domingo, 16 de junho de 2013

apelo

solta teu cheiro de poeta
quero inalar teus perfumes
que desenhaste, escrevendo
um a um
de um só repelão
ventania escrita à mão
calmaria com paixão
alma quente
poesia por inteiro

sábado, 15 de junho de 2013

borboleteado

era um voo de borboleta
ondulante
movimento de bailado
diria mesmo
borboleteado
tal era a sua natureza
única
como o poesia
esse voo de borboleta

pensamento

usei metade da minha vida para me afirmar
uso a outra metade para me construir
sabendo que não me faço pelas minhas mãos
ciente que me faço pelas mãos dos meus amigos

sexta-feira, 14 de junho de 2013

ato de contrição

bateste à minha porta, maria
querias a minha mão para levar
sentias a solidão
de nada ter para agarrar
confessaste... rogaste...

abri-te a minha porta, maria
que nunca pude fechar
sempre estiveste em mim
de dentro do limiar, enquanto
eu esperava... tu passavas...

e como ousavas, maria
como os anjos sabem ousar
enquanto... eu... aguardava...
a solidão assolou-te
ferrou-te como um tormento

como lamento, maria
não ter partido contigo
corrido à volta dum mundo
maior que este quarto imundo
onde me amarguei, só

me curti e azedei
aguardando, paciente
teu arrependimento
bateste à minha porta, maria
só, triste e infeliz

e tudo o que eu nos quero, maria
é a felicidade petiz
leva-me todo na mão
ainda que me arrastes pelo chão
não quero aguardar-te em mágoa

quero ousar como tu
meu anjo de ousadia
minha doce maria
acre doçura de gente
maria da poesia

quinta-feira, 13 de junho de 2013

...

talvez haja (ainda) um pouco de mim
em ti, talvez...

se te belisca o corpo, sou eu que não resisto
se te foge o pensamento, sou eu que insisto
se teu peito explode, sou eu que o ateio
se tens saudade de beijo, ficou em ti meu desejo
o formigueiro em teu seio, creio ser o meu anseio
e a inquietude em teu sexo,
meu amor, é lá que eu tenho meu nexo.

declaração

eu,
até já nem me importo de dar amor
porque não tenho outro modo de ser
sempre amador, sempre apaixonado
entrego um pouco de mim
a quem quiser

em teus braços

cheira-me a braços
dos teus abraços
suaves, sempre ternos
carícias
que semeias em meu corpo
como brisas
sopradas pelo carinho
poderoso
dum beijo guloso
cravado em mim
embebecido e embalado
por teus abraços
perfumado de teus braços
delicados
que me ofereceste
a que me entreguei

cheira-me a braços
cheira-me a colo e a regaço
cheira-me a mel do teu corpo
quente, em tarde de outono
de um castanho reluzente
aroma frutado, florido
tão perfumado
tão bom, forte e suave
cheira-me a braços
dos teus abraços

quarta-feira, 12 de junho de 2013

beijo

o beijo que colheste de mim
era teu, nasceu para ti
concebi-o eu
ano a ano, uma vida
de desejo, de saudade, de amor
tudo impregnei no beijo
que sempre foi teu
e em mim nasceu

terça-feira, 11 de junho de 2013

tentação

olá
meu nome é antónio
quando era pequeno rimava
rimava interminavelmente
meu nome com demónio.
era algo que me entristecia
no inverno, cinzento do dia
resignava-me à desgraça
encostado à vidraça
e rimava meu nome antónio
interminavelmente
com o que achava ser sinónimo
por isso eu pecava
em tudo o que fazia, pecava
mesmo quando não queria
eu rimava com demónio
havia sempre alguém que dizia
"antónio, és um demónio"
até a minha namorada
que à época era pequena
e parecia-me apaixonada.

eu cresci
a rima se esqueceu
deixou de ser destino meu
rimar, interminavelmente
mas continuo a pecar
pecando, pecando
não sei se sou demónio
mas ainda me chamo antónio.

sem...

sou aquela noite triste
fria, enregelada
sem paixão, sem corpo
uma noite vazia
sem estrelas e sem luar
sem oração para declamar
sem poema para rezar
sem anjo para invocar
sem musa para adorar
sou aquela noite triste
sem pensamento para elevar
tão só, este modo de estar

descolorido

descorado, um arco-íris
arqueado, dégradé acinzentado
sem sol que o ilumine
nem o raio de um luar que o faça brilhar
será sempre arco-íris
ainda que desbotado

nada

meu destino de hoje é breu
escuro, sem imagem
sem chão nem céu
sem nada e sem que eu queira
algo meu se perdeu
por isso mesmo, por onde sigo
é breu, meu destino

pensamento

dei comigo apanhando cacos
pedaços de algos, partidos, pelo chão
apanhei-os, levei-os no lixo
na partida, deixaram-me saber
poderiam ser lindos painéis
assim se define refazer (a vida)

....

a terra mãe benzeu-a
uma cruz feita de pó
abraçou-a
em sinal de boas-vindas
lembrou-lhe, então, que era pó
soube porque regressara


segunda-feira, 10 de junho de 2013

definitivamente

de quando em vez deseja-se morrer para o mundo
não que se queira morrer, claro está
nem sequer matar o mundo
nem, ainda, qualquer tipo de morte
somente se quer deixar qualquer coisa em qualquer lado
distante, definitivamente

de quando em vez apetece fugir daqui para fora
não que se queira fugir, claro está
muito menos desaparecer
nem, ainda, qualquer tipo de fuga
somente se quer deixar de conviver com algo
o queremos longe, definitivamente

de quando em vez apetece dormir eternamente
não que se queira adormecer, claro está
muito menos para sempre
simplesmente desejamos que o tempo repare tudo
ao acordarmos, definitivamente

porém, pode acontecer haver muitos de "quando em vez"
para desejar morrer, para querer fugir e adormecer
não que seja sempre, claro está
talvez, o suficiente para ilustrar a infelicidade
a nossa, definitivamente

só

entardecia o dia
eu o sentia, tal como eu
entardeceu
um pôr-do-sol
belo, rechonchudo, corado
morno de quente e de frescura
ideal para uma ternura
barrando um carinho.
mas meu carinho dormia
enquanto o sol desaparecia
e assim anoiteceu
noite escura como breu.

...

gasto, puído do tempo
roto
sequioso de escrita
procurando
queria um mote
que não me falasse de mim
melhor, que nada dissesse
silencioso
só eu falaria, se quisesse
o mote fez-se do silêncio
das letras mudas
que a tradição escreve
sem que se ouçam
presentes, pesam na palavra
significados silenciosos
como os não ditos
que se escapam
do puído corpo
das roturas da alma
pelos silêncios

pensamento

a pior forma de morte
é o sono de fuga
mata em agonia
adormecendo para a vida

sexta-feira, 7 de junho de 2013

dá-me lume

dá-me lume, incendeia-me
quero labaredas, revelações
sarças ardentes
queima-me de corpo e de alma
de pensamentos e emoções
incendeia-me de palavras
pecaminosas confissões
segreda-me
teu desejo fervente
e meus ouvidos ardem
ardidos, ardentes, arderão
prazer
quero lume
incendeia-me

belo canto

tua voz,
inundou-me a alma
acariciou-me o peito
segredou-me a calma
deixou-me a paz
fechou-me os olhos
dançou-me no ar
rodopiou-me
beijou-me, levemente
e partiu, com a magia
como chegou.

6ª à noite

6ª feira e não é dia 13
tomara que fosse
queria algo que acontecesse
que fosse mistério
que fosse macumba
superstição ou nada de sério
tudo o que peço
é que algo aconteça.
que caia um trovão
que venha chuvada
um sol à meia-noite
uma coisa de nada
mas que algo aconteça
logo hoje que é 6ª feira
e por mais que eu deseje
não é dia 13.

happy ending

as almas penavam e os corpos definhavam nelas
como se fossem excrescências
ou outras formas parasitas de existência.
mas não, eram corpos desolados
entregues a si mesmos
porque as almas penavam de males
que os corpos jamais compreenderiam.

era o desalento. quando a dor já não importa
e o corpo, que nada entende para além da dor,
definha de abandono e indiferença;
nada do que sente interessa.

a morte, meu velho,
essa morte medonha que te assusta
não vem hoje. talvez nem chegue.
diz-se por aí que agora se vestiu de branco
e nos sopra como um anjo. quer-se desejada.
também a morte sucumbiu ao desejo
e prefere finais felizes.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

os sons das palavras

as tuas palavras
chegam-me sem sílabas
sons completos como melodias
que cantas, sem proferir
me encantas, me enlevas
na harmonia, na leveza
como soltas
as palavras que me chegam
e não entendo
porque as ouço cantando.

ciúme

eu
que te amo
não sabia
nem sonhava
em teu peito trinava
a agonia de um ciúme
afiado
gume fino cortante
sentimento persistente
retalhante
de confianças
de estimas
dos sonhos

e eu
que te amo
mesmo ao lado
nem sabia
nem via
nem cheirava
esse ciúme
essa dor afiada

meu amor

tentei amar-te até ao fim do mundo
mas o mundo era pequeno

tentei amar-te até à lua
e sobrava tanto amor

tentei amar-te até ao sol e às estrelas
e o meu amor não cabia

tentei amar-te até ao universo
mas o espaço não chegava

então meti meu amor num olhar
e olho-te para to dar
aconchegado de carinho

terça-feira, 4 de junho de 2013

sms

queria soprar-te o rosto
queria afastar-te o mau
aquele que te levou o sorriso
que te entristece o olhar
que te aterroriza o pensamento

soprar-te-ia e diria
não faz mal, já passou
e abraçar-te-ia no peito
forte, mais forte e mais forte
só para que soubesses
onde é o teu lugar

segunda-feira, 3 de junho de 2013

pensamento

revoltam-se as entranhas
quando o esquecimento se apresenta como virtude

meu desejo

deixaria cair minha cara em teu peito
aí fecharia os olhos
não que queira dormir ou descansar
só preciso sentir-te mais e melhor
e saberias como sou teu

anomia da paixão

o que eu teria para ti
num lugar diferente
perto do sol
iluminado de luar
andarolávamos no rio
passeando à beira-estrada corrente
as árvores como algas
os pássaros como peixes
e os peixes como estrelas
flutuantes, prateadas
pelo luar
que eu teria para ti
se o mundo se vertesse
no peito
onde o sangue se insufla de ar
onde fervem os vulcões
onde o mar bate forte
e se entalha na areia
puro prazer de espraiar
que teria para ti
num sonho de mundo sonhado
onde os amantes se fundem
de alma, sorriso
tudo no mesmo olhar
perdidamente apaixonado
que eu teria para ti
num mundo de pura paixão
sendo essa a sua razão.

pensamento solto

que o dia te traga poesia
o melhor unguento
para dor de crescimento

sábado, 1 de junho de 2013

à vossa

embebedei-me de vós
amigos poetas
profetas da poesia

embebedei-me
das vossas palavras
do vosso peito

embebedei-me
dos vossos sonhos
dos vossos desalentos

embebedei-me
do vosso pensamento
da vossa atenção

embebedei-me de vós
e sinto-me orgulhoso
desta forma ébria
de vos sentir em poesia

pensamento

poderoso
um pensamento
silencioso
inquieto
inviolável
permanente
laborioso
produtor de ideias
construtor de ideais
rico
é pensamento
nada mais

a gente e o mar

junto à escarpa
abri os braços
precisava voar ao vento
que é o sopro do mar
sentir a aragem no rosto
no sovaco 
ser abraçado de fresco
como só vento sabe abraçar
ao som do ronco do mar
grave, longo e profundo
saído do peito que  é o mundo
a gente dá-lhe a batida
e o coração a pulsar
pum-pum, pum-pum
e o mar bateu poderoso
aspergiu-me vigoroso
salpicos de água-benta
a emoção da comunhão
junto à escarpa
um abraço de gente e de mar

sexta-feira, 31 de maio de 2013

corpo e alma

senti-me alma
presente, invisível
morada dos sentimentos
solenidade de monge
contemplativa
amor persistente.

vi-me só corpo
eriçado da emoção
calafrio
suado arrepiado
tiques de apaixonado
reflexos da paixão.

primavera

brotam as flores
da primavera
que como se sabe não tem chão
tem ares, tem luz, tem cores
tem pássaros, músicas e amores
tem narizes no ar
mas não tem chão, isso não.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

do sonho ao pesadelo

a parede fora branca
imaculada
nela pintou os sonhos
em preâmbulos do adormecer
conhecia aqueles graffitis
pequenas paixões
que lhe moldavam a serenidade
com que dormia, leve
traçado de lábios elevados nos cantos.

a parede que fora branca
ganhou bolores
perdeu-se o imaculado
os sonhos continuavam preâmbulos
e pintavam-se, por vezes
com laivos escurecidos
sem paixões
os lábios repousavam de traço leve
de cantos descidos

repintou a parede de branco
recuperando o imaculado
quando os bolores contagiaram os sonhos
que se fizeram pesadelos
também imaculados.
o que foram sorrisos
são tormentos enrugados
carcomidos pelo bolor
escolhido no tempo.

viver

saborear
cada naco do dia
o amanhecer
o entardecer
e a noite.

querer muito
o toque das mãos
o cheiro das palavras
o conforto da presença
a amizade.
dos amigos.

sentir
o peito cheio
de pensamentos ardentes
oferendas de amor
carinhos
mais carinhos.

cozinhar
escrevendo um poema
fazendo uma música
que trauteamos
e não sabemos cantar.

saber
que se renasce
da morte.

horizonte

olhar em frente
de onde vêm os aromas
de onde sopra o vento
de onde brilha o sol
que sentimos
entranharem-se no corpo
até à alma

e na paisagem
esboçam-se os desejos mais antigos
sorridentes impossíveis
que amamos até ao tutano
por que sabemos nada sermos
sem o sonho
a alma da humanidade

terça-feira, 28 de maio de 2013

onde explode o coração

sempre me disseram
que é no peito
que explode o coração
não sei se acredito
o meu rebentou na mão
quando to ia oferecer
pulsou forte e mais forte
deu um salto bem alto
quase caía no chão
de reflexo segurei-o
e tu deitaste-lhe a mão
quando tocou em ti
deu-se a explosão.

feliz

sei que o sol de hoje
nasceu para mim
dançou-me nos olhos
assoalhou-me a alma
quis-me assim
tomei-o nas mãos
só para o agarrar
encheu-me de cócegas
tive de o largar
agora que reparo
na minha loucura
sorrio de mim
inocência pura

segunda-feira, 27 de maio de 2013

domingo, 26 de maio de 2013

redenção

um dia, a vida apresenta-se-nos generosa
perdoa-nos tudo
como quem se despede dolorosamente
surge-nos envolta dum silêncio de compreensão
sorri-nos carinhosamente como se fôssemos crianças

negro limpo

apaguei o quadro negro
onde expunha a último pedaço da minha vida
o texto e a equação em que trabalhei
laboriosamente de raciocínio em raciocínio
apaguei e tudo ficou negro
como um quadro limpo
pronto para novas aventuras

peregrino

prometemo-nos (diariamente)
numa cadência de oração
amanhã seremos melhores
faremos o que adiámos
seremos o que nunca fomos
prometemos, prometemos
a oração vã
como vãs são as promessas do desespero
ainda que cumpridas.

de promessa em promessa
adiamos o remorso
de não sermos quem gostaríamos

consumimo-nos dessa constância
de ser alguém melhor que nós mesmos

esse desejo vadio e indomável
que um dia apreciaremos
com a parcimónia (abençoada) do sal

no cimo da madurez.
sorriremos ao esfumar do remorso
satisfeitos de ser quem somos
escritores de orações.

sentido de um abraço

demos um abraço
sem sentido
não sabíamos
se de mim para ti
se de sentido inverso.

não nos importámos
brincámos
o sentido era outro.

sábado, 25 de maio de 2013

porque se parem os poemas?

são concebidos
de vontades
ou de espontaneidades
ficam em gestação
(uma comunhão de gravidez)
muito estímulo
muito amor
e paixão
nascem, soltam-se no ar num vagido
precisam de respirar
depois de amassados
e espremidos
estão doridos do parto
tão humano
que os fez paridos.

jogging ao sábado de manhã

caminhavam aos pares
ou pequenos grupos
passeando a solidão
não que fosse mau
parecia bom
cada um precisava estar só
com alguém
no seio da natureza.
e isso é natural.

as mulheres dos poetas

para os poetas
há dois tipos de mulheres
as que se perfumam com os elementos da paisagem
e as que perfumam a paisagem.

para os poetas
ambas são fascinantes
e as paisagens também.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

minha loucura

procuro a lucidez
pela escrita que pinto
e enxergo
um desenho colorido
forte, esbatido
o sentido que deslindo
ávido de entendimento
místico como sentimento.

desvenda-me a leitura
a loucura de mim
muito amado poema
vagido
grito pelo ar do nascido
pequena inocência
que nasceu parido.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

rabiscos de eros

tudo o que desenho é erótico
até as letras, em que me empenho
sejam só as letras deste poema
que de erótico só tem a pluma da pena
com que desenho as letras do poema
que é uma pena não seja erótico
e muito menos poema

olhos sem horizonte

olhos que pousam no chão
tão pesados da vergonha
tiram-se à luz e ao sol
enlutam-se
pelo negro-baço do pudor
esganam a alma
cinzelam o amargor
no rosto, sempre tristes
receosos
temem o coração
não pulsam, não se elevam
são olhos que rojam pelo chão

teu lugar

corpo a corpo
toque a toque
como passo a passo
toquei-te à porta
no corpo
convidaste-me a entrar
no corpo
de porta entreaberta
no corpo
por onde entrava
no corpo
que queria mais corpo
no corpo
que tínhamos nas mãos

quando entrei
já tu estavas dentro de mim

onde permaneces
de adormecer em adormecer

terça-feira, 21 de maio de 2013

pensamento solto

pura ilusão
estar num final da tarde pensando no amanhã
para além de um desperdício
estar passando um estardecer sem ser visto

o sapo da princesa

quis explicar-lhe porque não podia ver-se sem ela.
inspirou-se e buscou palavras belas que alinhou em frases hamoniosas.
gaguejou, um esboço de desespero de quem pede desculpa
e fugiu-lhe um "amo-te" de sopetão. ela sorriu, compreendendo tudo.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

poetas

tem poetas de todas as cores, incluindo o branco e o preto
que não vêm no arco-íris
tem poetas de todas as formas, geométricos, angulosos, redondos, sinuosos
uns mais harmónicos, outros mais vistosos
tem poetas de vários humores, sanguíneo, militante, fleumático, irritante
uns inquietos, outros distantes
tem poetas que são escritores e tem os que não escrevem
tem poetas que são leitores e tem aqueles que não lêem

tem poetas que amam e os que se excluem aos amores e
tem os que odeiam apaixonadamente
tem poetas que rejeitam ser poetas e
tem os que se dizem sem tempo para a poesia
tem poetas só da noite e tem poetas só do dia
tem poetas de café, de casa e ainda os do trabalho

tem poetas em cabelo
tem poetas de carapuço, de chapéu e de boné
tem poetas de relógio, no bolso, no pulso ou na torre e
tem os que se regem pelo ritmo biológico
tem poetas de gravata, sem gravata e tem de laço
tem poetas de camisa, de t-shirt e tem os de cachecol

tem poetas de elite, tem poetas do povo
tem poetas de cirrose e de hepatite
tem poetas com neurose, tem poeta fumador
tem poetas perfeitos, sem vício e sem dor

tem poetas do jardim, da rua e da esquina
tem poetas da biblioteca e tem da igreja,
também tem do quarto e tem poetas do palco

tem, até, poetas da TV
tem, tem e tem...

e quem nunca se emocionou
quem não conhece o calafrio nem corou
quem nunca precisou de ler um poema até ao fim
quem nunca memorizou uma quadra
declame bem alto:
- este poema não é de mim!

(se o fez e se gostou, sentiu poeta. e amou?)

vacuidade

era um poema sem tema
que não sendo bem poema
também o tema não o era.
frente a frente poema e tema
se abarcaram um no outro
o poema encaixou-se no tema
encerrando-se o tema no poema.

domingo, 19 de maio de 2013

pensamento solto

mas há coisa mais poética
que aquilo que toda a gente tem,
que protege, que partilha e que ama tanto
que até a vive
e que dá pelo nome de vida?

salto do ninho

perdoem-me os tropeções nas aves
é que ainda voo atabalhoadamente
atiro-me em frente e chamo a isso voo
atiro-me ao infinito pelo desejo de estar solto
e não ter nada a agarrar, simplesmente
caio, pairo, tropeço até aprender a planar
quando for grande hei de saber voar

sexta-feira, 17 de maio de 2013

sussurrantemente

vejo-te articular um som
que não ouço mas sei de amor
é-me bom e imagino
um repete por favor
e
ouço-te sorrir-me um beijo
enquanto me beijas em sussurro

bem-me-quer, bem-me-quer

nosso prodígio de amantes
misterioso modo, o nosso comunicar
intuimos o que entendemos
é uma voz sem som
uma imagem que temos, sem olhar
ao perto ou ao longe, tanto faz
nós sabemos
está no ar, sem lá estar
pura intuição ou coincidência
química ou uma qualquer inteligência
nosso mimo existe, vivo
onde quer que estejas
saberei sempre que me ouviste
e ouvir-te-ei sorrir que me desejas

terça-feira, 14 de maio de 2013

sodoma ou gomorra

e quando os economistas gerirem a economia
e o povo empobrecer...

e quando os juristas redigirem leis
cuja moralidade não se entende...

e quando os políticos não gostarem de povo
e não o souberem respeitar...

e quando os governos, só governarem
como ninguém quer...

e quando o cidadão aguardar
orando para que o azar não seja maior...

e quando os que sofrem
forem piegas que não se calam...

e quando o povo
se excluir de participar...

e quando a democracia
parecer não servir os povos...

e quando aos poetas nada doer
e só declamarem lírico amor...

que responderemos quando nos perguntarem
se foi isto que quisemos?

segunda-feira, 13 de maio de 2013

meu fôlego

meu fôlego de rio corre espraiado
sem margens; ignoro-as e rendem-se
à inexistência do que é ignorado.
rio da fantasia - sei-me vivo.

rio em meu corpo surdindo nas veias,
curso de sangue para o calafrio
de olhos fechados, vertigem e meia
rio da fantasia - sei-me vivo!

rio corrente de inspiração, fluindo dos dedos
em rios de escrita, afluentes, efluentes,
mapeados em papel: linhas de poesia
e rio da fantasia - sei-me vivo!

meu fôlego é de rio.

cartas de amor

suplicaram-me, as tuas cartas, que as rasgasse
também elas querem ir para longe do meu alcance.
incomodamo-nos com o cheiro a pó
das emoções e dos sentimentos que carregamos;
com a cor, elas amarelecidas e eu cinzento;
com as memórias que nos invocámos,
no toque, nos vincos, no rasgão da ansiedade,
no amarrotado da raiva.
as vezes que as percorri com o olhar
e com os dedos indicador, médio e anelar
procurando nos sulcos da tua escrita
as curvas - relevos - do teu corpo.
recordo-me que algumas delas traziam o calor da tua mão
foi bom... lembro-me do que senti.

agora reconheço que querem voltar para ti
porque são tuas e estão comigo
pedem-me que as rasgue.

sábado, 11 de maio de 2013

indagação

procuro algo de diferente
nesta manhã 
algo que pronuncie o dia
os cães trocam os mesmos latidos
os pássaros chilreiam como ontem
as árvores curvam-se ao vento
dançando como sempre fizeram
só esta procura é diferente
e fará o dia único

genuíno

há mil anos que estou tecendo
um beijo
que sempre foi teu
quero dar-to texturado
daquela simplicidade de alma
a que chamamos genuíno
porque genuinamente
te amo

sexta-feira, 10 de maio de 2013

ser teu

entregar-me a ti é ser teu
sem te pertencer
pronunciar-te uma parte de mim
quando de facto sou teu
pelo desejo de te alegrar até à felicidade
o que me faz feliz
é que sendo teu, somos nós

silêncios

do que falam os silêncios
de segredos
de medos e de rancores
de desejos, velhos e novos
de amores, de guerras de infiéis
e do que não se sabe dizer
do indizível
do impronunciável

o rei

era rei
o banco de jardim era o seu trono
os pombos vinham comer-lhe à mão
não que fossem seus súbditos
confiavam nele
que assolhava a felicidade
quando os amigos se aproximavam

quinta-feira, 9 de maio de 2013

sussurro

estou aqui
neste sopro de memória
que te tocou o momento
penso em ti

estou aqui
indiscreto à tua janela
pulando em pontas de pé
penso em ti

estou aqui
apanhei o olhar que perdeste
colei-o no sorriso que soltaste
penso em ti

minha ideia de amor

serei um rio
ronceiro, espraiado
procurando algo maior.
banharei minha sereia
em meu leito
minha ideia de amor
semearei dia após dia
passeando na calmaria
o sorriso húmido de rio.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

logo

anseio afundar meu rosto
em teu peito
e ali ficar
profundamente teu
ouvindo-te
sentindo-te
sem me mexer
entrar no teu respirar
embalar-me no teu pulsar
e ali ficar
aconchego
lar

segunda-feira, 6 de maio de 2013

campanário

aponta-me o lado do vento
mostra-me a sombra do sol
fala-me em badaladas
que eu possa contar
ensina-me a serenidade
que te deu uma alma
e o amor de um povo

pensamento solto

tanta poesia viva
no peito
no pensamento
nos dedos
de quem escreve
ainda que as palavras
não o revelem

domingo, 5 de maio de 2013

mãe

"foste tu que me fizeste mãe"
revelaste-me ao acordar.
sabia-o, claro,
mas nunca desta forma
(aparentemente) tão biológica
a mesma que me fez pai
no mesmo preciso momento.

tenho guardado como apontamentos
o teu olhar de íntima satisfação
enquanto acariciavas teu ventre,
a ternura que agarrava minha mão
para sentir em ti o pulsar na nossa vida,
a delícia que fotografavas (pai e filho),
a tua alegria feita de nós.

hoje percebi como me fizeste pai pela tua maternidade
e porque mãe sempre me foi mais que uma mera palavra
é-me uma expressão de vida.

amo-te mãe que fizemos
a tua grandeza está na grandiosidade
de que empossaste a palavra mãe.


amor perfeito

têm os poetas um amar difícil
têm os poetas um imenso amor
enorme e profundamente dedicado
o talham com precisão de artista
o querem perfeito como a flor
e amam a flor
logo depois o jardim
e as aves
o céu e as nuvens
as estrelas
e tudo
mais as pessoas
os sentimentos
as ideias e os ideais
e os poetas entregam-se
pela paixão emergente
de amar o lado humano da vida
que talham com a perfeição do amor.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

dor

o dia da tua fuga
aticei-te a maldição e o rancor
tamanha era aquela dor (funda) de rasgão
na alma, no peito, na voz, no corpo - página a página
fiquei só capa de um livro sem nada para ler - sem nada para ver
fiquei oco, vazio dorido sem eco de nós e de ti.

abandonaste-me à solidão
de despedida rabiscada em papel
sabor amargo de fel, agonia de vida
onde conheci a cobardia
aquela que te chamei e a que preenche meu dia.
agora apanho-te no lado da cama em que não estás
o cheiro que lá encontro é teu: tem rancor e solidão.

chocolate

no caminho para o chocolate
encontrei todas as vozes da minha consciência...
rezei. não para evitar o pecado,
apenas queria leves as más consequências.
deliciar-me-ia pecar
é a nossa natureza; a minha e a do chocolate.
admirámo-nos mutuamente;
eu toco-lhe seduzido, ele derrete-se para mim.

adoro-lhe a mornidade do aroma, do sabor
e da tocadura nas mãos e nos lábios
do envolvimento doce da língua
que se move lenta e forte
como o espreguiçar, libidinoso
que a garganta recebe deliciada e ávida
rouca e voluptuosamente
aconchegada ao chocolate.

amor inesquecível, obsessão incurável
envoltura de abraço, memorável
amar-te-ei sempre, pecaminosamente
desafio da minha consciência

voo de andorinha

o dia da tua fuga foi o dia do meu encontro.
passavas num voo de andorinha
rápido, inquieto, ousado e belo
anunciador
da primavera que se aproximava num voo tardio.
esquecera-me da luz da chegada duma andorinha
e aconcheguei-te graciosa junto ao peito
onde se guardam os tesouros.

o dia da tua fuga

tínhamos adivinhado
tínhamo-nos confessado
sem que uma palavra fosse pronunciada.
sabe-se e silencia-se: é assim que se foge
escapando pé-ante-pé, encobrindo, negando, mentindo
fugindo para a frente, apressado no beijo e no sono
indiferentes ao sim e ao não.
arrastámos os olhares pelo chão
(que a alma não nos traísse)
sorrimos de pânico que algo se descobrisse.
desconhecíamos e adivinhávamos
a moinha doeu, rasgou, sangrou.
corpos doridos posados à janela
qual ponto de fuga, perspectiva
linha da vida que passava lá fora
e como fora bela, recordámos
que nostalgia, de mãos apertadas de réstias.
porque tudo era vago, tudo escapou
o dia da tua fuga...
já tinhas partido e eu já te tinha largado
o relógio parou-me e o tempo conto-o sem peito
minha alma fugiu atrás de ti.

sonho

SONHAR. EM FRENTE. - apelava a placa que segui
(não sei se sonhei, se esqueci e depois lembrei)
fui andando, esperando ver a entrada num mundo de sonhos sonhados
o surreal do impossível, incandescente desejado
mas era deserto tudo o que via, nem escombros havia
e o chão só aparecia a cada passo que eu dava
a luz estava sumida e a noite não existia, tudo era vago e vago estava
aguardando ser preenchido por algo que eu não sabia o sentido
foi então que te encontrei: um ponto no meio do nada
grão de areia reluzente, pinta de poeira bem suja
de ti nasceu uma linha, curvilínea e infinita
que se encorpou e ganhou vida, se moldou e renovou
cativando meu olhar sempre que os olhos me fechavam
passavam sonos de criança, gritavam desejos de gente
preces ardentes declamadas, poesias que eram rezadas
fantasias fantasiadas e impossíveis realidades das reais possibilidades
o milagre da utopia e a utopia do milagre...
perguntei-te quem eras, que maravilhas fizeras, que querias
semeaste em meus olhos abertos tua expressão sonhada, prenhe de carinhos teus
sopraste nos meus ouvidos e eu soube: - TU ÉS O SONHO! TU ÉS DEUS!

liberdade

liberdade é paixão no feminino
sedução de amante, irreverente e fascinante
define-se a si mesma, é incomparável
sem diminutivos, sem aumentativos
senhora, menina, mulher
é rebelde e vadia
sorriso e gargalhada de todos
solta no ar, na terra e no mar
morrerá na gaiola do pássaro belo.
se a víssemos flor seria colorida, garrida
caule espinhoso para lembrar
como a papoila morre se colhida.

liberdade é partida, é chegada
é corte da amarra e laço concebido na caminhada
é cumplicidade
estuário de rio desenhado pela terra e pela água.

liberdade é dia-a-dia
brisa no corpo, sol no rosto, olhar voador
é força no peito, vento no pensamento
emoção de lágrima, grito e rouquidão
voz trémula de entrega
é sonho livre, livre e mais livre
recreio de crianças
utopias rodando de mão na mão
filhas da liberdade.

era uma vez...

era uma vez... tu nascias
eu via-te nascer, devagarinho
porque os momentos bons
vêem-se e revêm-se devagarinho

era outra vez... tu crescias
eu dava-te um dedo e tu querias andar
fugindo de mim para eu te apanhar
eu dava-te colo, aconchegavas o corpo
ficavas, rias, gostavas e dormias

era também uma vez... eras maior
querias ser grande e compreendido
exageravas tua leitura de umbigo
eras corajoso, eras voluntarioso e eu sorria
e decidia se ficaria ou se te acompanharia

era uma vez, ainda... parecíamos iguais
homens discutindo a vida pelos jornais
vivendo o tempo, fazendo pensamento
sendo adultos e nada mais

era mais uma vez... tu eras homem
eu estava cansado, podia apreciar-te
orgulhar-me de ti e adormeci
feliz pela felicidade de poder amar-te

era uma vez uma história do mundo
feita de vidas sem grandes feitos
só com enormes momentos

poesia

tu, aguarela que te pintaste em minha alma
colorida, abusas de mim ocupando-me como
amante, pecado que preciso, obsessão, deleite, poema
que sonhamos, linhas que tricotamos em palavras
que geramos, como pais de uma gramática
concebida no enamoramento de quem se prometeu.
por vocábulos nos fundimos à ação e ao destino
(porque até o hífen, sendo elo, nos separava)
nos refazemos num "amote", num "querote, até "odeiote"
"desejote", "sintote", "escrevote", "leiote" por uma lei da natureza, nossa.
tu, o início de tudo
jorras nas minhas veias o que apelidas de inspiração
que sinto como pensamentos inquietos que me explodem no peito
em torrentes de emoção e que me aflora aos olhos, aos dedos
e desenho escritos como melodias, pautas, músicas de poesia
transpirados de lágrimas, de sangue e de calafrios
êxtases medonhos de exaustão e delírios de felicidade
pelo poema terminado e pela inquietante busca do próximo.
tu! tu! tu! exclamação, desejo, exaltação, exagero exagerado
paixão, arrebatamento...

tu, encantamento, milagre, magia, pureza
força e fragrância doce e pura, pueril beleza,
poesia que moldaste minha vida e criaste meu ser
partilhamos um destino que escreveremos, rabiscando e rasurando
como tu e eu sabemos.

olhos de uma manifestação

teus olhos inteligentes, atentos
alertaram para o que não se vê nem se fala
e para o que o medo não deixa pensar.

teus olhos honestos têm tudo
e acima de tudo têm dignidade
por ela lutam e não a trocam por caridade.

teus olhos têm razão
envergonhamo-nos, fomos descuidados
confiamo-nos a uma partidarice de ismos.

teus olhos saíram à rua
sem profeta e sem deus, glosaram a democracia
no tom de uma canção de povo de bom coração

teus olhos sabem de Camões a força da poesia
persistência e tormentos
depois das descobertas far-se-ão os descobrimentos.

teus olhos, quero olhar teus olhos
liberdade, por natureza indignada
jovem ausente emigrada, voluntariosa poção
anti crise, poesia, povo feitor de utopia
forma humana de viver.

ao pai que nunca vi

cheguei, chego ou chegarei hoje à meia idade
tu como sempre, estás ausente:
a tua forma de presença, a tua celebridade e a minha recordação.
lembro-te como um messias
aparecerias, um dia, e tudo se mudaria
tu virias e eu deixaria de sentir aquela réstia de desconforto
nos colos, nas mãos, nos olhares que pressentia não serem meus
eram de alguém e eu usava-os como um trapo em segunda mão
rompia-o e gostava,
sabendo não ser feito nem comprado a pensar em mim.
e tu chegarias (acreditava) e eu procurava, aguardava
meu pai (meu) para mim.
hoje entendi a rima do teu estado:
tu, presente, ausente, silente
e não creio, queiras ser procurado
e eu quero sentir (minhas) as ternuras e os mimos
feitos à minha medida, por quem lê nos meus olhos a necessidade
e no meu peito o reconhecimento, tão terno quanto eterno.
hoje, abandonarei a minha incessante procura
encontrar-te-ei: no mar e no vento
nos olhares, nos abraços, nos risos e nos sorrisos
oferecidos pela minha gente, tão diferente de ti,
que (só foneticamente) rima com teu estado:
presente, ausente, silente...
pai... sem ressentimento.

adeus

chegou o momento, meu amor
adiei a escrita desta linhas
adiei até não poder mais
e agora falta-me tudo
até a coragem para te escrever

impulsiona-me a necessidade
tua e minha,
a única coisa que temos em comum,
de te sentir livre
sem desilusões, sem mágoas
levarei comigo o que de ti não consigo,
talvez não queira, deixar:
o teu sorriso e o teu olhar
com que me falavas
sem articular uma única palavra.

e toda a coragem que encontro
gasto-a
num último relance pelo horizonte,
num último adeus
articulado em silêncio.

à aventura

l.
o que de bom o dia tem
nem eu sei bem
só sei que chama por mim
como se eu fosse seu fim
e o que lhe vou responder
nem sei se irei saber
porque o que o dia me quer
é um capricho de deus.

ll.
sentei-me na minha cadeira
amei a minha janela
pulei das pontes para os montes
percorri longínquos sem fim
fui onde deus me chamou
andei onde a liberdade me levou
e quando regressei
montado num fim de tarde
recordei, tudo o que falei
tudo o que sonhei
e o meu dia continuou
feliz por nos encontrarmos.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

terça-feira, 30 de abril de 2013

pensamento

tirassem a poesia a um poema
restaria um amontoado de palavras
jamais lidas, ilegíveis
que o vento não levaria...

segunda-feira, 29 de abril de 2013

'

decidimos
não dar nome ao que sentimos
fizemos
a razão de sabermos a mar.

somos a praia
areia e mar
somos corpos
que se fundem sem se misturar
suados, salgados
sabem a mar
abençoados
infinitos
como o luar
feito de sol e de lua
eternamente
como o sentimento
que geramos de emoções e momentos.
somos a pintura
a tela e a tinta
obra, criação
areia onde me deito
mar onde mergulhas
marulhamos
numa linha indefinida
pela métrica do respirar
murmuramos
sabemos a mar.

domingo, 28 de abril de 2013

tentação

assim
tremendamente nua
tu e a lua
desafiaram-me a sonhar
tu pelas sombras do corpo
a lua pelo luar

sorriso de amor

quem ama cresce, grande
belo como o balão, colorido
leve  como uma nuvem, redonda
azul como um céu, limpo
enorme como o sorriso de amor

feito de luz e de olhar
sabor a beijo, dedicado
delicioso de ver
enorme de sentir
como sol

entra pelos olhos
irradiante no peito, aquece o corpo
membro a membro se distende
gigantemente abraça o mundo
tão pequeno como o universo.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

sorri-me

o sorriso, o teu sorriso
amo pelo teu sorriso
por mor dele existem todas as coisas,
as mais lindas do mundo.

limites do amor

amo até onde o coração me deixa
assim pensei anos a fio
depois meu peito dilatou-se como uma onda
sem medida, para fora dos seus limites
agora amo até onde o mundo me quer

quarta-feira, 24 de abril de 2013

olhos molhados

lá, onde os olhos choram
pousam mágoas
ardem iras
pulam alegrias
bolorecem tristezas
e brilha o sol
aquele do olhar radiante
molhado de felicidade
como as manhãs dos jardins

terça-feira, 23 de abril de 2013

arco-íris

todos os dias teimo, teimosamente
dizendo aos que me contam a vida
em tons de dor e sofrimento
que sendo o cinzento uma cor
há mais cores que o cinzento

quarta-feira, 17 de abril de 2013

força da poesia

na releitura se encontra o prazer num poema
(algures entre a 3.ª e enésima visita)
quanto mais rico, o escrito, mais se vai descobrindo
mais se vai caminhando na imaginação do escritor
mais se vai desvendando o leitor, a cada leitura
este caminho comungado é a força da poesia

terça-feira, 16 de abril de 2013

a bica

queria uma bica.
precisava do conforto daquele aroma quente para acordar a alma.
entrou no café que sempre frequentou, cumprimentou e fez-se cumprimentar com um sorriso e uma subtil vénia do olhar.
a bica chegou-lhe a preceito: cheia, com creme, não queimada em chávena escaldada e sem o açúcar.
as amigas lembraram como o café faz mal à vesícula, enquanto torciam os narizes e enrugavam os lábios.
ignorou-as, sorridente para si mesma, e saboreou aquela bica com o prazer de quem está a pecar.
era o seu vício de princesa...

revelação

era princesa, revelara-lho a avó no meio das travessuras que tanto a faziam sorrir.
sabia que sempre seria princesa.
um dia a vida nomeou-a rainha, e foi rainha, triste, porque seu coração era de princesa, como lhe dissera a avó.
logo que pôde regressou à inquietude e ao olhar gracioso de princesa. e lá se mantém.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

família

as telenovelas enchiam-lhe a alma.
em todas havia crianças, adolescentes e adultos que lhe entravam pela casa dentro cheios de folias e de angústias... como uma família...