segunda-feira, 19 de março de 2018

quando eu morrer será amanhã.
a luz apagar-se-á solene

mirarei a sala sem desejar ir

deixarei o murmúrio do público
entrando na noite lá fora

e pairarei, como eu gosto

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

monólogos

 de que lado me olhas?
 como se fosse sábado
 gostava que me visses domingo
 sábado é o início e o auge
 domingo é a solenidade
 e domingo é cansaço
 e o descansar
 acordar de ressaca
 domingo tem o entusiasmo da roupa nova, a festa e...
 gosto de partir ao sábado e deixar o domingo para reparar
 vês-me sábado?
 queres-te domingo?
(silêncio)
 acho que o lado esquerdo me favorece mais...

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

sonho com os dias
abertos à luz, simples,
de coisas belas como os voos,
essas aragens frescas e
rodopiantes.

à pedra, talha-a a água inquieta
nem sempre pura
afiada de macieza e convicção
de envolver envolvendo-se.

dizer é um compromisso
convicto de envolvência.

à sombra inaudível da palavra
o impronunciável responde surdo,
em gesto vago
sumido e rouco de coisa cansada.

e o dizer morre
ainda antes de nascer

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

são riquezas, as memórias
fragrâncias do olhar
entesouradas no íntimo
que se descobrem no peito

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

nascerão pássaros e voarão dias
a colina recortará sol e nuvens
o mar zoará rouco
o bucólico terá a brevidade de um sopro
a inexistência será minha por um instante
eu imitá-los-ei como fiz a vida toda

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

escrevamos todas as letras de uma vez só
PLAM!!!!!
e teremos um abecedário chapado
onde quer que seja, todas as letras
um gorgolejo
a sonância duma probabilidade

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

é manhã

as ruas correm, sem esvaziar,
para as vielas, adentram portas,
um corrupio de frenesins, onde pára a quietude?

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

as flores não caem, desfolham,
transformam-se para esvoaçar, pétala a pétala,
e o fruto prospera ao redor da semente, preparando a sementeira

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

fala-me de amor
esse murmúrio
conjuga-o com fogo e diz-me
ainda é dia?
pressinto
ainda há olhar

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

i
sobre  o casario estira-se a sombra
cobre o volume de cada coisa

há um modo embriagado de tomar o tempo,
aos tragos, sentindo-o no corpo

há o esvoaçar dos pássaros, libertador,
trespassa a sombra a golpes de asa e eleva-se

ao casario
em cujo ventre os dias habitam miudezas

ii
as cidades são de um respirar ofegante
correm pela pressa de chegar
geram o burburinho da partida que preenche e
apazigua os ruídos do próprio corpo
encobre a internalidade do dia, desodoriza
e o ar corre inodoro sensabor

impaciente, a cidade estende-se
devorando o tempo, imune aos esvoaços
e ao quebrantar da sombra
interpretando a criatura que a zelará

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

mãe, meu olhar sente-só
a saudade abunda no jardim
os lírios perguntam teu nome
as rosas desfolham-se
e teus passos não as acolhem
as pétalas vão no vento
errantes, sem destino
perdidas sem teu olhar

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

da tormenta à boa esperança

lançar o poema do avesso
ferrar o hálito da sede
fitar a pupila do vazio
dobrar o abismo da saudade
afundar na profundez do céu

terça-feira, 14 de novembro de 2017

o rio até à nascente
o alpendre sossega
as folhas esvoaçam
todos os outonos passam
aguardam um pouco e vão

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

há sítios onde estou, sempre
saboreando a permanência
dos ninhos nas palavras,
perpétuos, eu delirando
cada partícula, desfolhando-a
como um livro, orgulhoso
como se um poema me lesse

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

poder-se-ia colher a tarde e
como um fruto maduro, saboreá-la
suculenta doce carnuda cheia e
sobretudo...
sobretudo olhá-la de dentro
pulsar nela
ser o pulsar dela e dela ser
pertencer-lhe
como do jardim são os seres vivos e
os bancos, esses seres ondulantes
que tomam os olhares e acolhem
corpos em despojamento

poder-se-ia colher a tarde
sobretudo
enquanto a brisa a sobrevoa e
perpassa o corpo
hum.... morno de regaço que embala
amamenta e, colhendo-se,
sobretudo
não se consome

afinal é disso que se fazem as tardes
sentidos e corpo envolto em brisa
abraços que as tardes têm

domingo, 22 de outubro de 2017

o silêncio ensurdece quem dele abusa
é uma estirpe fastidiosa
de colher tédio

os regalos volatizam-se
soam a carrossel
suspendem-se na melhor volta
pelos olhos me incendeias
uma verdade forjada a fogo
indelével, a paixão
o sonho é
uma forma poética do desejo:
imiscui-se nas realidades e urde
o encantamento: o mesmo que
compõe cantos dos chilreios
escuta murmúrios nos marulhos
sorve frescura no gélido:
é ser inocência sem idade:
toma o pico de uma euforia sem tempo
alimenta a serenidade do entardecer

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

alguém terá a verdadeira noção de
quantos dias tem o ano?
meu dia, hoje, teve muitos dias
tantos que me esqueci de os contar
ou me perdi, perco-me sempre
na contabilidade dos dias
talvez porque sopro para o ar
na intenção de assobiar sopro as horas
voam como aviões de papel
longas e soltas, pousando aqui
e ali onde as cores chilreiam
desafiando a física do movimento
testando a química da emoção
e eu que não sei assobiar
que também não sei contar voos
esqueço-me
esqueço-me dos quantos vão
esqueço-me de mudar de dia
esqueço-me que não sei assobiar
e sopro
sopro e murmuro os dias todos de hoje
também os de amanhã, os de ontem, os de sempre
citá-os-ia como ladainha se
disso ocorresse necessidade
recordo-os como os vivo
indispensáveis, revigorantes como um banho
e imerso suponho-me onde as cores tagarelam
onde os pássaros doiram horas coloridas
que gracejam como aviões de papel felizes
alguém terá, realmente, a noção de quantos dias tem o ano?
e da insignificância dessa conta?
dessa impossibilidade insolente?

terça-feira, 5 de setembro de 2017

e sentava-me eu
nos limites do horizonte
fossem bordas
de um lago, de um rio 
de qualquer mar
com os pés mergulhados
em fresco molhado
súbito e refrescante
corpo acima, alma adentro
furacão
satisfação mãe de todos os sorrisos
de ser feliz