descobrir lentamente
a noite por trás de escuro
a luar ao redor da lua
o dia seguindo o sol
a via à volta tua
o vazio da tua ausência
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
sábado, 9 de novembro de 2013
amor
queria tanto ver-te
que te procurei
primeiro no improvável
depois no impossível
e encontrei-te no inexgotável
que te procurei
primeiro no improvável
depois no impossível
e encontrei-te no inexgotável
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
envelheço
envelheço
e me antiguo
por ordens
me desconcerto
descompasso
de um tempo
que não tem passo
sem volta
sem 2º oportunidade
envelheço
e me antiguo
sem que entenda
sem que me entendam
espanta-se a lógica
deixam-me escárnios
em sorrisos e berros
querem que saiba
que envelheço
e me antiguo
e me antiguo
por ordens
me desconcerto
descompasso
de um tempo
que não tem passo
sem volta
sem 2º oportunidade
envelheço
e me antiguo
sem que entenda
sem que me entendam
espanta-se a lógica
deixam-me escárnios
em sorrisos e berros
querem que saiba
que envelheço
e me antiguo
peregrinar
se quiseres deixa-me
deixa-me. sei que nem sempre continuar é abandono
às vezes é só continuar por caminhos diferentes
quem se senta precisa ponderar a caminhada
quem muda de caminho segue a consciência
assim é a jornada de preregrino
deixa-me. sei que nem sempre continuar é abandono
às vezes é só continuar por caminhos diferentes
quem se senta precisa ponderar a caminhada
quem muda de caminho segue a consciência
assim é a jornada de preregrino
minhas tias
quando minha alma me parece vazia
vou à infância e lá me deixo, em colos
onde aprendi a sentir a ternura em carinho
chegado na voz soada a peito
no aroma a corpo aconchegado
no prazer íntimo de colo gerado ali mesmo.
as minhas pequenas mãos lhes tocavam os rostos
para lhes sentir os sorrisos e acabavam beijadas.
agora, quando nos encontramos ainda sou puxado
para o colo das minhas tias
entre os meus 50 anos e os 70 delas somos crianças
amando-se com toda a meninice.
ao cruzarem-se, os nossos olhares resplandecem
um infinito brilho de iluminar a alma
de quem se ama almadamente.
vou à infância e lá me deixo, em colos
onde aprendi a sentir a ternura em carinho
chegado na voz soada a peito
no aroma a corpo aconchegado
no prazer íntimo de colo gerado ali mesmo.
as minhas pequenas mãos lhes tocavam os rostos
para lhes sentir os sorrisos e acabavam beijadas.
agora, quando nos encontramos ainda sou puxado
para o colo das minhas tias
entre os meus 50 anos e os 70 delas somos crianças
amando-se com toda a meninice.
ao cruzarem-se, os nossos olhares resplandecem
um infinito brilho de iluminar a alma
de quem se ama almadamente.
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
biografia ii
nasci a 4 de novembro de 1961, no Porto, gorducho de querubim em mão de fadas , pulava entre colos e sorria, e a felicidade, de pudesse ser emoção, seria a única que sabia. com os tios conheci a traquinice e com eles fui diabinho radiante. aprendi a ser feliz sendo angelical e amando a travessura.
a minha adultez chegou precoce. quando aprendia a escrever as letras, depois as palavras e os textos, sonhava com um modo inintelegível de palavras que se decifravam por si como se não resultassem da justaposição de letras. era assim que via a escrita de adulto e enchia "lousas" e "lousas" de desenhos hieroglíficos que sonhava fossem palavras. um dia escreveria assim, afirmava secretamente para mim.
trabalhei imenso para ser um adulto bem comportado e aspergido de traquinas. licenciei-me em psicologia, fui pai de 2 filhos que me ensinaram a escrever depois de ter casado com aquela que o destino incumbiria de assolhar as rasuras que escrevi rasurando (e que apelidou de poesia.)
porque há algos que se perpetuam, ainda hoje sou impelido para desenhar linhas que deixo enovelar em sonâncias de alma, algures entre o silêncio e a euforia. assim abraço palavras com que urdo poemas; escritos, suspiros de vadias emoções sem céu nem inferno, tal como o horizonte que nunca teve linha e muito menos divisória.
neste vadiamento assumi-me assim e do advérbio de modo fiz meu nome por me soar mais almado antónio assim d'oliveira e o senti-lo mais apropriado ao meu ser desenhador.
a minha adultez chegou precoce. quando aprendia a escrever as letras, depois as palavras e os textos, sonhava com um modo inintelegível de palavras que se decifravam por si como se não resultassem da justaposição de letras. era assim que via a escrita de adulto e enchia "lousas" e "lousas" de desenhos hieroglíficos que sonhava fossem palavras. um dia escreveria assim, afirmava secretamente para mim.
trabalhei imenso para ser um adulto bem comportado e aspergido de traquinas. licenciei-me em psicologia, fui pai de 2 filhos que me ensinaram a escrever depois de ter casado com aquela que o destino incumbiria de assolhar as rasuras que escrevi rasurando (e que apelidou de poesia.)
porque há algos que se perpetuam, ainda hoje sou impelido para desenhar linhas que deixo enovelar em sonâncias de alma, algures entre o silêncio e a euforia. assim abraço palavras com que urdo poemas; escritos, suspiros de vadias emoções sem céu nem inferno, tal como o horizonte que nunca teve linha e muito menos divisória.
neste vadiamento assumi-me assim e do advérbio de modo fiz meu nome por me soar mais almado antónio assim d'oliveira e o senti-lo mais apropriado ao meu ser desenhador.
nada
passei o dia no meio de nada
rodeado de coisas
coisas de nada que se espinhavam
e os pássaros, sempre espertos, nelas se empoleiravam
depois, o dia passou sem que partisse, mudou
e quando eu passei, se é que passei, que eu nem notei
nada não me arranhou, segurou o pássaro
e eu voltei, quando não sei, para mais um dia no meio de nada
rodeado de coisas
coisas de nada que se espinhavam
e os pássaros, sempre espertos, nelas se empoleiravam
depois, o dia passou sem que partisse, mudou
e quando eu passei, se é que passei, que eu nem notei
nada não me arranhou, segurou o pássaro
e eu voltei, quando não sei, para mais um dia no meio de nada
espraiar
ouves?
este mar, onda a onda
espraiar...
na areia
tanto prazer numa dança
num enrolo
ouves
espraiar...
o ronceiro som do mar
ouves
tem sonância de corpo na cama
espreguiçar...
soada de lençol
escorregar...
ouves?
espraiar...
este mar, onda a onda
espraiar...
na areia
tanto prazer numa dança
num enrolo
ouves
espraiar...
o ronceiro som do mar
ouves
tem sonância de corpo na cama
espreguiçar...
soada de lençol
escorregar...
ouves?
espraiar...
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
idealizando
viveria onde pudesse pairar
que os toques, a existirem, fossem de alma
e por eles se sustentassem os corpos
as mentes e as ideias
as mesmas que sustentam ideais
as âncoras da humanidade
pairaria incauto, como deve ser
uma existência feliz
e por eles se sustentassem os corpos
as mentes e as ideias
as mesmas que sustentam ideais
as âncoras da humanidade
pairaria incauto, como deve ser
uma existência feliz
ondear
quero um lugar de onda
onde possa ondear
mas não quero ser onda
que essas são filhas do mar
e eu que só me sinto perdido
é lá que quero estar
enterrado até ao pescoço
mergulho a cabeça na água
para me sentir renascer
ou para me fazer renascido
sem frutos que tenha de dar
possa meu estado ser peco
bravio, sem poda, vadio
bravio, sem poda, vadio
resistente ou moribundo
como arbusto daninho
que vive para ondear
como arbusto daninho
que vive para ondear
contemplação
bem no alto do calhau que nomeei meu
contemplo
as rugosidades do tempo
que chegam nas nuvens
salgadas, carregadas de mar.
toco com a língua no meu calhau
sinto-lhe o sal e a lisura da brancura
tão pura que eu amo tanto;
como amo este meu território
de guardar no bolso junto ao corpo
onde me sinto livre
verdadeiramente liberto
para lhe conhecer a grandiosidade
contemplo
as rugosidades do tempo
que chegam nas nuvens
salgadas, carregadas de mar.
toco com a língua no meu calhau
sinto-lhe o sal e a lisura da brancura
tão pura que eu amo tanto;
como amo este meu território
de guardar no bolso junto ao corpo
onde me sinto livre
verdadeiramente liberto
para lhe conhecer a grandiosidade
terça-feira, 5 de novembro de 2013
mirada
o mundo, do tamanho e forma de uma gota de água
resplandece quando tocado pelo sol
de tão cristalino que é
tal como as gotas de orvalho
e as lágrimas,
venham elas dos lados da alegria
ou nascidas da tristeza.
o sol, eternamente quente
que existe redondo que já o vi
tem o reluzente que sempre habita em nós
e alimenta-se de sentimentos
e cintila na emoção
pequenezes que fazem sorrisos
olhares radiantes
e belas fotos
resplandece quando tocado pelo sol
de tão cristalino que é
tal como as gotas de orvalho
e as lágrimas,
venham elas dos lados da alegria
ou nascidas da tristeza.
o sol, eternamente quente
que existe redondo que já o vi
tem o reluzente que sempre habita em nós
e alimenta-se de sentimentos
e cintila na emoção
pequenezes que fazem sorrisos
olhares radiantes
e belas fotos
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
domingo, 3 de novembro de 2013
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
testamento
se puderem, se vos for possível deixem-me morrer
sossegadinho, calminho como o respirar de um conto infantil
era uma vez... e eu morri.
e começa o enredo de magia e fantasia infinitas.
peço que não escolham réis, príncipes e princesas
nem animais de colo
prefiro vadios e transviados
e se quiserem mesmo animais, convidem os acossados.
criem um conto preferencialmente sem moral
sem felicidade final
somente uma história que possa continuar com todos
e tenha um dia seguinte.
sossegadinho, calminho como o respirar de um conto infantil
era uma vez... e eu morri.
e começa o enredo de magia e fantasia infinitas.
peço que não escolham réis, príncipes e princesas
nem animais de colo
prefiro vadios e transviados
e se quiserem mesmo animais, convidem os acossados.
criem um conto preferencialmente sem moral
sem felicidade final
somente uma história que possa continuar com todos
e tenha um dia seguinte.
doçura
era noite
queria que me agarrasses
como um favo, me abanasses, apertasses
tirasses de mim toda a minha doçura
que meu mel te cobrisse
que dele te deliciasses
e tu obreira rainha
fadando a noite
fizeste de mim o favo mais doce
atulhado de mel
queria que me agarrasses
como um favo, me abanasses, apertasses
tirasses de mim toda a minha doçura
que meu mel te cobrisse
que dele te deliciasses
e tu obreira rainha
fadando a noite
fizeste de mim o favo mais doce
atulhado de mel
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
intuitivamente
havia poemas nascidos
de quem ainda não escrevia
porque não sabia;
de quem sonhava e sonhava
sem paisagem e sem história,
via-se com uma pena
que da mão lhe saía, em linhas
encadilhadas em algos
a que dava voz.
os olhos moviam-se
para o céu, para si e para dentro
como acontece com os poemas
ele sabia
sem que soubesse porquê
ali havia poesia.
de quem ainda não escrevia
porque não sabia;
de quem sonhava e sonhava
sem paisagem e sem história,
via-se com uma pena
que da mão lhe saía, em linhas
encadilhadas em algos
a que dava voz.
os olhos moviam-se
para o céu, para si e para dentro
como acontece com os poemas
ele sabia
sem que soubesse porquê
ali havia poesia.
do estado das pessoas
ela abeirou-se
precisava saber se tudo estava bem
não estava, não estava...
nada estava bem
mas agora que se viram
tudo parecia melhor
e assim ficou...
melhor
precisava saber se tudo estava bem
não estava, não estava...
nada estava bem
mas agora que se viram
tudo parecia melhor
e assim ficou...
melhor
sexta-feira, 25 de outubro de 2013
cega paixão
desejo pedir-te, mesmo suplicar-te que me ames
que me ames como se não houvesse mais ninguém
a cegueira da paixão não me deixa entender
como serei mais amado quando me escolhes de entre outros
que me ames como se não houvesse mais ninguém
a cegueira da paixão não me deixa entender
como serei mais amado quando me escolhes de entre outros
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
biografia
minha biografia escreve-se de banalidades, como as letras que a
integram. nasci a 04.11.1961 e sinto que desde logo me pularam de colo para
colo: pais, tias e avós. fui deles e eles meus, por inteiro. durante 6 anos fui
a única criança daquele reino de fadas mimentas que me fizeram sentir querido,
lindo e inteligente. aprendi a ser príncipe, a ser ouvido; senti o conforto do
colo e o prazer de trocar carinhos pelas mãos, pelos sorrisos e pelas palavras,
em noites à lareira, enquanto me crescia a fantasia dos contos lindos de
impossíveis, do meu avô. ouvi-os vezes sem conta e nunca se repetiram. que
lindos, dizia então; que poesia, lembro hoje.
o tempo impeliu-me a escrever fantasias. primeiro com um ardor dorido de adolescente (sempre apaixonado) em plena revolução. passei a jovem adulto, profissional de psicologia, competentemente adulto, que por um ímpeto sempre inexplicável pecava: perdia tempo escrevendo devaneios que obnubilariam qualquer adultez, os quais sempre fui encobrindo, não sei se por cobardia intelectual se por um desejo intrínseco de culto do secreto. foi um tempo de treino, talvez de experiência.
o tempo impeliu-me a escrever fantasias. primeiro com um ardor dorido de adolescente (sempre apaixonado) em plena revolução. passei a jovem adulto, profissional de psicologia, competentemente adulto, que por um ímpeto sempre inexplicável pecava: perdia tempo escrevendo devaneios que obnubilariam qualquer adultez, os quais sempre fui encobrindo, não sei se por cobardia intelectual se por um desejo intrínseco de culto do secreto. foi um tempo de treino, talvez de experiência.
recentemente, já sem noites e sem lareira, sem nevoeiros e sem manhãs, sem mais nada para além da impetuosa necessidade de fantasiar, escrevi da minha alma os vagidos e as traquinices tal como os ouço e me tocam e dei por mim parindo-me a cada letra, verso a verso, umas vezes com a delicadeza brotante da nascente, outras com a crueza estrondosa do vagalhão, deixando emergir o que em mim sempre esteve e para a qual não encontro outro nome, senão mesmo natureza. foi então que me apropriei do advérbio que me define o modo e dele fiz nome meu; antónio assim d'oliveira.
solidão
a solidão dela fizera-se de abandonos
abandonos de memórias
primeiro as boas, depois as más
que antes de partirem escorraçaram tudo
abandonos de memórias
primeiro as boas, depois as más
que antes de partirem escorraçaram tudo
só
um livro, só
um livro numa mesa
de pé de galo
ladeado de uma chávena, só
vazia de tudo
também havia uma caneta, só
e uma folha de papel
uma folha, só
quando chegou alguém
puxou uma só cadeira
sentou-se à mesa, só
de tudo debandou a solitude
um livro numa mesa
de pé de galo
ladeado de uma chávena, só
vazia de tudo
também havia uma caneta, só
e uma folha de papel
uma folha, só
quando chegou alguém
puxou uma só cadeira
sentou-se à mesa, só
de tudo debandou a solitude
dito e não dito
quando me olhaste: — doçura
eras meu mel
quando me sorriste: — bom dia
eras meu sol
quando soltei: — querida
gritava: — meu amor
quando te beijei: — bom dia
como desejava morder-te
eras meu mel
quando me sorriste: — bom dia
eras meu sol
quando soltei: — querida
gritava: — meu amor
quando te beijei: — bom dia
como desejava morder-te
terça-feira, 22 de outubro de 2013
frágil intelegibilidade
a fragilidade com que escrevi meu nome
como o constatei quebrável, sem que fosse cristalino
frágil; mole, sem que fosse moldável, sem que fosse flexível...
a fragilidade com que escrevi meu nome escorrente no papel
como tinta aguada, como gordura ao sol
sem forma, sem textura, sem mensagem
não entendo, porque não me aceito frágil
como o constatei quebrável, sem que fosse cristalino
frágil; mole, sem que fosse moldável, sem que fosse flexível...
a fragilidade com que escrevi meu nome escorrente no papel
como tinta aguada, como gordura ao sol
sem forma, sem textura, sem mensagem
não entendo, porque não me aceito frágil
boa água
tanto espero e mais desejo
que meus olhos saibam dizer-te
o que eu não sei
o que não me perpassa os lábios
o que a garganta não desata
o que a língua não modela
a ideia que baralhei e não encontro
e na qual tropeço diariamente
constantemente
tanto espero e mais desejo
que meus olhos saibam contar-te
o rio em que minha alma se transformou
o prateado brilho, onde navegas
que em mim resplandece teu vogar
toque, corpo, água e sol
teu sorriso colorindo a janela
uma lágrima gritando
boa água
que meus olhos saibam dizer-te
o que eu não sei
o que não me perpassa os lábios
o que a garganta não desata
o que a língua não modela
a ideia que baralhei e não encontro
e na qual tropeço diariamente
constantemente
tanto espero e mais desejo
que meus olhos saibam contar-te
o rio em que minha alma se transformou
o prateado brilho, onde navegas
que em mim resplandece teu vogar
toque, corpo, água e sol
teu sorriso colorindo a janela
uma lágrima gritando
boa água
conversas ocas
foi tudo dito
tudo está dito
restam glosas e mais glosas
no mesmo tema
no mesmo assunto
sem nada acrescentado
sem nada mudado
sem novas vistas
falar e abafar silêncios
verborreia e mais verborreia
oiçamos o silêncio
entendamo-lo, sapientes
tudo está dito
restam glosas e mais glosas
no mesmo tema
no mesmo assunto
sem nada acrescentado
sem nada mudado
sem novas vistas
falar e abafar silêncios
verborreia e mais verborreia
oiçamos o silêncio
entendamo-lo, sapientes
domingo, 20 de outubro de 2013
mudema
gosto das letras mudas
por mim, todas as letras seriam mudas
as palavras pronunciar-se-iam mudamente
com os olhos bem coloridos de expressão
os poemas seriam almados, plenos... enormes
os poemas seriam declamados com olhares
por mim, todas as letras seriam mudas
as palavras pronunciar-se-iam mudamente
com os olhos bem coloridos de expressão
os poemas seriam almados, plenos... enormes
os poemas seriam declamados com olhares
meu espelho
agasta-se dia a dia
o espelho em que me vejo
pica-se-lhe o espelhado
amarelece
ao ritmo das paredes onde se aninha
enquanto as rugas se lhe desenham
na imagem do espelhado
e no olhar que me reflete
vejo-lhe o brilho
que o espelhado imagina
o espelho em que me vejo
pica-se-lhe o espelhado
amarelece
ao ritmo das paredes onde se aninha
enquanto as rugas se lhe desenham
na imagem do espelhado
e no olhar que me reflete
vejo-lhe o brilho
que o espelhado imagina
sábado, 19 de outubro de 2013
sexta-feira, 18 de outubro de 2013
nascente
onde a lua voa
e o pássaro passeia
onde as nuvens navegam
e a chuva caminha
onde as poças chapinam
e as crianças brincam
afaga-se a liberdade
e o poema corre rio
e o pássaro passeia
onde as nuvens navegam
e a chuva caminha
onde as poças chapinam
e as crianças brincam
afaga-se a liberdade
e o poema corre rio
memórias
contam-se as memórias
uma a uma
sem contas, sem ordem
como a memória
sucedem-se
ligadas num punhado
fossem cerejas
assolham-se, limpam-se
alindam-se e guardam-se
tesouros sem tesouro
brilhos sem brilhantes
essência de existência
velam-se e ostentam-se
em pensamentos secretos
sorrisos enigmáticos
olhares perdidos
o indecifrável da compreensão
uma a uma
sem contas, sem ordem
como a memória
sucedem-se
ligadas num punhado
fossem cerejas
assolham-se, limpam-se
alindam-se e guardam-se
tesouros sem tesouro
brilhos sem brilhantes
essência de existência
velam-se e ostentam-se
em pensamentos secretos
sorrisos enigmáticos
olhares perdidos
o indecifrável da compreensão
quinta-feira, 17 de outubro de 2013
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
banho de vida
se te parece
que a vida te cai aos pés
não a pises
não a evites
não a ignores
sobretudo
nunca te lamentes
chapina nela
até te sentires mergulhado
de vida
que a vida te cai aos pés
não a pises
não a evites
não a ignores
sobretudo
nunca te lamentes
chapina nela
até te sentires mergulhado
de vida
trovoada
dormente
este céu de nuvens
espessas
penedos flutuantes
contundentes
quase ruidosos
quase faiscantes
tateei o luzente
simples
como um caminho
vadio
tinha aroma a tardio
despreconceituoso
um poema
talvez extraviado
ainda incompreendido
ansioso
para ser desvendado
fizemo-nos companhia
embrenhados na trovoada
o dia rompeu
não havia poema
nem eu
este céu de nuvens
espessas
penedos flutuantes
contundentes
quase ruidosos
quase faiscantes
tateei o luzente
simples
como um caminho
vadio
tinha aroma a tardio
despreconceituoso
um poema
talvez extraviado
ainda incompreendido
ansioso
para ser desvendado
fizemo-nos companhia
embrenhados na trovoada
o dia rompeu
não havia poema
nem eu
nós
teu dia chegou-me
perfumado de ventre
onde o sol nasce
meu dia enleou-se no teu
e conjugaste-nos com todos os segundos
perfumado de ventre
onde o sol nasce
meu dia enleou-se no teu
e conjugaste-nos com todos os segundos
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
verdade
assim
dispersa pela cidade
numa situação verdadeira
mente insustentável
fizeste-te de aragem
tal a tua ânsia de chegar
a todos, teus amantes
alguns indignos de ti
verdade
pela qual existem
muros e pássaros
dispersa pela cidade
numa situação verdadeira
mente insustentável
fizeste-te de aragem
tal a tua ânsia de chegar
a todos, teus amantes
alguns indignos de ti
verdade
pela qual existem
muros e pássaros
voto de humanidade
espero que a idade me cure
desta forma infiel de viver
não renascer em cada estação
não apreciar o vento e a neve fria
que eu ganhe cor e verdor
e ao ser homem seja alguém
desta forma infiel de viver
não renascer em cada estação
não apreciar o vento e a neve fria
que eu ganhe cor e verdor
e ao ser homem seja alguém
sexta-feira, 11 de outubro de 2013
desejo
se eu pudesse
correria até voar
rumaria com o vento
dançaria em teus cabelos
rebolaria em teus seios
abrigar-me-ia em teus dedos
confortar-me-ia em teu ventre
flutuaria no luar
voaria num só pé
brilharia como os rios
seria cristal sem tesouro
correria até voar
rumaria com o vento
dançaria em teus cabelos
rebolaria em teus seios
abrigar-me-ia em teus dedos
confortar-me-ia em teu ventre
flutuaria no luar
voaria num só pé
brilharia como os rios
seria cristal sem tesouro
emociomar
deixem o mar destapado
o mar precisa-se aberto
cheio de água fervente
espuma tudo o que sente
vociferando encapelado
sintam o mar por perto
pois o mar é sagrado
o mar precisa-se aberto
cheio de água fervente
espuma tudo o que sente
vociferando encapelado
sintam o mar por perto
pois o mar é sagrado
fumar
o prazer de um cigarro
esfuma-se, no fumo
a memória aloja-se nos ossos
daí se solta
com o calafrio
esfuma-se, no fumo
a memória aloja-se nos ossos
daí se solta
com o calafrio
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
desalento
caíam as mãos
peso do desapego
amargo da consciência
depois o corpo cansado
até para as mãos
que caíam
escorrendo pelo corpo
à frente dos braços
agora escorridamente longos
mais longos
tão longos que jamais abraçariam
e as mãos caídas, separadas
jamais se acariciariam
os anéis
tornaram-se largos
afastaram-se, impercetíveis
peso do desapego
amargo da consciência
depois o corpo cansado
até para as mãos
que caíam
escorrendo pelo corpo
à frente dos braços
agora escorridamente longos
mais longos
tão longos que jamais abraçariam
e as mãos caídas, separadas
jamais se acariciariam
os anéis
tornaram-se largos
afastaram-se, impercetíveis
terça-feira, 8 de outubro de 2013
ídolo
sossega
o peito
pulsar
demais
pode ser
defeito
menina
corada
respiração
pesada
grito
engatilhado
pro herói
da banda
rosto
de revista
que canta
que dança
que artista
perfeito
não pulsa
demais
sossega
o peito
o peito
pulsar
demais
pode ser
defeito
menina
corada
respiração
pesada
grito
engatilhado
pro herói
da banda
rosto
de revista
que canta
que dança
que artista
perfeito
não pulsa
demais
sossega
o peito
mais além
sentir-te é ir além dos sentidos
o mais além, sem distâncias
sentir-te a doçura da memória que te assalta
e te desconcentra
sentir-te o pensamento que me reservaste
e te contraria o momento
sentir-te a ligeireza com que te desprendes do dia
enleada te deixaste num detalhe de nós
sentir-te pelas incompreensíveis noções
de alma gémea, química, telepatia, seja lá o que for
sentir-te por algo que sinto como essência
do que chamamos amor
que nasceu de nós, cresceu
desmesuradamente, sem controlo
é o que sinto
e o que sinto diz-me que sei muito pouco
e o que sinto nunca se conjugou com medida e controlo
o mais além, sem distâncias
sentir-te a doçura da memória que te assalta
e te desconcentra
sentir-te o pensamento que me reservaste
e te contraria o momento
sentir-te a ligeireza com que te desprendes do dia
enleada te deixaste num detalhe de nós
sentir-te pelas incompreensíveis noções
de alma gémea, química, telepatia, seja lá o que for
sentir-te por algo que sinto como essência
do que chamamos amor
que nasceu de nós, cresceu
desmesuradamente, sem controlo
é o que sinto
e o que sinto diz-me que sei muito pouco
e o que sinto nunca se conjugou com medida e controlo
domingo, 6 de outubro de 2013
sorriso de pássaro
o sorriso num pássaro
tem voo e tem chilreio
tem olhar: primeiro um olho
depois o outro
tem distinção de plumagem
tem confiança: de se deixar mirar
e de vir comer às mãos
e não há alma que não lhe sorria
tem voo e tem chilreio
tem olhar: primeiro um olho
depois o outro
tem distinção de plumagem
tem confiança: de se deixar mirar
e de vir comer às mãos
e não há alma que não lhe sorria
sábado, 5 de outubro de 2013
boa água
meu poema jamais se re-escreverá
jamais de repetirão as letras de que nasceu
o que minhas tristezas parem, não se escreve
e não há palavras para a insipiência deste sol peco
meu poema foi rio abaixo
boa água
por ali vogará
compondo-se no horizonte
onde os olhares se põem
jamais de repetirão as letras de que nasceu
o que minhas tristezas parem, não se escreve
e não há palavras para a insipiência deste sol peco
meu poema foi rio abaixo
boa água
por ali vogará
compondo-se no horizonte
onde os olhares se põem
viagem
segui a voz do cantar
acendi o sonho do poema
tocou no horizonte, a melodia
um pouco de mim não quer regressar
as viagens são assim
algo de nós por lá fica
algo de lá nos acompanhará, sem fim
acendi o sonho do poema
tocou no horizonte, a melodia
um pouco de mim não quer regressar
as viagens são assim
algo de nós por lá fica
algo de lá nos acompanhará, sem fim
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
quarta-feira, 2 de outubro de 2013
urdêncios
um poeta vive nos silêncios
fios dobados, anovelados
deles urde poemas
em paciência de enxoval
em amor virginal, de entrega
um dia...
assolha-os ao tempo
ao vento
em silêncio, trauteando
um tesouro...
fios dobados, anovelados
deles urde poemas
em paciência de enxoval
em amor virginal, de entrega
um dia...
assolha-os ao tempo
ao vento
em silêncio, trauteando
um tesouro...
silêncios
silêncio, a soada que não se ouve
o silêncio escuta-se e entende-se
o silêncio de uma gargalhada
o silêncio da palavra
o silêncio do olhar
o silêncio do sorriso
o silêncio da tarde
o silêncio de um olhar sorrido num final de tarde
o silêncio de um poema
o silêncio de estarmos connosco
em silêncio
o silêncio escuta-se e entende-se
o silêncio de uma gargalhada
o silêncio da palavra
o silêncio do olhar
o silêncio do sorriso
o silêncio da tarde
o silêncio de um olhar sorrido num final de tarde
o silêncio de um poema
o silêncio de estarmos connosco
em silêncio
terça-feira, 1 de outubro de 2013
ressequido
esvaziámos nossas carícias
primeiro ocas, agora ressequidas
magoámo-nos na aspereza do toque
já não há corpo nem meio nem lugar
para as carícias
debandaram como corvos negros
gralharam horizonte fora
até ficarmos aliviados
agora magoamo-nos se nos tocamos
primeiro ocas, agora ressequidas
magoámo-nos na aspereza do toque
já não há corpo nem meio nem lugar
para as carícias
debandaram como corvos negros
gralharam horizonte fora
até ficarmos aliviados
agora magoamo-nos se nos tocamos
tempo de brincar
vi tantas histórias nos montes da areia da minha ampulheta;
cresciam em camadas, os montes e as histórias.
podiam ser doces, pareciam-me de açúcar
amontoado, destinado a um bolo guloso;
eram sagradas de sal imaculado
como o do batismo na minha igreja,
que só a santa mão do sacerdote tocava;
via-as areias de um deserto que alguém galgava
com ou sem amada, sempre uma aventura.
então o tempo parava e a hstória mudava,
o personagem renascia num outro episódio,
feito camada a camada,
que os meus olhitos de menino namoravam
e nelas se alimentavam brincando.
quando eu sabia brincar com o tempo.
cresciam em camadas, os montes e as histórias.
podiam ser doces, pareciam-me de açúcar
amontoado, destinado a um bolo guloso;
eram sagradas de sal imaculado
como o do batismo na minha igreja,
que só a santa mão do sacerdote tocava;
via-as areias de um deserto que alguém galgava
com ou sem amada, sempre uma aventura.
então o tempo parava e a hstória mudava,
o personagem renascia num outro episódio,
feito camada a camada,
que os meus olhitos de menino namoravam
e nelas se alimentavam brincando.
quando eu sabia brincar com o tempo.
a ampulheta
lembram-se da ampulheta?
instrumento maravilhoso
instrumento maravilhoso
acumula o tempo
solta-o, devagarinho
caindo, em montinho
de cima para baixo
trabalho da gravidade
e o tempo lá dentro
não foge, caindo
se cima para baixo
depois tudo pára
também há a pausa
conhecem? a pausa?
ampulheta tem sempre pausa
segunda-feira, 30 de setembro de 2013
à janela
aquele amor perfeito
com que iluminaste a janela
a cada dia que a espreito
por ele te vejo nela
então sorrio, para ela
um sorriso que é teu
flor da minha janela
com que iluminaste a janela
a cada dia que a espreito
por ele te vejo nela
então sorrio, para ela
um sorriso que é teu
flor da minha janela
introspeção
no reboliço de uma conversa
de mim-para-mim, aprendi
recostei-me no silêncio
sem tempo
que deixei em paz
sabia que ali devia estar
tudo o que aprendi
sempre esteve comigo
sem o saber
de mim-para-mim, aprendi
recostei-me no silêncio
sem tempo
que deixei em paz
sabia que ali devia estar
tudo o que aprendi
sempre esteve comigo
sem o saber
palavras
serão eternas as palavras
as nascidas do teu nome
as crescidas em teu nome
que os dias guardam
memórias, imortalidades
palavras espalhadas no ar
fossem dente-de-leão
palavras viventes no chão
fossem pedras do caminho
a imortalidade do dia
que eterno se fez
de palavras
em teu nome evocadas
as nascidas do teu nome
as crescidas em teu nome
que os dias guardam
memórias, imortalidades
palavras espalhadas no ar
fossem dente-de-leão
palavras viventes no chão
fossem pedras do caminho
a imortalidade do dia
que eterno se fez
de palavras
em teu nome evocadas
bocejamar
então mar?
ainda bocejas?
onda a onda
ruidosamente
venho ouvir-te
gosto de ouvir-te
preciso ouvir-te
ver-te
só depois cheirar-te
e sentir a tua aura
a neblina
a frescura
a beira-mar
no caminho para cá
senti-te
teu chamamento
minha necessidade
amigos
um chama
outro precisa
nunca se sabe quem
e hoje bocejas
oh, se bocejas
preguiçoso
quem não te conheça
ver-te-á vigoroso
há vigor na preguiça
espraiaste tu
satisfeito
tu e eu
venturosos
bocejando
onda a onda
passo a passo
amigos
ruidosamente amigos
ainda bocejas?
onda a onda
ruidosamente
venho ouvir-te
gosto de ouvir-te
preciso ouvir-te
ver-te
só depois cheirar-te
e sentir a tua aura
a neblina
a frescura
a beira-mar
no caminho para cá
senti-te
teu chamamento
minha necessidade
amigos
um chama
outro precisa
nunca se sabe quem
e hoje bocejas
oh, se bocejas
preguiçoso
quem não te conheça
ver-te-á vigoroso
há vigor na preguiça
espraiaste tu
satisfeito
tu e eu
venturosos
bocejando
onda a onda
passo a passo
amigos
ruidosamente amigos
viver, como árvore
como árvore
enterro os pés na areia
que espreguiço como raízes
como árvore
preciso do fresco do chão
para viver
como árvore
embrenho os braços ao céu
para sentir o celeste
como árvore
preciso do divino ar
para viver
como árvore
ofereço-me pelo meu tronco
à poesia de amantes
como árvore
preciso de um coração de amante
para viver
enterro os pés na areia
que espreguiço como raízes
como árvore
preciso do fresco do chão
para viver
como árvore
embrenho os braços ao céu
para sentir o celeste
como árvore
preciso do divino ar
para viver
como árvore
ofereço-me pelo meu tronco
à poesia de amantes
como árvore
preciso de um coração de amante
para viver
meu dia
de tão estranho que me seja
lembrou-se de mim, o dia
teve-me, quis-me
amou-me como filho
rondou-me, libertou-me
deixou que lhe mudasse o curso
deixou-me aprisionar-me
deixou-me crescer, escolher
deixou-me gavinhar
sempre com a complacência
de quem olha amando, acaricia
não importa o concordar
lembrou-se de mim, o dia
teve-me, quis-me
amou-me como filho
rondou-me, libertou-me
deixou que lhe mudasse o curso
deixou-me aprisionar-me
deixou-me crescer, escolher
deixou-me gavinhar
sempre com a complacência
de quem olha amando, acaricia
não importa o concordar
sexta-feira, 27 de setembro de 2013
desesperança
e depois, mateio-o
disse-o ela
tom de lamento sem confissão
doía-lhe tanto
a cada palavra sentia na mão
o cabo vibrando da lâmina entrando
no corpo que sentira seu.
cortou-lhe o peito, o olhar surpreendido
pânico de morrer.
e depois, era tarde
arrependimento, de nada valeu
se ainda pudesse
ofereceria ao golpe, o corpo
que sendo seu, nascera para sofrer.
tanta dor, tanto doer...
(a propósito do telefilme português E depois, matei-o)
disse-o ela
tom de lamento sem confissão
doía-lhe tanto
a cada palavra sentia na mão
o cabo vibrando da lâmina entrando
no corpo que sentira seu.
cortou-lhe o peito, o olhar surpreendido
pânico de morrer.
e depois, era tarde
arrependimento, de nada valeu
se ainda pudesse
ofereceria ao golpe, o corpo
que sendo seu, nascera para sofrer.
tanta dor, tanto doer...
(a propósito do telefilme português E depois, matei-o)
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
morrimento
morrer-se por dentro
acontece antes do corpo
depois
seremos o que formos
mais que alguém sem uma parte
seremos quem sabe e quem sente
morta uma parte de si
o tempo da metamorfose
o modo do renascimento
acontece antes do corpo
depois
seremos o que formos
mais que alguém sem uma parte
seremos quem sabe e quem sente
morta uma parte de si
o tempo da metamorfose
o modo do renascimento
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
o sol
o sol
luminoso e quente
da felicidade
nasce no peito
quando se põe
pela razão de ser necessário
dá lugar ao conforto
que só a noite conhece
o sol
o astro sol
é a inspiração
sem a qual este texto
seria destituído de sentido
luminoso e quente
da felicidade
nasce no peito
quando se põe
pela razão de ser necessário
dá lugar ao conforto
que só a noite conhece
o sol
o astro sol
é a inspiração
sem a qual este texto
seria destituído de sentido
natureza da água
de toda a água
a da nascente, é a mais vigorosa
a do rio, a mais livre
a da chuva, a mais generosa
a do mar, a mais viva
a da nuvem, sonhadora
a da lágrima, a mais salgada
a da nascente, é a mais vigorosa
a do rio, a mais livre
a da chuva, a mais generosa
a do mar, a mais viva
a da nuvem, sonhadora
a da lágrima, a mais salgada
o u t o n o
o gesto que se me esvai das mãos
escreve outono
o-u-t-o-n-o
foge-me o sentido destas articulações
de dedos, de letras, de pensamentos
outono
ou tono
outo no
vá lá entender-se um corpo
anatomia de ossos, nervos e músculos
sem ideias?
vá lá entender-se um corpo
mergulhado, enrolado
em outono insignificado?
escreve outono
o-u-t-o-n-o
foge-me o sentido destas articulações
de dedos, de letras, de pensamentos
outono
ou tono
outo no
vá lá entender-se um corpo
anatomia de ossos, nervos e músculos
sem ideias?
vá lá entender-se um corpo
mergulhado, enrolado
em outono insignificado?
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
fim
à beira d'água nascem os rios
à beira d'água despede-se o mar
para logo nos reencontrar
marulhando-nos como rios
que nem sempre correm
espraiam-se preguiçosos
quiçá temerosos
o vazio do acabar
sabe-se que o mar vai e vem
enganando-se perpetuadamente
ignorando que renasce nas marés
onda após onda
à beira d'água despede-se o mar
para logo nos reencontrar
marulhando-nos como rios
que nem sempre correm
espraiam-se preguiçosos
quiçá temerosos
o vazio do acabar
sabe-se que o mar vai e vem
enganando-se perpetuadamente
ignorando que renasce nas marés
onda após onda
natureza pássaro
chilreiam os pássaros no nascer do dia
chilreiam os pássaros na ramagem das árvores
chilreiam os pássaros no entardecer
chilreiam os pássaros dentro do poema
aquele lugar que deus quis para eles
e que os poetas criaram inspirados neles
chilreiam os pássaros na ramagem das árvores
chilreiam os pássaros no entardecer
chilreiam os pássaros dentro do poema
aquele lugar que deus quis para eles
e que os poetas criaram inspirados neles
domingo, 22 de setembro de 2013
sábado, 21 de setembro de 2013
não aos escritos
não às palavras, gastas
deformadas, de tão mal tratadas
encalhadas
por pregões, vendilhões
e galifões que as usam
em cânticos matinais
para escurecer o povo
do olhar até à alma
a quem levam o sol e luar
para hipotecar.
sequiosas criaturas
do sangue e das lágrimas
a quem confiámos
o céu que nos ofereceram
os infernos que agora temos
não às palavras, gastas
deformadas, de tão mal tratadas
encalhadas
por pregões, vendilhões
e galifões que as usam
em cânticos matinais
para escurecer o povo
do olhar até à alma
a quem levam o sol e luar
para hipotecar.
sequiosas criaturas
do sangue e das lágrimas
a quem confiámos
o céu que nos ofereceram
os infernos que agora temos
carrego nas mãos o mesmo que no peito
no corpo, às costas, no colo, no regaço
palavras sem dono,
palavras nunca amestradas
jamais dedicadas, palavras sem amo
como as verdadeiras palavras são
do vento, onde viajam
do ar, de que se proferem
do peito onde se sentem
da alma onde se fazem
uma a uma, sílaba a sílaba
para que nunca sejamos sós
que nos fizemos gregários como palavras
que nos concebemos como agregação de sílabas
no corpo, às costas, no colo, no regaço
palavras sem dono,
palavras nunca amestradas
jamais dedicadas, palavras sem amo
como as verdadeiras palavras são
do vento, onde viajam
do ar, de que se proferem
do peito onde se sentem
da alma onde se fazem
uma a uma, sílaba a sílaba
para que nunca sejamos sós
que nos fizemos gregários como palavras
que nos concebemos como agregação de sílabas
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
terça-feira, 17 de setembro de 2013
fantasia
perfuma-me a tua voz de fresco ar
e leva-me pela mão
onde os contos ganham princesas
onde as bruxas sucumbem
onde o bem sempre sobrevem
por mais adulto que eu cresça
colhe minha alma de menino
embala-a pela tua voz
veste-lhe um personagem duma história tua
e deixa-a fruir que será feliz
e leva-me pela mão
onde os contos ganham princesas
onde as bruxas sucumbem
onde o bem sempre sobrevem
por mais adulto que eu cresça
colhe minha alma de menino
embala-a pela tua voz
veste-lhe um personagem duma história tua
e deixa-a fruir que será feliz
marmóreo
esclerótico
aquele olhar tudo gelava
acre de branco
parecendo imaculado
era só branco
nenhuma cor estava
olhar de mármore
marmoreava
aquele olhar tudo gelava
acre de branco
parecendo imaculado
era só branco
nenhuma cor estava
olhar de mármore
marmoreava
garatuja
desenhos à margem, no caderno de notas
insistentemente à margem, das notas
que desenhas, enquanto anotas
a tua liberdade, e nem notas
um pensamento, um ritual sem tento
em desenho, o teu momento
em que fugiste, em que voltaste
sempre por dentro
daquele registo, daquele diário
daquele desenho, onde anotas o tempo
insistentemente à margem, das notas
que desenhas, enquanto anotas
a tua liberdade, e nem notas
um pensamento, um ritual sem tento
em desenho, o teu momento
em que fugiste, em que voltaste
sempre por dentro
daquele registo, daquele diário
daquele desenho, onde anotas o tempo
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
despedida
quando ela lhe disse que ia regressar, ele não entendeu.
quando cruzaram olhares, ele gelou.
quando ela pousou o olhar no infinito, ele chorou.
jamais cruzariam os olhares
e ele jamais sentiria a mornidade do conforto
quando cruzaram olhares, ele gelou.
quando ela pousou o olhar no infinito, ele chorou.
jamais cruzariam os olhares
e ele jamais sentiria a mornidade do conforto
sobre hipocrisia
a hipocrisia não se combate, nunca se vence, tem pele de vítima.
a hipocrisia não se tolera; ideais e liberdade, desprezam-na.
quando associados à inteligência, mirram-na.
porém, à mais pequena distração surgirá colossal.
a mais daninha existência.
a hipocrisia não se tolera; ideais e liberdade, desprezam-na.
quando associados à inteligência, mirram-na.
porém, à mais pequena distração surgirá colossal.
a mais daninha existência.
sabores do fado
sabem-me os lábios à ausência
a que me habituei
sabem-me os olhos à saudade
que nasceu comigo
sabem-me os dias à mingua
que o luar me deixou
sabe-me o tempo à aventura
que o partir me dói
sabem-me os sonhos ao reencontro
que o renascer pariu
à beira-mar
meu beijo descobriu-te
húmido frio
é da chuva, brincaste
sabíamos ser da neblina, do mar
hm, hm; enrolou ele
no seu tom de bem-estar
sábado, 14 de setembro de 2013
um pensamento escrito
mãe,
chego com um sorriso, sem pedido de perdão, sem declaração de amor e muito menos uma exposição de admiração. tudo o que tenho é um texto escrito ao ritmo do pensamento: um pensamento escrito para ti. não conheço nada mais espontâneo. não conheço nada mais bonito, nem nada que deseje mais para ti e para mim.
noto que te escrevo por "tu" embora te fale por "você", sem que use o termo que me ensinaste ser de tão má educação que o guardei na gaveta dos impropérios. terei ficado unilateralmente íntimo de ti e noto como tu sempre foste unilateralmente íntima de mim. neste pensamento seremos "tu e eu" ou "eu e tu" e o teu olhar angustiado dará lugar à expressão de marota cumplicidade ternamente feliz que tens para mim. nesse momento as dores passam-te, a idade desaparece-te e transformas-te numa espécie leve de bobo para me mostrares que brincar é bom e desejável, desde que as intenções sejam boas — a vírgula é tua e enfaticamente colocada e acentuada por ti.
isso, as intenções: o que pensamos, o que desejamos, a pureza no estarmos seja onde for. sabes que cada vez estou mais assim? e sorris de vaidade; não murmuras o valeu a pena porque pensas no consegui. é por isso que sorrio e sorrio na escrita destas palavras ainda não rasuradas nem revistas, nem na pontuação: espelham o espontâneo que tanto gostas. é mais natural, elogiarias e eu ouviria e sorriria; teria piada. hoje, entre ouvidos e sorrisos, faz-me todo o sentido.
mãe! tenho pensado na morte, não tanto pelo medo que tenha de morrer, mas é o meu medo que tu morras. engraçado, é que venho preparando a tua morte desde os meus 10 anos, talvez antes, ou um pouco depois, e embora sereno, ainda não estou preparado. é altura de me sorrires um burro velho não aprende línguas, e é verdade. também me dirás que todos morrem e só deus sabe como e quando, a que eu acrescento na sua infinita sabedoria, no meu mais silencioso sarcástico. tu, que não tens o ressentimento que eu sinto, sei que se ouvisses, os teus olhos, primeiro ficariam vagos e oblíquos ao chão, para depois se cravarem nos meus e golpearias o teu graças a deus muitas, graças com deus poucas e eu respeitar-te-ia impotentemente, sabendo que no fundo até a morte é natural.
sabes que houve tempos em que só tinha medo da minha morte? e tu rezavas, quase sempre com prazer, parecias e dizias-te pronta para o céu, ao passo que eu detestava rezar, saía-me algo mecânico como a tabuada; sei que falo mas nunca sei o que digo e tenho de pensar nas palavras que acabei de proferir para lhes encontrar significado e nem sempre chego lá. hoje escrevo poemas e gosto de trocadilhos entre poemas e orações, entre rezas de declamações; o deus ganhou poesia, eu fiquei mais sereno. e tu manténs o mesmo olhar sobre mim, com que me fazes sentir ungido: e tu sabes que eu gosto e eu delicio-me com o prazer que colhes do meu gosto. mães e filhos são assim: impenetravelmente juntos.
já nos confessámos que o tempo urge: os nossos encontros serão menos, decrescentemente menos, e tornámo-los mais intensos; têm mais abraços, têm mais carinhos, mais toques, mais olhares cruzados. têm mais marotices, como quando eu tinha 5 anos e era assumidamente menino, sem saber como carinho de mãe faz crescer.
sei que ficarei magoado quando morreres, mas sei também que terás um beijo para me confortares, daqueles com que me curaste de tantas quedas e eu talvez consiga escrever-te um poema.
o meu sorriso mãe.
chego com um sorriso, sem pedido de perdão, sem declaração de amor e muito menos uma exposição de admiração. tudo o que tenho é um texto escrito ao ritmo do pensamento: um pensamento escrito para ti. não conheço nada mais espontâneo. não conheço nada mais bonito, nem nada que deseje mais para ti e para mim.
noto que te escrevo por "tu" embora te fale por "você", sem que use o termo que me ensinaste ser de tão má educação que o guardei na gaveta dos impropérios. terei ficado unilateralmente íntimo de ti e noto como tu sempre foste unilateralmente íntima de mim. neste pensamento seremos "tu e eu" ou "eu e tu" e o teu olhar angustiado dará lugar à expressão de marota cumplicidade ternamente feliz que tens para mim. nesse momento as dores passam-te, a idade desaparece-te e transformas-te numa espécie leve de bobo para me mostrares que brincar é bom e desejável, desde que as intenções sejam boas — a vírgula é tua e enfaticamente colocada e acentuada por ti.
isso, as intenções: o que pensamos, o que desejamos, a pureza no estarmos seja onde for. sabes que cada vez estou mais assim? e sorris de vaidade; não murmuras o valeu a pena porque pensas no consegui. é por isso que sorrio e sorrio na escrita destas palavras ainda não rasuradas nem revistas, nem na pontuação: espelham o espontâneo que tanto gostas. é mais natural, elogiarias e eu ouviria e sorriria; teria piada. hoje, entre ouvidos e sorrisos, faz-me todo o sentido.
mãe! tenho pensado na morte, não tanto pelo medo que tenha de morrer, mas é o meu medo que tu morras. engraçado, é que venho preparando a tua morte desde os meus 10 anos, talvez antes, ou um pouco depois, e embora sereno, ainda não estou preparado. é altura de me sorrires um burro velho não aprende línguas, e é verdade. também me dirás que todos morrem e só deus sabe como e quando, a que eu acrescento na sua infinita sabedoria, no meu mais silencioso sarcástico. tu, que não tens o ressentimento que eu sinto, sei que se ouvisses, os teus olhos, primeiro ficariam vagos e oblíquos ao chão, para depois se cravarem nos meus e golpearias o teu graças a deus muitas, graças com deus poucas e eu respeitar-te-ia impotentemente, sabendo que no fundo até a morte é natural.
sabes que houve tempos em que só tinha medo da minha morte? e tu rezavas, quase sempre com prazer, parecias e dizias-te pronta para o céu, ao passo que eu detestava rezar, saía-me algo mecânico como a tabuada; sei que falo mas nunca sei o que digo e tenho de pensar nas palavras que acabei de proferir para lhes encontrar significado e nem sempre chego lá. hoje escrevo poemas e gosto de trocadilhos entre poemas e orações, entre rezas de declamações; o deus ganhou poesia, eu fiquei mais sereno. e tu manténs o mesmo olhar sobre mim, com que me fazes sentir ungido: e tu sabes que eu gosto e eu delicio-me com o prazer que colhes do meu gosto. mães e filhos são assim: impenetravelmente juntos.
já nos confessámos que o tempo urge: os nossos encontros serão menos, decrescentemente menos, e tornámo-los mais intensos; têm mais abraços, têm mais carinhos, mais toques, mais olhares cruzados. têm mais marotices, como quando eu tinha 5 anos e era assumidamente menino, sem saber como carinho de mãe faz crescer.
sei que ficarei magoado quando morreres, mas sei também que terás um beijo para me confortares, daqueles com que me curaste de tantas quedas e eu talvez consiga escrever-te um poema.
o meu sorriso mãe.
da génese das palavras
são os pássaros que trazem as palavras
aos pios, nos voos
aos chilreios, no alto dos poleiros
e nós dizemos palavras para os imitar
aos pios, nos voos
aos chilreios, no alto dos poleiros
e nós dizemos palavras para os imitar
beira d'água
tenho vida de mar
infinito, de horizonte
meus meses oceanos
e os anos são ondas
ritmadas
de amplitude e força
desconhecidas
infinito, de horizonte
meus meses oceanos
e os anos são ondas
ritmadas
de amplitude e força
desconhecidas
pês da primavera
primavera tem ímpetos
tem impulsos
primavera tem pássaros
e passarinhos
e muito desejo
ainda que destituído de p
como sol e flores
ventos, verdes e cores
tem abelhinhas e borboletas
zumbindo, rodopiando
a fertilidade das flores
o crescimento das árvores
e a reprodução
sempre a reprodução
e seus amores
tem impulsos
primavera tem pássaros
e passarinhos
e muito desejo
ainda que destituído de p
como sol e flores
ventos, verdes e cores
tem abelhinhas e borboletas
zumbindo, rodopiando
a fertilidade das flores
o crescimento das árvores
e a reprodução
sempre a reprodução
e seus amores
primavera em setembro
a primavera faz-se de desejos
ideais. só depois se aproveita o sol
para a iluminar
e as palavras, para falarem dela
revelando as conversas dos pássaros
as flores despontam do verde
só porque querem participar
deste espreguiçar de vida
que vemos, porque procuramos.
o acontecer de primavera
ver-se-á melhor de olhos fechados
porque também há os aromas
sobre os quais ainda não falamos
e as juras de namorados.
era setembro.
ideais. só depois se aproveita o sol
para a iluminar
e as palavras, para falarem dela
revelando as conversas dos pássaros
as flores despontam do verde
só porque querem participar
deste espreguiçar de vida
que vemos, porque procuramos.
o acontecer de primavera
ver-se-á melhor de olhos fechados
porque também há os aromas
sobre os quais ainda não falamos
e as juras de namorados.
era setembro.
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
a morte
a morte. a morte chegou-me de manhã, com o nascer do dia, ainda antes de eu acordar.
instalou-se. estava instalada.
tinha um vestido vermelho e eu que nunca tinha reparado. eu aprendera que se vestia de negro — negro da morte — e, talvez por isso, nunca tenha notado a vermelhidão da vestimenta.
também me sorriu, o que teve em mim um efeito que poderia chamar-se encanto feminino. por isso não pude deixar de a olhar e, depois, de a apreciar, com o meu melhor olhar distante.
ela insinuava-se, sentada, tombava ora sobre um lado, ora sobre o outro, num rebolo das ancas sobre a almofada da poltrona. usou o sempre clássico cruzar de pernas, dançado e enfeitado por dois joelhos perfeitos. insinuava-se também pelo olhar: ora tropeçante no meu, ora indiferente, como a ignorância.
minha pose era seráfica, hirta como um sírio, como aprendi com meu pai e sabia-me a castigo ou a alerta. por ali ficámos, estando: eu sonhava, ela instalava-se, mediamo-nos, cúmplices.
não fossem as modas dos tempos e teríamos ido ao encontro um do outro pedindo/oferecendo lume para um cigarro. mas agora seria um convite explícito para sairmos: os dois para um momento de intensa intimidade, no exterior, à porta de algo — neste caso do sonho — em torno de um cigarro que partilharíamos passa-a-passa.
acordei! tudo tinha passado, porém, estava cá tudo: o vestido vermelho, os olhares e o desejo de uma passa, também.
compreendi porque o cigarro mata.
instalou-se. estava instalada.
tinha um vestido vermelho e eu que nunca tinha reparado. eu aprendera que se vestia de negro — negro da morte — e, talvez por isso, nunca tenha notado a vermelhidão da vestimenta.
também me sorriu, o que teve em mim um efeito que poderia chamar-se encanto feminino. por isso não pude deixar de a olhar e, depois, de a apreciar, com o meu melhor olhar distante.
ela insinuava-se, sentada, tombava ora sobre um lado, ora sobre o outro, num rebolo das ancas sobre a almofada da poltrona. usou o sempre clássico cruzar de pernas, dançado e enfeitado por dois joelhos perfeitos. insinuava-se também pelo olhar: ora tropeçante no meu, ora indiferente, como a ignorância.
minha pose era seráfica, hirta como um sírio, como aprendi com meu pai e sabia-me a castigo ou a alerta. por ali ficámos, estando: eu sonhava, ela instalava-se, mediamo-nos, cúmplices.
não fossem as modas dos tempos e teríamos ido ao encontro um do outro pedindo/oferecendo lume para um cigarro. mas agora seria um convite explícito para sairmos: os dois para um momento de intensa intimidade, no exterior, à porta de algo — neste caso do sonho — em torno de um cigarro que partilharíamos passa-a-passa.
acordei! tudo tinha passado, porém, estava cá tudo: o vestido vermelho, os olhares e o desejo de uma passa, também.
compreendi porque o cigarro mata.
terça-feira, 10 de setembro de 2013
meu gato
o melhor riso de um gato arrebita-lhe os bigodes
para que lhe acentue os cantos elevados da boca.
é que os gatos não têm lábios. por isso não beijam;
lambem e continuam a sorrir aquele sorriso; de gato, claro.
o melhor riso do gato fecha-lhe os olhos
para que a gargalhada seja mais profunda.
por isso ronronam como só os gatos sabem.
a minha namorada não consegue ronronar mas vê-se gatinha
e cerra os olhos quando sorri. tal como os gatos
quer uma gargalhada profunda; de gato, claro.
o melhor riso de gato pode ser indecifrável.
efeitos da personalidade felidea, independente. por isso
criou o mito de dar: dá mios, dá saltos e dá-nos o prazer
de o termos ao colo, enquanto o gato sorri
como os gatos; enigmático e indecifrável, claro.
para que lhe acentue os cantos elevados da boca.
é que os gatos não têm lábios. por isso não beijam;
lambem e continuam a sorrir aquele sorriso; de gato, claro.
o melhor riso do gato fecha-lhe os olhos
para que a gargalhada seja mais profunda.
por isso ronronam como só os gatos sabem.
a minha namorada não consegue ronronar mas vê-se gatinha
e cerra os olhos quando sorri. tal como os gatos
quer uma gargalhada profunda; de gato, claro.
o melhor riso de gato pode ser indecifrável.
efeitos da personalidade felidea, independente. por isso
criou o mito de dar: dá mios, dá saltos e dá-nos o prazer
de o termos ao colo, enquanto o gato sorri
como os gatos; enigmático e indecifrável, claro.
poema
tivera eu um útero
e far-te-ia renascer em mim
fora eu um jardineiro
e far-te-ia florir em mim
sou o bobo demente
sentado no mais cinzento dos cinzas
tu és a cor que me chega
e pedes-me que te pronuncie
como sílaba de poesia
e far-te-ia renascer em mim
fora eu um jardineiro
e far-te-ia florir em mim
sou o bobo demente
sentado no mais cinzento dos cinzas
tu és a cor que me chega
e pedes-me que te pronuncie
como sílaba de poesia
verdadeiro deus
velhinha:
— meu deus, como nasceram as estrelas? foram semeadas? quem as plantou lá no céu?
deus:
— nem uma coisa nem outra. são obra da criação e foram criadas por ti e outros como tu.
narrador:
— a beata velhinha sorriu. afinal deus tinha um humor divinal.
— meu deus, como nasceram as estrelas? foram semeadas? quem as plantou lá no céu?
deus:
— nem uma coisa nem outra. são obra da criação e foram criadas por ti e outros como tu.
narrador:
— a beata velhinha sorriu. afinal deus tinha um humor divinal.
lengalenga
ao adormecer, sei
que viverei a história
que escreverei enleada
na que sonharei acordado
de dia, na companhia da janela
que quis ser minha e eu sou dela
que viverei a história
que escreverei enleada
na que sonharei acordado
de dia, na companhia da janela
que quis ser minha e eu sou dela
segunda-feira, 9 de setembro de 2013
meu sonho
meu sonho, sempre grande
enquanto aprendia as letras sonhava
com irreconhecitude da minha caligrafia de adulto
enquanto aprendia a ler sonhava
com grandes públicos atentos
enquanto aprendia as outras matérias sonhava-me
mestre nas habilidades científicas, literárias e artísticas
...
enquanto escrevo um poema, sonho
com o convívio das nossas fantasias
enquanto escrevo um poema, sonho a fantasia
e por ele distendo meu sonho entre o aqui e o de lá
enquanto aprendia as letras sonhava
com irreconhecitude da minha caligrafia de adulto
enquanto aprendia a ler sonhava
com grandes públicos atentos
enquanto aprendia as outras matérias sonhava-me
mestre nas habilidades científicas, literárias e artísticas
...
enquanto escrevo um poema, sonho
com o convívio das nossas fantasias
enquanto escrevo um poema, sonho a fantasia
e por ele distendo meu sonho entre o aqui e o de lá
a ansiedade
tem um corte fatiado
fininha, meticulosa
insistente, persistente e fria
fria até aos suores; frios também
rói, moi, corroi
de um vazio transparente e solene
aloja-se entre os dentes cerrados
no franzido do rosto
no lado apertado do corpo
contraído até ao estalido
no estado dorido
da ansiedade
consome o bom dia
amarelece o sorriso
cheiro frio a perfeição
do mofo organizado
o mais perfeito pecado
a ansiedade
fininha, meticulosa
insistente, persistente e fria
fria até aos suores; frios também
rói, moi, corroi
de um vazio transparente e solene
aloja-se entre os dentes cerrados
no franzido do rosto
no lado apertado do corpo
contraído até ao estalido
no estado dorido
da ansiedade
consome o bom dia
amarelece o sorriso
cheiro frio a perfeição
do mofo organizado
o mais perfeito pecado
a ansiedade
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