como dizem e o como escrevem é artifício
como sentem é onde germina a arte
quarta-feira, 6 de abril de 2016
o odor onde residem as memórias
tem fundo de gaveta e pó de prateleira
tem escuro de guarda-fato
no debulhar de um álbum
as fotos acenam aos dedos
e estes acorrem
sedentos
ao bulício de reencontro
há uma espécie de magia linda
no assomar das memórias
de entre névoas e mofos com aroma
a pó-de-arroz e bolas naftalina
tem fundo de gaveta e pó de prateleira
tem escuro de guarda-fato
no debulhar de um álbum
as fotos acenam aos dedos
e estes acorrem
sedentos
ao bulício de reencontro
há uma espécie de magia linda
no assomar das memórias
de entre névoas e mofos com aroma
a pó-de-arroz e bolas naftalina
terça-feira, 22 de março de 2016
a minha morte irá chegar como um buquê
flores em verde de ramagem
reluzente de orvalho
em invólucro transparente de celofane
cingido a laço volumoso pendendo enrolado
um cartão de mensagem condolente ainda
por escrever
minha morte chegará sem nada para dizer
e eu morrerei, somente, como folha que partiu
flores em verde de ramagem
reluzente de orvalho
em invólucro transparente de celofane
cingido a laço volumoso pendendo enrolado
um cartão de mensagem condolente ainda
por escrever
minha morte chegará sem nada para dizer
e eu morrerei, somente, como folha que partiu
segunda-feira, 21 de março de 2016
chilro 3
chilro
uma bicada no silêncio
se o pássaro o prende no bico
se o puxa em volteio
enrola-se o chilro
será chilreio
uma bicada no silêncio
se o pássaro o prende no bico
se o puxa em volteio
enrola-se o chilro
será chilreio
biografia do meu interesse
escolho que o sol me tinja
encobre-me o norte que me endurece
onde aprendi a cor nos montes e no ar
entre céu e terra alongo o mar
meu horizonte é amplo e longínquo
o puro é branco e frio e reluz
em frente o sol ofusca escarlate
o morno é de uma ausência inexplicável
meu mote é de talha granítica virada a sul
encobre-me o norte que me endurece
onde aprendi a cor nos montes e no ar
entre céu e terra alongo o mar
meu horizonte é amplo e longínquo
o puro é branco e frio e reluz
em frente o sol ofusca escarlate
o morno é de uma ausência inexplicável
meu mote é de talha granítica virada a sul
quinta-feira, 17 de março de 2016
princípio da esperança
reluzente
chama ainda não quente
tímido sorridente
trémulo
embalo que sustenta
chama ainda não quente
tímido sorridente
trémulo
embalo que sustenta
sexta-feira, 11 de março de 2016
chilro 2
chilro é uma bicada no silêncio
se o pássaro o prende no bico
e o puxa em volteio
enrola-se o chilro e será chilreio
se o pássaro o prende no bico
e o puxa em volteio
enrola-se o chilro e será chilreio
terça-feira, 8 de março de 2016
chilro 1
chilro é uma bicada de pássaro no silêncio
se o prende no bico e o puxa em volteio
o chilro se enrola até ser chilreio
se o prende no bico e o puxa em volteio
o chilro se enrola até ser chilreio
quinta-feira, 3 de março de 2016
viver
embocar na estrada poeirenta ecoando
a fragrância matinal não ser
o pôr-do-sol a indicar o caminho
andar para ele, andar por lá, ainda
visitá-lo ao adormecer e sonhá-lo
pela manhã a luz acordará
comigo, enroscada em meus olhos
despertaremos pássaros
a hora de nos fazermos ao voo
a fragrância matinal não ser
o pôr-do-sol a indicar o caminho
andar para ele, andar por lá, ainda
visitá-lo ao adormecer e sonhá-lo
pela manhã a luz acordará
comigo, enroscada em meus olhos
despertaremos pássaros
a hora de nos fazermos ao voo
terça-feira, 1 de março de 2016
pecado virginal
sempre que atravesso a rua
esta rua que nos separa
vejo-te pendida de corpo sobre o lado esquerdo
pendida sobre o coração que abafas com o rosto preso e
humedeces com todos os mucos
e o empapas e dele fazes papas pendidas
como todo o teu corpo
pois desflora-te, que rebentem livres as flores em ti semeadas
desfolha-te das securas que te empalidecem
desonra-te das honrarias que te desalinham a felicidade
desalinha-te deslinda-te até que o sol doire seja o que for; às vezes
começa num grão de poeira, que seja!
que seja e desobriga-te
desabriga-te e salta nos charcos
encharca-te e cheirarás o prazer da lama
desalma-te e enlouquecerás por coisas mínimas
então se farão reluzentes, ímpares e deslumbrantes
desmancha-te desmembra-te desforra-te e dança
rompe o raio de sol, arredonda-lhe a trajetória
curvar-se-á à tua passagem
desmama-te do pendor que nunca foi teu, desama-o
desmanda-te para todo sempre
a rua tem dois lados paralelos: nunca se encontram
nunca se opõem e visitá-los é atravessar a rua
é perigoso mas necessário
coragem para não seres pendida
desenrola-te desenrodilha-te desemmerda-te
para que nunca te desiludas
esta rua que nos separa
vejo-te pendida de corpo sobre o lado esquerdo
pendida sobre o coração que abafas com o rosto preso e
humedeces com todos os mucos
e o empapas e dele fazes papas pendidas
como todo o teu corpo
pois desflora-te, que rebentem livres as flores em ti semeadas
desfolha-te das securas que te empalidecem
desonra-te das honrarias que te desalinham a felicidade
desalinha-te deslinda-te até que o sol doire seja o que for; às vezes
começa num grão de poeira, que seja!
que seja e desobriga-te
desabriga-te e salta nos charcos
encharca-te e cheirarás o prazer da lama
desalma-te e enlouquecerás por coisas mínimas
então se farão reluzentes, ímpares e deslumbrantes
desmancha-te desmembra-te desforra-te e dança
rompe o raio de sol, arredonda-lhe a trajetória
curvar-se-á à tua passagem
desmama-te do pendor que nunca foi teu, desama-o
desmanda-te para todo sempre
a rua tem dois lados paralelos: nunca se encontram
nunca se opõem e visitá-los é atravessar a rua
é perigoso mas necessário
coragem para não seres pendida
desenrola-te desenrodilha-te desemmerda-te
para que nunca te desiludas
entranha do vício
são horas de fazer algo e eu mordo
mordo o filtro nos lábios e fumo
fumo, não fumo que deixei de fumar
mas fumega-me a palavra e eu puxo-a
até que me arda nos lábios
e fumega-me e aspiro-a
aspiro-lhe a fumaça
e forço-a a entrar-me no peito
pelos pulmões que são maiores
e inflam como balões e estoiram
e o peito explode e quase rebenta o coração corre
corre pelo corpo, todo até à extremidade
extremo quero, quero a extrema unção
quero tudo extremo e o corpo treme
treme delírio calafrio e a palavra beata fumaça
esfumaça, esfumaça e fumaça é o que me brota
do peito, pelo nariz pela boca uma voz rouca
e enrolos aros bolas balões de fumo cruzados
enrolados encadeados traçados
forças extremas que só o cansaço me deixa olhar
e aprecio, exausto como se tivesse fumado, um poema
um olhar amoral, viciado que sou em qualquer coisa que arda
desde que me queime a partir das entranhas
até que me seque a boca
e me declame vadio
e fumo e fumo e fumo
mordo o filtro nos lábios e fumo
fumo, não fumo que deixei de fumar
mas fumega-me a palavra e eu puxo-a
até que me arda nos lábios
e fumega-me e aspiro-a
aspiro-lhe a fumaça
e forço-a a entrar-me no peito
pelos pulmões que são maiores
e inflam como balões e estoiram
e o peito explode e quase rebenta o coração corre
corre pelo corpo, todo até à extremidade
extremo quero, quero a extrema unção
quero tudo extremo e o corpo treme
treme delírio calafrio e a palavra beata fumaça
esfumaça, esfumaça e fumaça é o que me brota
do peito, pelo nariz pela boca uma voz rouca
e enrolos aros bolas balões de fumo cruzados
enrolados encadeados traçados
forças extremas que só o cansaço me deixa olhar
e aprecio, exausto como se tivesse fumado, um poema
um olhar amoral, viciado que sou em qualquer coisa que arda
desde que me queime a partir das entranhas
até que me seque a boca
e me declame vadio
e fumo e fumo e fumo
sábado, 27 de fevereiro de 2016
terça-feira, 23 de fevereiro de 2016
à noite, vinga a madrugada
um azul detrás do cinza
e uma aura acobreada varre a paisagem
que inda estremunhada se agita despindo o relento
as flores despertam florais
o aroma é fresco orvalho em doce cor
zumbe na pétala a abelha também flor
trinam os pássaros tons matinais
soltos na pauta que é do vento
como te amo madrugada
sigo teu rumo de alvorada
para ser mais um
pequeno ser que faz o dia nascer
um azul detrás do cinza
e uma aura acobreada varre a paisagem
que inda estremunhada se agita despindo o relento
as flores despertam florais
o aroma é fresco orvalho em doce cor
zumbe na pétala a abelha também flor
trinam os pássaros tons matinais
soltos na pauta que é do vento
como te amo madrugada
sigo teu rumo de alvorada
para ser mais um
pequeno ser que faz o dia nascer
terça-feira, 16 de fevereiro de 2016
um cimbalino
o restolho das vozes é
um murmúrio indecifrado de gente em seus círculos.
pires e chávenas e copos, também em redondo,
gritam se os amontoam e
calam-se às pancadas de molière anunciando
o ronco da máquina: a bica de onde brota um café
expresso, bem tirado, servido a bandeja circular
na curva de um movimento de braço em
corpo bulindo a passo bailarino.
acompanha o sorriso, arredonda lábios, de um e outro lado:
um serve outro toma. agradecidos, ambos.
a colher atravessa o creme e circula na forma da chávena
o pires aprecia, e aguarda, a colherinha de espuma
o café liberta perfeito a hélice do aroma.
o sol encurva os raios e ilumina a fragrância
doura o ar e
solta o vigor da consistência de existir.
o miúdo circula arrastando o olhar
entre mesas e cadeiras
e aprende os passos do bailado
a melodia do aroma
o ritual que um café tem
a razão porque é um cimbalino.
um murmúrio indecifrado de gente em seus círculos.
pires e chávenas e copos, também em redondo,
gritam se os amontoam e
calam-se às pancadas de molière anunciando
o ronco da máquina: a bica de onde brota um café
expresso, bem tirado, servido a bandeja circular
na curva de um movimento de braço em
corpo bulindo a passo bailarino.
acompanha o sorriso, arredonda lábios, de um e outro lado:
um serve outro toma. agradecidos, ambos.
a colher atravessa o creme e circula na forma da chávena
o pires aprecia, e aguarda, a colherinha de espuma
o café liberta perfeito a hélice do aroma.
o sol encurva os raios e ilumina a fragrância
doura o ar e
solta o vigor da consistência de existir.
o miúdo circula arrastando o olhar
entre mesas e cadeiras
e aprende os passos do bailado
a melodia do aroma
o ritual que um café tem
a razão porque é um cimbalino.
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016
acredita
o que te assusta é mais
muito mais que a morte é o esquecimento
que não te recordem
que o vazio não fique
acredita
toda a partida é incompleta
a sopro se lapidam as pedras
sempre brancas
de memórias tuas e das que não tiveste
acredita
há uma possibilidade de heroísmo em cada dia
há uma vida inteira para não desistir de ser herói
o que te assusta é mais
muito mais que a morte é o esquecimento
que não te recordem
que o vazio não fique
acredita
toda a partida é incompleta
a sopro se lapidam as pedras
sempre brancas
de memórias tuas e das que não tiveste
acredita
há uma possibilidade de heroísmo em cada dia
há uma vida inteira para não desistir de ser herói
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016
do vento
do vento
há cor e perfume
há ronco entoa a segredo
aceso em sussurro
há voo denso em volume
há evento lufada
enfuna paisagem
a que soa um sentimento?
há cor e perfume
há ronco entoa a segredo
aceso em sussurro
há voo denso em volume
há evento lufada
enfuna paisagem
a que soa um sentimento?
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016
da poesia
sobre a poesia
há um abraço simples
tão simples e espartano
que requer braço nu em corpo extremo
há um abraço simples
tão simples e espartano
que requer braço nu em corpo extremo
terça-feira, 2 de fevereiro de 2016
do dormir
então durmo
o tempo é de estar
entre o tudo e o nada
sem névoas
sobrevoando sem que o sonho inquiete
o tempo é de estar
entre o tudo e o nada
sem névoas
sobrevoando sem que o sonho inquiete
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016
recordar
o vazio do baú acorda
poeira flutua
em torno do raio de sol inicia-se algo
no vazio do baú
histórias encavalitam tudo
os objetos, se os há
carregam-nas silenciosos
sob o manto das memórias são
poeira flutua
em torno do raio de sol inicia-se algo
no vazio do baú
histórias encavalitam tudo
os objetos, se os há
carregam-nas silenciosos
sob o manto das memórias são
sábado, 30 de janeiro de 2016
inventar-se
perto da forma
o fazer turvo de uma linha
ignora o sentido, ainda, do
aleatório movimento
e anda desliza empina
rodopia e paira
e mergulha afunda inverte
e dispara e plana
não para inspira
expira e faz-se
o fazer turvo de uma linha
ignora o sentido, ainda, do
aleatório movimento
e anda desliza empina
rodopia e paira
e mergulha afunda inverte
e dispara e plana
não para inspira
expira e faz-se
quinta-feira, 21 de janeiro de 2016
aforismos
há algo de bom no atravessar da rua por uma razão sem propósito;
a inutilidade do impulso é um fenómeno estritamente humano, como a adjetivação;
adjetivar é um verbo pouco neutro: se não iça é peia;
a inutilidade do impulso é um fenómeno estritamente humano, como a adjetivação;
adjetivar é um verbo pouco neutro: se não iça é peia;
apontamento para escrever algo
há uma fábula em cada leitura e uma moral em cada história;
há gente em todas as espécies do reino animal;
há animais que rezam e outros que são deuses e alguns alheiam-se;
há minerais que falam sempre mais alto;
há flores, que sendo flores, nascem monstros,
matam e devoram e alimentam-se de corpos e são belas
de um quase romântico;
uma boa história tem todos as personagens que conseguirmos ler e
brincam a tudo o que pudermos entender;
a cada poema nasço mas nunca renasci;
ir além é desobedecer ao rigor do prefixo re;
cada síntese é uma síntese;
o poema é uma história de uma vida inteira e
os versos assinalam passagens;
as estrofes são promontórios de onde se contempla
o balançar das vírgulas, meu respirar é desigual;
não sei nada de morte e sobre a morte nada sei;
sinto que morro, quase sempre, e resisto: vivo do pensar diálogos,
fundo minimalidades até nascer e meu vagido está no olhar;
quando nasço recuso o ponto final;
o que jorra flui e o destino não o quer saber a fonte
há gente em todas as espécies do reino animal;
há animais que rezam e outros que são deuses e alguns alheiam-se;
há minerais que falam sempre mais alto;
há flores, que sendo flores, nascem monstros,
matam e devoram e alimentam-se de corpos e são belas
de um quase romântico;
uma boa história tem todos as personagens que conseguirmos ler e
brincam a tudo o que pudermos entender;
a cada poema nasço mas nunca renasci;
ir além é desobedecer ao rigor do prefixo re;
cada síntese é uma síntese;
o poema é uma história de uma vida inteira e
os versos assinalam passagens;
as estrofes são promontórios de onde se contempla
o balançar das vírgulas, meu respirar é desigual;
não sei nada de morte e sobre a morte nada sei;
sinto que morro, quase sempre, e resisto: vivo do pensar diálogos,
fundo minimalidades até nascer e meu vagido está no olhar;
quando nasço recuso o ponto final;
o que jorra flui e o destino não o quer saber a fonte
domingo, 17 de janeiro de 2016
quinta-feira, 14 de janeiro de 2016
lá longe
as mulheres cantam — gaivotas
— drapeiam os corpos
suspiro translúcido ao sol
alheias a quem olha
insinuantes, porém,
espantam a indiferença
lá longe
o horizonte dilui-se de céu
ruboresce a terra
revelam-se os tons
borbulha a natureza
verão, a tarde inclina-se
a paz aportou aqui
branda leve de penugem
as mulheres cantam — gaivotas
— drapeiam os corpos
suspiro translúcido ao sol
alheias a quem olha
insinuantes, porém,
espantam a indiferença
lá longe
o horizonte dilui-se de céu
ruboresce a terra
revelam-se os tons
borbulha a natureza
verão, a tarde inclina-se
a paz aportou aqui
branda leve de penugem
sexta-feira, 1 de janeiro de 2016
segunda-feira, 28 de dezembro de 2015
ao vento
o vento chegou
ourado movimento
erva ramo árvore folha pedra
balanço pungente
memória desperta despertou
o vento chamando
desliza eleva envolta volteou
o que era? passou
a incerteza
a princípio a pedra, mais penedo,
volumosa fria e cinza redonda
fragmenta-se, depois, e seguindo
calhau aresta cortante ruidosa
continua e, então, é areia suave
de emperra engrenagem,
se movediça absorve sufoca pesado de pedra,
pode encher-se deserto a perder de vista
pode riscar-se praia: a linha incerta
e cintilante aparta a terra do mar
terça-feira, 22 de dezembro de 2015
sábado, 19 de dezembro de 2015
dissociação
a pele me possuiu
mais a mim que eu a ela
uma pequena desigualdade ou
uma simples sensação
quando a ia vestir já não podia
já era eu sem que fosse minha
a das mãos julguei-a luvas
coisa em branco de tomar o mundo
que uso para me afeiçoar
um toque de indagar
uma carícia de cada vez
fluido
a fluidez da forma advinha a distância
lá onde se esfuma a coisa
e as coisas todas
o perto vive e pulsa: tinge, soa e move-se
o longe esfuma-se somente
o personagem inexiste durante
a performance: invadir o sonho
a performance: invadir o sonho
ligar a paisagem e alimentar-se
dela, que o abraça
dela, que o abraça
ao acompanhar da história
(na presença Do Carácter Ambulatório das Paisagens, exposição de pintura de António Melo, a 2015.12.18)
(na presença Do Carácter Ambulatório das Paisagens, exposição de pintura de António Melo, a 2015.12.18)
perspetivando
soletrando a perspetiva
o elemento conjuga-se
e a palavra - perspetiva - forma-se
dentro de quem a visita
a tela era página do texto exposto
a leveza de pincel
esculpe-se a forma da penumbra
erigida no sonho e nada ofusca
de ofuscar vem a impossibilidade de entender
de decifrar a claridade
e o texto não surte
(na presença Do Carácter Ambulatório das Paisagens, exposição de pintura de António Melo, a 2015.12.18)
sexta-feira, 18 de dezembro de 2015
poesia
rumaria às palavras todas
esse bando proferido
em teu nome, para te nomear
voá-las-ia até distinguir
o poema nelas contido
talvez quisessem acolher-me
ou simplesmente encarnar-me
a letras desalinhadas
unidas pela cadência do fluir
esse bando proferido
em teu nome, para te nomear
voá-las-ia até distinguir
o poema nelas contido
talvez quisessem acolher-me
ou simplesmente encarnar-me
a letras desalinhadas
unidas pela cadência do fluir
quinta-feira, 17 de dezembro de 2015
sexta-feira, 11 de dezembro de 2015
forma e sinto
o que não sei dizer e sinto
o que não entendo e sinto
redijo e tomo a forma
do poema ali, que sinto
o que ignoro e sinto
o que me confunde e sinto
rasuro e reescrevo a forma
no verso me esclareço, ou minto
e se me entendo, o sinto
verdade ou mentira, nem sinto
confiro textura e forma
dou azo à brandura que sinto
há um indescritível, o sinto
creio pelo indizível, o sinto
tanjo a fluência da forma
se o faço de cor, eu minto
o que não entendo e sinto
redijo e tomo a forma
do poema ali, que sinto
o que ignoro e sinto
o que me confunde e sinto
rasuro e reescrevo a forma
no verso me esclareço, ou minto
e se me entendo, o sinto
verdade ou mentira, nem sinto
confiro textura e forma
dou azo à brandura que sinto
há um indescritível, o sinto
creio pelo indizível, o sinto
tanjo a fluência da forma
se o faço de cor, eu minto
quinta-feira, 10 de dezembro de 2015
da solidez do pensamento único
cilindro
como teu entendimento se comporta
rola em torno de si e esmaga tudo
todas as flores e jardins
todas as gentes, ruas e praças
todo o movimento
depois, só – em modo único –, esse pensamento
geneticamente nascido para cilindrar cores
e indiferente aos jardins e às ruas
decreta-se omnipresente
com direito a toponímia
porque a praça é a face plana do cilindro
como teu entendimento se comporta
rola em torno de si e esmaga tudo
todas as flores e jardins
todas as gentes, ruas e praças
todo o movimento
depois, só – em modo único –, esse pensamento
geneticamente nascido para cilindrar cores
e indiferente aos jardins e às ruas
decreta-se omnipresente
com direito a toponímia
porque a praça é a face plana do cilindro
domingo, 6 de dezembro de 2015
do que é feita uma selva
a floresta dos pensamentos desatou-se
em selva, um enleado
pensamentos sobrevivem a pensamentos
pensamentos alimentam-se de memórias e nutrem outras
pensamentos engordam sentimentos
e alguns destes amamentam pensamentos
... a selva cresce
em selva, um enleado
pensamentos sobrevivem a pensamentos
pensamentos alimentam-se de memórias e nutrem outras
pensamentos engordam sentimentos
e alguns destes amamentam pensamentos
... a selva cresce
nómada
andar sem fim
ter caminho sem destino
ser presente sem tempo
ser imenso sem limites
de direção e sentido indistintos
sem fito andar sem fim
para onde quer que vá, ir
aonde nada se pode conter
ser brisa ou coisa líquida
abandonar a rotina que não pensa, matuta
habito a amplitude da janela que me toma
diariamente me recolhe os sons da cidade
encastoados nas fachadas de que se fazem os prédios
ter caminho sem destino
ser presente sem tempo
ser imenso sem limites
de direção e sentido indistintos
sem fito andar sem fim
para onde quer que vá, ir
aonde nada se pode conter
ser brisa ou coisa líquida
abandonar a rotina que não pensa, matuta
habito a amplitude da janela que me toma
diariamente me recolhe os sons da cidade
encastoados nas fachadas de que se fazem os prédios
beijos
sobre esse ato
que é de dádiva ou
de recebimento, até;
breve, longo e profundo,
simples toque de boca, de mundo;
acontece na forma doce do acontecer.
segunda-feira, 30 de novembro de 2015
há corvos negros
vi-os
em teus olhos grasnam a aflição
sondam o rumo errando
cortam o ar e não voam
procuram e não entendem
e grasnam
e grasnam
e grasnam
surdos ensurdecedores
grasnam
quis tanto ser-lhes o pouso
recordar-lhes a primavera
ou o morno da cor
e eles grasnando
grasnam e enegrecem
atormentados
não cessam
não param
não pousam
eu que nunca soube nada
ignoro o negrume
que não escureça
desejo
ainda aprendo a ser filho
vi-os
em teus olhos grasnam a aflição
sondam o rumo errando
cortam o ar e não voam
procuram e não entendem
e grasnam
e grasnam
e grasnam
surdos ensurdecedores
grasnam
quis tanto ser-lhes o pouso
recordar-lhes a primavera
ou o morno da cor
e eles grasnando
grasnam e enegrecem
atormentados
não cessam
não param
não pousam
eu que nunca soube nada
ignoro o negrume
que não escureça
desejo
ainda aprendo a ser filho
sábado, 28 de novembro de 2015
à luz da vela
há um conluio entre chama e penumbra
decerto há
a chama bole a penumbra baila
e alongam-se em
movimento longo amarelado
no tom breve estalido da chama
inquieta a penumbra logo
acalma...
a calmaria reluzente da vela
decerto há
a chama bole a penumbra baila
e alongam-se em
movimento longo amarelado
no tom breve estalido da chama
inquieta a penumbra logo
acalma...
a calmaria reluzente da vela
quinta-feira, 26 de novembro de 2015
quarta-feira, 11 de novembro de 2015
os melhores poemas esvoaçam-me
sempre
antes que os possa agarrar
os pássaros libertam-se para viver
há uns tantos que cuido e estimo
vivem comigo:
de onde vão, a onde regressam
amenos de linhas de livro
fizeram-se dóceis
de animais domados
adoráveis, pousam-me na mão
e tão frágeis de espontaneidade
mas os que me agitam esvoaçam-me
sempre
deles seguro a linha do voo
e sou catraio e sou feliz
sempre
antes que os possa agarrar
os pássaros libertam-se para viver
há uns tantos que cuido e estimo
vivem comigo:
de onde vão, a onde regressam
amenos de linhas de livro
fizeram-se dóceis
de animais domados
adoráveis, pousam-me na mão
e tão frágeis de espontaneidade
mas os que me agitam esvoaçam-me
sempre
deles seguro a linha do voo
e sou catraio e sou feliz
segunda-feira, 9 de novembro de 2015
incompreensível
o homem que arranhava o céu
como gato arranhando a vidraça
incompreensível
não toca as nuvens
não chega aos pássaros e tudo mais
que o céu ensina
que o alcance dá
que o além abarca
a vidraça impede invisível
invisivelmente incompreensível
presente bloqueia
e pronto!
e um sem significado de coisas acontecia
como gato arranhando a vidraça
incompreensível
não toca as nuvens
não chega aos pássaros e tudo mais
que o céu ensina
que o alcance dá
que o além abarca
a vidraça impede invisível
invisivelmente incompreensível
presente bloqueia
e pronto!
e um sem significado de coisas acontecia
felicidade
há uma felicidade que não sei contar
não a consigo narrar
quando a vivo não faço mais nada
nem pensar nela
quero
há uma felicidade intrínseca
que vivo por instinto
o resto são tretas
não a consigo narrar
quando a vivo não faço mais nada
nem pensar nela
quero
há uma felicidade intrínseca
que vivo por instinto
o resto são tretas
sábado, 7 de novembro de 2015
não tenho poemas para livros
não tenho poemas para livros
de começo visito-os
ou visitamos-nos
de começo visito-os
ou visitamos-nos
perco-me a olhá-los e vê-los ser
(aos poemas)
(aos poemas)
toco-lhes — tocamos-nos
sinto-os e conto-lhes de mim
histórias desengonçadas
histórias desengonçadas
o sabor dos dias — isso, saboreio-os
(aos poemas)
(aos poemas)
torneamo-nos até obtermos o que queremos
seja poesia
uma vez por outra redijo destas memórias
evocações que parecem poemas
pobres banalidades do indescritível
real que o poema é
confirmo!
não tenho poemas para livros
quarta-feira, 4 de novembro de 2015
até ao final da manhã
as ervas tal como as gigantes das árvores
alimentavam o sonho de voar
e voavam, à sua maneira
que era uma ilusão
mas não era, porque voavam
só alguém que levanta os pés do chão
as julga como não voando
e às liberdades a que se dão as folhas à boleia do vento
uma ilusão
do mesmo modo que para um pássaro voador
um homem não voa
cai ou move-se em cima — ou dentro — de algo que voa
sem meios o homem não voa
nem mesmo aqueles que acreditam que voam em pensamento
não sabem
não sabem a diferença
que há entre pensar voando e voar pensando
no final da manhã
os pássaros voadores tal como os homens
não conhecem a transcendência
a de ensaiar um voo de raízes entranhadas na terra
e mesmo assim voar
e ser tão livre e mais viajado
que os que partem e regressam por artes do movimento
mas que no fundo não o é
e muito menos arte
porque nunca deixaram elevar-se pelas coisas e pelas forças
mantendo da terra a alma que é sua
no final da manhã
no final da tarde
e em todos os nasceres de dia
atente-se que é de ervas que o pássaro faz o ninho
é nas árvores que o constrói
e são elas que o ensinam a voar dando-lhe a segurança de um salto
que quem nunca voou pensa ser no vazio
mas que eles sabem ser um pulo para a vida
ser a força da natureza
as ervas tal como as gigantes das árvores
alimentavam o sonho de voar
e voavam, à sua maneira
que era uma ilusão
mas não era, porque voavam
só alguém que levanta os pés do chão
as julga como não voando
e às liberdades a que se dão as folhas à boleia do vento
uma ilusão
do mesmo modo que para um pássaro voador
um homem não voa
cai ou move-se em cima — ou dentro — de algo que voa
sem meios o homem não voa
nem mesmo aqueles que acreditam que voam em pensamento
não sabem
não sabem a diferença
que há entre pensar voando e voar pensando
no final da manhã
os pássaros voadores tal como os homens
não conhecem a transcendência
a de ensaiar um voo de raízes entranhadas na terra
e mesmo assim voar
e ser tão livre e mais viajado
que os que partem e regressam por artes do movimento
mas que no fundo não o é
e muito menos arte
porque nunca deixaram elevar-se pelas coisas e pelas forças
mantendo da terra a alma que é sua
no final da manhã
no final da tarde
e em todos os nasceres de dia
atente-se que é de ervas que o pássaro faz o ninho
é nas árvores que o constrói
e são elas que o ensinam a voar dando-lhe a segurança de um salto
que quem nunca voou pensa ser no vazio
mas que eles sabem ser um pulo para a vida
ser a força da natureza
sexta-feira, 23 de outubro de 2015
ler o recorte de uma pétala
ler o recorte de uma pétala
caligrafia simples
perene
expõe a vida que corre ou escorre
pinga ou traga
e resplandece
frágil de tão frágil
e robusta mais robusta
que o franzino gesto
que a toca como a sente sem a ler
caligrafia simples
perene
expõe a vida que corre ou escorre
pinga ou traga
e resplandece
frágil de tão frágil
e robusta mais robusta
que o franzino gesto
que a toca como a sente sem a ler
quinta-feira, 22 de outubro de 2015
inconsciente
apagas a luz
sem que percebas a razão
é que estás às escuras
e a luz acesa é uma ilusão
empregas a 3.ª pessoa
e queres falar de ti
em teu estado apagado
procuras a luz sem te ofenderes
e apagas-te
sem que percebas a razão
é que estás às escuras
e a luz acesa é uma ilusão
empregas a 3.ª pessoa
e queres falar de ti
em teu estado apagado
procuras a luz sem te ofenderes
e apagas-te
meta chama
chamas (e dizes chamas
e não chamas dizes)
à janela, acesa
e à luz, aberta
porque chama tem a ver com luz
e dizer não vem ao caso
porque chama é o que sentes
chama é o que acende em ti
quando chamam teu nome
e o que dizem é secundário
a palavra é plástica
tem imagem no som
e ambos geram movimento e forma
o poema finge ser arquitetura
dinâmica em obra feita
entendes porque janela é acesa
e porque a luz se abre
e a chama que se fez em ti?
pudesse eu e chamava-te
e não chamas dizes)
à janela, acesa
e à luz, aberta
porque chama tem a ver com luz
e dizer não vem ao caso
porque chama é o que sentes
chama é o que acende em ti
quando chamam teu nome
e o que dizem é secundário
a palavra é plástica
tem imagem no som
e ambos geram movimento e forma
o poema finge ser arquitetura
dinâmica em obra feita
entendes porque janela é acesa
e porque a luz se abre
e a chama que se fez em ti?
pudesse eu e chamava-te
quarta-feira, 21 de outubro de 2015
sobre o gesto
a poesia já lá estava
chegou o gesto poema
aprimorando
havia um criança debruçada sobre o gesto de
pegar no lápis desenhando flores
à volta do poema, para ficar bonito, dizia
de língua mordida entre beiços, fungando
o nariz ranhoso que adiava limpar
que o empenho no florido era tudo
aqui vou fazer uma nuvem
porque as flores e as histórias gostam de nuvens
com o sol por trás, explicava entregue à criação
que gesto poema emergia do mar de poesia
onde mergulha o pensamento
o de quem gesticula tecendo
o de quem lê pelo gesto também de ler
chegou o gesto poema
aprimorando
havia um criança debruçada sobre o gesto de
pegar no lápis desenhando flores
à volta do poema, para ficar bonito, dizia
de língua mordida entre beiços, fungando
o nariz ranhoso que adiava limpar
que o empenho no florido era tudo
aqui vou fazer uma nuvem
porque as flores e as histórias gostam de nuvens
com o sol por trás, explicava entregue à criação
que gesto poema emergia do mar de poesia
onde mergulha o pensamento
o de quem gesticula tecendo
o de quem lê pelo gesto também de ler
terça-feira, 20 de outubro de 2015
*ismo em solilóquio de um *ista
vou mudar de política
deixarei de comer criancinhas ao pequeno almoço
alimentar-me-ei de reformados e de pensionistas
têm boas carnes, embora mais duras
já sei como os cozinhar: em lume brando
já vi como os conservar: congelo-lhes qualquer coisa
os desempregados dão um bom petisco: temperam
por pouco dinheiro
vou organizar um festim e farei convidados
os que não foram comidos, ainda
regalar-se-ão por usarem talher nesta refeição, ainda
os jovens são os mais ariscos, partem
e não é fácil tirar-lhes o filet
das criancinhas tenho pena, muita pena
há cada vez menos
e eu que gosto tanto delas
deixarei de comer criancinhas ao pequeno almoço
alimentar-me-ei de reformados e de pensionistas
têm boas carnes, embora mais duras
já sei como os cozinhar: em lume brando
já vi como os conservar: congelo-lhes qualquer coisa
os desempregados dão um bom petisco: temperam
por pouco dinheiro
vou organizar um festim e farei convidados
os que não foram comidos, ainda
regalar-se-ão por usarem talher nesta refeição, ainda
os jovens são os mais ariscos, partem
e não é fácil tirar-lhes o filet
das criancinhas tenho pena, muita pena
há cada vez menos
e eu que gosto tanto delas
anti-nada
acreditar?
já não acredito em nada
e também de nada duvido
nada é o denominador comum
e não me convence
nada
é um despojo
a que só a insensatez atenta
- hoje não me apetece nada
ou
- hoje não me apetece
aqui e sempre
o nada tem a desfaçatez de acentuar
o nada que há em nada
se acredito e duvido
se me apetece e não
isso é comigo
e não digo ninguém que é alguém em lugar de nada
já não acredito em nada
e também de nada duvido
nada é o denominador comum
e não me convence
nada
é um despojo
a que só a insensatez atenta
- hoje não me apetece nada
ou
- hoje não me apetece
aqui e sempre
o nada tem a desfaçatez de acentuar
o nada que há em nada
se acredito e duvido
se me apetece e não
isso é comigo
e não digo ninguém que é alguém em lugar de nada
felicidade
gostava de ter um pássaro
gostava de ter um pássaro e dar-to
gostava que tivesses um pássaro
gostava que fosse eu a dar-te o pássaro que tivesses
gostava que o pássaro tomasse algo de ti
e fugisse
voasse longes e pertos como fazem os pássaros
e chilreasse para te tentar
e tentada saísses pela janela
ou voasses da varanda
feliz
e aterrasses aqui como quem regressa de um pulo
depois aninhavas-te assim
confortavas-te assim
aconchegavas-te assim
e querias o ninho que um pássaro teceu de mim
gostava de ter um pássaro e dar-to
gostava que tivesses um pássaro
gostava que fosse eu a dar-te o pássaro que tivesses
gostava que o pássaro tomasse algo de ti
e fugisse
voasse longes e pertos como fazem os pássaros
e chilreasse para te tentar
e tentada saísses pela janela
ou voasses da varanda
feliz
e aterrasses aqui como quem regressa de um pulo
depois aninhavas-te assim
confortavas-te assim
aconchegavas-te assim
e querias o ninho que um pássaro teceu de mim
a chama
arde
arde só
arde porque não há luz
arde sem pensares em tochas
nem em reflexos nem em iluminar
arde somente
fluente esse fogo que há em ti
labaredas como palavras
meu coração puro
com a ideia noutros corações
flameja ardendo erguido
ao alto como poema
volátil como crescer
se o pássaro tem medo de voar não tira os pés do chão
e nunca será
aninhar-se-á
o tempo o fará rastejar
habituar-se-á a abrigar-se no chão
será minhoca de tanto não encarar a luz do dia
arde e eleva-te se o ar o quiser
pulsa
há olhares que precisam do teu
a fogueira é um encontro de labaredas
é celebração
arde só
que tão escuro está
arde só
arde porque não há luz
arde sem pensares em tochas
nem em reflexos nem em iluminar
arde somente
fluente esse fogo que há em ti
labaredas como palavras
meu coração puro
com a ideia noutros corações
flameja ardendo erguido
ao alto como poema
volátil como crescer
se o pássaro tem medo de voar não tira os pés do chão
e nunca será
aninhar-se-á
o tempo o fará rastejar
habituar-se-á a abrigar-se no chão
será minhoca de tanto não encarar a luz do dia
arde e eleva-te se o ar o quiser
pulsa
há olhares que precisam do teu
a fogueira é um encontro de labaredas
é celebração
arde só
que tão escuro está
domingo, 18 de outubro de 2015
sexta-feira, 16 de outubro de 2015
cuidar da primavera
agita-se o sol e o céu
os frutos nas árvores e também as folhas
os pássaros no céu e as nuvens atrás
os ventos mudam-se ou mudaram
enfunam as vozes levantam-se
som dos chilreios
porque as primaveras se fazem na mão de quem se ouve
germinam da forma que pensa
poda-as o povo pelo gorjeio de sabedoria imensa
os frutos nas árvores e também as folhas
os pássaros no céu e as nuvens atrás
os ventos mudam-se ou mudaram
enfunam as vozes levantam-se
som dos chilreios
porque as primaveras se fazem na mão de quem se ouve
germinam da forma que pensa
poda-as o povo pelo gorjeio de sabedoria imensa
domingo, 11 de outubro de 2015
nevrose pessoana
i.
tenho um escrever compulsivo
não sei se
será o mesmo que escrever compulsivamente.
aquela foi a forma na condição de disparo
esta o modo como entendi — é um entendimento indistinto
não identifico a génese, só percebo o ulterior,
contudo, este teve uma origem, uma concepção —,
acontece-me este destempero,
tenho erupções que só depois interpreto
e nem sempre entendo;
são ambíguas ou têm ambiguidade?
terei um pensamento que se quer escrito e não pensado.
a consciência do pensamento adultera-o
e essa violência é-lhe insustentável
é-me compulsivo.
ii.
vou esforçar-me por caminhar, parto
rua abaixo dando frente para a água — pode ser
o mar — para que a rua seja rio;
é de calçada o leito prateado.
serei homem de água em meu barco, as roupas
que envergo, o leme é de incertezas que carrego,
a trajetória meu destino. já não caminho
ando, enfuno ao vento que quero de frente
no meu rosto quero sal
que me chegue aos lábios
que me salgue a alma e
que eu aprenda Portugal.
tenho um escrever compulsivo
não sei se
será o mesmo que escrever compulsivamente.
aquela foi a forma na condição de disparo
esta o modo como entendi — é um entendimento indistinto
não identifico a génese, só percebo o ulterior,
contudo, este teve uma origem, uma concepção —,
acontece-me este destempero,
tenho erupções que só depois interpreto
e nem sempre entendo;
são ambíguas ou têm ambiguidade?
terei um pensamento que se quer escrito e não pensado.
a consciência do pensamento adultera-o
e essa violência é-lhe insustentável
é-me compulsivo.
ii.
vou esforçar-me por caminhar, parto
rua abaixo dando frente para a água — pode ser
o mar — para que a rua seja rio;
é de calçada o leito prateado.
serei homem de água em meu barco, as roupas
que envergo, o leme é de incertezas que carrego,
a trajetória meu destino. já não caminho
ando, enfuno ao vento que quero de frente
no meu rosto quero sal
que me chegue aos lábios
que me salgue a alma e
que eu aprenda Portugal.
sossego sempre que posso
se me permito sair do imerso
se me abandono ao pensamento vago
se me solto em papel de esvoaçar
sobre tudo
sossego sempre que posso
alcançar-me, é arte que não domino
tenho algos que se arrastam
tenho outros que se adiantam
sobre tudo
sossego à tona da poço
ondeio no espelho profundo
sobretudo
drapeio sempre que posso
até inventar meu voo
desejo atravessar o mundo
se me permito sair do imerso
se me abandono ao pensamento vago
se me solto em papel de esvoaçar
sobre tudo
sossego sempre que posso
alcançar-me, é arte que não domino
tenho algos que se arrastam
tenho outros que se adiantam
sobre tudo
sossego à tona da poço
ondeio no espelho profundo
sobretudo
drapeio sempre que posso
até inventar meu voo
desejo atravessar o mundo
sexta-feira, 9 de outubro de 2015
em suspenso
i.
era assim
ainda hoje não tinha chovido
o gato ronronava preguiçoso tomando a janela
a luz chegava coada pelas nuvens
estas intumescidas pelo sol afiguravam-se poderosas
o livro parado na mesa baixa abria-se em páginas indecisas
a marca lá entalada manchara-se a amarelo de dedos e cumpria a sua função
o ar tinha mofo no aroma e
combinava com o desalinho do sofá
com o queimado surro do cortinado
das paredes em torno das molduras
dos quadros
dos retratos
com o empoeirado de véu sobre o tampo dos móveis
com o aveludado poeirento dos objetos
com o fechado morno-estafado da sala
as páginas não balançavam
permaneciam
posavam como monumento, quem sabe
congelando um momento, uma mensagem
poderiam simbolizar algo
o gato espreguiçou-se
havia harmonia
a personagem estava estática
o olhar era fixo, filtrado a baço engordurado de idade
em óculos grossos e tortos ajustados ao rosto cavado pelo tempo
o pensamento estava no momento, em suspenso
congelado algures
era assim
hoje não tinha chovido
nem ontem, mas ainda podia chover
o bichano seria rei da janela, sempre
era assim
ainda hoje não tinha chovido
o gato ronronava preguiçoso tomando a janela
a luz chegava coada pelas nuvens
estas intumescidas pelo sol afiguravam-se poderosas
o livro parado na mesa baixa abria-se em páginas indecisas
a marca lá entalada manchara-se a amarelo de dedos e cumpria a sua função
o ar tinha mofo no aroma e
combinava com o desalinho do sofá
com o queimado surro do cortinado
das paredes em torno das molduras
dos quadros
dos retratos
com o empoeirado de véu sobre o tampo dos móveis
com o aveludado poeirento dos objetos
com o fechado morno-estafado da sala
as páginas não balançavam
permaneciam
posavam como monumento, quem sabe
congelando um momento, uma mensagem
poderiam simbolizar algo
o gato espreguiçou-se
havia harmonia
a personagem estava estática
o olhar era fixo, filtrado a baço engordurado de idade
em óculos grossos e tortos ajustados ao rosto cavado pelo tempo
o pensamento estava no momento, em suspenso
congelado algures
era assim
hoje não tinha chovido
nem ontem, mas ainda podia chover
o bichano seria rei da janela, sempre
ou da sala, se quisesse
ignoraria o poder do volume das nuvens
a proteção da vidraça
o bafio ambiente
as páginas permaneceriam até à corrente de ar
fosse nascida entre a porta e a janela
ou criada pelo movimento
ii.
então
como as páginas
talvez a cortina se agite
um pouco de bafiento saindo da sala e outro ar entrará
o pó desinquietar-se-á do seu estado
ora véu ora aveludado
o sofá manter-se-á em desalinho
o sol continuará enchendo
as nuvens
as janelas
os olhos
os objetos
aquecendo do morno ao esquentar
talvez a personagem esperte
ajeite os óculos
tome o livro
olhe em volta
o gato estacando o ronronar seduzirá para confirmar a janela
sabendo de intuição que não reinará na sala
ainda não choveu mas poderá acontecer
ignoraria o poder do volume das nuvens
a proteção da vidraça
o bafio ambiente
as páginas permaneceriam até à corrente de ar
fosse nascida entre a porta e a janela
ou criada pelo movimento
ii.
então
como as páginas
talvez a cortina se agite
um pouco de bafiento saindo da sala e outro ar entrará
o pó desinquietar-se-á do seu estado
ora véu ora aveludado
o sofá manter-se-á em desalinho
o sol continuará enchendo
as nuvens
as janelas
os olhos
os objetos
aquecendo do morno ao esquentar
talvez a personagem esperte
ajeite os óculos
tome o livro
olhe em volta
o gato estacando o ronronar seduzirá para confirmar a janela
sabendo de intuição que não reinará na sala
ainda não choveu mas poderá acontecer
segunda-feira, 5 de outubro de 2015
aparência
as manhãs poderiam ser-me uma onda
e submergir-me
por vezes sinto-as quase isso...
mas não. são-me metade de uma manta
a outra metade é a tarde
e na outra face está a noite.
o dia é a manta completa
sendo a noite que roça no corpo
o aconchega e conforta
ou estremunha.
o dia envolve sem ser onda.
e submergir-me
por vezes sinto-as quase isso...
mas não. são-me metade de uma manta
a outra metade é a tarde
e na outra face está a noite.
o dia é a manta completa
sendo a noite que roça no corpo
o aconchega e conforta
ou estremunha.
o dia envolve sem ser onda.
diálogo
entre a personagem e a sombra:
– o soslaio do olhar enfraquece quem o usa
– o silêncio pesa quando é mudo
– o nervoso do riso disfarça o embaraço
– o silêncio do choro alimenta-se da mágoa
– o volume da gargalhada afasta o agoiro
– rir é o remédio: interrompe o silêncio e liberta-o do incómodo
– o olhar é a mais silenciosa das armas
– e das fugas...
– e a melhor benesse
– das benesses escolho o sorriso
– o sorriso canta-o o Eugénio
– ...
– o soslaio do olhar enfraquece quem o usa
– o silêncio pesa quando é mudo
– o nervoso do riso disfarça o embaraço
– o silêncio do choro alimenta-se da mágoa
– o volume da gargalhada afasta o agoiro
– rir é o remédio: interrompe o silêncio e liberta-o do incómodo
– o olhar é a mais silenciosa das armas
– e das fugas...
– e a melhor benesse
– das benesses escolho o sorriso
– o sorriso canta-o o Eugénio
– ...
quarta-feira, 30 de setembro de 2015
sexta-feira, 25 de setembro de 2015
todas as vezes que olhares em frente verás o sol nascer.
sempre que olhares o teu smartphone verás todas as aplicações que couberem no pequeno ecrã e
perguntar-te-ás, para que servem, que faria eu se não as tivesse, ou
não perguntarás nada porque perdeste o hábito de perguntar e, pior que tudo, de te interrogares.
e ser-te-á indiferente essa treta do sol-nascente.
sempre que olhares o teu smartphone verás todas as aplicações que couberem no pequeno ecrã e
perguntar-te-ás, para que servem, que faria eu se não as tivesse, ou
não perguntarás nada porque perdeste o hábito de perguntar e, pior que tudo, de te interrogares.
e ser-te-á indiferente essa treta do sol-nascente.
excênctrico
a um canto
uma parede encontra outra
surrealmente
plantada para a encontrar
uma mesa
uma cadeira e mais outra
uma lâmpada e as sombras, tantas
une-as a coerência da cor, a um canto
vultos e sombras têm-se
uma pessoa
e outra pessoa estão, no canto
com os objetos gesticulam o movimento
as sombras, antes inertes, emaranham pelas paredes
cobrem o teto e rasam o chão
partem do canto
as vozes cruzam-se
também com o timbre das coisas
o som dá volume, singelo canto
cheio acolhe no seio
a vida que de si parte.
um canto, quem diria?
uma parede encontra outra
surrealmente
plantada para a encontrar
uma mesa
uma cadeira e mais outra
uma lâmpada e as sombras, tantas
une-as a coerência da cor, a um canto
vultos e sombras têm-se
uma pessoa
e outra pessoa estão, no canto
com os objetos gesticulam o movimento
as sombras, antes inertes, emaranham pelas paredes
cobrem o teto e rasam o chão
partem do canto
as vozes cruzam-se
também com o timbre das coisas
o som dá volume, singelo canto
cheio acolhe no seio
a vida que de si parte.
um canto, quem diria?
viagem
escreve-se a beira-mar
na linha de água o sossego
das pegadas moldadas grão a grão
soam como palavras
profundas distintas ordenadas
a perder de vista
o texto perfeito
escreve-se a manhã
sustida no canto dos pássaros
emplumam-se as nuvens
enfunam-se voos em todas as direções
laicos a perder de vista
em todos os sentidos
o texto perfeito
na linha de água o sossego
das pegadas moldadas grão a grão
soam como palavras
profundas distintas ordenadas
a perder de vista
o texto perfeito
escreve-se a manhã
sustida no canto dos pássaros
emplumam-se as nuvens
enfunam-se voos em todas as direções
laicos a perder de vista
em todos os sentidos
o texto perfeito
quinta-feira, 24 de setembro de 2015
vão
vão.
o do mar é longo e profundo
enche-se de peixes
e florescem-lhe as algas;
agita-se de todas as nuvens
emprenha-se de todas as aves
perfuma-se de todos os ventos.
aos montes confere as vistas.
vão
as águas em rios e lagos
até aos mares, onde foram nascidas e
infinitamente criadas;
levam toda a prata que a vista alcança
escorrem nelas todas as vidas,
as acalentam como se fosse um embalo
e vão.
que vão é inúmero,
prenhe de tudos e ausências;
a forma em criação
tecida de olhares
ideias e coisas,
obras da imaginação.
o do mar é longo e profundo
enche-se de peixes
e florescem-lhe as algas;
agita-se de todas as nuvens
emprenha-se de todas as aves
perfuma-se de todos os ventos.
aos montes confere as vistas.
vão
as águas em rios e lagos
até aos mares, onde foram nascidas e
infinitamente criadas;
levam toda a prata que a vista alcança
escorrem nelas todas as vidas,
as acalentam como se fosse um embalo
e vão.
que vão é inúmero,
prenhe de tudos e ausências;
a forma em criação
tecida de olhares
ideias e coisas,
obras da imaginação.
quarta-feira, 23 de setembro de 2015
à porta
aguardo à porta!
sinto todas as portas onde se aguarda. sinto (!)
a putice que encerram;
são putas,
de putice em portas que fazem aguardar:
o mesmo que jogar tempo ao inferno,
onde tudo arde, até ao arrependimento, de esperar.
continuo ferido de putice,
isto é, manietado aguardando,
com tanta vida para viver e
aguardo, espero, sossego, arrefeço
ou tento arrefecer e ardo à porta,
à puta da porta que odeio até ao desprezo.
ah! como eu odeio e desprezo a incompetência
de quem se faz esperar,
de quem vive esta forma de se afirmar,
putice que tanto odeio.
sinto todas as portas onde se aguarda. sinto (!)
a putice que encerram;
são putas,
de putice em portas que fazem aguardar:
o mesmo que jogar tempo ao inferno,
onde tudo arde, até ao arrependimento, de esperar.
continuo ferido de putice,
isto é, manietado aguardando,
com tanta vida para viver e
aguardo, espero, sossego, arrefeço
ou tento arrefecer e ardo à porta,
à puta da porta que odeio até ao desprezo.
ah! como eu odeio e desprezo a incompetência
de quem se faz esperar,
de quem vive esta forma de se afirmar,
putice que tanto odeio.
a despedida
adeus, é o que fazes paulatinamente
vais-te perdendo nos poucos nadas
despedes-te sem dizeres e sem palavras
demoras atos simples que já foram reflexo
cuidas eternidades e sobeja-te o tempo
alongas o presente
o que sentes é mudo como a tristeza
teu pesar vem do que amas
e desamar não consegues
habituaste-te a ser feliz e não queres partir
pressentes o frio no corpo
ouves ranger
a noite já não tem silêncio
e o silêncio já não tem paz
vais-te perdendo nos poucos nadas
despedes-te sem dizeres e sem palavras
demoras atos simples que já foram reflexo
cuidas eternidades e sobeja-te o tempo
alongas o presente
o que sentes é mudo como a tristeza
teu pesar vem do que amas
e desamar não consegues
habituaste-te a ser feliz e não queres partir
pressentes o frio no corpo
ouves ranger
a noite já não tem silêncio
e o silêncio já não tem paz
meus sonhos guardo-os
como rebanhos, apascento-os;
engalfinham-se brincalhões,
bem alimentados a verde de erva e
a doirado de sol banhado em azul céu,
onde as nuvens passeiam em rebanho, também
pastoreio.
as coisas vãs ouço-as, andam;
arrebanham-se os chocalhos
em melodia em movimento,
forma e volume em poema
ímpeto em texto não justificado.
da lã se toma o conforto
como o quisermos urdir.
como rebanhos, apascento-os;
engalfinham-se brincalhões,
bem alimentados a verde de erva e
a doirado de sol banhado em azul céu,
onde as nuvens passeiam em rebanho, também
pastoreio.
as coisas vãs ouço-as, andam;
arrebanham-se os chocalhos
em melodia em movimento,
forma e volume em poema
ímpeto em texto não justificado.
da lã se toma o conforto
como o quisermos urdir.
segunda-feira, 21 de setembro de 2015
sonho firme
manuel, firme, olhando
o papagaio de papel, zelando
o sonho que era seu
manuel tomou-o na mão
estudou o vento, correu
num alancão botou-o ao ar
ao cordel manobra-o atento
agora voa o papagaio
manuel sente o sonhar
o papagaio de papel, zelando
o sonho que era seu
manuel tomou-o na mão
estudou o vento, correu
num alancão botou-o ao ar
ao cordel manobra-o atento
agora voa o papagaio
manuel sente o sonhar
domingo, 13 de setembro de 2015
maldade
vivia nos confins da vida
era má
fizera-se má
diziam-na má
à oportunidade de melhorar
negou-a
era má
e não saberia ser boa
era má
fizera-se má
diziam-na má
à oportunidade de melhorar
negou-a
era má
e não saberia ser boa
sexta-feira, 11 de setembro de 2015
um país de velhos
um país de velhos é um país medroso
e não alcança;
num país de velhos o certo vale mais
porque há certeza na previsibilidade;
num país de velhos prefere-se a certeza da morte
à imprevisibilidade da vida;
num país de velhos teme-se a a morte
porque é imprevisível a vida além dela;
num país de velhos os jovens são incautos
e tudo o que reluz é passado;
num país de velhos as crianças nascem velhos;
um país de velhos é encolhido e sossegado
o pouco chega "graças a deus";
um país de velhos deixa partir os jovens e não pode lutar;
um país de velhos pelo medo se faz medroso
num país de velhos o futuro apaga-se.
e não alcança;
num país de velhos o certo vale mais
porque há certeza na previsibilidade;
num país de velhos prefere-se a certeza da morte
à imprevisibilidade da vida;
num país de velhos teme-se a a morte
porque é imprevisível a vida além dela;
num país de velhos os jovens são incautos
e tudo o que reluz é passado;
num país de velhos as crianças nascem velhos;
um país de velhos é encolhido e sossegado
o pouco chega "graças a deus";
um país de velhos deixa partir os jovens e não pode lutar;
um país de velhos pelo medo se faz medroso
num país de velhos o futuro apaga-se.
desenho para colorir
pintei sempre dentro das linhas,
tive cuidado,
nunca passei o risco.
podias passar só um bocadinho.
a professora não gostava.
podias pintar só do lado de fora
e também não passavas o risco.
e diziam que eu era maluco.
alguém te disse isso?
não.
mas também não pinto do lado de fora.
mas também não pinto do lado de fora.
muito bem.
ocaso
onde o sol se apaga
em forma avermelhada
que o sol alonga
é tua a vista
onde plantas os momentos
todos numa só mirada
enchem-te o sorriso
que ao sol inspira
em forma avermelhada
que o sol alonga
é tua a vista
onde plantas os momentos
todos numa só mirada
enchem-te o sorriso
que ao sol inspira
quinta-feira, 10 de setembro de 2015
outono
encontrei
o melhor poema do mundo
inscrito no ar
desprende-se a folha e rodopiar
sem uma palavra
encheu-me
de tudo, senti-lhe a alma
tomara fosse minha.
já o ouvira
e visto já o tinha
mas nunca o li.
quis-se momento
fez-se poema
rodopiou-me
ali.
o melhor poema do mundo
inscrito no ar
desprende-se a folha e rodopiar
sem uma palavra
encheu-me
de tudo, senti-lhe a alma
tomara fosse minha.
já o ouvira
e visto já o tinha
mas nunca o li.
quis-se momento
fez-se poema
rodopiou-me
ali.
amargura
há um recanto
naquele muro que o sol tinge
a negro onde a sombra se revela
a daquele muro
do recanto que tem
que o sol não penetra
não há porta ou janela que o deixe entrar.
há sombras que são estados de alma
tal como os muros e os recantos
que o sol nunca varre.
lá vivem líquenes e musgos
e o encanto que guardam rejubilaria ao roçar do sol
abrissem-se as portas
descerrassem-se as janelas
pudesse entrar um raio de alegria.
naquele muro que o sol tinge
a negro onde a sombra se revela
a daquele muro
do recanto que tem
que o sol não penetra
não há porta ou janela que o deixe entrar.
há sombras que são estados de alma
tal como os muros e os recantos
que o sol nunca varre.
lá vivem líquenes e musgos
e o encanto que guardam rejubilaria ao roçar do sol
abrissem-se as portas
descerrassem-se as janelas
pudesse entrar um raio de alegria.
burburinho da manhã
a música diz-se nos passos
o movimento dos corpos é uno
o sol fortalece as cores que estoiram o fundo
pulula a manhã acabadinha de acender
o movimento dos corpos é uno
o sol fortalece as cores que estoiram o fundo
pulula a manhã acabadinha de acender
a morte
a morte insinua-se
é uma ideia que não deixa muita coisa acontecer
até que aparece arrebatadora
só, mas dissimulada, como é seu feitio
é uma ideia que não deixa muita coisa acontecer
até que aparece arrebatadora
só, mas dissimulada, como é seu feitio
sexta-feira, 4 de setembro de 2015
rumo
busco a solidão do encontro
colho o só da palavra
e destilo-o no sentimento.
do convívio habito os silêncios.
os sons, por fora, são ruídos impenetráveis
por dentro, são fantasias e afagam.
no silêncio assenta o promontório.
só, um método para arrumar rumos.
colho o só da palavra
e destilo-o no sentimento.
do convívio habito os silêncios.
os sons, por fora, são ruídos impenetráveis
por dentro, são fantasias e afagam.
no silêncio assenta o promontório.
só, um método para arrumar rumos.
onde rebentam as ondas, sonhos e pesadelos
por fim resta a areia de uma praia
o rebentar das ondas que afagam
o rosto que a morte te deu.
o sorriso que fora teu, acabou
envergas vermelho-azul notável
vulto de boneco caído no areal
arrepiaste a surdez cega e muda
a razão porque os muros são construídos
após o dia em que foram demolidos.
a consciência, onde existe, está doída
a praia tomou-te o corpo
velado por ondas mansas
o retrato é o pesar em momento
em que naufragamos.
como teu pai morreremos sempre
até depois do esquecimento
a teu pai o desgosto
a nós a vergonha da passividade
o nosso horror.
o rebentar das ondas que afagam
o rosto que a morte te deu.
o sorriso que fora teu, acabou
envergas vermelho-azul notável
vulto de boneco caído no areal
arrepiaste a surdez cega e muda
a razão porque os muros são construídos
após o dia em que foram demolidos.
a consciência, onde existe, está doída
a praia tomou-te o corpo
velado por ondas mansas
o retrato é o pesar em momento
em que naufragamos.
como teu pai morreremos sempre
até depois do esquecimento
a teu pai o desgosto
a nós a vergonha da passividade
o nosso horror.
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