quarta-feira, 6 de abril de 2016

como dizem e o como escrevem é artifício
como sentem é onde germina a arte

o odor onde residem as memórias
tem fundo de gaveta e pó de prateleira
tem escuro de guarda-fato

no debulhar de um álbum
as fotos acenam aos dedos
e estes acorrem
sedentos
ao bulício de reencontro

há uma espécie de magia linda
no assomar das memórias
de entre névoas e mofos com aroma
a pó-de-arroz e bolas naftalina

terça-feira, 22 de março de 2016

a minha morte irá chegar como um buquê
flores em verde de ramagem
reluzente de orvalho
em invólucro transparente de celofane
cingido a laço volumoso pendendo enrolado
um cartão de mensagem condolente ainda
por escrever
minha morte chegará sem nada para dizer
e eu morrerei, somente, como folha que partiu

segunda-feira, 21 de março de 2016

chilro 3

chilro
uma bicada no silêncio
se o pássaro o prende no bico
se o puxa em volteio
enrola-se o chilro
será chilreio

não tenho cunho e destino
onde me prenda para crescer
então me faço me tento-e-caio
me ergo enterro
e morro e vivo
em tom marinho adolescer

biografia do meu interesse

escolho que o sol me tinja
encobre-me o norte que me endurece
onde aprendi a cor nos montes e no ar
entre céu e terra alongo o mar

meu horizonte é amplo e longínquo
o puro é branco e frio e reluz
em frente o sol ofusca escarlate
o morno é de uma ausência inexplicável

meu mote é de talha granítica virada a sul

quinta-feira, 17 de março de 2016

princípio da esperança

reluzente
chama ainda não quente
tímido sorridente
trémulo
embalo que sustenta

palavras loucas, não se escrevam
se rabisquem a giz, quando muito
que o tempo as leve
se apaguem por ação da humidade
do sol e da chuva se descorem até nada serem
paredes arejadas limpa-as o tempo
dos gritos que as esmurraram

sexta-feira, 11 de março de 2016

chilro 2

chilro é uma bicada no silêncio
se o pássaro o prende no bico
e o puxa em volteio
enrola-se o chilro e será chilreio

terça-feira, 8 de março de 2016

chilro 1

chilro é uma bicada de pássaro no silêncio
se o prende no bico e o puxa em volteio
o chilro se enrola até ser chilreio

quinta-feira, 3 de março de 2016

viver

embocar na estrada poeirenta ecoando
a fragrância matinal não ser
o pôr-do-sol a indicar o caminho
andar para ele, andar por lá, ainda
visitá-lo ao adormecer e sonhá-lo

pela manhã a luz acordará
comigo, enroscada em meus olhos
despertaremos pássaros
a hora de nos fazermos ao voo

terça-feira, 1 de março de 2016

a maior desilusão edita-se na alma

pecado virginal

sempre que atravesso a rua
esta rua que nos separa
vejo-te pendida de corpo sobre o lado esquerdo
pendida sobre o coração que abafas com o rosto preso e
humedeces com todos os mucos
e o empapas e dele fazes papas pendidas
como todo o teu corpo

pois desflora-te, que rebentem livres as flores em ti semeadas
desfolha-te das securas que te empalidecem
desonra-te das honrarias que te desalinham a felicidade
desalinha-te deslinda-te até que o sol doire seja o que for; às vezes
começa num grão de poeira, que seja!
que seja e desobriga-te
desabriga-te e salta nos charcos
encharca-te e cheirarás o prazer da lama
desalma-te e enlouquecerás por coisas mínimas
então se farão reluzentes, ímpares e deslumbrantes
desmancha-te desmembra-te desforra-te e dança
rompe o raio de sol, arredonda-lhe a trajetória
curvar-se-á à tua passagem
desmama-te do pendor que nunca foi teu, desama-o
desmanda-te para todo sempre
a rua tem dois lados paralelos: nunca se encontram
nunca se opõem e visitá-los é atravessar a rua
é perigoso mas necessário
coragem para não seres pendida
desenrola-te desenrodilha-te desemmerda-te
para que nunca te desiludas

entranha do vício

são horas de fazer algo e eu mordo
mordo o filtro nos lábios e fumo
fumo, não fumo que deixei de fumar
mas fumega-me a palavra e eu puxo-a
até que me arda nos lábios
e fumega-me e aspiro-a
aspiro-lhe a fumaça
e forço-a a entrar-me no peito
pelos pulmões que são maiores
e inflam como balões e estoiram
e o peito explode e quase rebenta o coração corre
corre pelo corpo,  todo até à extremidade
extremo quero, quero a extrema unção
quero tudo extremo e o corpo treme
treme delírio calafrio e a palavra beata fumaça
esfumaça, esfumaça e fumaça é o que me brota
do peito, pelo nariz pela boca uma voz rouca
e enrolos aros bolas balões de fumo cruzados
enrolados encadeados traçados
forças extremas que só o cansaço me deixa olhar
e aprecio, exausto como se tivesse fumado, um poema 
um olhar amoral, viciado que sou em qualquer coisa que arda
desde que me queime a partir das entranhas
até que me seque a boca
e me declame vadio
e fumo e fumo e fumo

sábado, 27 de fevereiro de 2016

abraço fundo
o silêncio límpido
a entrega não se diz
do amor pouco se conta
nos olhos o quente mudo
do completo estar

tudo é pequeno minúsculo e
tudo é desimportante e nulo
além do abraço profundo

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

à noite, vinga a madrugada
um azul detrás do cinza
e uma aura acobreada varre a paisagem
que inda estremunhada se agita despindo o relento
as flores despertam florais
o aroma é fresco orvalho em doce cor
zumbe na pétala a abelha também flor
trinam os pássaros tons matinais
soltos na pauta que é do vento
como te amo madrugada
sigo teu rumo de alvorada
para ser mais um
pequeno ser que faz o dia nascer

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

um cimbalino

o restolho das vozes é
um murmúrio indecifrado de gente em seus círculos.

pires e chávenas e copos, também em redondo,
gritam se os amontoam e
calam-se às pancadas de molière anunciando
o ronco da máquina: a bica de onde brota um café
expresso, bem tirado, servido a bandeja circular
na curva de um movimento de braço em
corpo bulindo a passo bailarino.
acompanha o sorriso, arredonda lábios, de um e outro lado:
um serve outro toma. agradecidos, ambos.

a colher atravessa o creme e circula na forma da chávena
o pires aprecia, e aguarda, a colherinha de espuma
o café liberta perfeito a hélice do aroma.

o sol encurva os raios e ilumina a fragrância
doura o ar e
solta o vigor da consistência de existir.

o miúdo circula arrastando o olhar
entre mesas e cadeiras
e aprende os passos do bailado
a melodia do aroma
o ritual que um café tem
a razão porque é um cimbalino.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

acredita
o que te assusta é mais
muito mais que a morte é o esquecimento
que não te recordem
que o vazio não fique

acredita
toda a partida é incompleta
a sopro se lapidam as pedras
sempre brancas
de memórias tuas e das que não tiveste

acredita
há uma possibilidade de heroísmo em cada dia
há uma vida inteira para não desistir de ser herói

a cores o teu nome e
as palavras geradas para o proferir

as que sonhei - são
belas - reluzem na tua aragem
pego-lhes, que não se digam
mimo-as, que não se tresmalhem

são de uma cor enchente
de íris em arco corpulento
o céu à terra erguido

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

do vento

do vento
há cor e perfume
há ronco entoa a segredo
aceso em sussurro
há voo denso em volume
há evento lufada
enfuna paisagem

a que soa um sentimento?

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

do dormir

então durmo
o tempo é de estar
entre o tudo e o nada
sem névoas
sobrevoando sem que o sonho inquiete

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

recordar

o vazio do baú acorda
poeira flutua
em torno do raio de sol inicia-se algo

no vazio do baú
histórias encavalitam tudo
os objetos, se os há
carregam-nas silenciosos
sob o manto das memórias são

sábado, 30 de janeiro de 2016

inventar-se

perto da forma
o fazer turvo de uma linha
ignora o sentido, ainda, do
aleatório movimento
e anda desliza empina
rodopia e paira
e mergulha afunda inverte
e dispara e plana
não para inspira
expira e faz-se

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

o amanhecer, de tão escuro, não foi;
apagou-se ainda antes do nascer,
cedeu a vez; chegada a hora,
o dia, indiferenciado se fez

aforismos

há algo de bom no atravessar da rua por uma razão sem propósito;
a inutilidade do impulso é um fenómeno estritamente humano, como a adjetivação;
adjetivar é um verbo pouco neutro: se não iça é peia;

apontamento para escrever algo

há uma fábula em cada leitura e uma moral em cada história;
há gente em todas as espécies do reino animal;
há animais que rezam e outros que são deuses e alguns alheiam-se;
há minerais que falam sempre mais alto;
há flores, que sendo flores, nascem monstros,
matam e devoram e alimentam-se de corpos e são belas
de um quase romântico;
uma boa história tem todos as personagens que conseguirmos ler e
brincam a tudo o que pudermos entender;

a cada poema nasço mas nunca renasci;
ir além é desobedecer ao rigor do prefixo re;
cada síntese é uma síntese;
o poema é uma história de uma vida inteira e
os versos assinalam passagens;
as estrofes são promontórios de onde se contempla
o balançar das vírgulas, meu respirar é desigual;

não sei nada de morte e sobre a morte nada sei;
sinto que morro, quase sempre, e resisto: vivo do pensar diálogos,
fundo minimalidades até nascer e meu vagido está no olhar;
quando nasço recuso o ponto final;
o que jorra flui e o destino não o quer saber a fonte

domingo, 17 de janeiro de 2016

sob o casaco, a gola envolta, atestava um sorriso — tudo belo,
todo doce —, a fronte — face e olhos e boca — era una e
o todo: a unidade para acreditar que ser feliz é possível.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

adeus
a palavra mais dura
de pronúncia tão definitiva
como tudo o que se confia a deus

lá longe
as mulheres cantam — gaivotas
— drapeiam os corpos
suspiro translúcido ao sol
alheias a quem olha
insinuantes, porém,
espantam a indiferença
lá longe
o horizonte dilui-se de céu
ruboresce a terra
revelam-se os tons
borbulha a natureza

verão, a tarde inclina-se 
a paz aportou aqui
branda leve de penugem

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

a vida existe da troca 
com outras vidas, a vida é todas as vidas 
tocando-se, algumas, impregnando-se, outras,
ainda, cruzando-se, 
dependendo da morfologia acontecente

um poema poderia ser um pensamento 
encorpado pela formosura forma do momento

há o destino que normalmente se diz das pessoas
eu encontro destino nas árvores
as do meu jardim que serão no futuro?
cuido-as — amo-as — e quero para elas dignidade
projeto-as como algo de mim e teremos
destino: é isso que nos une em todas as estações 

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

todos os movimentos acorriam à luz
acender era ação sôfrega 
interruptor o destino
medo emoção em escuro estado

ao vento

o vento chegou 
ourado movimento
erva ramo árvore folha pedra
balanço pungente
memória desperta despertou
o vento chamando
desliza eleva envolta volteou
o que era? passou

a incerteza

a princípio a pedra, mais penedo,
volumosa fria e cinza redonda
fragmenta-se, depois, e seguindo  
calhau aresta cortante ruidosa
continua e, então, é areia suave 
de emperra engrenagem,
se movediça absorve sufoca pesado de pedra,
pode encher-se deserto a perder de vista
pode riscar-se praia: a linha incerta
e cintilante aparta a terra do mar

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

ao escrever sobre nuvens
aprendi que eram tanto e
que eram tão pouco de vapor de água
por lá avistei, longínqua,
a criança que se ignorou

sábado, 19 de dezembro de 2015

dissociação

a pele me possuiu
mais a mim que eu a ela
uma pequena desigualdade ou
uma simples sensação 
quando a ia vestir já não podia 
já era eu sem que fosse minha
a das mãos julguei-a luvas
coisa em branco de tomar o mundo
que uso para me afeiçoar 
um toque de indagar
uma carícia de cada vez 

fluido

a fluidez da forma advinha a distância 
lá onde se esfuma a coisa 
e as coisas todas
o perto vive e pulsa: tinge, soa e move-se
o longe esfuma-se somente 
o personagem inexiste durante 
a performance: invadir o sonho 
ligar a paisagem e alimentar-se 
dela, que o abraça
ao acompanhar da história

(na presença Do Carácter Ambulatório das Paisagens, exposição de pintura de António Melo, a 2015.12.18)

perspetivando

soletrando a perspetiva 
o elemento conjuga-se 
e a palavra - perspetiva - forma-se
dentro de quem a visita
a tela era página do texto exposto
a leveza de pincel 
esculpe-se a forma da penumbra
erigida no sonho e nada ofusca

de ofuscar vem  a impossibilidade de entender
de decifrar a claridade
e o texto não surte

(na presença Do Carácter Ambulatório das Paisagens, exposição de pintura de António Melo, a 2015.12.18)

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

poesia

rumaria às palavras todas
esse bando proferido
em teu nome, para te nomear
voá-las-ia até distinguir
o poema nelas contido
talvez quisessem acolher-me
ou simplesmente encarnar-me
a letras desalinhadas
unidas pela cadência do fluir

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

empolgante
é a leitura nunca ser definitiva.
e a escrita, pensada para permanecer, talvez
permaneça na forma e na aparência;
e no conteúdo constata-se uma volatilidade própria:
aquela que a leitura lhe confere.
esta relação cede à história a propriedade de ser
matematicamente
múltipla do texto.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

forma e sinto

o que não sei dizer e sinto
o que não entendo e sinto
redijo e tomo a forma
do poema ali, que sinto

o que ignoro e sinto
o que me confunde e sinto
rasuro e reescrevo a forma
no verso me esclareço, ou minto

e se me entendo, o sinto
verdade ou mentira, nem sinto
confiro textura e forma
dou azo à brandura que sinto

há um indescritível, o sinto
creio pelo indizível, o sinto
tanjo a fluência da forma
se o faço de cor, eu minto

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

da solidez do pensamento único

cilindro
como teu entendimento se comporta
rola em torno de si e esmaga tudo
todas as flores e jardins
todas as gentes, ruas e praças
todo o movimento
depois, só – em modo único –, esse pensamento
geneticamente nascido para cilindrar cores
e indiferente aos jardins e às ruas
decreta-se omnipresente
com direito a toponímia
porque a praça é a face plana do cilindro

domingo, 6 de dezembro de 2015

do que é feita uma selva

a floresta dos pensamentos desatou-se
em selva, um enleado
pensamentos sobrevivem a pensamentos
pensamentos alimentam-se de memórias e nutrem outras
pensamentos engordam sentimentos
e alguns destes amamentam pensamentos
... a selva cresce

envelhecer é um gerar de saudade
a primeira nasce do passado
depois a do imediato, porque se não repete
por último, chega aquela do que se gostaria que viesse

nómada

andar sem fim
ter caminho sem destino
ser presente sem tempo

ser imenso sem limites
de direção e sentido indistintos
sem fito andar sem fim
para onde quer que vá, ir
aonde nada se pode conter
ser brisa ou coisa líquida
abandonar a rotina que não pensa, matuta

habito a amplitude da janela que me toma
diariamente me recolhe os sons da cidade
encastoados nas fachadas de que se fazem os prédios

beijos

sobre esse ato
que é de dádiva ou 
de recebimento, até; 
breve, longo e profundo,
simples toque de boca, de mundo;
acontece na forma doce do acontecer.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

há corvos negros
vi-os
em teus olhos grasnam a aflição
sondam o rumo errando
cortam o ar e não voam
procuram e não entendem
e grasnam
e grasnam
e grasnam
surdos ensurdecedores
grasnam

quis tanto ser-lhes o pouso
recordar-lhes a primavera
ou o morno da cor
e eles grasnando
grasnam e enegrecem
atormentados
não cessam
não param
não pousam

eu que nunca soube nada
ignoro o negrume
que não escureça
desejo
ainda aprendo a ser filho

sábado, 28 de novembro de 2015

à luz da vela

há um conluio entre chama e penumbra
decerto há
a chama bole a penumbra baila
e alongam-se em
movimento longo amarelado
no tom breve estalido da chama
inquieta a penumbra logo
acalma...
a calmaria reluzente da vela

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

o que vem das manhãs
frescas
não lhe sei o nome
sei que é
puro
frio
frio branco do gelo
há uma beleza
nobre
o que vem das manhãs

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

destino é uma ilusão
vê-se o que se imagina
até que tudo pareça, então
predestinado

os melhores poemas esvoaçam-me
sempre
antes que os possa agarrar
os pássaros libertam-se para viver

há uns tantos que cuido e estimo
vivem comigo:
de onde vão, a onde regressam
amenos de linhas de livro

fizeram-se dóceis
de animais domados
adoráveis, pousam-me na mão
e tão frágeis de espontaneidade

mas os que me agitam esvoaçam-me
sempre
deles seguro a linha do voo
e sou catraio e sou feliz

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

incompreensível

o homem que arranhava o céu

como gato arranhando a vidraça
incompreensível
não toca as nuvens
não chega aos pássaros e tudo mais
que o céu ensina
que o alcance dá
que o além abarca
a vidraça impede invisível
invisivelmente incompreensível
presente bloqueia
e pronto!

e um sem significado de coisas acontecia

felicidade

há uma felicidade que não sei contar
não a consigo narrar
quando a vivo não faço mais nada
nem pensar nela
quero

há uma felicidade intrínseca
que vivo por instinto

o resto são tretas

sábado, 7 de novembro de 2015

não tenho poemas para livros

não tenho poemas para livros
de começo visito-os
ou visitamos-nos
perco-me a olhá-los e vê-los ser
(aos poemas)
toco-lhes — tocamos-nos
sinto-os e conto-lhes de mim
histórias desengonçadas
o sabor dos dias — isso, saboreio-os
(aos poemas)
torneamo-nos até obtermos o que queremos 
seja poesia
uma vez por outra redijo destas memórias 
evocações que parecem poemas
pobres banalidades do indescritível
real que o poema é
confirmo!
não tenho poemas para livros

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

até ao final da manhã
as ervas tal como as gigantes das árvores
alimentavam o sonho de voar
e voavam, à sua maneira
que era uma ilusão
mas não era, porque voavam
só alguém que levanta os pés do chão
as julga como não voando
e às liberdades a que se dão as folhas à boleia do vento
uma ilusão
do mesmo modo que para um pássaro voador
um homem não voa
cai ou move-se em cima — ou dentro — de algo que voa
sem meios o homem não voa
nem mesmo aqueles que acreditam que voam em pensamento
não sabem
não sabem a diferença
que há entre pensar voando e voar pensando
no final da manhã
os pássaros voadores tal como os homens
não conhecem a transcendência
a de ensaiar um voo de raízes entranhadas na terra
e mesmo assim voar
e ser tão livre e mais viajado
que os que partem e regressam por artes do movimento
mas que no fundo não o é
e muito menos arte
porque nunca deixaram elevar-se pelas coisas e pelas forças
mantendo da terra a alma que é sua
no final da manhã
no final da tarde
e em todos os nasceres de dia
atente-se que é de ervas que o pássaro faz o ninho
é nas árvores que o constrói
e são elas que o ensinam a voar dando-lhe a segurança de um salto
que quem nunca voou pensa ser no vazio
mas que eles sabem ser um pulo para a vida
ser a força da natureza

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

ler o recorte de uma pétala

ler o recorte de uma pétala
caligrafia simples
perene
expõe a vida que corre ou escorre
pinga ou traga
e resplandece
frágil de tão frágil
e robusta mais robusta
que o franzino gesto
que a toca como a sente sem a ler

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

inconsciente

apagas a luz
sem que percebas a razão
é que estás às escuras
e a luz acesa é uma ilusão
empregas a 3.ª pessoa
e queres falar de ti
em teu estado apagado
procuras a luz sem te ofenderes
e apagas-te

meta chama

chamas (e dizes chamas
e não chamas dizes)
à janela, acesa
e à luz, aberta

porque chama tem a ver com luz
e dizer não vem ao caso
porque chama é o que sentes
chama é o que acende em ti
quando chamam teu nome
e o que dizem é secundário

a palavra é plástica
tem imagem no som
e ambos geram movimento e forma

o poema finge ser arquitetura
dinâmica em obra feita

entendes porque janela é acesa
e porque a luz se abre
e a chama que se fez em ti?

pudesse eu e chamava-te

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

o que por silêncio nunca foi dito
o que pela palavra nunca foi escrito
é sentido não revelado
um esdruxulamente sentido
ou um sofregamente inspirado

sobre o gesto

a poesia já lá estava
chegou o gesto poema
aprimorando

havia um criança debruçada sobre o gesto de
pegar no lápis desenhando flores
à volta do poema, para ficar bonito, dizia
de língua mordida entre beiços, fungando
o nariz ranhoso que adiava limpar
que o empenho no florido era tudo

aqui vou fazer uma nuvem
porque as flores e as histórias gostam de nuvens
com o sol por trás, explicava entregue à criação
que gesto poema emergia do mar de poesia

onde mergulha o pensamento
o de quem gesticula tecendo
o de quem lê pelo gesto também de ler

abraços
enleios longos leves em laços
fortes mais que braços
que braços dão
que braços levam
estendem
soltam
braços que partem do coração

terça-feira, 20 de outubro de 2015

*ismo em solilóquio de um *ista

vou mudar de política
deixarei de comer criancinhas ao pequeno almoço
alimentar-me-ei de reformados e de pensionistas
têm boas carnes, embora mais duras
já sei como os cozinhar: em lume brando
já vi como os conservar: congelo-lhes qualquer coisa
os desempregados dão um bom petisco: temperam
por pouco dinheiro
vou organizar um festim e farei convidados
os que não foram comidos, ainda
regalar-se-ão por usarem talher nesta refeição, ainda
os jovens são os mais ariscos, partem
e não é fácil tirar-lhes o filet
das criancinhas tenho pena, muita pena
há cada vez menos
e eu que gosto tanto delas

anti-nada

acreditar?
já não acredito em nada
e também de nada duvido

nada é o denominador comum
e não me convence
nada

é um despojo
a que só a insensatez atenta
- hoje não me apetece nada
ou
- hoje não me apetece

aqui e sempre
o nada tem a desfaçatez de acentuar
o nada que há em nada

se acredito e duvido
se me apetece e não
isso é comigo
e não digo ninguém que é alguém em lugar de nada

felicidade

gostava de ter um pássaro
gostava de ter um pássaro e dar-to
gostava que tivesses um pássaro
gostava que fosse eu a dar-te o pássaro que tivesses
gostava que o pássaro tomasse algo de ti
e fugisse
voasse longes e pertos como fazem os pássaros
e chilreasse para te tentar
e tentada saísses pela janela
ou voasses da varanda
feliz
e aterrasses aqui como quem regressa de um pulo
depois aninhavas-te assim
confortavas-te assim
aconchegavas-te assim
e querias o ninho que um pássaro teceu de mim

sou
sou transitório
não como quem está em trânsito
nem sequer em transição
sou transitório por definição
sê-lo-ei

definitiva é a morte que em mim lavra
definitivamente

a chama

arde
arde só
arde porque não há luz
arde sem pensares em tochas
nem em reflexos nem em iluminar
arde somente
fluente esse fogo que há em ti
labaredas como palavras
meu coração puro
com a ideia noutros corações
flameja ardendo erguido
ao alto como poema
volátil como crescer

se o pássaro tem medo de voar não tira os pés do chão
e nunca será
aninhar-se-á
o tempo o fará rastejar
habituar-se-á a abrigar-se no chão
será minhoca de tanto não encarar a luz do dia

arde e eleva-te se o ar o quiser
pulsa
há olhares que precisam do teu
a fogueira é um encontro de labaredas
é celebração
arde só
que tão escuro está

domingo, 18 de outubro de 2015

pela voz de peito falava com ele
o peito, ponto de ecos
profundos dos fundos a reverberar
ecos das coisas que um dia foram
física em ciência de magoar

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

cuidar da primavera

agita-se o sol e o céu
os frutos nas árvores e também as folhas
os pássaros no céu e as nuvens atrás
os ventos mudam-se ou mudaram
enfunam as vozes levantam-se
som dos chilreios
porque as primaveras se fazem na mão de quem se ouve
germinam da forma que pensa
poda-as o povo pelo gorjeio de sabedoria imensa

domingo, 11 de outubro de 2015

teus beijos de mulher doce
tão céu, de celestiais
têm corpo, sabem corporais
perfumados, de tão florais

teus beijos de mulher doce
são meus e não me pertencem
adoçam o melhor de mim

teus beijos de mulher doce
quero-os, não para os ter
são para me purificar

nevrose pessoana

i.
tenho um escrever compulsivo
não sei se
será o mesmo que escrever compulsivamente.
aquela foi a forma na condição de disparo
esta o modo como entendi — é um entendimento indistinto
não identifico a génese, só percebo o ulterior,
contudo, este teve uma origem, uma concepção —,
acontece-me este destempero,
tenho erupções que só depois interpreto
e nem sempre entendo;
são ambíguas ou têm ambiguidade?
terei um pensamento que se quer escrito e não pensado.
a consciência do pensamento adultera-o
e essa violência é-lhe insustentável
é-me compulsivo.

ii.
vou esforçar-me por caminhar, parto
rua abaixo dando frente para a água — pode ser
o mar — para que a rua seja rio;
é de calçada o leito prateado.
serei homem de água em meu barco, as roupas
que envergo, o leme é de incertezas que carrego,
a trajetória meu destino. já não caminho
ando, enfuno ao vento que quero de frente
no meu rosto quero sal
que me chegue aos lábios
que me salgue a alma e
que eu aprenda Portugal.

sossego sempre que posso
se me permito sair do imerso
se me abandono ao pensamento vago
se me solto em papel de esvoaçar
sobre tudo

sossego sempre que posso
alcançar-me, é arte que não domino
tenho algos que se arrastam
tenho outros que se adiantam
sobre tudo

sossego à tona da poço
ondeio no espelho profundo
sobretudo
drapeio sempre que posso
até inventar meu voo
desejo atravessar o mundo

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

em suspenso

i.
era assim
ainda hoje não tinha chovido
o gato ronronava preguiçoso tomando a janela
a luz chegava coada pelas nuvens
estas intumescidas pelo sol afiguravam-se poderosas
o livro parado na mesa baixa abria-se em páginas indecisas
a marca lá entalada manchara-se a amarelo de dedos e cumpria a sua função
o ar tinha mofo no aroma e
combinava com o desalinho do sofá
com o queimado surro do cortinado
das paredes em torno das molduras
dos quadros
dos retratos
com o empoeirado de véu sobre o tampo dos móveis
com o aveludado poeirento dos objetos
com o fechado morno-estafado da sala

as páginas não balançavam
permaneciam
posavam como monumento, quem sabe
congelando um momento, uma mensagem
poderiam simbolizar algo
o gato espreguiçou-se
havia harmonia
a personagem estava estática
o olhar era fixo, filtrado a baço engordurado de idade
em óculos grossos e tortos ajustados ao rosto cavado pelo tempo
o pensamento estava no momento, em suspenso
congelado algures

era assim
hoje não tinha chovido
nem ontem, mas ainda podia chover
o bichano seria rei da janela, sempre
ou da sala, se quisesse
ignoraria o poder do volume das nuvens
a proteção da vidraça
o bafio ambiente
as páginas permaneceriam até à corrente de ar
fosse nascida entre a porta e a janela
ou criada pelo movimento

ii.
então
como as páginas
talvez a cortina se agite
um pouco de bafiento saindo da sala e outro ar entrará
o pó desinquietar-se-á do seu estado
ora véu ora aveludado
o sofá manter-se-á em desalinho
o sol continuará enchendo
as nuvens
as janelas
os olhos
os objetos
aquecendo do morno ao esquentar
talvez a personagem esperte
ajeite os óculos
tome o livro
olhe em volta
o gato estacando o ronronar seduzirá para confirmar a janela
sabendo de intuição que não reinará na sala
ainda não choveu mas poderá acontecer

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

aparência

as manhãs poderiam ser-me uma onda
e submergir-me
por vezes sinto-as quase isso...
mas não. são-me metade de uma manta
a outra metade é a tarde
e na outra face está a noite.
o dia é a manta completa
sendo a noite que roça no corpo
o aconchega e conforta
ou estremunha.
o dia envolve sem ser onda.

que horror
esta erosão que me vai por dentro
rói, raspa, desgasta, tritura, fura e
sei lá que mais fará

dá-me a tua mão para pernoitar
conforta meu sono
acalma o ardor que me corrói
desde dentro preciso de uma noite para dormir

diálogo

entre a personagem e a sombra:

– o soslaio do olhar enfraquece quem o usa
– o silêncio pesa quando é mudo
– o nervoso do riso disfarça o embaraço
– o silêncio do choro alimenta-se da mágoa
– o volume da gargalhada afasta o agoiro
– rir é o remédio: interrompe o silêncio e liberta-o do incómodo
– o olhar é a mais silenciosa das armas
– e das fugas...
– e a melhor benesse
– das benesses escolho o sorriso
– o sorriso canta-o o Eugénio
– ...

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

"... o neoliberalismo não tem futuro!
a vida tem a última palavra ..."

todas as vezes que olhares em frente verás o sol nascer.
sempre que olhares o teu smartphone verás todas as aplicações que couberem no pequeno ecrã e
perguntar-te-ás, para que servem, que faria eu se não as tivesse, ou
não perguntarás nada porque perdeste o hábito de perguntar e, pior que tudo, de te interrogares.
e ser-te-á indiferente essa treta do sol-nascente.

ouçam a erva nascer
escutarão a voz do povo
burburinho crescente
agora em tom de lamento
agora tingida de medo
o que ouvem sussurro
é grito à vossa surdez

excênctrico

a um canto
uma parede encontra outra
surrealmente
plantada para a encontrar

uma mesa
uma cadeira e mais outra
uma lâmpada e as sombras, tantas
une-as a coerência da cor, a um canto
vultos e sombras têm-se

uma pessoa
e outra pessoa estão, no canto
com os objetos gesticulam o movimento
as sombras, antes inertes, emaranham pelas paredes
cobrem o teto e rasam o chão
partem do canto

as vozes cruzam-se
também com o timbre das coisas
o som dá volume, singelo canto
cheio acolhe no seio
a vida que de si parte.
um canto, quem diria?

viagem

escreve-se a beira-mar
na linha de água o sossego
das pegadas moldadas grão a grão
soam como palavras
profundas distintas ordenadas
a perder de vista
o texto perfeito

escreve-se a manhã
sustida no canto dos pássaros
emplumam-se as nuvens
enfunam-se voos em todas as direções
laicos a perder de vista
em todos os sentidos
o texto perfeito

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

vão

vão.
o do mar é longo e profundo
enche-se de peixes
e florescem-lhe as algas;
agita-se de todas as nuvens
emprenha-se de todas as aves
perfuma-se de todos os ventos.
aos montes confere as vistas.

vão
as águas em rios e lagos
até aos mares, onde foram nascidas e
infinitamente criadas;
levam toda a prata que a vista alcança
escorrem nelas todas as vidas,
as acalentam como se fosse um embalo

e vão.
que vão é inúmero,
prenhe de tudos e ausências;
a forma em criação
tecida de olhares
ideias e coisas,
obras da imaginação.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

à porta

aguardo à porta!
sinto todas as portas onde se aguarda. sinto (!)
a putice que encerram;
são putas,
de putice em portas que fazem aguardar:
o mesmo que jogar tempo ao inferno,
onde tudo arde, até ao arrependimento, de esperar.
continuo ferido de putice,
isto é, manietado aguardando,
com tanta vida para viver e
aguardo, espero, sossego, arrefeço
ou tento arrefecer e ardo à porta,
à puta da porta que odeio até ao desprezo.
ah! como eu odeio e desprezo a incompetência
de quem se faz esperar,
de quem vive esta forma de se afirmar,
putice que tanto odeio.

a despedida

adeus, é o que fazes paulatinamente
vais-te perdendo nos poucos nadas
despedes-te sem dizeres e sem palavras
demoras atos simples que já foram reflexo
cuidas eternidades e sobeja-te o tempo
alongas o presente
o que sentes é mudo como a tristeza
teu pesar vem do que amas
e desamar não consegues
habituaste-te a ser feliz e não queres partir

pressentes o frio no corpo
ouves ranger
a noite já não tem silêncio
e o silêncio já não tem paz

meus sonhos guardo-os
como rebanhos, apascento-os;
engalfinham-se brincalhões,
bem alimentados a verde de erva e
a doirado de sol banhado em azul céu,
onde as nuvens passeiam em rebanho, também
pastoreio.

as coisas vãs ouço-as, andam;
arrebanham-se os chocalhos
em melodia em movimento,
forma e volume em poema
ímpeto em texto não justificado.
da lã se toma o conforto
como o quisermos urdir.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

sonho firme

manuel, firme, olhando
o papagaio de papel, zelando
o sonho que era seu

manuel tomou-o na mão
estudou o vento, correu
num alancão botou-o ao ar

ao cordel manobra-o atento
agora voa o papagaio
manuel sente o sonhar

domingo, 13 de setembro de 2015

maldade

vivia nos confins da vida
era má
fizera-se má
diziam-na má
à oportunidade de melhorar
negou-a
era má
e não saberia ser boa

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

um país de velhos

um país de velhos é um país medroso
e não alcança;
num país de velhos o certo vale mais
porque há certeza na previsibilidade;
num país de velhos prefere-se a certeza da morte
à imprevisibilidade da vida;
num país de velhos teme-se a a morte
porque é imprevisível a vida além dela;
num país de velhos os jovens são incautos
e tudo o que reluz é passado;
num país de velhos as crianças nascem velhos;
um país de velhos é encolhido e sossegado
o pouco chega "graças a deus";
um país de velhos deixa partir os jovens e não pode lutar;
um país de velhos pelo medo se faz medroso
num país de velhos o futuro apaga-se.

desenho para colorir

pintei sempre dentro das linhas,
tive cuidado, 
nunca passei o risco. 

podias passar só um bocadinho.

a professora não gostava.

podias pintar só do lado de fora
e também não passavas o risco.

e diziam que eu era maluco.

alguém te disse isso?

não.
mas também não pinto do lado de fora.

muito bem.

ocaso

onde o sol se apaga
em forma avermelhada
que o sol alonga
é tua a vista
onde plantas os momentos
todos numa só mirada
enchem-te o sorriso
que ao sol inspira

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

 a melhor lei não precisa de ser escrita. 
porém, é respeitada por todos, ainda antes de ser cumprida. 

outono

encontrei
o melhor poema do mundo
inscrito no ar
desprende-se a folha e rodopiar
sem uma palavra
encheu-me
de tudo, senti-lhe a alma
tomara fosse minha.
já o ouvira
e visto já o tinha
mas nunca o li.
quis-se momento
fez-se poema
rodopiou-me
ali.

amargura

há um recanto
naquele muro que o sol tinge
a negro onde a sombra se revela
a daquele muro
do recanto que tem
que o sol não penetra
não há porta ou janela que o deixe entrar.

há sombras que são estados de alma
tal como os muros e os recantos
que o sol nunca varre.
lá vivem líquenes e musgos
e o encanto que guardam rejubilaria ao roçar do sol
abrissem-se as portas
descerrassem-se as janelas
pudesse entrar um raio de alegria.

burburinho da manhã

a música diz-se nos passos
o movimento dos corpos é uno
o sol fortalece as cores que estoiram o fundo
pulula a manhã acabadinha de acender

a morte

a morte insinua-se
é uma ideia que não deixa muita coisa acontecer
até que aparece arrebatadora
só, mas dissimulada, como é seu feitio

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

rumo

busco a solidão do encontro
colho o só da palavra
e destilo-o no sentimento.
do convívio habito os silêncios.
os sons, por fora, são ruídos impenetráveis
por dentro, são fantasias e afagam.
no silêncio assenta o promontório.
só, um método para arrumar rumos.

onde rebentam as ondas, sonhos e pesadelos

por fim resta a areia de uma praia
o rebentar das ondas que afagam
o rosto que a morte te deu.
o sorriso que fora teu, acabou
envergas vermelho-azul notável
vulto de boneco caído no areal
arrepiaste a surdez cega e muda
a razão porque os muros são construídos
após o dia em que foram demolidos.
a consciência, onde existe, está doída
a praia tomou-te o corpo
velado por ondas mansas
o retrato é o pesar em momento
em que naufragamos.
como teu pai morreremos sempre
até depois do esquecimento
a teu pai o desgosto
a nós a vergonha da passividade
o nosso horror.