sábado, 20 de agosto de 2016

ainda é tarde
ao tempo sobra o rumo

alguma vez serei luz?
ou só a manhã que não sabe existir?

à pergunta dos loucos
responde o puzzle dos significados

nem tudo passa, só,
há o que frutifica à passagem

ainda é tarde 
o tempo não se avoluma

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

a cor desacanha o dia 
é de azuis e amarelos
de verdes e vermelhos
em tom de ser alumia

é uma cor que grita, canta e ri
é uma cor que pula, voa e anda
é cor a porta, janela e autocarro
em tom de rua ensolarada
de manhã pequena desocupada
a passo gerúndio corado
é domingo ou será sábado
podendo ser até feriado

quinta-feira, 28 de julho de 2016

i.
as flores se aprimoram por gerações
para seduzirem, o que fazem com mestria:
são belas, ainda que se desconheça o propósito:
algumas para se alimentarem,
outras pelo nobre desígnio da reprodução

ii.
há um vento que concorda comigo
falo e ouve-me
ouço-o, responde-me rumor de folhas
e refresca-me
a cadeira em que repouso bamboleia
suave, pendulando concordância

quarta-feira, 27 de julho de 2016

ao rubro
é onde a dança nos põe
no olho da ebulição
o gesto deflagra movimento
há um inconsciente nisto
e a graciosidade que se espelha
vem de dentro

o rei dos peixes

eu pequeno
à lareira, meu avô dizia histórias fantásticas,
chamava-as de contos.
adorávamos o do rei dos peixes,
sabíamo-lo de cor: magnífico.
meu avô enchia-nos do melhor que imaginávamos,
era o rei, tal a força da sua generosidade,
eu era peixe para ter um rei assim

quarta-feira, 20 de julho de 2016

ares da beira-mar

o marulho deste mar tem
ondas pequenas, chegam e
enrolam-se nas pedras às risadinhas

vejo as pedras hilariarem-se pelo contorno
das ondas e pelos banhos de salpicos

foliam duas formas da mesma realidade

ao largo, as ondas são mais
vigorosas: enormes roncadoras como
fossem soltas de longa clausura
ou
empurradas por força maior
que desconhecem

provirão da agitação dos peixes
pujantes no bater de barbatanas e
nos jorros de água que expelem de guelras arejadas
ou
ainda, serão coisa de sereia:
sabe-se que instigam o mar
que ondula a voz de água e sal
em melopeia de encanto, se matiza
a aragem, cantando

a realidade tem uma presença de vento
toma todas as formas, até as mais invisíveis

sexta-feira, 15 de julho de 2016

o sopro

tomou a chama dourada
da vela enchameada
o pavio fumegou
afirmava a tristeza
pelo brilho que se apagou

dizer

no íntimo de
cada palavra vive
uma ideia que se aprimora
para ser numa história

é coisa breve de brisa
como borboleteando
obtém um quase soletrado
encorpando a natureza do voo

terça-feira, 28 de junho de 2016

há cavalos que perduram em seu rasto,
por mais paisagem que passe;
são de trote longo,
de galope poderoso
e têm vontade equina. frente ao sol
recortam-lhe o brilho na forma do seu perfil

sexta-feira, 17 de junho de 2016

floriu manhã
fresca de primavera

bebo manhã
e respiro primavera
o florido converteu-se olhar

ensaio respirar manhã
quero beber primavera
sondo o desconhecido em flor

o que faço poderá nunca ser
porém há olhos primavera

disgrafia

escrever
de luz apagada, escrever
palavras encavalitadas
de letras, também
em frases que se julgam versos
seres iluminados
emergentes
da escuridão que apaga a luz
no adro onde convivem cegueiras

rumoreja

rumoreja
por enquanto rumoreja, só
a um odor morno anunciador
do verão, ainda brisa

e ouve-se
esse bater de asa ocioso
a cigarra ou a abelha
que escuto borboleta
e rumoreja

vaga de onda
esse vai e vem sem fim
de um indecifrável embalo
rumoreja
em suspenso de flor
belo leve livre maior
de interpretar
saboreando o ciciar

rumoreja

terça-feira, 31 de maio de 2016

talvez
o dia seja uma partícula mínima
onde assentamos momentaneamente.
depois, algures durante o sono,
muda-se a partícula
e acordamos noutra que não distinguimos da anterior.

as partículas sucedem-se,
porém, vemo-nos sempre na antecedente,
há mudanças que nunca percebemos. por vezes,
esforçamo-nos para que tudo fique igual:
desejamos o imutável...

o passado, em todas as suas partículas,
ensinou-nos o desfrutar do presente,
o futuro serve-nos a utopia
com que ocupamos o agora, o que nos faz levantar,
preparar o pulo,
o que realizamos durante o sono,
para a partícula seguinte.
talvez.

a ocultação ou
a não aceitação de si,
no todo ou em parte,
geram o enigmático do ser;
traduz a intraduzível dificuldade:
entender-se.

o que se desoculta ou
o que se aceita,
transparece; este é,
porém, um processo interminável.

domingo, 29 de maio de 2016

fica-te bem o luar
com que atas o cabelo
que enlaças nos dedos
e tamborilas um mistério
a mesa é tua
fica-te bem
o luar o rumorejo
e a luz da vela
é bela
fica-te bem ao luar
cobiça-te o cabelo
transborda-te o olhar
fica-te bem a felicidade

sexta-feira, 27 de maio de 2016

pulsão

mantinha a luz acesa,
sempre, o quadradinho luzente
era seu; o ato: adornar a rua,
queria-a radiosa.
via-a menear-se vaidosa e nua
passeando sua
janela brinco, colar
pingente, anel,
jóia em corpo encastoada:
o luzir permanente.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

e se desconversássemos um pouco
— sugere-me o poema —

para despojarmos as palavras do comum
que o sentido lhes venha do som gerado no íntimo

para as conversas desabotoarem enredos
em vez de descreverem um enleado de tangentes

para que as pessoas sigam mãos-dadas com os poemas
fossem filhos com os pais

para ouvirmos a voz de dentro: a que declama
a poesia que desagua em nós

perfeitos são os versos ditos no olhar do encontro:
o poema cristalino

quinta-feira, 12 de maio de 2016

a oposição

eles
acumulam ódios
usaram os seus como lastro
acamam os restantes
camada a camada
enche-os um pesadume
afogar-se-ão berrando impropérios
todos precisamos quem reme
cada qual no seu estilo
todos no mesmo rumo

sexta-feira, 6 de maio de 2016

dos beirais

dos beirais
a água pula
gotejam pardais
líquidos chilreios
chapinham
traquinam
crepita abril
maio e muito mais