não conheço nada mais bonito, nem nada que deseje mais para ti e para mim.

noto que te escrevo por "tu" embora te fale por "você", sem que use o termo que me ensinaste ser de tão má educação que o guardei na gaveta dos impropérios. terei ficado unilateralmente íntimo de ti e noto como tu sempre foste unilateralmente íntima de mim. neste pensamento seremos "tu e eu" ou "eu e tu" e o teu olhar angustiado dará lugar à expressão de marota cumplicidade ternamente feliz que tens para mim. nesse momento as dores passam-te, a idade desaparece-te e transformas-te numa espécie leve de bobo para me mostrares que brincar é bom e desejável, desde que as intenções sejam boas — a vírgula é tua e enfaticamente colocada e acentuada por ti.

isso, as intenções: o que pensamos, o que desejamos, a pureza no estarmos seja onde for. sabes que cada vez estou mais assim? e sorris de vaidade; não murmuras o valeu a pena porque pensas no consegui. é por isso que sorrio e sorrio na escrita destas palavras ainda não rasuradas nem revistas, nem na pontuação: espelham o espontâneo que tanto gostas. é mais natural, elogiarias e eu ouviria e sorriria; teria piada. hoje, entre ouvidos e sorrisos, faz-me todo o sentido.

mãe! tenho pensado na morte, não tanto pelo medo que tenha de morrer, mas é o meu medo que tu morras. engraçado, é que venho preparando a tua morte desde os meus 10 anos, talvez antes, ou um pouco depois, e embora sereno, ainda não estou preparado. é altura de me sorrires um burro velho não aprende línguas, e é verdade. também me dirás que todos morrem e só deus sabe como e quando, a que eu acrescento na sua infinita sabedoria, no meu mais silencioso sarcástico. tu, que não tens o ressentimento que eu sinto, sei que se ouvisses, os teus olhos, primeiro ficariam vagos e oblíquos ao chão, para depois se cravarem nos meus e golpearias o teu graças a deus muitas, graças com deus poucas e eu respeitar-te-ia impotentemente, sabendo que no fundo até a morte é natural.

sabes que houve tempos em que só tinha medo da minha morte? e tu rezavas, quase sempre com prazer, parecias e dizias-te pronta para o céu, ao passo que eu detestava rezar, saía-me algo mecânico como a tabuada;  sei que falo mas nunca sei o que digo e tenho de pensar nas palavras que acabei de proferir para lhes encontrar significado e nem sempre chego lá. hoje escrevo poemas e gosto de trocadilhos entre poemas e orações, entre rezas de declamações; o deus ganhou poesia, eu fiquei mais sereno. e tu manténs o mesmo olhar sobre mim, com que me fazes sentir ungido: e tu sabes que eu gosto e eu delicio-me com o prazer que colhes do meu gosto. mães e filhos são assim: impenetravelmente juntos.

já nos confessámos que o tempo urge: os nossos encontros serão menos, decrescentemente menos, e tornámo-los mais intensos; têm mais abraços, têm mais carinhos, mais toques, mais olhares cruzados. têm mais marotices, como quando eu tinha 5 anos e era assumidamente menino, sem saber como carinho de mãe faz crescer.

sei que ficarei magoado quando morreres, mas sei também que terás um beijo para me confortares, daqueles com que me curaste de tantas quedas e eu talvez consiga escrever-te um poema.

o meu sorriso mãe.

da génese das palavras

são os pássaros que trazem as palavras
aos pios, nos voos
aos chilreios, no alto dos poleiros
e nós dizemos palavras para os imitar

beira d'água

tenho vida de mar
infinito, de horizonte
meus meses oceanos
e os anos são ondas
ritmadas
de amplitude e força
desconhecidas

pês da primavera

primavera tem ímpetos
tem impulsos
primavera tem pássaros
e passarinhos
e muito desejo
ainda que destituído de p
como sol e flores
ventos, verdes e cores
tem abelhinhas e borboletas
zumbindo, rodopiando
a fertilidade das flores
o crescimento das árvores
e a reprodução
sempre a reprodução
e seus amores

primavera em setembro

a primavera faz-se de desejos
ideais. só depois se aproveita o sol
para a iluminar
e as palavras, para falarem dela
revelando as conversas dos pássaros
as flores despontam do verde
só porque querem participar
deste espreguiçar de vida
que vemos, porque procuramos.
o acontecer de primavera
ver-se-á melhor de olhos fechados
porque também há os aromas
sobre os quais ainda não falamos
e as juras de namorados.
era setembro.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

a morte

a morte. a morte chegou-me de manhã, com o nascer do dia, ainda antes de eu acordar.
instalou-se. estava instalada.
tinha um vestido vermelho e eu que nunca tinha reparado. eu aprendera que se vestia de negro  negro da morte  e, talvez por isso, nunca tenha notado a vermelhidão da vestimenta.
também me sorriu, o que teve em mim um efeito que poderia chamar-se encanto feminino. por isso não pude deixar de a olhar e, depois, de a apreciar, com o meu melhor olhar distante.
ela insinuava-se, sentada, tombava ora sobre um lado, ora sobre o outro, num rebolo das ancas sobre a almofada da poltrona. usou o sempre clássico cruzar de pernas, dançado e enfeitado por dois joelhos perfeitos. insinuava-se também  pelo olhar: ora tropeçante no meu, ora indiferente, como a ignorância.
minha pose era seráfica, hirta como um sírio, como aprendi com meu pai e sabia-me a castigo ou a alerta. por ali ficámos, estando: eu sonhava, ela instalava-se, mediamo-nos, cúmplices.
não fossem as modas dos tempos e teríamos ido ao encontro um do outro pedindo/oferecendo lume para um cigarro. mas agora seria um convite explícito para sairmos: os dois para um momento de intensa intimidade, no exterior, à porta de algo  neste caso do sonho  em torno de um cigarro que partilharíamos passa-a-passa.
acordei! tudo tinha passado, porém, estava cá tudo: o vestido vermelho, os olhares e o desejo de uma passa, também.
compreendi porque o cigarro mata.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

meu gato

o melhor riso de um gato arrebita-lhe os bigodes
para que lhe acentue os cantos elevados da boca.
é que os gatos não têm lábios. por isso não beijam;
lambem e continuam a sorrir aquele sorriso; de gato, claro.

o melhor riso do gato fecha-lhe os olhos
para que a gargalhada seja mais profunda.
por isso ronronam como só os gatos sabem.
a minha namorada não consegue ronronar mas vê-se gatinha
e cerra os olhos quando sorri. tal como os gatos
quer uma gargalhada profunda; de gato, claro.

o melhor riso de gato pode ser indecifrável.
efeitos da personalidade felidea, independente. por isso
criou o mito de dar: dá mios, dá saltos e dá-nos o prazer
de o termos ao colo, enquanto o gato sorri
como os gatos; enigmático e indecifrável, claro.

poema

tivera eu um útero
e far-te-ia renascer em mim

fora eu um jardineiro
e far-te-ia florir em mim

sou o bobo demente
sentado no mais cinzento dos cinzas
tu és a cor que me chega
e pedes-me que te pronuncie
como sílaba de poesia

verdadeiro deus

velhinha:
 meu deus, como nasceram as estrelas? foram semeadas? quem as plantou lá no céu?

deus:
 nem uma coisa nem outra. são obra da criação e foram criadas por ti e outros como tu.

narrador:
—  a beata velhinha sorriu. afinal deus tinha um humor divinal.

lengalenga

ao adormecer, sei
que viverei a história
que escreverei enleada
na que sonharei acordado
de dia, na companhia da janela
que quis ser minha e eu sou dela

pensamento solto

morreria todos os dias
se pudesse
pela tenrura do renascer

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

fazemos amor como loucos
é uma loucura, o nosso amor
ouvi ou li que só os loucos amam
os outros não desmancham a cama
e nunca engelham os lençóis

meu sonho

meu sonho, sempre grande
enquanto aprendia as letras sonhava
com irreconhecitude da minha caligrafia de adulto
enquanto aprendia a ler sonhava
com grandes públicos atentos
enquanto aprendia as outras matérias sonhava-me
mestre nas habilidades científicas, literárias e artísticas
...
enquanto escrevo um poema, sonho
com o convívio das nossas fantasias
enquanto escrevo um poema, sonho a fantasia
e por ele distendo meu sonho entre o aqui e o de lá

chove lá fora
pois, deixa chover
o sol cá de dentro espelhará
na chuva que sempre tropeça
nessa vidraça
e escorre pelo olhar, brilhando
ente o reencontro e a despedida

a ansiedade

tem um corte fatiado
fininha, meticulosa
insistente, persistente e fria
fria até aos suores; frios também
rói, moi, corroi
de um vazio transparente e solene
aloja-se entre os dentes cerrados
no franzido do rosto
no lado apertado do corpo
contraído até ao estalido
no estado dorido
da ansiedade

consome o bom dia
amarelece o sorriso
cheiro frio a perfeição
do mofo organizado
o mais perfeito pecado
a ansiedade

domingo, 8 de setembro de 2013

hoje quero meu dia botando fogo
fogo de língua
fogo de labareda
fogo de sol quente
tudo fogo amarelo, vermelho, luminoso
fogo quente de verão
hoje quero meu dia assim
enquanto eu sinto o fresco
do verde do meu jardim