segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

da água que pára
sei o charco
recordo o lago
conheço a que pinga do rosto
estaca no chão
se dissolve na vida donde brotou

podendo as lágrimas ser de mar
poderia o mar ser de lágrimas

morrer
não é palavra
nunca foi
é ideia
encorpada fria longa
cinza triste
aparece persiste

inércia

entre
o fora e o dentro
algures
o lumiar ou o permeio
em ponto linha volteio

de
fora para dentro
movimento
o sentido desejado
o indefinido receio 

sábado, 17 de janeiro de 2015

um rosto feito de empedernido
cobria-o a pele do sorriso
pelos olhos se desnudava

dele
todas as palavras eram mudas

nunca o regresso foi retorno
nem o será nunca
os sinónimos são uma falácia
inventámo-los por ignorância
as palavras sabem-no

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

meus pensamentos tantas vezes
são voos
pairam, disparam-se
vertiginosos

hoje são seixos
parados
aguardando ser banhados

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

a (nossa) alma
entre outras essências
faz-se de memórias e desejos
os que criamos, os que espalhamos e
sobretudo os que partilhamos

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

pétala
é a palavra que me abeira

distendida quase ousada

rompe nos lábios
embala na língua

suave e cheia
toma-me

sonância macia do toque
meigo aroma
pendula de cor

início do florido
alma em flor

domingo, 11 de janeiro de 2015

sobre mistérios: o da escrita

há um certo mistério na escrita
em toda a escrita
que é o mistério da criação
como de todas as criações.
desde o despontar do tema
até ao brotar da palavra
e ao emergir da sintaxe
a construção da mensagem
em forma e sentidos:
emoções e sentimentos:
profundidade.
arrebata-nos este mistério criador
que não é caminho
embora o possa traçar
nem é corrente
é fonte de nascente
que um outro mistério
talvez chamado destino
encaminha em cursos
que se encontram com outros
e se cruzam que é um forma de choque
se misturam e dissolvem
numa composição única — universal.
quer seja visível quer não
faz parte desse universo num determinado momento
tal como o sabor da água do mar
se influencia pelo elemento em menor quantidade
ainda que os nossos sentidos não o detetem.
esse é o mistério da escrita
a nota de sabor
que o autor sente na criação.

sábado, 10 de janeiro de 2015

o melhor de uma carta de amor é o aroma
aquela essência perfumada que chega de quem a escreveu

cartas de amor

as melhores cartas de amor que te dediquei
nunca as escrevi, nunca as escreverei
se o fizesse, seriam palavras tolas
nunca sentiriam o que nessas cartas eu contei
as que vais lendo quando te olho em silêncio

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

divagações

i
interponho-me ao tempo
sinto-o

ii
faço-me estaca e impeço-o de passar
iludo-me

iii
o voo de ave ignora o tempo
surpreende-me

iv
jamais o tempo se fará estacar
aclaro-me

v
viaja-se nele
que é de passar

vi
ainda espetado ensaio voar

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

A meio caminho da 
nossa vida achei-me 
numa selva tenebrosa, pois 
perdera o rumo certo.

DIVINA COMÉDIA, INFERNO - Dante

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

tu estás aqui
abrigas-te na sombra deste candeeiro
o sol do dia nos dói na pele e na alma
da noite precisamos para nos olharmos
de olhares abrigados

tu estás aqui
entraste no laivo de sol
espremido pela fenda da portada
aguardas-me cúmplice
nós que do dia queremos a noite
escutamos-lhe os passos
e o sussurro sibilante de que se faz o silêncio

tu estás aqui
ensaias um voo negro entre as nuvens cravadas no teto
um bolor antigo que o canto encerra e o escuro alimenta
tu que não partes
eu que te deixo ficar

persegue-me a morte sem encanto
uma sombra que me toma
anuncia-me ainda mansa
meu definhar de velho
será do corpo a última morte que terei

sábado, 3 de janeiro de 2015

ubíquo

nada sei do sol que me aquece o colo
chega e nem sei se parte
sinto que me aquece
e que vem por bem
e aquele outro que vejo partir, desaparecendo
longe além do monte
parecendo irmão deste, sinto que é este.
a ubiquidade só pode ser sentida
ainda antes do saber.

a água
solta entre as pedras
ou sobre elas
sejam de mar ou de rio
ou até as do caminho,
passando
envolvendo
circulando lento ou parando
até correndo
e sempre entranhando
assim é a vida — a água.

já as pedras
são a quebra e a edificação
angulosas ou roladas
coloridas radiosas
sempre moldáveis
de belo efeito
no chão ou em queda no lago
acordam-nos para a vida
cristalina, fluida
consistente
e — a água — solta.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

abandonada

o silvo ergueu-se da noite
escuro solidão
trespassou o silêncio
e doeu o nada dorido da ausência.

o berro, morto, ganiu um gemido.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

pato bravo, p.e.

demonstram-me os factos
que a incompetência é uma ciência
muito estudada e evoluída,
praticada entre a patetice e a injúria:
a mentira é o método e o instrumento de eleição.

demonstram-me os factos
que nesta ciência, a ignorância
é diretamente proporcional à arrogância,
e, se estivéssemos em  poesia, diríamos que rimavam
e mais não digo para odeio rimar mal.

demonstram-me os factos
que a pior incompetência é fazer mal com propósito,
ainda que os procedimentos exijam elevado nível de capacidade,
há a incompetência para ver, olhar e sentir os outros
fora do centrípeto movimento do umbigo incompetente,

como um buraco negro,
o que é a maior das incompetências.
demonstram-me os factos.
não sei qual o grau de parentesco com a preguiça
que é suposto ser a mãe de tudo o que mexe em prejuízo de outrem.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

sim!
chega-te à maçaneta da porta
roda-a! e entra na vida
entranha-te até a desconheceres
continua até te desconheceres
então volta se muito o quiseres
escolhe um percurso diferente
se te perderes segue em frente
todos os desertos terminam
a caminho de um porto de mar
lá terra e água se tocam
como a chegada e a partida
a vida se engrandece
se atreve ao movimento

apaixono-me todos os dias
discretamente
por todos os olhos que tocam nos meus
se são felizes rejubilo
dilacero-me, se são tristes
tudo momentos
depois largo-os, deixo-os livres
vão como aves que migram

sobre o momento escrever

sobre o momento escrever
sei-lhe a luz
clara, ao fundo, incandescente
por vezes fria.
há um movimento de quem debulha
estende, amontoa e volta à eira
que o sol – o tempo – curará.
o traço é de esquisso naturalmente inacabado
algo em esboço que não sendo de facto
se lê de dentro para fora.
um trajeto enleado no tempo – construção
íntima – o momento.
leitor e escritor tocam-se
o par bailando na melodia do texto.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

história de uma história

a história era fraca
acho que ninguém a entendia como tal

esgueirou-se, a história, para outros lugares
e foi-se encorpando. aos poucos
começaram a adivinhar-se-lhe os contornos
ela própria se desenvolveu em envoltura
em meneio. agora,
passava e movimentava atenções para si
enchia peitos
regressava convicta da sua importância

abrilhantou o jantar
20 pessoas glosaram em torno de si
aplaudiram-na e entrosaram-se nela
era agora uma história interessante
em vias de se tornar forte
quem a escreveu queria uma história
e ela que só queria ser história, conseguira-o.

domingo, 14 de dezembro de 2014

nevoeiro

entendo agora o nevoeiro
nascido nos montes
esse cinzento húmido frio de fraga
nasce da terra em penedos
bolas de fumaça feitas
para se entranharem nos corpos
até aos ossos
como antes se entranharam na terra

as gentes dessas paragens
lêem o tempo pelo vento e pelo sol
contam-no pela lua
sabem tudo dos nevoeiros
as palavras, semeiam-nas esparsas
como as fragas
e no frio do corpo albergam o coração
são como o sorriso, justo e duro
como o olhar endurecido ao tempo

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

estado de desempregado

se tivesse um pouco menos de aperto nas vísceras,
do fundo até ao estômago,
e de frio suado, de dentro do corpo até às mãos.

se ao menos o vómito fosse possível
e saísse do limbo da vergonha de quem se esconde.

seria mais fácil tudo, o momento
e o emprego talvez não me fosse negado

o que eu daria por um pedaço de trabalho digno
e me sentir competente, novamente...

do fundo

do peito fundo
fundo de mar
ao fundo do leito, flui
o que é rio
o olhar
profundo, o sentir
profundo
do sono profundo
ao profundo acordar

procuro
no desassossego
o encoberto dizer
sem repouso
na orla da página
desfolha-se a inquietude
aos olhos debulha-se o trecho
na página, a história
se urde da metáfora

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

amanhecer
aquela gota cristalina
escorrente da noite
ilumina-se
os cintilos são de estrelas
o sol é a metáfora

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

perpetuamento

sentia-se primavera
soalheira
tarde ainda na primeira metade
dia normalmente bom
luziam teus olhos em todos os cantos
pronunciámos "envelhecer juntos"
com a convicção de quem ama
em estado de paixão

o banco plantado no jardim
permanece
a palavra aberta de sonância
incessante

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

acontecia ser
dia do poeta que
nascera um dia
e agora que 
poeta nascia
ninguém soubera
ninguém sabia

insana

deste lugar onde escrevo
a paisagem soa a tiros
estronda e... rebenta
alguém morre
há sempre alguém que morre

neste horizonte conheci a morte
estampava uns olhos
deixou os dedos cravados
em meu braço agarrou-se
e a morte, senhora daquele olhar
chegou e levou-o
conheci a morte

neste cenário morri algo
resta-me o medo da morte
que me alimenta
por ele fujo
sou corajoso e mato

ânsia

sou
dum poema, o verso
impossível

sou
a palavra mal dita
improferível

sou
o apuro na metáfora
indescritível

sou
o devir ainda
infactível

sou
o desejo em ser
inexequível

sou
a ânsia em suspiro
o tracejo em esboço
acontecente inacabado
permanente

sou
o desejo em ser
que nunca será

do céu

no céu
entra-se
penetra-se
sem tocar
entranha-se
e o céu
que é céu
continua
como sempre
mais acima

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

o céu era abóbada
o voo improvável
o horizonte projetava-se
a linha desenhava
o alicerce
o limite se define e encerra o templo

a nascente
a água brota pura
jorra sem destino
além
o voo é presumível
o altar celebra-se sem cúpula

o poema
se inventa além da utopia

horas rodopiam
bailados

minutos correm
dispersos

o tempo decifra
o poema emergente

manhã
o gesto é luz
o verbo é metáfora

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

também aí estronda
de dentro
do peito aos olhos
a tempestade arfa
esgotada
então o mar acalma

luar

a lua estava

repousava
à tona do charco

iluminava
o fundo do poço

atulhava
de prateado o lago

ondeava
a crista do mar
do melhor reflexo lunar

envolvia-a
um véu tingido de estrelas
encheu-se o céu

a lua sempre
distante e presente
cuidando
fiando
o luar

função plástica da masturbação

o movimento
entre o corpo e a mão
o sexo
a ideia
a fantasia
em tesão
arrepia
retesa o corpo
sublime
suspensa a respiração
o momento
o plástico do movimento
entre o corpo e a mão

solilóquio

de mim de mar
escrevo
o que nunca soube

caminho...

conta-me porque
me banhas os pés areados

engenho meu
poesia
teço ondas 
enrolos de mar

como concha de chão
que vais apanhar
para a deixares cair

satisfaz-te
a brevidade
simples
de a tocar 

finjo-me gaivota...

noto-to no olhar
atira-lo alto 
solitário 
distante

soltas na areia
teus passos rasantes
de voo inacabado

há uma certa solidão no voo...

no voo há paisagem
destino em pouso
aventura
frescura e leveza
prazer em viagem...

a solidão sempre
morou em peitos 
incapazes de voar

de onde és
nem te fazes ao voo

eu...
estrondo-me em ondas
rebento-me na escarpa
salpico-me em gotas
refaço-me em espuma
solto-me no ar
e parto no vento
vou aonde me levar...

agora marulho contigo
é-me outra forma
de sair de mim
de voar

terça-feira, 18 de novembro de 2014

borboleta

borboleteia
ao sol se aqueceu
se estendeu
até se espreguiçou
saiu voando
bailou
o sol em seu voo rodou
até ao final do dia
regressará de manhã
o dia nascerá
por cá por ti
borboleta
o sol bailará

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

faltam-me as inutilidades
sei que falta é uma inutilidade
o que sei também

imortalizo os ontem que encontro

amanhã traz um ontem no bolso
ontem ostenta um amanhã na lapela
e fica-lhe bem

o retorno cego é uma história perdida

dos rios

os rios caem do céu
estrelas repuxam a terra
alongam-se as montanhas até ao firmamento
estrelas esvaem-se em reflexos prateados
em leitos
geram-se os rios

abalam sozinhos
enrolam-se nas curvas do terreno
cursam buscando casas que passem perto
chamam os peixes e os pássaros
querem-se vida e penetram a cidade
à noite fazem-se em reflexos

os rios sobem às árvores
entranham-se pelas raízes, as árvores
os absorvem, incham alongam-se
crescem carregando os rios na seiva bem alto
à folha cimeira do ramo do cume donde apreciam
das gentes os reflexos que espelham do leito

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

do beijo

o sabor
orvalhada
cintilo
sal de corpo
que o mar deixou

o aroma
doce
condimento
incitante de pele
que em pele roçou

sempre que reuniões sucedem
semeia-se a ausência de silêncios
que nem entre as palavras acontecem

a mosca pousava em meu lápis

um beija-flor alando
o canário papagueava
bulia o silêncio do voo

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

caminho pelo lado mudo da vida
a palavra nasce do silêncio
é gesto
tem lábios, mãos e corpo
e voz que é muda
é poema
lê-se em pensamento
saboreia-se
mudamente, em silêncio

de abril

lembro-me
ainda era 25 de abril inacabado
e havia quem queria o 24

lembro-me
que o 25 de abril foi dia grande
e houve quem nunca saiu dele

lembro-me
que o 25 de abril teve um cravo
era um gesto de paz, encarnado

lembro-me
do 25 de abril esquecido
e havia um cravo apagado

lembro-me
que houve mais dias de abril
e de outros meses e anos

lembro-me
do desânimo do 24 de abril
fatalmente igual ao de hoje

lembro-me
em abril nasceu o gesto que nos uniu
poema, pelo cravo se fez da arma o vaso

recordarei
o intriguista bafiento, o que assanha
povo contra povo e assim governa

sinto desprezo
tenho pena, muita pena

a mário viegas

ao homem da poesia
límpida da voz rouca
recalcitrante de clareza

domingo, 2 de novembro de 2014

gotejos do dia

o sol entre a chuva
e o vento

das árvores as folhas
soltas
pingam pelo chão

os pássaros
gotas de voos
salpicam o céu

as nuvens
obreiras dos céus
mães de todas as gotas

destino

de rio em rio
corremos
desaguámos
fluentes
de rio em rio
arremessámo-nos
abandonámo-nos
silentes
de rio em rio
desejámos
a água fosse o querer
espraiámo-nos
de rio em rio
tomámo-nos
inteiros
gotejámos
chuva
aguaceiro
absoluto
de rios
navegámos
sem velas
sem remos
rio após rio
nos quisemos
de mar
nos fizemos
de ondas
galgámos
bradámos
marulhamos
ainda
que dos rios
fluímos

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

a palavra

adeus
era a palavra
que usei
por não saber mais
nenhuma

adeus
foi a palavra
que tinha
quando nada era
ainda

adeus
sempre a palavra
que pulsava
e nada mais havia

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

a rua

quem quer mesmo perder o jeito
perder mesmo, seja qual for
saia de si
mostre-se à porta
ouse entrar na rua
rua mesmo
onde o mundo de expõe
passando
onde se entra nele
e passamos com ele sem entrar em casa
depois faça-se a viagem em sentido inverso
se se quiser
se houver audácia
e se retornarmos a casa, por termos cruzado com ela
descanse-se
casa é o melhor sítio para descansar
e a rua o melhor sítio para perder
onde tudo se encontra
que a rua acontece

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

quis chamar-me pelo nome
que seria meu e desconhecia-o

sabia o que me fora dado
ignorava se me pertencia

dos indicadores

a melhor maneira de desumanizar uma sociedade
é descrevê-la por indicadores
numéricos, assépticos, inodoros;
permitem escalpelizar a realidade
numérica, neste caso.

já agora, qual é o indicador de dignidade?
e o de responsabilidade?
e o de racionalidade(?)
no qual assenta toada esta visão "indicadora" das pessoas
no mundo?

quando os números se tornam mais importantes que as palavras
e estas mais importantes que os olhares
a humanidade mortifica-se
pela perda de humanismo.
desconheço a fórmula matemática da dor
da vergonha ou da indiferença
mas sinto-as nas faces,
mais profundamente nos olhos,
nos gestos, grandes e pequenos,
e sei-a sem indicadores
e sei-lhe a grandeza
e sei, ainda, da grandeza de quem sente.

depois há o uso que se faz do indicador
serve para perceber o que falta
e para ir mais além em humanismo (?)
ou serve para justificar a opção pela desumanização
pelo desacato entre grupos
pelo desvio à responsabilidade individual pelo coletivo,
à solidariedade
ou, ainda, para exacerbar uma visão racional
asséptica, inodora. insensível
em análises numéricas, indagando-se
e descobrindo-se sempre - sempre mesmo - alguém
nalgum lugar do mundo
que fez algo, ainda que momentaneamente,
que nos confirma a veracidade
a fundamental
realidade aqueles dígitos
seguidos de uma percentagem
e uma legenda: o indicador
será perfeito se tiver um sinal de moeda
será sublime, se de um magnânime mercado
essa abstração em forma de deus.

trouxeram-nos um bezerro de ouro
fizeram-se sumo-sacerdotes e entoam rituais de sacrifício
propõem-se oferendas; alguns de entre nós, os estropiados.
nos altares erguem-se bem alto dizeres de merecimento do castigo
sacrificam-se alguns para que outros sobrevivam
o que só acontecerá - sobreviver-se - pela benevolência
de um ídolo ourado que precisa de povo para o adorar
e esperam que o povo aclame, em uníssono.

o bezerro é o mesmo de todos os tempos
e os sumo-sacerdotes também
o povo já não aprova e não é unissonante
esse é o sinal do crescimento civilizacional
e esta civilização já deixou o ritual ir longe demais
ainda que todos os indicadores - escolhidos - apontem o contrário.

domingo, 19 de outubro de 2014

das mulheres

das mulheres há o encanto
como nomeiam as estações
e como alimentam pelos olhos
o asseio colorido da primavera
o calor tórrido que os verões têm
ou a doçura em morno aroma do outono
ou, ainda, a pureza branca do frio inverno

talhei-me de encantos
ainda nos tempos da minha avó
nos olhos seus, baços de quase cegos,
giravam, cristalinas, todas as estações dos anos
e se desprendiam matizes várias
aromas, cores, sabores e temperaturas

as mulheres nunca envelhecem
acarinham o tempo nas histórias suas
encantos que afagam como bonecas
e, por magia, a vida se adentra

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

a palavra em estado puro soa com simplicidade
tem rasto de criança e ilumina como a luz
e transporta a sabedoria dos renasceres

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

diálogo de um amor normal

ainda não sei
porque não sei dizer-te
o que sei.
não será bem o que sei
é mais o que sinto
e que não sei dizer.
em mim coração e pensamento
andam embrulhados desde sempre
soam a amantes apaixonados
de contornos indistintos
creio, não se importarem com isso
nem com as palavras das descrições.
uma vez apanhei-os a confidenciar
"que importam as palavras e o descrever?"
ao que o outro emendou
"será deslumbrante, caso não se perca o momento
a magia o sentir e o sentimento"
eu concordei e confirmei.
o que dizer agora
que me afoga a felicidade
algo teu cruzou comigo
calo-me sorrio silencio-me
sossego
nunca sei o que digo

terça-feira, 14 de outubro de 2014

volátil

a palavra
infinita inacabada e perfeita

o poema
drapeio parábola do vento
provém e eleva
nas dobras guarda o sentido

presciência

havia, de onde tu vinhas
um sorriso ainda vivo em teu rosto
– de onde chegas? quis eu saber
– de onde me beijarás
eu sonhava fazer-te feliz
tu já tinhas sonhado este agora

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

da chuva

da chuva, eu desconhecia
que ela mesma fazia
muita água correr

também encontrei água sentida
por ter sido impedida
de, à chuva, passear

contou-me que se empoçou
queria sentir o céu
e o toque do seu pingar

terça-feira, 7 de outubro de 2014

filho

a tua presença transfigura-me
homem, vejo-me pai

o centro do teu olhar tocou-me
rebentou-se o orgulho em mim

já dizes "não" com sabedoria
e o teu "sim" é concordância e consentimento

já não tenho chocolates no bolso
ofereço-te a discreta admiração num sorriso leve
cuido o teu lugar em meu colo

meu filho

maravilhei-o com os olhos antes de pegar-lhe
queria dar-lhe o colo perfeito e não fiz planos de futuro
acho que temi errar na fantasia
gostei da ideia de sermos felizes ao sabermos um do outro
já no colo, estranhei que tanto amor pesasse tão pouco
aconcheguei-o o mais que pude e meu corpo fez-se ninho
procurei os olhos da mãe, tinha que dar-lhe daquela felicidade
saiu-me:  "tão lindo, ...tem os olhos como os teus..."
esta 1.ª vez aconteceu-me 2 vezes

minha mãe entrou no céu de menino ao colo
no colo de mãe os corpos moldam-se pelo exterior
o molde é a ideia bem de dentro
lembro-me de tudo do colo da minha mãe
do calor, do cheiro e do carinho
do toque que a mão dela soltava ao segurar-me
esta ideia de colo é-me um tesouro
minha mãe disse-me com tudo que estávamos no céu
depois chamou-me "meu anjo" dentro dum sorriso
eu ainda não falava e não disse nada
ela percebeu tudo

sábado, 4 de outubro de 2014

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

poesia, o meu fazer mais belo...

voz do poema

fosse eu cantor
e entoaria os poemas 
com a toada que os sonho

soaria a forma
o voltar da folha
o rasgar do papel
o sussurro da caneta
o toque do caderno
entre o abrir e o encerrar
até ao bolso

corro! corro! corro!
atrás do pensamento
de mim foge, assim parece

corre corre corre
vai agita e faz o vento
e a tempestade em mim se dá

a pétala caída e a folha já pousada
são o princípio do verso

a liberdade é tecida das bondades individuais, que são os fios...

...
ouvi chamarem-me poeta
acho que andava em poesia
...
sou um caminhante
vivo nos trajetos
os que a poesia me sugere
...
"o perpétuo movimento"
...

terça-feira, 30 de setembro de 2014

perfeito

da minha janela
há um campanário que me habituou às horas
todos os quartos
chega e solta as badaladas
todas perfeitamente iguais
perfeito, dir-se-ia

em cada face da torre
há um relógio
4 ao todo envergando as horas
também iguais
perfeitamente

da minha janela
há 2 faces do campanário
e mais 2 que adivinho
todos os lados são iguais
perfeitamente iguais

por cima do campanário
há uma cruz
também ela perfeitamente igual
a todas as outras
e as pessoas que entram na igreja
na base do campanário
são muitas e iguais
perfeitamente iguais
e quando oram
são perfeitas e iguais
as orações e as pessoas

e o campanário
que é único na minha janela
é perfeitamente igual a todos os outros
também perfeitos na sua existência

finalmente a minha janela
que me é exclusiva
é perfeitamente igual a todas as janelas
erigidas nesta cidade
mas tem uma vista única
perfeitamente

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

a morte é uma entranha em crescimento
entranha-se pela alma e vence no corpo...
a memória (coletiva) é um artifício antigo para vencer a morte

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

caos

algures
no indefinido
- ponto do inexplicável -
suspira em mim
um desejo quase neurótico
pela palavra bailarina. sufoca-me
a ideia que se abotoa desaparelhada
a forma que não serve
o quente da fricção
o ritmo sem melodia
a mensagem que não derrama
a criação que não se abeira
...
e tanto que tenho para dizer
sem que saiba, ainda, o quê...

envoltura

de amor
enchemos as mãos
de corpo
que derramava
ou se derramava
caía solto
ao encontro das mãos

fragmentos

i
da minha janela
o que vejo sei que existe
ainda que em mim, só, da forma como vejo
desconheço o olhar de outrem
ignoro-o pela condição de não o sentir
tão somente o adivinhar
ou ver como, que é outra forma de adivinhação.
...
em frente percorrem, as pessoas: é uma avenida
ao lado desenvolve-se um prédio: uma gaiola
por detrás o azul celeste do mar.

a minha tendência pelo mar
os meus caminhos desaguam nele
um dia começaram lá, era eu criança
e meus ouvidos alcançaram ser búzios
fiz dele gente e ele gente me fez
o desapego sempre meu
a paixão sempre minha
o acolhimento sempre dele
2 entidades
2 acontecimentos
2 pessoas
eu e ele
2 pronomes pessoais
no meio o tu
pronome que usamos entre nós
...
as nossas palavras não se proferem
surgem
expandem-se
espraiam-se
estrondam-se
brisam-se
como tudo entre as pessoas...


ii
as bordas da minha secretária
depois o abismo que me afasta da floresta em frente
como invejo os pássaros
como gostaria de deslocar-me em voo
como gostaria de não andar de não me mover a passo
como gostaria de pular quando não voasse
como gostaria que meu corpo se deslocasse
na mesma forma que meu espírito...


iii
na avenida
as pessoas caminham - palmilham - por obrigação
na cidade tudo acontece por obrigação.
há uma ordem que obriga
até os actos mais voluntários
como o sentar num banco de jardim
só para ver passar o que passa.
a obrigação é a ordem da cidade
por isso se arrastam as pessoas
de rojo atrás de cada passo
o corpo não se impulsiona
o pássaro da gaiola não sabe voar
a galinha - sendo pássaro -  não ousa voar...

iv
na minha janela
há um casulo pendurado
bomboleia ao vento
invade-o um ronco de autocarro
que nele ecoa e se amplia
estremece-o
embrião de vida
selado
esforço último de lagarta
a existência dedicada à metamorfose
...
ao homem nunca o entendi
como ser de metamorfoses
muda-se, certo!
transforma-se, concordo!
porque renasce após morrer
de cada vez muda de religião
refaz seu deus e as tréguas consigo mesmo
é um litígio doloroso de mudança
sem calendário nem genética
e nada sei de casulos

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

corpo,
têm-no as ideias
e as árvores
que têm tronco
e também dançam

todos os olhares são pássaros, sempre
serão
voam pousam e partem
regressam
ou não

da metamorfose

morro até ao fim do mar
a morte maior que sinto
a dor maior que tenho
a força maior me rebenta
de dentro para fora
a onda estoura

sábado, 20 de setembro de 2014

encontrara a paz 
surpreendeu-o a ausência de tom no branco
compreendeu porque a rendição e a paz têm a mesma cor

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

quando o poema não é mais
que a sombra das palavras
apanhadas ao dizer
o flamejo que em teus olhos brinca

leio o branco
entre as linhas ponho a cor
onde as meninas crescem radiosas
e se franzem as pálpebras em sorriso

há felicidades que só os olhos pequeninos descrevem bem

terça-feira, 16 de setembro de 2014

ditador

as linhas do rosto inoxidáveis
cinzas frias e duras de aço 
o gume no olhar
fatiava tudo em volta
com a mesma frieza de que se fizera 
têmpera trabalhada dia a dia
todos os olhos se desviavam à sua passagem
chegavam-lhe ares de poder
que não o era
que o poder não existe no estado isolado

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

da vela

sei o equilíbrio frágil de chama
e embebo-me na auréola da cera iluminada

indago o fervor escorrente em inverso da ruga
e passeio na curvatura da luz e sigo
o bulício do reflexo da parede ao tecto

colho o cintilo espelhado pela íris

sou rasto de corpo tingindo de sombra a mesa
desejo desconter-me
e espraiar-me em corpo derramado

colorido

o azul é branco ou sem cor

o sopro perfeito abarca
o toque que faz a pétala

o corpo rumoreja
o idioma que a ave voa
a asa que baila e acolhe

a palavra é silêncio cúmplice
o aroma tem cio em tom de olhar

a cor sem nome é quente e será berrante

terça-feira, 9 de setembro de 2014

os olhos da velhice são turvos
de coisas vagas, escondem-se
não se lhes veja o embaraço
acontece despontarem
encantadores, límpidos
ao toque em sopro dum olhar

da cor

onde o oceano dorme
desperta o seio
em ti, aguardando
da borboleta colorida o pólen

que a essência embeba
na borboleta a cor
no seio o ser
a vida no ato

o sono do mar marulha bonito
lá escolhi pintar esta ideia

domingo, 7 de setembro de 2014

o curioso da amizade é ser um processo
iniciado algures, porém, inacabado
pelo qual nos revelamos reconhecidos
por termos sido os escolhidos

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

rancor

do teu peito já abalaram os pardais
também os chilreios e os pulos da passarada.

nele pairam outras aves
o negrume grasnante  dos corvos
e o mergulho do falcão para a bicada fatal.