terça-feira, 24 de janeiro de 2017

é dezembro, porém
as manhãs despertam maio
é em março que se inicia a primavera
corre um fresco que se fará doce ao florir
o vigor de junho alaga o corpo de alma
em setembro vindimam-se carinhos
e a pequena ave desponta do nobre ninho
em dezembro também
se o verbo parasse
e o movimento não fosse
de dentro da palavra
sucumbiria

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

pós-humanidade

houve tempo, os homens eram de pau
aparência seca, acastanhada, aqui
e ali uma greta na madeira fendida

flutuavam na água e no vento
sentiam-se primos das árvores
com ligação pueril à fauna
no peito suspiravam pelo pulsar universal

uns existiam no tempo do sol e das intempéries
outros especializavam-se, espantar as aves, por exemplo
alguns tomavam a vontade superior como sua,
diariamente, usavam cordões
e se moviam pela habilidade de mãos do criador

todos, mas todos mesmo, temiam o fogo que arde e queima
curtiam na boca o sabor a lenha
e adormeciam ao som do crepitar do inferno

hoje, nos tempos de hoje, os homens são
...

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

do fundo
além da crosta no furo e na fenda
limita o saco além da boca
rompe no peito o sentimento
tão forte e profundo como o pensamento
profundo profundo profundo
base suporte e balanço do mundo

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

desesperança

não há lugar para jardins
não há espaço para flores
e os pássaros não têm onde voar

tombam nadas da mão
pendem estéreis os sonhos
de nadas tão nada que são

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

encantamento

da flor
acerquei-me dela
como para...

sem verbo a pétala
mimosa
acerquei-me dela
como...

a cor delicada
macieza
o mimo
acerquei-me dela
só...

existindo

terça-feira, 15 de novembro de 2016

continuando

todos os tropeços
são almas que rosnam
não te inquietes
nunca te culpes
recorda, já passou, a tua mãe
afaga o beijo que te acariciou

de súbito

o de anuncia a eminência
que o inesperado pode ter
pontua de previsível, talvez

explica-se o nem sempre da surpresa
sendo esta um asseio
se se procura resposta a piropos
que  de súbito – são-no
todavia, esperados
criam lugar ao espanto
até justificam a estranheza

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

azul de azuis

encanta-me o azul das folhas
tingidas desta estação
um azul de árvore fosse
de azuis que o não são

têm um fundo de céu
juntam um toque de chão
uma pinta verde cor de verão
se os verões fossem verdes
de azuis que o não são

mas o azul das folhas é
luz que morde a atenção
límpida como o ar 
tem a frescura do mar
tão livre como o pairar
cadenciando ao pulsar azul 
do coração em azul peito
se os peitos fossem
azuis que o não são

terça-feira, 11 de outubro de 2016

existenciar

o passado é de matéria inconstante.
o futuro sustenta-se na ideia de eternidade.
o presente urde-se mutante e eterno; é
uma impossibilidade: em sentido concreto
confirma a existência como milagre.

preguiçar

encosto o olhar ao
pensamento em fim-de-tarde, por aí ficar,
largueza fora, planura
saboreando o ar

o ideal sem sonhar
pairar ameno, leveza em sentimento
instante pleno, ápice
corpo a assoalhar

piscos, os olhos teimam
fechar e tudo verem, ainda tocar
o reluzente acontecendo
crepitar do entardecer

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Coimbra

um certo ar de ser
Coimbra

corre-te nas artérias
um fundo encapelado
rimando com resignado
Coimbra

uma rima improvável
um quase sem sentido
como em ti, Coimbra
o o e o i recusam o ditongo
enleiam-se na consoante
e formam sílaba, a sua.
então unem-se na palavra
acentuando-se 

Coimbra
de vontades várias

Coimbra
de sonância assíncrona

sábado, 20 de agosto de 2016

ainda é tarde
ao tempo sobra o rumo

alguma vez serei luz?
ou só a manhã que não sabe existir?

à pergunta dos loucos
responde o puzzle dos significados

nem tudo passa, só,
há o que frutifica à passagem

ainda é tarde 
o tempo não se avoluma

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

a cor desacanha o dia 
é de azuis e amarelos
de verdes e vermelhos
em tom de ser alumia

é uma cor que grita, canta e ri
é uma cor que pula, voa e anda
é cor a porta, janela e autocarro
em tom de rua ensolarada
de manhã pequena desocupada
a passo gerúndio corado
é domingo ou será sábado
podendo ser até feriado

quinta-feira, 28 de julho de 2016

i.
as flores se aprimoram por gerações
para seduzirem, o que fazem com mestria:
são belas, ainda que se desconheça o propósito:
algumas para se alimentarem,
outras pelo nobre desígnio da reprodução

ii.
há um vento que concorda comigo
falo e ouve-me
ouço-o, responde-me rumor de folhas
e refresca-me
a cadeira em que repouso bamboleia
suave, pendulando concordância

quarta-feira, 27 de julho de 2016

ao rubro
é onde a dança nos põe
no olho da ebulição
o gesto deflagra movimento
há um inconsciente nisto
e a graciosidade que se espelha
vem de dentro

o rei dos peixes

eu pequeno
à lareira, meu avô dizia histórias fantásticas,
chamava-as de contos.
adorávamos o do rei dos peixes,
sabíamo-lo de cor: magnífico.
meu avô enchia-nos do melhor que imaginávamos,
era o rei, tal a força da sua generosidade,
eu era peixe para ter um rei assim

quarta-feira, 20 de julho de 2016

ares da beira-mar

o marulho deste mar tem
ondas pequenas, chegam e
enrolam-se nas pedras às risadinhas

vejo as pedras hilariarem-se pelo contorno
das ondas e pelos banhos de salpicos

foliam duas formas da mesma realidade

ao largo, as ondas são mais
vigorosas: enormes roncadoras como
fossem soltas de longa clausura
ou
empurradas por força maior
que desconhecem

provirão da agitação dos peixes
pujantes no bater de barbatanas e
nos jorros de água que expelem de guelras arejadas
ou
ainda, serão coisa de sereia:
sabe-se que instigam o mar
que ondula a voz de água e sal
em melopeia de encanto, se matiza
a aragem, cantando

a realidade tem uma presença de vento
toma todas as formas, até as mais invisíveis