sexta-feira, 17 de março de 2017

teu nome é
verbo em verso
aberto
seio em concha
par-em-par
explicar como se respira
uma inutilidade

comprar um colar vazio
uma inutilidade maior

explicar a inutilidade
uma heresia

querer um poema útil
uma heresia maior
a vida conjuga-se com viver
outros verbos conferem-lhe o tom
ora temporário, pouco definitivo
em tom de riacho
ameno
límpido
corrente
jorra o teu sorriso

ser azul

ser azul
tomar-se de várias cores, de azul
ser céu ou para lá rumar, em azul
estar inverso a inundar, de azul
e abarcar a terra, em azul
pintada da cor do mar, azul
e não caber, transbordar azul
de azul ser
tenho felicidades tuas, ainda
as cuidavas pela manhã, colhi-as
como quem as surripia, levei-as
no meu andar, passeio-as
voando na passada, trauteio
um tom de assobiar

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

eu corro em
teu sorriso simples e cheio como desenho de infância
colorido de recreio
eu pulo e rodopio
eu voo
eu me embalo
e permaneço

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

é dezembro, porém
as manhãs despertam maio
é em março que se inicia a primavera
corre um fresco que se fará doce ao florir
o vigor de junho alaga o corpo de alma
em setembro vindimam-se carinhos
e a pequena ave desponta do nobre ninho
em dezembro também
se o verbo parasse
e o movimento não fosse
de dentro da palavra
sucumbiria

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

pós-humanidade

houve tempo, os homens eram de pau
aparência seca, acastanhada, aqui
e ali uma greta na madeira fendida

flutuavam na água e no vento
sentiam-se primos das árvores
com ligação pueril à fauna
no peito suspiravam pelo pulsar universal

uns existiam no tempo do sol e das intempéries
outros especializavam-se, espantar as aves, por exemplo
alguns tomavam a vontade superior como sua,
diariamente, usavam cordões
e se moviam pela habilidade de mãos do criador

todos, mas todos mesmo, temiam o fogo que arde e queima
curtiam na boca o sabor a lenha
e adormeciam ao som do crepitar do inferno

hoje, nos tempos de hoje, os homens são
...

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

do fundo
além da crosta no furo e na fenda
limita o saco além da boca
rompe no peito o sentimento
tão forte e profundo como o pensamento
profundo profundo profundo
base suporte e balanço do mundo

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

desesperança

não há lugar para jardins
não há espaço para flores
e os pássaros não têm onde voar

tombam nadas da mão
pendem estéreis os sonhos
de nadas tão nada que são

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

encantamento

da flor
acerquei-me dela
como para...

sem verbo a pétala
mimosa
acerquei-me dela
como...

a cor delicada
macieza
o mimo
acerquei-me dela
só...

existindo

terça-feira, 15 de novembro de 2016

continuando

todos os tropeços
são almas que rosnam
não te inquietes
nunca te culpes
recorda, já passou, a tua mãe
afaga o beijo que te acariciou

de súbito

o de anuncia a eminência
que o inesperado pode ter
pontua de previsível, talvez

explica-se o nem sempre da surpresa
sendo esta um asseio
se se procura resposta a piropos
que  de súbito – são-no
todavia, esperados
criam lugar ao espanto
até justificam a estranheza

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

azul de azuis

encanta-me o azul das folhas
tingidas desta estação
um azul de árvore fosse
de azuis que o não são

têm um fundo de céu
juntam um toque de chão
uma pinta verde cor de verão
se os verões fossem verdes
de azuis que o não são

mas o azul das folhas é
luz que morde a atenção
límpida como o ar 
tem a frescura do mar
tão livre como o pairar
cadenciando ao pulsar azul 
do coração em azul peito
se os peitos fossem
azuis que o não são

terça-feira, 11 de outubro de 2016

existenciar

o passado é de matéria inconstante.
o futuro sustenta-se na ideia de eternidade.
o presente urde-se mutante e eterno; é
uma impossibilidade: em sentido concreto
confirma a existência como milagre.

preguiçar

encosto o olhar ao
pensamento em fim-de-tarde, por aí ficar,
largueza fora, planura
saboreando o ar

o ideal sem sonhar
pairar ameno, leveza em sentimento
instante pleno, ápice
corpo a assoalhar

piscos, os olhos teimam
fechar e tudo verem, ainda tocar
o reluzente acontecendo
crepitar do entardecer

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Coimbra

um certo ar de ser
Coimbra

corre-te nas artérias
um fundo encapelado
rimando com resignado
Coimbra

uma rima improvável
um quase sem sentido
como em ti, Coimbra
o o e o i recusam o ditongo
enleiam-se na consoante
e formam sílaba, a sua.
então unem-se na palavra
acentuando-se 

Coimbra
de vontades várias

Coimbra
de sonância assíncrona