terça-feira, 28 de junho de 2016

há cavalos que perduram em seu rasto,
por mais paisagem que passe;
são de trote longo,
de galope poderoso
e têm vontade equina. frente ao sol
recortam-lhe o brilho na forma do seu perfil

sexta-feira, 17 de junho de 2016

floriu manhã
fresca de primavera

bebo manhã
e respiro primavera
o florido converteu-se olhar

ensaio respirar manhã
quero beber primavera
sondo o desconhecido em flor

o que faço poderá nunca ser
porém há olhos primavera

disgrafia

escrever
de luz apagada, escrever
palavras encavalitadas
de letras, também
em frases que se julgam versos
seres iluminados
emergentes
da escuridão que apaga a luz
no adro onde convivem cegueiras

rumoreja

rumoreja
por enquanto rumoreja, só
a um odor morno anunciador
do verão, ainda brisa

e ouve-se
esse bater de asa ocioso
a cigarra ou a abelha
que escuto borboleta
e rumoreja

vaga de onda
esse vai e vem sem fim
de um indecifrável embalo
rumoreja
em suspenso de flor
belo leve livre maior
de interpretar
saboreando o ciciar

rumoreja

terça-feira, 31 de maio de 2016

talvez
o dia seja uma partícula mínima
onde assentamos momentaneamente.
depois, algures durante o sono,
muda-se a partícula
e acordamos noutra que não distinguimos da anterior.

as partículas sucedem-se,
porém, vemo-nos sempre na antecedente,
há mudanças que nunca percebemos. por vezes,
esforçamo-nos para que tudo fique igual:
desejamos o imutável...

o passado, em todas as suas partículas,
ensinou-nos o desfrutar do presente,
o futuro serve-nos a utopia
com que ocupamos o agora, o que nos faz levantar,
preparar o pulo,
o que realizamos durante o sono,
para a partícula seguinte.
talvez.

a ocultação ou
a não aceitação de si,
no todo ou em parte,
geram o enigmático do ser;
traduz a intraduzível dificuldade:
entender-se.

o que se desoculta ou
o que se aceita,
transparece; este é,
porém, um processo interminável.

domingo, 29 de maio de 2016

fica-te bem o luar
com que atas o cabelo
que enlaças nos dedos
e tamborilas um mistério
a mesa é tua
fica-te bem
o luar o rumorejo
e a luz da vela
é bela
fica-te bem ao luar
cobiça-te o cabelo
transborda-te o olhar
fica-te bem a felicidade

sexta-feira, 27 de maio de 2016

pulsão

mantinha a luz acesa,
sempre, o quadradinho luzente
era seu; o ato: adornar a rua,
queria-a radiosa.
via-a menear-se vaidosa e nua
passeando sua
janela brinco, colar
pingente, anel,
jóia em corpo encastoada:
o luzir permanente.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

e se desconversássemos um pouco
— sugere-me o poema —

para despojarmos as palavras do comum
que o sentido lhes venha do som gerado no íntimo

para as conversas desabotoarem enredos
em vez de descreverem um enleado de tangentes

para que as pessoas sigam mãos-dadas com os poemas
fossem filhos com os pais

para ouvirmos a voz de dentro: a que declama
a poesia que desagua em nós

perfeitos são os versos ditos no olhar do encontro:
o poema cristalino

quinta-feira, 12 de maio de 2016

a oposição

eles
acumulam ódios
usaram os seus como lastro
acamam os restantes
camada a camada
enche-os um pesadume
afogar-se-ão berrando impropérios
todos precisamos quem reme
cada qual no seu estilo
todos no mesmo rumo

sexta-feira, 6 de maio de 2016

dos beirais

dos beirais
a água pula
gotejam pardais
líquidos chilreios
chapinham
traquinam
crepita abril
maio e muito mais

quinta-feira, 5 de maio de 2016

pelas borboletas reconhecemos o borboletear
dos dias
em modo sem remorso de ondear florindo
trajetos

há seres que recusam o voo direto
reto geométrico do pardal ou
do faísco de chuva

o encanto toma todas as formas
e ao movimento que as traça, demora-o
o necessário para encantar

como o dar-se da figura de bailado

segunda-feira, 2 de maio de 2016

4 fragmentos do amanhecer

1.
há rumor nas madrugadas:
um não-sei-quê do que poderia ser,
um odor a 2.ª oportunidade.

2.
as folhas libertam manhã: iluminam e
movem-se leves sem preguiça;
há um fresco de terra que as inunda.

e roçam-se pela cauda do vento
lá rodopiam um sorriso matreiro:

o burburinho do despertar.

3.
o sopro das palavras carrega-lhes a melodia;
todo o dito tem fundo de ventania.

4.
agrada-me em deus a esperança:
uma espécie de utopia endeusada.

passar da aurora

desabotoa-se a aurora
corpo morno em manhã fria
chama em luz vinda de seio
o que acarinha e alimenta
o que acolhe e irradia
até que aurora seja dia

terça-feira, 26 de abril de 2016

é de azul onde te sentas
e os sonhos onde descansas teus pés

teu olhar de folhas verdes hoje tem flores
teu sorriso em bando tem o recorte do voo

fechas os olhos
e o dia suspende-se

há um cisne em teu pensamento

segunda-feira, 18 de abril de 2016

alguns, no desassossego,
alaram cavalos e os fizeram brancos,
fosse qual fosse a cor, era importante
que resplandecessem.
há um ideal ligando leveza e força a graciosidade
no movimento e a reluzente:
a ideia de luz emanando do íntimo é
uma ideia poética, e voa por meios próprios.

terça-feira, 12 de abril de 2016

sempre me despedi da vida
fui despedindo
desalojando de mim o que não gostava
o sem importância
o supérfluo
sempre foi assim
sempre fui assim
sempre tive dificuldade em convivier com o desinteressante
e sempre sendo assim verifico
que me tornei enjeitado de mim mesmo
este é o meu trajeto segredo
uma sinusóide que sempre pareceu reta
como todas as despedidas

quarta-feira, 6 de abril de 2016

como dizem e o como escrevem é artifício
como sentem é onde germina a arte

o odor onde residem as memórias
tem fundo de gaveta e pó de prateleira
tem escuro de guarda-fato

no debulhar de um álbum
as fotos acenam aos dedos
e estes acorrem
sedentos
ao bulício de reencontro

há uma espécie de magia linda
no assomar das memórias
de entre névoas e mofos com aroma
a pó-de-arroz e bolas naftalina

terça-feira, 22 de março de 2016

a minha morte irá chegar como um buquê
flores em verde de ramagem
reluzente de orvalho
em invólucro transparente de celofane
cingido a laço volumoso pendendo enrolado
um cartão de mensagem condolente ainda
por escrever
minha morte chegará sem nada para dizer
e eu morrerei, somente, como folha que partiu