chegaste, olhaste-me e foste embora. nada mais.
deixaste-me desassossegado, amargurado por causa do teu partir. o resto fez-me bem; guardei a tua aparição e o teu olhar e acomodei-os na minha colecção de coisas boas que tão minuciosamente guardo e cuido.
o teu partir é que não suporto porque já não sei como te ter, como te preservar. deixaste-me sem uma zanga maltrapilha. pura e simplesmente foste. de quando em vez anuncias-te para que não me esqueça que existes que fomos grandes companheiros, inseparáveis talvez. o talvez faz-me agora todo o sentido porque nos afastámos e continuas-me alheia, tão alheia que já quase não consigo voltar a imaginar-me contigo.
fazes-me falta, vontade, força da minha vida.
se eu pudesse tu serias o meu único desejo.
terça-feira, 31 de maio de 2011
sina
amote, linda
cor da minha esperança
querote, morno
aconchego da minha alma
desejote, ternura
gesto que terminas em mim
conforto da minha vida
precisote, olhar
brilho colorido deste dia
serei teu, regaço
fonte do meu existir
amote, linda
querote, aconcehego morno
desejote, ternura
precisote, olhar
serei teu
porque é este o meu viver
cor da minha esperança
querote, morno
aconchego da minha alma
desejote, ternura
gesto que terminas em mim
conforto da minha vida
precisote, olhar
brilho colorido deste dia
serei teu, regaço
fonte do meu existir
amote, linda
querote, aconcehego morno
desejote, ternura
precisote, olhar
serei teu
porque é este o meu viver
Ai, que dia
murchou o dia
que nasceu reluzente
nem está frio
nem está quente
está enevoado
tem um ar de enjoado
este dia
quem diria
que este tempo se faria
sem sabor
sem luz, brillho e calor
um dia
sem nascente
nem ocaso
um dia sem valor
que se arrasta
em cada momento
que passa
que não deixa memória
é uma dia sem história
como muitos outros
dias da minha vida
que se adia
dia-a-dia...
sem parar
que nasceu reluzente
nem está frio
nem está quente
está enevoado
tem um ar de enjoado
este dia
quem diria
que este tempo se faria
sem sabor
sem luz, brillho e calor
um dia
sem nascente
nem ocaso
um dia sem valor
que se arrasta
em cada momento
que passa
que não deixa memória
é uma dia sem história
como muitos outros
dias da minha vida
que se adia
dia-a-dia...
sem parar
segunda-feira, 16 de maio de 2011
vou-me embora
Ai que alívio seria se agora pudesse simplesmente desaparecer, esfumar-me sem rasto como se nunca tivesse existido. O cansaço dá isto e a vida também cansa. Desaparecer é sem dúvida a forma mais agradável de viver o cansaço de ter uma vida que não se vive mas simplesmente sobrevive.
Depois vamos ficando realistas e desaparecer não é opção disponível, pelo menos da forma desejada, assim: pum! já está!
Sobreviver ou...
Vou-me embora que não gosto disto que me está acontecer....
Depois vamos ficando realistas e desaparecer não é opção disponível, pelo menos da forma desejada, assim: pum! já está!
Sobreviver ou...
Vou-me embora que não gosto disto que me está acontecer....
quarta-feira, 4 de maio de 2011
pensamento
A minha vida deambula entre paixão e depressão, sem dialética, repisando-se insistentemente nos mesmos factos e erros que deixam como rasto as letras que escrevo para alinhar ideias, sentimentos e emoções que germinam estes textos.
"Afunda-se o barco que navega sem rumo".
"Afunda-se o barco que navega sem rumo".
segunda-feira, 2 de maio de 2011
quarta-feira, 27 de abril de 2011
quinta-feira, 21 de abril de 2011
não me conheço
Preciso de energia. Daquela que nos move, fazendo-nos mexer, movimentar na procura de projectos e de acções que nos realizam.
É triste quando o interesse se manifesta mas a energia falta. Frustração é o termo certo para exprimir o meu sentir. Quanto ao meu viver, define-se pela frustração sem energia, corroído pela ansiedade.
Acredito que um dia vou explodir de energia comprimida como uma mola, impelido para a minha tese e o meu estudo. Esta crença dá-me vida mas demonstra-me a minha falta de autonomia.
Ter autonomia implica ter capacidade para mobilização interna (intrínseca) que não nos faça constantemente aguardar sinais exteriores de obrigação.
Perdi esta capacidade, ou melhor, tornei-me incapacitado nesta área.
Por isso mesmo me odeio, mas nem assim me sinto mais enérgico.
Energia precisa-se. Atitude falta-me.
Quem sou eu?
É triste quando o interesse se manifesta mas a energia falta. Frustração é o termo certo para exprimir o meu sentir. Quanto ao meu viver, define-se pela frustração sem energia, corroído pela ansiedade.
Acredito que um dia vou explodir de energia comprimida como uma mola, impelido para a minha tese e o meu estudo. Esta crença dá-me vida mas demonstra-me a minha falta de autonomia.
Ter autonomia implica ter capacidade para mobilização interna (intrínseca) que não nos faça constantemente aguardar sinais exteriores de obrigação.
Perdi esta capacidade, ou melhor, tornei-me incapacitado nesta área.
Por isso mesmo me odeio, mas nem assim me sinto mais enérgico.
Energia precisa-se. Atitude falta-me.
Quem sou eu?
quarta-feira, 20 de abril de 2011
Tenho um segredo para ti
Sabes flor? Tenho um segredo para ti. Estás bonita.
O vento abanou-te, despenteou-te a pétalas e as gotas da chuva pareciam que te quebravam, mas encaraste-as como gotículas de orvalho e alindaste-te nelas. Flor, que linda ficaste.
Tens uma aura de vida que pulula em ti e que te revigora quando o temporal se aproxima. Ficas única no jardim e todos os olhares caem em ti procurando o teu brilho, a tua arte. Flor, que linda és.
Pintar-te-ia se soubesse como. Descrever-te-ia se isso me fosse possível. Só consigo o mais fácil, AMAR-TE com as maiores letras do mundo e mais não sei fazer. Flor, tenho outro segredo para ti. Serás sempre linda.
O vento abanou-te, despenteou-te a pétalas e as gotas da chuva pareciam que te quebravam, mas encaraste-as como gotículas de orvalho e alindaste-te nelas. Flor, que linda ficaste.
Tens uma aura de vida que pulula em ti e que te revigora quando o temporal se aproxima. Ficas única no jardim e todos os olhares caem em ti procurando o teu brilho, a tua arte. Flor, que linda és.
Pintar-te-ia se soubesse como. Descrever-te-ia se isso me fosse possível. Só consigo o mais fácil, AMAR-TE com as maiores letras do mundo e mais não sei fazer. Flor, tenho outro segredo para ti. Serás sempre linda.
Segredos do tempo
O tempo é sereno. Passa-me dormindo, despreocupado e atordoado numa ingenuidade quase feliz.
O tempo passa-me serenamente ao redor. Envolve-me em imagens esbatidas, sons distantes, odores ausentes e memórias frágeis que não consigo articular num todo e que não apreendo. Não faz mal, segreda-me o tempo ao ouvido.
Anuo num olhar consentido, cúmplice duma sedução que não entendo. Sorrio por que sou cúmplice seduzido de algo que consinto e não percebo. Estranho. Não faz mal, aconchega-me o tempo novamente.
A vida é fácil assim. Só importa o realmente importante que chega de uma forma afável envolvida num tempo que parece parado, contemplando-me. Que bom ter tudo e todos em redor, aguardando, enquanto o meu olhar se movimenta preguiçosamente entre o sono e a vigília, sem quebras de luz.
Como vos amo, penso com um sorriso calmo e vago que me infantiliza a expressão. O essencial deste tempo é o amor que tenho por vós. Dedico-vos este olhar preguiçoso com um sorriso agradecido pela felicidade de estarem nas minhas memórias difusas mas lindas que este tempo agora parado fixou para mim.
Sonho convosco no meu coração e agora tenho preguiça, murmuro. Não faz mal, sussurra-me o tempo, eu parei para ti.
(escrito em 2011.04.20)
O tempo passa-me serenamente ao redor. Envolve-me em imagens esbatidas, sons distantes, odores ausentes e memórias frágeis que não consigo articular num todo e que não apreendo. Não faz mal, segreda-me o tempo ao ouvido.
Anuo num olhar consentido, cúmplice duma sedução que não entendo. Sorrio por que sou cúmplice seduzido de algo que consinto e não percebo. Estranho. Não faz mal, aconchega-me o tempo novamente.
A vida é fácil assim. Só importa o realmente importante que chega de uma forma afável envolvida num tempo que parece parado, contemplando-me. Que bom ter tudo e todos em redor, aguardando, enquanto o meu olhar se movimenta preguiçosamente entre o sono e a vigília, sem quebras de luz.
Como vos amo, penso com um sorriso calmo e vago que me infantiliza a expressão. O essencial deste tempo é o amor que tenho por vós. Dedico-vos este olhar preguiçoso com um sorriso agradecido pela felicidade de estarem nas minhas memórias difusas mas lindas que este tempo agora parado fixou para mim.
Sonho convosco no meu coração e agora tenho preguiça, murmuro. Não faz mal, sussurra-me o tempo, eu parei para ti.
(escrito em 2011.04.20)
segunda-feira, 18 de abril de 2011
TU
Admiro-te pela tua coragem para os momentos difíceis.
Admiro-te pela tua força para agarrares o necessário.
Admiro-te pela lucidez com que olhas o drama.
Fascina-me o carinho que distribuis aos órfãos.
É esse o segredo do teu amor:
Corajoso, forte, lúcido e ternamente carinhoso.
Obrigado por existires meu amor.
Obrigado por olhares para mim.
Amote.
Admiro-te pela tua força para agarrares o necessário.
Admiro-te pela lucidez com que olhas o drama.
Fascina-me o carinho que distribuis aos órfãos.
É esse o segredo do teu amor:
Corajoso, forte, lúcido e ternamente carinhoso.
Obrigado por existires meu amor.
Obrigado por olhares para mim.
Amote.
terça-feira, 12 de abril de 2011
Vida Minha, Minha Vida
Vida minha hoje li-te e realinhei-te nos pormenores. Gostei do percurso e do modo como te foste ordenando no meio dos acontecimentos. Revelaste-te e revelaste-me digna do nome. Minha Vida.
Soas-me a um piano só mas de som cheio e melodioso que tanto nos aconchega nas pregas dos seus acordes como nos desperta para o colorido pululante das notas ou ainda grave e forte faz notar a sua presença com severidade musical de significado profundo. Aprendi ou quero aprender a ouvir-te e a escutar-te.
Obrigado por me teres deixado ler-te e pelo orgulho que me dás por teres partilhado comigo em cada momento uma forma possível de viver. Sem rancores nem euforias senti que realinhei afectos, emoções e sentimentos. Sem rancores nem euforias gostei do que vi e gosto de ti.
Minha Vida fizeste-me bem, tornaste-me melhor pessoa. Obrigado.
Soas-me a um piano só mas de som cheio e melodioso que tanto nos aconchega nas pregas dos seus acordes como nos desperta para o colorido pululante das notas ou ainda grave e forte faz notar a sua presença com severidade musical de significado profundo. Aprendi ou quero aprender a ouvir-te e a escutar-te.
Obrigado por me teres deixado ler-te e pelo orgulho que me dás por teres partilhado comigo em cada momento uma forma possível de viver. Sem rancores nem euforias senti que realinhei afectos, emoções e sentimentos. Sem rancores nem euforias gostei do que vi e gosto de ti.
Minha Vida fizeste-me bem, tornaste-me melhor pessoa. Obrigado.
segunda-feira, 11 de abril de 2011
A nossa gramática
Na tua ausência
sinto o calor da tua pele
porque anseio tocar-te.
Sinto o brilho dos teus olhos
porque desejo cruzar-me com eles.
Sinto o perfume do teu corpo,
porque sonho cheirar-te.
Sinto o húmido dos teus lábios
porque fantasio beijar-te.
Na tua ausência,
apaixono-me por ti
porque estando longe, estás comigo.
Envolves-me
numa atmosfera de sentidos
fervente de sentimentos
desesperados
arrebatadores
explosivos
abrasadores
indescritíveis por natureza.
Que paleta de amores.
Na tua presença
delicio-me matando a saudade.
Escaldo-me na tua pele
perco-me nos teus olhos
afundo-me no teu corpo
cubro-te de beijos
expludo de paixão
e amote,
tudo junto pela gramática
que só nós sabemos.
Ao longe apaixono-me por ti.
Ao perto amote.
sinto o calor da tua pele
porque anseio tocar-te.
Sinto o brilho dos teus olhos
porque desejo cruzar-me com eles.
Sinto o perfume do teu corpo,
porque sonho cheirar-te.
Sinto o húmido dos teus lábios
porque fantasio beijar-te.
Na tua ausência,
apaixono-me por ti
porque estando longe, estás comigo.
Envolves-me
numa atmosfera de sentidos
fervente de sentimentos
desesperados
arrebatadores
explosivos
abrasadores
indescritíveis por natureza.
Que paleta de amores.
Na tua presença
delicio-me matando a saudade.
Escaldo-me na tua pele
perco-me nos teus olhos
afundo-me no teu corpo
cubro-te de beijos
expludo de paixão
e amote,
tudo junto pela gramática
que só nós sabemos.
Ao longe apaixono-me por ti.
Ao perto amote.
terça-feira, 5 de abril de 2011
Minha Primavera
Cheira-me a flores. Ar de aromas agradáveis minuciosamente perfumados por gestos de mão divina naturalmente serena, persistente e radiante.
É assim que me chega o cheiro a flores. Invade-me e agrada-me sem pedir licença, usa-me as memórias para se colorir e levantar-me os cantos do lábios que o tempo e as circunstâncias fizerem cair.
Entranha-se-me nos poros, gera calafrios de paixão e taquicardias que me obriga a pular para acompanhar os movimentos do coração que de tão inebriado quer partir para algures, descobrindo o recôndito.
Inquieto, impaciente divago até ti perfumada de ar e de floridas essências, fundido numa intimidade indecifrável, absorto no que hoje terei contigo.
Assim te amo, sempre.
É assim que me chega o cheiro a flores. Invade-me e agrada-me sem pedir licença, usa-me as memórias para se colorir e levantar-me os cantos do lábios que o tempo e as circunstâncias fizerem cair.
Entranha-se-me nos poros, gera calafrios de paixão e taquicardias que me obriga a pular para acompanhar os movimentos do coração que de tão inebriado quer partir para algures, descobrindo o recôndito.
Inquieto, impaciente divago até ti perfumada de ar e de floridas essências, fundido numa intimidade indecifrável, absorto no que hoje terei contigo.
Assim te amo, sempre.
sexta-feira, 11 de março de 2011
Cá estou para falar contigo
Cá estou eu mais uma vez para falar contigo intimidade sem fundo, como o poço. Recebes, não respondes, não repetes, ficas muda e queda.
Também desta vez o motivo da escrita não é nada bom. Meu amigo vai morrer. Desistiu para vida entregando-se aos mimos dos ganhos secundários de estar doente. Isso também mata. Surpreende-me a dignidade que se esforça por manter de modo hercúleo. Nada de ambulâncias, nada de pijamas nas deslocações ao hospital. Vestido e de carro como sempre fez para sair de casa. Trata-se de mais uma saída de casa, de um passeio ou de uma ida ao tribunal (que sempre gostou), e é com esta indiferença que trata a doença e a morte. Não se veste para elas. Resistência passiva....
É a 2ª vez que sinto a morte em alguém aproximando-se com uma assertividade inabalável. Da primeira vez não me saí muito bem, ignorei o que adivinhava e sabia. Desisti e senti que assim já não valia a pena.
Desta vez está a custar-me desistir mas quando insisto magoo. Magoo alguém de quem gosto e nada fica melhor.
Desistir e baixar os braços dói mas às vezes é a única forma de ajudar o nosso amigo. Deixar a vida acontecer e fazer parte do dia-a-dia é a melhor ajuda que se pode dar, pela serenidade que se pode propiciar. Ao fim e ao cabo também é isso que eu quero de ti...
Também desta vez o motivo da escrita não é nada bom. Meu amigo vai morrer. Desistiu para vida entregando-se aos mimos dos ganhos secundários de estar doente. Isso também mata. Surpreende-me a dignidade que se esforça por manter de modo hercúleo. Nada de ambulâncias, nada de pijamas nas deslocações ao hospital. Vestido e de carro como sempre fez para sair de casa. Trata-se de mais uma saída de casa, de um passeio ou de uma ida ao tribunal (que sempre gostou), e é com esta indiferença que trata a doença e a morte. Não se veste para elas. Resistência passiva....
É a 2ª vez que sinto a morte em alguém aproximando-se com uma assertividade inabalável. Da primeira vez não me saí muito bem, ignorei o que adivinhava e sabia. Desisti e senti que assim já não valia a pena.
Desta vez está a custar-me desistir mas quando insisto magoo. Magoo alguém de quem gosto e nada fica melhor.
Desistir e baixar os braços dói mas às vezes é a única forma de ajudar o nosso amigo. Deixar a vida acontecer e fazer parte do dia-a-dia é a melhor ajuda que se pode dar, pela serenidade que se pode propiciar. Ao fim e ao cabo também é isso que eu quero de ti...
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
o meu jardim
novo ciclo. a vida está a chegar. as amendoeiras estão cheias de flor. os pessegueiros seguem-lhe as pisadas bem de perto. as outras árvores preparam os rebentos. nas rasteiras, os malmequeres florescem uns de amarelo, outros de lilás. são lindos. a alfazema não tem flor mas já ganhou um ar novo, limpo. até as daninhas se preparam para integrar este jardim, alindando-se e pavoneando-se em exuberância escondendo-nos que mais tarde irão definir e ditar o seu espaço.
o sol brilha e o ar fresco torna o ambiente morno. a sombra não faz falta.
os pássaros cantam ao longe, mesmo assim bem mais perto que as betoneiras ou tractores que ouço distantes. bucólico, não sei lá muito bem o que isso é, mas é bonito. até o som do aspirador da mulher a dias e o som de torcer da máquina de lavar ficam bem neste quadro. falta referi-me ao ladrar parco dos cães e ao som da lixadeira desgastando o metal que vem lá do cimo do monte.
o relógio canta a 5 horas.
os putos do jardim de infância não cantam mas fazem um coro melodicamente afinado e que, eventualmente, por uma razão genética, sejam em que lugar do mundo estiverem e sejam quais forem os elementos constituintes, soa sempre mesma melodia.
sossego é isto mesmo, bem diferente da ausência de ruído. sossego é a possibilidade de identificarmos os diferentes sons colocados harmoniosamente no espaço como um pulsar da vida no sentido mais biológico e ecológico dos termos.
amo este fim de tarde revigorante. distinto e diferente das porcarias em que me envolvi até à pouco. devem ter tido um efeito catártico porque agora estou no céu.
o sol brilha e o ar fresco torna o ambiente morno. a sombra não faz falta.
os pássaros cantam ao longe, mesmo assim bem mais perto que as betoneiras ou tractores que ouço distantes. bucólico, não sei lá muito bem o que isso é, mas é bonito. até o som do aspirador da mulher a dias e o som de torcer da máquina de lavar ficam bem neste quadro. falta referi-me ao ladrar parco dos cães e ao som da lixadeira desgastando o metal que vem lá do cimo do monte.
o relógio canta a 5 horas.
os putos do jardim de infância não cantam mas fazem um coro melodicamente afinado e que, eventualmente, por uma razão genética, sejam em que lugar do mundo estiverem e sejam quais forem os elementos constituintes, soa sempre mesma melodia.
sossego é isto mesmo, bem diferente da ausência de ruído. sossego é a possibilidade de identificarmos os diferentes sons colocados harmoniosamente no espaço como um pulsar da vida no sentido mais biológico e ecológico dos termos.
amo este fim de tarde revigorante. distinto e diferente das porcarias em que me envolvi até à pouco. devem ter tido um efeito catártico porque agora estou no céu.
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
... sereno, sê sereno...
Nos momentos de crise, as pessoas revelam-se surpreendentemente desagradáveis. Mostram o seu lado nefasto: egoísta, egocêntrico e caprichoso. Lê-se no olhar um carinhoso "cuida de mim" e um amargo de inveja "estou doente", ou será o contrário, o acre pânico "vou morrer?" O fel da morte.
Nós perdemos a admiração pela pessoa e não nos importamos que morra. Melhor, sabemos que morrendo agora teremos admiração pela sua vida. Daqui a pouco esgotaremos a réstia de consideração que merece. Mais adiante não aguentaremos mais; o que significa "morre depressa".
Meu sogro pena-me. Sinto-lhe o fim que não desejo, mas sei que caminha para a morte. Escolheu, é este o termo correcto, escolheu a demência para enfrentar o momento. Ignorar a morte, centrar-se na dor e escravizar a atenção de todos é a estratégia que vive. Escolheu a demência como opção de vida.
Escravizou a mulher como o mesmo direito autoridade de um senhor feudal. Tornando-se-lhe filho controla-lhe a vontade. O inverso disto tudo também é verdadeiro e embora eu não o saiba descrever, mas acontece.
Eu acho, melhor, sinto que devo fazer alguma coisa. De algum modo acredito que estar consciente lhe prolongará a qualidade de viver, mas não sei como fazer e quando tento magoo. A impotência para ajudar é um sentimento devastador.
Há momentos em que ajudamos pela serenidade; no meio do pânico um olhar e um respirar sereno é o melhor apoio que se pode obter. Acalma, relaxa, serena....
Espero que isto seja verdade.
(iniciado no final de Janeiro e concluído em 22.02.2011)
Nós perdemos a admiração pela pessoa e não nos importamos que morra. Melhor, sabemos que morrendo agora teremos admiração pela sua vida. Daqui a pouco esgotaremos a réstia de consideração que merece. Mais adiante não aguentaremos mais; o que significa "morre depressa".
Meu sogro pena-me. Sinto-lhe o fim que não desejo, mas sei que caminha para a morte. Escolheu, é este o termo correcto, escolheu a demência para enfrentar o momento. Ignorar a morte, centrar-se na dor e escravizar a atenção de todos é a estratégia que vive. Escolheu a demência como opção de vida.
Escravizou a mulher como o mesmo direito autoridade de um senhor feudal. Tornando-se-lhe filho controla-lhe a vontade. O inverso disto tudo também é verdadeiro e embora eu não o saiba descrever, mas acontece.
Eu acho, melhor, sinto que devo fazer alguma coisa. De algum modo acredito que estar consciente lhe prolongará a qualidade de viver, mas não sei como fazer e quando tento magoo. A impotência para ajudar é um sentimento devastador.
Há momentos em que ajudamos pela serenidade; no meio do pânico um olhar e um respirar sereno é o melhor apoio que se pode obter. Acalma, relaxa, serena....
Espero que isto seja verdade.
(iniciado no final de Janeiro e concluído em 22.02.2011)
Olá.
Hoje vou morrer. É simples. É mais ou menos como desligar um electrodoméstico qualquer, só que mais fácil. Não preciso carregar em nenhum botão. Morre-se e pronto. Está-se morto. E agora, perguntamos? E agora nada - é a resposta. Está-se morto e pronto: não há nada a perguntar, não há nada a fazer, não há nada com que preocupar é um sossego indescritível, não há palavras para o descrever. Deve ser por isso que lhe chamam sossego de morte.
Podemos deslocar-nos, pairando, vislumbrando outras existências sem pressa, sem sentimentos, sem intenção com os e fossemos um folha sustentada na brisa do vento que passa.
É uma inexistência transportada pelo acaso, sem sentidos e sem sentido e se o tiver não o descortino.
Estou morto e já tinha morrido algumas vezes, embora não desse conta.
Não há homem da gadanha para nos importunar com a sua negrura, nem a ordem silenciosa para o seguirmos. Gostaria de ver esse personagem porque sempre tive muita curiosidade por lhe olhar cara a cara e saber se aquela sombra escura alberga um rosto enrugado e carcomido, uma caveira ou a ausência.
Acho que o autor da garatuja não sabia o que desenhar e pimba, pintou-o de preto, negro de desconhecido, de morte e de medo. Teve engenho ou sorte porque assustou gerações de vivos e aguçou a curiosidade de mortos. Quanto aos mortos, não se pode falar de gerações porque não se reproduzem, só inexistem.
Encontro vários que estão mortos sem que o saibam. Morreram aos poucos e não deram conta. Foi o que me aconteceu a mim. Distinguem-se pelo olhar, pelo pensamento e pela fome de vida que desconhecem. Vivem no limbo das recordações e não passam de almas errantes levadas pela brisa para lugares de nada e coisa nenhuma que não existem. A rotina é a réstia de vida que lhes chega das recordações. Vegetam. Não sabem mas estão mortos.
A morte é alívio, é paz e pode ser tão sedutora que até assusta. Leva-nos a um ponto de não retorno e apaixonamo-nos. Quem diria que nos podíamos apaixonar pela morte? Leva-me contigo, transporta-me no teu colo. Estou pronto! Olá.
Podemos deslocar-nos, pairando, vislumbrando outras existências sem pressa, sem sentimentos, sem intenção com os e fossemos um folha sustentada na brisa do vento que passa.
É uma inexistência transportada pelo acaso, sem sentidos e sem sentido e se o tiver não o descortino.
Estou morto e já tinha morrido algumas vezes, embora não desse conta.
Não há homem da gadanha para nos importunar com a sua negrura, nem a ordem silenciosa para o seguirmos. Gostaria de ver esse personagem porque sempre tive muita curiosidade por lhe olhar cara a cara e saber se aquela sombra escura alberga um rosto enrugado e carcomido, uma caveira ou a ausência.
Acho que o autor da garatuja não sabia o que desenhar e pimba, pintou-o de preto, negro de desconhecido, de morte e de medo. Teve engenho ou sorte porque assustou gerações de vivos e aguçou a curiosidade de mortos. Quanto aos mortos, não se pode falar de gerações porque não se reproduzem, só inexistem.
Encontro vários que estão mortos sem que o saibam. Morreram aos poucos e não deram conta. Foi o que me aconteceu a mim. Distinguem-se pelo olhar, pelo pensamento e pela fome de vida que desconhecem. Vivem no limbo das recordações e não passam de almas errantes levadas pela brisa para lugares de nada e coisa nenhuma que não existem. A rotina é a réstia de vida que lhes chega das recordações. Vegetam. Não sabem mas estão mortos.
A morte é alívio, é paz e pode ser tão sedutora que até assusta. Leva-nos a um ponto de não retorno e apaixonamo-nos. Quem diria que nos podíamos apaixonar pela morte? Leva-me contigo, transporta-me no teu colo. Estou pronto! Olá.
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Há dias...
Há dias que entristecem por mais que linda que seja sua luz, por mais belo que seja o canto dos passarinhos, por mais admirável que seja o sorriso das flores e por mais aconchegante que seja o morno ameno dos raios de sol.
Há dias que custam tanto a passar. Arrastam-se em nós de um modo entediante, enjoativo até, e ostensivamente meneiam-se só para nos mostrar que têm o direito a existir com o mesmo espírito e expressão de insinuante desafio de uma perrice de criança.
Há dias frouxos, sem história e sem nada para contar. Apresentam-se como emplastro atormentando-nos com o seu direito à presença.
Há dias que não deviam existir. Hoje é um desses dias.
Gostaria de saber construir dias, dar-lhe cor, som e voz. Gostaria imenso de me enamorar deles, cortejá-los, ser cúmplice do seu acontecer, acarinhá-los e senti-los na sua essência de intimidade que nos faz supor vivos e agradecidos por mais um dia.
Lembro-me disso, de ter essa arte, como algo distante e longínquo que já nem merece ser lembrado. Já foi! Perdi qualquer coisa e não sei bem o quê mas faz-me falta.
... perdi a vida ...
Há dias que custam tanto a passar. Arrastam-se em nós de um modo entediante, enjoativo até, e ostensivamente meneiam-se só para nos mostrar que têm o direito a existir com o mesmo espírito e expressão de insinuante desafio de uma perrice de criança.
Há dias frouxos, sem história e sem nada para contar. Apresentam-se como emplastro atormentando-nos com o seu direito à presença.
Há dias que não deviam existir. Hoje é um desses dias.
Gostaria de saber construir dias, dar-lhe cor, som e voz. Gostaria imenso de me enamorar deles, cortejá-los, ser cúmplice do seu acontecer, acarinhá-los e senti-los na sua essência de intimidade que nos faz supor vivos e agradecidos por mais um dia.
Lembro-me disso, de ter essa arte, como algo distante e longínquo que já nem merece ser lembrado. Já foi! Perdi qualquer coisa e não sei bem o quê mas faz-me falta.
... perdi a vida ...
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Cansa-me...
Cansa-me morrer devagarinho. Dói-me o que passou, magoa-me o que há-de vir e mata-me o que sinto agora. Define-se a agonia.
É um nó que não se desata, cegamente apertado em si próprio, tão apertado que fica num minúsculo grão, caso a vida, ainda que metaforicamente, fosse um fio.
Já não me lembro de estar bem, sorrir para a vida de braços abertos, convidando-a a chegar-se e aconchegar-se e mostrar-lhe o meu desejo de conviver com ela.
Já não a quero ver porque vem de negro, cheirar porque tem odor a morte, degustar porque sabe a fénico. "Vai-te embora, não te aproximes", grito íntimo comigo mesmo, deixa-me em paz e que um raio me parta bem depressa.
É um nó que não se desata, cegamente apertado em si próprio, tão apertado que fica num minúsculo grão, caso a vida, ainda que metaforicamente, fosse um fio.
Já não me lembro de estar bem, sorrir para a vida de braços abertos, convidando-a a chegar-se e aconchegar-se e mostrar-lhe o meu desejo de conviver com ela.
Já não a quero ver porque vem de negro, cheirar porque tem odor a morte, degustar porque sabe a fénico. "Vai-te embora, não te aproximes", grito íntimo comigo mesmo, deixa-me em paz e que um raio me parta bem depressa.
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