terça-feira, 15 de maio de 2018

minha mãe revela-me o mundo inteiro
a cada beijo
a cada carícia
a cada olhar
que eu vou descobrindo aos poucos
serei as promessas que faço a mim mesmo
que as soube, sempre, ainda antes de ocorrerem,
desejos serem, ambições até,
utopias a engrandecerem do peito para fora,
tal sol quente
que aquece
porque irradia o que lhe vai por dentro

quinta-feira, 10 de maio de 2018

eutanásia

o que de nós perpassa
é o gume frio do orvalho lúcido da manhã
ou o entardecer embalado pelo rumor do dia?

ontem recortávamos bonecos de papel
que desdobrámos pelas janelas. a casa era nossa e
a alegria pertencia-nos.

o jardim corre (ou corria?) para nós,
toma-nos para uma roda. e abandonámos a mão...

os olhares não urdem
nada.

é outono. a folha cai sem significado.
ao gelo da madrugada responde o adormecimento.

entardece invernoso e escuro.
o horizonte hoje não veio.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

teu nome

teu nome
escreve-o 3 vezes
lê-o 3 vezes
ouve-o, escutando-te
3 vezes, soletra-o
corre-o de trás para a frente
e no inverso
se zoar íntimo
teu nome será

a palavra

a palavra em si mesma é inacabada
o som que perpassa dá-lhe íntimo.
no verso suspende-se, a palavra viva
brinca, paira.
no poema a palavra enche prenhe
a cor e forma.
a leitura corre tonalidades
de onde despontam primaveras.
claro, isto são dizeres de
imperfeições suspensas
pendentes de intimidades
talvez fecundas, como as estações

segunda-feira, 9 de abril de 2018

empurravas-me
encosta a baixo que me fizesse ao voo
eu agarrava-te na vertigem do chão que fugia
e ficavamos-nos nos braços pairando
na permanência de quem se ama

sexta-feira, 6 de abril de 2018

glossário ainda sem título

nascer
a imortalidade em ideia
o voo ao futuro

imortalidade
tédio como modalidade
inalcançável

ideia
explosão na vacuidade
a luz
o estrondo
eureka
se germina é inodora
insonsa e insonora

voar
a arte de pairar
batendo asas
ou não

futuro
uma probabilidade
em que se acredita
escrita com efe ou fê
como fé

poemar
sem tempo
reformar o sentido para sentir
voar de pés na terra
voar nos pés da terra
poderia até
de um gesto acender a luz
que ilumina o firmamento
para ser todo
para ti

sexta-feira, 23 de março de 2018

alimento
a profunda angústia para escrever
impossibilidades que vão em mim
o desassossego de as tornar possíveis
as ânsias de as encarar
desenhei voos como os sentia
brisas e suaves em cor maresia
a borboleteei no tom de jardim
bulindo fora e dentro de mim

quarta-feira, 21 de março de 2018

galgar

o verbo dos galgos
da braveza do mar
da folia do brincar
da coragem a esbanjar
da extravagância do rio
da cobiça de vencer
do ímpeto de uma lebre que foge de morrer
de um galgo que tudo galga atrás dela a correr

segunda-feira, 19 de março de 2018

quando eu morrer será amanhã.
a luz apagar-se-á solene

mirarei a sala sem desejar ir

deixarei o murmúrio do público
entrando na noite lá fora

e pairarei, como eu gosto

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

monólogos

– de que lado me olhas?
– como se fosse sábado
– gostava que me visses domingo
– sábado é o início e o auge
– domingo é a solenidade
– e domingo é cansaço
– e o descansar
– acordar de ressaca
– domingo tem o entusiasmo da roupa nova, a festa e...
– gosto de partir ao sábado e deixar o domingo para reparar
– vês-me sábado?
– queres-te domingo?
(silêncio)
– acho que o lado esquerdo me favorece mais...

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

sonho com os dias
abertos à luz, simples,
de coisas belas como os voos,
essas aragens frescas e
rodopiantes.

à pedra, talha-a a água inquieta
nem sempre pura
afiada de macieza e convicção
de envolver envolvendo-se.

dizer é um compromisso
convicto de envolvência.

à sombra inaudível da palavra
o impronunciável responde surdo,
em gesto vago
sumido e rouco de coisa cansada.

e o dizer morre
ainda antes de nascer

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

são riquezas, as memórias
fragrâncias do olhar
entesouradas no íntimo
que se descobrem no peito

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

nascerão pássaros e voarão dias
a colina recortará sol e nuvens
o mar zoará rouco
o bucólico terá a brevidade de um sopro
a inexistência será minha por um instante
eu imitá-los-ei como fiz a vida toda

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

escrevamos todas as letras de uma vez só
PLAM!!!!!
e teremos um abecedário chapado
onde quer que seja, todas as letras
um gorgolejo
a sonância duma probabilidade

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

é manhã

as ruas correm, sem esvaziar,
para as vielas, adentram portas,
um corrupio de frenesins, onde pára a quietude?

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

as flores não caem, desfolham,
transformam-se para esvoaçar, pétala a pétala,
e o fruto prospera ao redor da semente, preparando a sementeira

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

fala-me de amor
esse murmúrio
conjuga-o com fogo e diz-me
ainda é dia?
pressinto
ainda há olhar