neste jardim
as velas se enfunam
só para acompanharem os pássaros
que voam pelo destino
que um dia escolheram
ainda habitavam o pequeno ovo
e já sonhavam, no calor do choco
com jardim do ninho
e o dia em que estenderiam asas
tremendo de coragem
saltariam. e vogando
seriam nau e descobrimento
deste jardim
sexta-feira, 6 de dezembro de 2013
aconteceu
tropou à porta de mim
que nem era minha
era de uma certa consciência
que eu nunca vira
que mal conhecera.
ela, que propalava ser minha
ignorou o tropar
ainda que este voltasse
mais e mais, sem sossego.
ora sucedeu
que o tropar emudeceu
e a consciência adormeceu
que nem era minha
era de uma certa consciência
que eu nunca vira
que mal conhecera.
ela, que propalava ser minha
ignorou o tropar
ainda que este voltasse
mais e mais, sem sossego.
ora sucedeu
que o tropar emudeceu
e a consciência adormeceu
beata
teu colo é de um rosário
que acaricias nas mãos
conta a conta
onde intercalas ladainhas
suspiros e desejos
de tudo e do céu
carinhoso rumorejo
meiguice ao alto no olhar
cruzas teu peito
de um bailado de mãos
coroado dum ósculo
te consagras e proferes
"uma boa horinha"
que acaricias nas mãos
conta a conta
onde intercalas ladainhas
suspiros e desejos
de tudo e do céu
carinhoso rumorejo
meiguice ao alto no olhar
cruzas teu peito
de um bailado de mãos
coroado dum ósculo
te consagras e proferes
"uma boa horinha"
quinta-feira, 5 de dezembro de 2013
loucura
a loucura tem um dia
como a morte
enlouca-se, morre-se
e nada se mantém
ou de nada valeu
enlouquecer eu morrer
no dia da minha loucura
enlouquece-me
como se tivesse frio
muito frio
e precisasse do teu corpo
para me enlouquecer
no dia da minha loucura
discorda de mim
concorda comigo
mas não me fites indiferente
nem me cites pelo que lês
no dia da minha loucura
sopra-me um beijo
se puderes
toca-me por um beijo
que a minha loucura
se fará pura
como qualquer forma de vida
como a morte
enlouca-se, morre-se
e nada se mantém
ou de nada valeu
enlouquecer eu morrer
no dia da minha loucura
enlouquece-me
como se tivesse frio
muito frio
e precisasse do teu corpo
para me enlouquecer
no dia da minha loucura
discorda de mim
concorda comigo
mas não me fites indiferente
nem me cites pelo que lês
no dia da minha loucura
sopra-me um beijo
se puderes
toca-me por um beijo
que a minha loucura
se fará pura
como qualquer forma de vida
quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
beijos teus
teu beijos, acatei-os
uma a um
confissões de sentidos
onde as palavras mordiscam os sentimentos
onde a emoção consome a voz
eram húmidos
colavam-se na pele
onde fitavas o olhar
revelaram-se
e desvendaram-te
uma a um
confissões de sentidos
onde as palavras mordiscam os sentimentos
onde a emoção consome a voz
eram húmidos
colavam-se na pele
onde fitavas o olhar
revelaram-se
e desvendaram-te
mar prateado
deste mar tirei um lago
longo, escuro, largo
nele cresci uma ilha
que não plantei
de tão sombria
o sol nem tinha luz
que a alumiasse
estive
até o sorriso me nascer
como sol da manhã
das memórias
que um dia guardei de ti
o mar
sempre navegante
evaporou o lago
onde a ilha já se havia afundado
e escolheu-se prata
para oferecer o brilho matinal
longo, escuro, largo
nele cresci uma ilha
que não plantei
de tão sombria
o sol nem tinha luz
que a alumiasse
estive
até o sorriso me nascer
como sol da manhã
das memórias
que um dia guardei de ti
o mar
sempre navegante
evaporou o lago
onde a ilha já se havia afundado
e escolheu-se prata
para oferecer o brilho matinal
sábado, 30 de novembro de 2013
quarta-feira, 27 de novembro de 2013
dedicatória
sou os dedos
toda a redondeza de corpo
que encorpa a tua beleza
feminina de ser
animal de desejar
flor de cheirar
que num beijo te
entrego
eu, que pelo beijo me entrego
e me dou pelas mãos
por onde saio
genuinamente
genuinamente
teu
ser
vens de mim
como um pequeno adeus
tímido de feitio
desejoso de partir
sereno na chegada
indagador na estada
em silêncios
sempre em silêncios
onde vives
e vens de mim
como um pequeno adeus
tímido de feitio
desejoso de partir
sereno na chegada
indagador na estada
em silêncios
sempre em silêncios
onde vives
e vens de mim
segunda-feira, 25 de novembro de 2013
ácido
seria ácido, corrosivo
sem condicional
se te declarasse meu amor
serias corroída, de dentro para fora
acontece às pessoas
momentos antes de deixarem de o ser!
sem condicional
se te declarasse meu amor
serias corroída, de dentro para fora
acontece às pessoas
momentos antes de deixarem de o ser!
sexta-feira, 22 de novembro de 2013
retrato sapato
é assim:
uma vez um retrato feito de um sapato
e para quem o plantou, retratava
quem lá não estava.
mistério indagava:
- como se pode retratar alguém sem lá estar?
poderá haver fotografia de uma imagem vazia?
assim explicava: assim daqui; assim dali;
assim não queria ser confundido com o dono do sapato
que trabalha em assunto sério
sem tema para poema, sem lugar para a poesia;
e, ainda, amava o mistério.
heresia! assim descobriu
o trabalho que fazia, melhorou com a poesia;
a poesia que escreveu, tinha tema muito sério;
a gente intrigada, devagarinho descobriu
o dono do sapato, usado e retratado;
e de boca pequena o assunto era falado;
o tabu estava instalado.
no 1º aniversário, depois de três ai jesus
assim fez trus, escolheu uma fotografia
tão próxima e detalhada que não escapava nada:
ruga, ponto negro ou papada.
agora sabem porque é assim?
é que se não fosse assim
como escreveria este poema?
uma vez um retrato feito de um sapato
e para quem o plantou, retratava
quem lá não estava.
mistério indagava:
- como se pode retratar alguém sem lá estar?
poderá haver fotografia de uma imagem vazia?
assim explicava: assim daqui; assim dali;
assim não queria ser confundido com o dono do sapato
que trabalha em assunto sério
sem tema para poema, sem lugar para a poesia;
e, ainda, amava o mistério.
heresia! assim descobriu
o trabalho que fazia, melhorou com a poesia;
a poesia que escreveu, tinha tema muito sério;
a gente intrigada, devagarinho descobriu
o dono do sapato, usado e retratado;
e de boca pequena o assunto era falado;
o tabu estava instalado.
no 1º aniversário, depois de três ai jesus
assim fez trus, escolheu uma fotografia
tão próxima e detalhada que não escapava nada:
ruga, ponto negro ou papada.
agora sabem porque é assim?
é que se não fosse assim
como escreveria este poema?
exaustamente feliz
esgotaste-te
ainda estás estafado
como após um orgasmo
sente-se na tua face
nos teu olhos
como acariciam cada leitura
(interminavelmente)
do que escreveste
feliz, exaurido
amaste fodidamente
ainda estás estafado
como após um orgasmo
sente-se na tua face
nos teu olhos
como acariciam cada leitura
(interminavelmente)
do que escreveste
feliz, exaurido
amaste fodidamente
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
postal de s. valentim
desprende-te desses olhos pardos de tristeza
e deixa que se alegrem em alguém.
tropeça sem medo
nessa vida alinhada, engelha-a e amassa-a
machuca-te e aceita a cura de um beijo.
despe-te desse bafio ricamente adornado
limpa a maquilhagem que te greta as mãos
e a face
te seca o peito que já se parte de ressequido
exibindo-te o empedernido a que chamas coração;
como vês, não se compara com a imagem desse postal
que torturas na mão. a quem o vais dar?
não o escrevas: rabisca-o, rasura-o, porquê?
porque sim, porque é assim o amor;
ficas nervosa quando dizes que amas, e depois?
é porque amas e pronto, rasura-o
para que vejam, que saibam que tens ansiedade de amar.
e não te preocupes com a resposta,
talvez não seja a que gostarias, e então?
se o que queres é amar, ama! ama! e ama!
sem palavras românticas,
que o romantismo nunca esteve nas palavras
mora no peito e despeja-se pelo olhar e pela entoação.
sim, a entoação que se dá às palavras
sejam elas quais forem, mesmo que te pareçam impropérios;
já ouviste um palavrão que te acendesse o desejo de ser para ti?
ainda bem! pois não és um caso perdido.
e olha, esborrata-me bem esse postal com o teu batom
não precisas de uns lábios perfeitamente desenhados
mas de uns lábios bem amachucados nesse pedaço de coração de papel
já sentiste um beijo perfeito? saciante? carnudo?
doce e terno? desejado de tanto desejo?
pois bem, digo-te, tem lábios colados
gulosos, que nada têm a ver com esse fino recortado.
e o teu corpo? meneia-me esse corpo, dá-lhe balanço
realça-lhe as formas
ou de nada vale a dieta que estudaste e cumpres religiosamente
aceticamente,
sem uma pinta de desejo de pecar, de comer o proibido.
estala o verniz dessas unhas até à loucura
como aquela que imaginas sentir um dia, e ensaias
quando pronuncias para ti um "meu amor" forte e arrebatador
que entregarás ao teu amante que colocaste bem alto num pedestal.
pois bem, atira-te de cabeça, aplaca-o e rebola-te nele
despe-te rasgadamente e sorve-lhe o perfume
e mistura-o com o teu e devolve-lho pela pele
a tua pele na dele. vai-te a ele!
exibe-lhe os teus seios, mostra-lhos
como são bem nutridos
com os melhores cremes e carícias
que disfarças em massagens corporais
corporais uma treta!
são corporais porque também é corporal o prazer
e o desejo, aquele que faz as tuas mãos perecerem de outrem
e desejar-lhe os lábios, mais!
a boca bem aberta, bem cheia do teu seio
ah!! prazer! supremo! vai-te a ele
dá-lhe teu ventre, dá-lhe as costas
dá-lhe tudo o que sempre quiseste dar-lhe
vai-te a ele!
dá-lhe esse maldito postal torturado de mãos em agonia
imperfeito de tudo como o amor
que perfeito e mais que perfeito só o pretérito.
por isso corre, corre à chuva e salta na lama
constipa-te, se for preciso, engripa-te
enlameia-te tanto que os sapatos fiquem estragados
e põe-te na frente dele, barra-lhe o caminho
dá-lhe tudo o que tens e se recusar não interessa
tu ama-lo e és bela, que importa o que aconteça?
e deixa que se alegrem em alguém.
tropeça sem medo
nessa vida alinhada, engelha-a e amassa-a
machuca-te e aceita a cura de um beijo.
despe-te desse bafio ricamente adornado
limpa a maquilhagem que te greta as mãos
e a face
te seca o peito que já se parte de ressequido
exibindo-te o empedernido a que chamas coração;
como vês, não se compara com a imagem desse postal
que torturas na mão. a quem o vais dar?
não o escrevas: rabisca-o, rasura-o, porquê?
porque sim, porque é assim o amor;
ficas nervosa quando dizes que amas, e depois?
é porque amas e pronto, rasura-o
para que vejam, que saibam que tens ansiedade de amar.
e não te preocupes com a resposta,
talvez não seja a que gostarias, e então?
se o que queres é amar, ama! ama! e ama!
sem palavras românticas,
que o romantismo nunca esteve nas palavras
mora no peito e despeja-se pelo olhar e pela entoação.
sim, a entoação que se dá às palavras
sejam elas quais forem, mesmo que te pareçam impropérios;
já ouviste um palavrão que te acendesse o desejo de ser para ti?
ainda bem! pois não és um caso perdido.
e olha, esborrata-me bem esse postal com o teu batom
não precisas de uns lábios perfeitamente desenhados
mas de uns lábios bem amachucados nesse pedaço de coração de papel
já sentiste um beijo perfeito? saciante? carnudo?
doce e terno? desejado de tanto desejo?
pois bem, digo-te, tem lábios colados
gulosos, que nada têm a ver com esse fino recortado.
e o teu corpo? meneia-me esse corpo, dá-lhe balanço
realça-lhe as formas
ou de nada vale a dieta que estudaste e cumpres religiosamente
aceticamente,
sem uma pinta de desejo de pecar, de comer o proibido.
estala o verniz dessas unhas até à loucura
como aquela que imaginas sentir um dia, e ensaias
quando pronuncias para ti um "meu amor" forte e arrebatador
que entregarás ao teu amante que colocaste bem alto num pedestal.
pois bem, atira-te de cabeça, aplaca-o e rebola-te nele
despe-te rasgadamente e sorve-lhe o perfume
e mistura-o com o teu e devolve-lho pela pele
a tua pele na dele. vai-te a ele!
exibe-lhe os teus seios, mostra-lhos
como são bem nutridos
com os melhores cremes e carícias
que disfarças em massagens corporais
corporais uma treta!
são corporais porque também é corporal o prazer
e o desejo, aquele que faz as tuas mãos perecerem de outrem
e desejar-lhe os lábios, mais!
a boca bem aberta, bem cheia do teu seio
ah!! prazer! supremo! vai-te a ele
dá-lhe teu ventre, dá-lhe as costas
dá-lhe tudo o que sempre quiseste dar-lhe
vai-te a ele!
dá-lhe esse maldito postal torturado de mãos em agonia
imperfeito de tudo como o amor
que perfeito e mais que perfeito só o pretérito.
por isso corre, corre à chuva e salta na lama
constipa-te, se for preciso, engripa-te
enlameia-te tanto que os sapatos fiquem estragados
e põe-te na frente dele, barra-lhe o caminho
dá-lhe tudo o que tens e se recusar não interessa
tu ama-lo e és bela, que importa o que aconteça?
estado de outono
o outono não chega
entende-se
depois bebe-se
aquele tom castanho avermelhado
de árvore e pôr-do-sol
morno prazeroso
acompanha-nos gentil
modesto, pelo acolhimento
e também não parte
entende-se
depois bebe-se
aquele tom castanho avermelhado
de árvore e pôr-do-sol
morno prazeroso
acompanha-nos gentil
modesto, pelo acolhimento
e também não parte
quarta-feira, 20 de novembro de 2013
trajetos e estados
de cada vez que me sento à mesa
vejo um lugar onde posso escrever;
procuro um ponto, olho pela minha janela;
um ponto na minha janela para onde viajo
umas vezes só, outras levo comigo o desejo de fantasiar.
porto-me, então, como uma criança entusiasmada com a brincadeira
da qual tanto gosta, que precisa de a contar à avó:
da qual tanto gosta, que precisa de a contar à avó:
e intermitentemente brinca e vem explicar o quanto se divertiu.
são assim as minhas idas e voltas
entre o ponto da minha janela e a folha de papel em que escrevo;
e palpitam-me os olhos e faísca meu peito.
o entusiasmo descreve-se a si mesmo pela impossibilidade de parar.
nestas alturas não respiro: inspiro e expiro
porque a fantasia e a escrita são destes estados.
terça-feira, 19 de novembro de 2013
o pôr-do-sol
no sítio do horizonte
a montanha copiou-te a silhueta
arredondada, de corpo e de montes
de curva ondulada,
também um v bem vincado
onde o sol se quis acoitar; e lá se pôs
um pouco antes do céu estrelar
e da lua se encher para luar
a montanha copiou-te a silhueta
arredondada, de corpo e de montes
de curva ondulada,
também um v bem vincado
onde o sol se quis acoitar; e lá se pôs
um pouco antes do céu estrelar
e da lua se encher para luar
galo de barcelos
esgravatei o chão
e não estavas lá
de madrugada cantei afinado
e não me atendeste
defendi o território corajosamente
que deixaste vago
alindei minhas penas, colori-as
e sorriste de mim
procurei-me num novo look
e deixei este lugar
agora, que sou do mundo, amas-me
e chamas-me teu
e não estavas lá
de madrugada cantei afinado
e não me atendeste
defendi o território corajosamente
que deixaste vago
alindei minhas penas, colori-as
e sorriste de mim
procurei-me num novo look
e deixei este lugar
agora, que sou do mundo, amas-me
e chamas-me teu
segunda-feira, 18 de novembro de 2013
nós
se pelos olhares nos abraçássemos
como fios, que se dão em nós
cegos
ou outros, mais artísticos
como os de marinheiro, que ama
e teme o mar,
seríamos a bolina e a amura
seríamos o navegar.
como fios, que se dão em nós
cegos
ou outros, mais artísticos
como os de marinheiro, que ama
e teme o mar,
seríamos a bolina e a amura
seríamos o navegar.
fuga
creio que terás por aí
uma morte para mim
dá-la-ei aos meus pensamentos
aqueles que me torturam
é eu que não suporto não pensar...
essa morte matar-me-á
antes que eu descubra que estou morto
assim acontece a quem foge da dor
e morre-se pelo pensamento
por ele se define a vida
uma morte para mim
dá-la-ei aos meus pensamentos
aqueles que me torturam
é eu que não suporto não pensar...
essa morte matar-me-á
antes que eu descubra que estou morto
assim acontece a quem foge da dor
e morre-se pelo pensamento
por ele se define a vida
sábado, 16 de novembro de 2013
entrei no dia
um pássaro cantou um raio de sol
o sol fez um voo de pássaro nas nuvens
as nuvens exibiam-se volumosas de luz
majestades sem tempo. soprei,
quis influenciar o momento
e o tempo que era de calma
deixou-se afetar, como sempre, devagar
o sol fez um voo de pássaro nas nuvens
as nuvens exibiam-se volumosas de luz
majestades sem tempo. soprei,
quis influenciar o momento
e o tempo que era de calma
deixou-se afetar, como sempre, devagar
sexta-feira, 15 de novembro de 2013
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
biografia iii
nasci em 1961 e tremo de vara verde ante do peso quando me chamam poeta, pelo temor de manchar a primeira forma de literatura que amei.
sempre escrevi, escrevinhando, enquanto estudava psicologia e me tornei profissional. escrevia e acelerava o meu crescer, o meu ver. tive filhos que entraram na escola e me ensinaram a ingenuidade do escrever escrevendo simples. fascinava-me ouvir aquelas composições tão luminosas de gente.
hoje escrevo emoções pela alma que deixo desfiar em linhas que se enovelam em palavras e estas se alinham em escritos de fantasias que conheci na infância e nunca mais larguei. sacio-me ao escrever, necessito-me a desenhar, a rabiscar a rasurar algos com força de mote e métrica de peito.
embora o meu temor de macular a poesia conviva comigo diariamente, um impulso secreto e uma mulher maravilhosa impelem-me a que me desvende, o que tenho feito. já participei numa antologia de poetas portugueses e agora tenho a honra de colaborar numa antologia de poetas nascidos no Brasil e em Portugal, o que me faz muito feliz. sempre me deliciou a sonância que sinto poética do português falado no Brasil
sempre escrevi, escrevinhando, enquanto estudava psicologia e me tornei profissional. escrevia e acelerava o meu crescer, o meu ver. tive filhos que entraram na escola e me ensinaram a ingenuidade do escrever escrevendo simples. fascinava-me ouvir aquelas composições tão luminosas de gente.
hoje escrevo emoções pela alma que deixo desfiar em linhas que se enovelam em palavras e estas se alinham em escritos de fantasias que conheci na infância e nunca mais larguei. sacio-me ao escrever, necessito-me a desenhar, a rabiscar a rasurar algos com força de mote e métrica de peito.
embora o meu temor de macular a poesia conviva comigo diariamente, um impulso secreto e uma mulher maravilhosa impelem-me a que me desvende, o que tenho feito. já participei numa antologia de poetas portugueses e agora tenho a honra de colaborar numa antologia de poetas nascidos no Brasil e em Portugal, o que me faz muito feliz. sempre me deliciou a sonância que sinto poética do português falado no Brasil
maria
maria era livre quando sentia girassol
maria rodava, rodava, maria feliz
perseguindo o infinito, luzente e quente
maria seduzia quando sentia malmequer
maria dançava e em cada pétala maria semeava
ora incerteza de um não, ora a candura da mulher
maria apaixonava quando sentia poesia
maria soltava o corpo, maria encorpava a alma
maria entrava no sonho e ao meu colo, maria adormecia
maria rodava, rodava, maria feliz
perseguindo o infinito, luzente e quente
maria seduzia quando sentia malmequer
maria dançava e em cada pétala maria semeava
ora incerteza de um não, ora a candura da mulher
maria apaixonava quando sentia poesia
maria soltava o corpo, maria encorpava a alma
maria entrava no sonho e ao meu colo, maria adormecia
estranho amor
contradição é viver num gume quando escrevo
e tirar a linha ao horizonte para que não haja limites
contradição é confiar no meu avesso
para sentir a profundidade e a serena doçura do olhar
contradição é saber que escrevendo não envelhecerei
e sentir que quando escrevo vou crescendo
contradição é parir um poema
e sentir-me fillho da poesia
estranho amor este
ser pai e irmão da sua arte
e tirar a linha ao horizonte para que não haja limites
contradição é confiar no meu avesso
para sentir a profundidade e a serena doçura do olhar
contradição é saber que escrevendo não envelhecerei
e sentir que quando escrevo vou crescendo
contradição é parir um poema
e sentir-me fillho da poesia
estranho amor este
ser pai e irmão da sua arte
nota biográfica
escrevo entre o pânico e a necessidade: um gume. a necessidade é pessoal, transborda-me; o pânico é de mácula na poesia.
não procuro a perfeição, procuro tão somente sentir a poesia que pode viver no mais imperfeito dos seres. de outro modo, como se poderiam escrever poemas?
não procuro a perfeição, procuro tão somente sentir a poesia que pode viver no mais imperfeito dos seres. de outro modo, como se poderiam escrever poemas?
quarta-feira, 13 de novembro de 2013
amarelo de van gogh
far-te-ia um poema em tela
de amarelo pincelado, forte
belo, de girassol
um ramo de girassóis
e teus olhos sendo dois
brilham, uma plantação
amarela viva
de onde tu despontarias
de amarelo pincelado, forte
belo, de girassol
um ramo de girassóis
e teus olhos sendo dois
brilham, uma plantação
amarela viva
de onde tu despontarias
terça-feira, 12 de novembro de 2013
natureza
ao ser gente
tornei-me rio
corri
fiz corrente
empurrei a margem
pulei e aspergi
acalmei
parei
espelhei
espraiando
encontrei o mar
mergulhei
com ele me misturei
tornei-me rio
corri
fiz corrente
empurrei a margem
pulei e aspergi
acalmei
parei
espelhei
espraiando
encontrei o mar
mergulhei
com ele me misturei
nada
sentei na beira do nada
por ser plano, confortável e fresco
como um degrau de escada
o que fazia ali? nada
onde me sentava? nada
em que pensava? nada
sentei-me na beira do nada
por ser plano, confortável e fresco
como um degrau de escada
o que fazia ali? nada
onde me sentava? nada
em que pensava? nada
sentei-me na beira do nada
refugiado
vi a desgraça
pintada de negro
aguardando, pacientemente
vi a solidariedade
pintada de branco
atabalhoada, palrando
entre a dádiva e a necessidade
começou o abismo
onde se perdeu a dignidade
onde se plantaram justificações
estéreis como os problemas
havia sorrisos mas não houve flores
falou-se de desgraça frente aos desgraçados
ignorando-os
na passerelle das competências
desfilaram verborreias, inconsistentes
jardins sem flores
onde é negra a graça da desgraça
porque negra nasceu
e ninguém lhe falou
nada se lhe perguntou
pintada de negro
aguardando, pacientemente
vi a solidariedade
pintada de branco
atabalhoada, palrando
entre a dádiva e a necessidade
começou o abismo
onde se perdeu a dignidade
onde se plantaram justificações
estéreis como os problemas
havia sorrisos mas não houve flores
falou-se de desgraça frente aos desgraçados
ignorando-os
na passerelle das competências
desfilaram verborreias, inconsistentes
jardins sem flores
onde é negra a graça da desgraça
porque negra nasceu
e ninguém lhe falou
nada se lhe perguntou
delírio
a ideia
que chegou de ti
tinha tudo
até a dúvida
a dúvida assaltante
encapuçada
que encapuçou a ideia
vinda de ti
que não reconheces
sendo tua
que chegou de ti
tinha tudo
até a dúvida
a dúvida assaltante
encapuçada
que encapuçou a ideia
vinda de ti
que não reconheces
sendo tua
caos
um dia…
a cabeça acaba por pousar na mesa
primeiro numa mão
depois na outra
nas duas
e aqueixa
o queixo na mesa
o olhar distante como no início
a força anímica menor
mínima
e expressão vazia
como o olhar, agora
o caos...
a cabeça tomba sobre a face
tudo na mesa
das migalhas, da chávena
de uma bebida qualquer
as lágrimas não vêm
ja avisaram
a cabeça acaba por pousar na mesa
primeiro numa mão
depois na outra
nas duas
e aqueixa
o queixo na mesa
o olhar distante como no início
a força anímica menor
mínima
e expressão vazia
como o olhar, agora
o caos...
a cabeça tomba sobre a face
tudo na mesa
das migalhas, da chávena
de uma bebida qualquer
as lágrimas não vêm
ja avisaram
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
colar de migalhas
3 migalhas num colar queriam ser belas; desejavam brilhar
só faltava um pescoço para as passear.
deveria ser fino, formoso;
alto, mas não muito vistoso e que gostasse de as namorar.
o pardalito faminto e inquieto bicou o colar, queria as migalhas
o que não deu certo. salvou-as o melro que chegou mesmo a tempo:
que bem ficariam na plumagem escura, pensaram.
mas o esperto do melro, topou-lhes o sabor
e ao abrir o bico para as engolir de uma só bicada
intrometeu-se a pega, animada pelo colar, que viu uma jóia
de um cintilante brilhar que afinal era orvalho. furiosa
atirou as migalhas para bem longe. caíram aos pés de uma menina
que as apanhou feliz. encontrou o colar da beatriz
a boneca mais linda, feita e vestida pela avó
que hoje fizera um colar de migalhas de pão
e todas iriam passear, olaró.
cuidado que as migalhas não caiam ao chão.
só faltava um pescoço para as passear.
deveria ser fino, formoso;
alto, mas não muito vistoso e que gostasse de as namorar.
o pardalito faminto e inquieto bicou o colar, queria as migalhas
o que não deu certo. salvou-as o melro que chegou mesmo a tempo:
que bem ficariam na plumagem escura, pensaram.
mas o esperto do melro, topou-lhes o sabor
e ao abrir o bico para as engolir de uma só bicada
intrometeu-se a pega, animada pelo colar, que viu uma jóia
de um cintilante brilhar que afinal era orvalho. furiosa
atirou as migalhas para bem longe. caíram aos pés de uma menina
que as apanhou feliz. encontrou o colar da beatriz
a boneca mais linda, feita e vestida pela avó
que hoje fizera um colar de migalhas de pão
e todas iriam passear, olaró.
cuidado que as migalhas não caiam ao chão.
o tombo da desilusão
tombou sobre mim a desilusão
descobri, a desilusão não chega
tomba, como um ataque
mas não ataca, tomba
pesa inerte, algures
entre o corpo e o espírito
mesmo quando não distinguimos um do outro
ou quando um e outro nos falta
ou quando gostaríamos que faltasse
este tombo...
inerte de desilusão...
descobri, a desilusão não chega
tomba, como um ataque
mas não ataca, tomba
pesa inerte, algures
entre o corpo e o espírito
mesmo quando não distinguimos um do outro
ou quando um e outro nos falta
ou quando gostaríamos que faltasse
este tombo...
inerte de desilusão...
"erres" de rio
e o rio correu-me
andei ligeiro, brincando
fugindo em pulos de pés
fingindo não os querer molhados
-- rio não molha, sorriu-me a margem
rio refresca, rio rega, rio rejuvenesce
e outros "erres"
e rimos em altas risadas
que risota
eu, a margem e o rio
andei ligeiro, brincando
fugindo em pulos de pés
fingindo não os querer molhados
-- rio não molha, sorriu-me a margem
rio refresca, rio rega, rio rejuvenesce
e outros "erres"
e rimos em altas risadas
que risota
eu, a margem e o rio
descoberta
descobrir lentamente
a noite por trás de escuro
a luar ao redor da lua
o dia seguindo o sol
a via à volta tua
o vazio da tua ausência
a noite por trás de escuro
a luar ao redor da lua
o dia seguindo o sol
a via à volta tua
o vazio da tua ausência
sábado, 9 de novembro de 2013
amor
queria tanto ver-te
que te procurei
primeiro no improvável
depois no impossível
e encontrei-te no inexgotável
que te procurei
primeiro no improvável
depois no impossível
e encontrei-te no inexgotável
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
envelheço
envelheço
e me antiguo
por ordens
me desconcerto
descompasso
de um tempo
que não tem passo
sem volta
sem 2º oportunidade
envelheço
e me antiguo
sem que entenda
sem que me entendam
espanta-se a lógica
deixam-me escárnios
em sorrisos e berros
querem que saiba
que envelheço
e me antiguo
e me antiguo
por ordens
me desconcerto
descompasso
de um tempo
que não tem passo
sem volta
sem 2º oportunidade
envelheço
e me antiguo
sem que entenda
sem que me entendam
espanta-se a lógica
deixam-me escárnios
em sorrisos e berros
querem que saiba
que envelheço
e me antiguo
peregrinar
se quiseres deixa-me
deixa-me. sei que nem sempre continuar é abandono
às vezes é só continuar por caminhos diferentes
quem se senta precisa ponderar a caminhada
quem muda de caminho segue a consciência
assim é a jornada de preregrino
deixa-me. sei que nem sempre continuar é abandono
às vezes é só continuar por caminhos diferentes
quem se senta precisa ponderar a caminhada
quem muda de caminho segue a consciência
assim é a jornada de preregrino
minhas tias
quando minha alma me parece vazia
vou à infância e lá me deixo, em colos
onde aprendi a sentir a ternura em carinho
chegado na voz soada a peito
no aroma a corpo aconchegado
no prazer íntimo de colo gerado ali mesmo.
as minhas pequenas mãos lhes tocavam os rostos
para lhes sentir os sorrisos e acabavam beijadas.
agora, quando nos encontramos ainda sou puxado
para o colo das minhas tias
entre os meus 50 anos e os 70 delas somos crianças
amando-se com toda a meninice.
ao cruzarem-se, os nossos olhares resplandecem
um infinito brilho de iluminar a alma
de quem se ama almadamente.
vou à infância e lá me deixo, em colos
onde aprendi a sentir a ternura em carinho
chegado na voz soada a peito
no aroma a corpo aconchegado
no prazer íntimo de colo gerado ali mesmo.
as minhas pequenas mãos lhes tocavam os rostos
para lhes sentir os sorrisos e acabavam beijadas.
agora, quando nos encontramos ainda sou puxado
para o colo das minhas tias
entre os meus 50 anos e os 70 delas somos crianças
amando-se com toda a meninice.
ao cruzarem-se, os nossos olhares resplandecem
um infinito brilho de iluminar a alma
de quem se ama almadamente.
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
biografia ii
nasci a 4 de novembro de 1961, no Porto, gorducho de querubim em mão de fadas , pulava entre colos e sorria, e a felicidade, de pudesse ser emoção, seria a única que sabia. com os tios conheci a traquinice e com eles fui diabinho radiante. aprendi a ser feliz sendo angelical e amando a travessura.
a minha adultez chegou precoce. quando aprendia a escrever as letras, depois as palavras e os textos, sonhava com um modo inintelegível de palavras que se decifravam por si como se não resultassem da justaposição de letras. era assim que via a escrita de adulto e enchia "lousas" e "lousas" de desenhos hieroglíficos que sonhava fossem palavras. um dia escreveria assim, afirmava secretamente para mim.
trabalhei imenso para ser um adulto bem comportado e aspergido de traquinas. licenciei-me em psicologia, fui pai de 2 filhos que me ensinaram a escrever depois de ter casado com aquela que o destino incumbiria de assolhar as rasuras que escrevi rasurando (e que apelidou de poesia.)
porque há algos que se perpetuam, ainda hoje sou impelido para desenhar linhas que deixo enovelar em sonâncias de alma, algures entre o silêncio e a euforia. assim abraço palavras com que urdo poemas; escritos, suspiros de vadias emoções sem céu nem inferno, tal como o horizonte que nunca teve linha e muito menos divisória.
neste vadiamento assumi-me assim e do advérbio de modo fiz meu nome por me soar mais almado antónio assim d'oliveira e o senti-lo mais apropriado ao meu ser desenhador.
a minha adultez chegou precoce. quando aprendia a escrever as letras, depois as palavras e os textos, sonhava com um modo inintelegível de palavras que se decifravam por si como se não resultassem da justaposição de letras. era assim que via a escrita de adulto e enchia "lousas" e "lousas" de desenhos hieroglíficos que sonhava fossem palavras. um dia escreveria assim, afirmava secretamente para mim.
trabalhei imenso para ser um adulto bem comportado e aspergido de traquinas. licenciei-me em psicologia, fui pai de 2 filhos que me ensinaram a escrever depois de ter casado com aquela que o destino incumbiria de assolhar as rasuras que escrevi rasurando (e que apelidou de poesia.)
porque há algos que se perpetuam, ainda hoje sou impelido para desenhar linhas que deixo enovelar em sonâncias de alma, algures entre o silêncio e a euforia. assim abraço palavras com que urdo poemas; escritos, suspiros de vadias emoções sem céu nem inferno, tal como o horizonte que nunca teve linha e muito menos divisória.
neste vadiamento assumi-me assim e do advérbio de modo fiz meu nome por me soar mais almado antónio assim d'oliveira e o senti-lo mais apropriado ao meu ser desenhador.
nada
passei o dia no meio de nada
rodeado de coisas
coisas de nada que se espinhavam
e os pássaros, sempre espertos, nelas se empoleiravam
depois, o dia passou sem que partisse, mudou
e quando eu passei, se é que passei, que eu nem notei
nada não me arranhou, segurou o pássaro
e eu voltei, quando não sei, para mais um dia no meio de nada
rodeado de coisas
coisas de nada que se espinhavam
e os pássaros, sempre espertos, nelas se empoleiravam
depois, o dia passou sem que partisse, mudou
e quando eu passei, se é que passei, que eu nem notei
nada não me arranhou, segurou o pássaro
e eu voltei, quando não sei, para mais um dia no meio de nada
espraiar
ouves?
este mar, onda a onda
espraiar...
na areia
tanto prazer numa dança
num enrolo
ouves
espraiar...
o ronceiro som do mar
ouves
tem sonância de corpo na cama
espreguiçar...
soada de lençol
escorregar...
ouves?
espraiar...
este mar, onda a onda
espraiar...
na areia
tanto prazer numa dança
num enrolo
ouves
espraiar...
o ronceiro som do mar
ouves
tem sonância de corpo na cama
espreguiçar...
soada de lençol
escorregar...
ouves?
espraiar...
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
idealizando
viveria onde pudesse pairar
que os toques, a existirem, fossem de alma
e por eles se sustentassem os corpos
as mentes e as ideias
as mesmas que sustentam ideais
as âncoras da humanidade
pairaria incauto, como deve ser
uma existência feliz
e por eles se sustentassem os corpos
as mentes e as ideias
as mesmas que sustentam ideais
as âncoras da humanidade
pairaria incauto, como deve ser
uma existência feliz
ondear
quero um lugar de onda
onde possa ondear
mas não quero ser onda
que essas são filhas do mar
e eu que só me sinto perdido
é lá que quero estar
enterrado até ao pescoço
mergulho a cabeça na água
para me sentir renascer
ou para me fazer renascido
sem frutos que tenha de dar
possa meu estado ser peco
bravio, sem poda, vadio
bravio, sem poda, vadio
resistente ou moribundo
como arbusto daninho
que vive para ondear
como arbusto daninho
que vive para ondear
contemplação
bem no alto do calhau que nomeei meu
contemplo
as rugosidades do tempo
que chegam nas nuvens
salgadas, carregadas de mar.
toco com a língua no meu calhau
sinto-lhe o sal e a lisura da brancura
tão pura que eu amo tanto;
como amo este meu território
de guardar no bolso junto ao corpo
onde me sinto livre
verdadeiramente liberto
para lhe conhecer a grandiosidade
contemplo
as rugosidades do tempo
que chegam nas nuvens
salgadas, carregadas de mar.
toco com a língua no meu calhau
sinto-lhe o sal e a lisura da brancura
tão pura que eu amo tanto;
como amo este meu território
de guardar no bolso junto ao corpo
onde me sinto livre
verdadeiramente liberto
para lhe conhecer a grandiosidade
terça-feira, 5 de novembro de 2013
mirada
o mundo, do tamanho e forma de uma gota de água
resplandece quando tocado pelo sol
de tão cristalino que é
tal como as gotas de orvalho
e as lágrimas,
venham elas dos lados da alegria
ou nascidas da tristeza.
o sol, eternamente quente
que existe redondo que já o vi
tem o reluzente que sempre habita em nós
e alimenta-se de sentimentos
e cintila na emoção
pequenezes que fazem sorrisos
olhares radiantes
e belas fotos
resplandece quando tocado pelo sol
de tão cristalino que é
tal como as gotas de orvalho
e as lágrimas,
venham elas dos lados da alegria
ou nascidas da tristeza.
o sol, eternamente quente
que existe redondo que já o vi
tem o reluzente que sempre habita em nós
e alimenta-se de sentimentos
e cintila na emoção
pequenezes que fazem sorrisos
olhares radiantes
e belas fotos
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
domingo, 3 de novembro de 2013
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
testamento
se puderem, se vos for possível deixem-me morrer
sossegadinho, calminho como o respirar de um conto infantil
era uma vez... e eu morri.
e começa o enredo de magia e fantasia infinitas.
peço que não escolham réis, príncipes e princesas
nem animais de colo
prefiro vadios e transviados
e se quiserem mesmo animais, convidem os acossados.
criem um conto preferencialmente sem moral
sem felicidade final
somente uma história que possa continuar com todos
e tenha um dia seguinte.
sossegadinho, calminho como o respirar de um conto infantil
era uma vez... e eu morri.
e começa o enredo de magia e fantasia infinitas.
peço que não escolham réis, príncipes e princesas
nem animais de colo
prefiro vadios e transviados
e se quiserem mesmo animais, convidem os acossados.
criem um conto preferencialmente sem moral
sem felicidade final
somente uma história que possa continuar com todos
e tenha um dia seguinte.
doçura
era noite
queria que me agarrasses
como um favo, me abanasses, apertasses
tirasses de mim toda a minha doçura
que meu mel te cobrisse
que dele te deliciasses
e tu obreira rainha
fadando a noite
fizeste de mim o favo mais doce
atulhado de mel
queria que me agarrasses
como um favo, me abanasses, apertasses
tirasses de mim toda a minha doçura
que meu mel te cobrisse
que dele te deliciasses
e tu obreira rainha
fadando a noite
fizeste de mim o favo mais doce
atulhado de mel
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
intuitivamente
havia poemas nascidos
de quem ainda não escrevia
porque não sabia;
de quem sonhava e sonhava
sem paisagem e sem história,
via-se com uma pena
que da mão lhe saía, em linhas
encadilhadas em algos
a que dava voz.
os olhos moviam-se
para o céu, para si e para dentro
como acontece com os poemas
ele sabia
sem que soubesse porquê
ali havia poesia.
de quem ainda não escrevia
porque não sabia;
de quem sonhava e sonhava
sem paisagem e sem história,
via-se com uma pena
que da mão lhe saía, em linhas
encadilhadas em algos
a que dava voz.
os olhos moviam-se
para o céu, para si e para dentro
como acontece com os poemas
ele sabia
sem que soubesse porquê
ali havia poesia.
do estado das pessoas
ela abeirou-se
precisava saber se tudo estava bem
não estava, não estava...
nada estava bem
mas agora que se viram
tudo parecia melhor
e assim ficou...
melhor
precisava saber se tudo estava bem
não estava, não estava...
nada estava bem
mas agora que se viram
tudo parecia melhor
e assim ficou...
melhor
sexta-feira, 25 de outubro de 2013
cega paixão
desejo pedir-te, mesmo suplicar-te que me ames
que me ames como se não houvesse mais ninguém
a cegueira da paixão não me deixa entender
como serei mais amado quando me escolhes de entre outros
que me ames como se não houvesse mais ninguém
a cegueira da paixão não me deixa entender
como serei mais amado quando me escolhes de entre outros
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
biografia
minha biografia escreve-se de banalidades, como as letras que a
integram. nasci a 04.11.1961 e sinto que desde logo me pularam de colo para
colo: pais, tias e avós. fui deles e eles meus, por inteiro. durante 6 anos fui
a única criança daquele reino de fadas mimentas que me fizeram sentir querido,
lindo e inteligente. aprendi a ser príncipe, a ser ouvido; senti o conforto do
colo e o prazer de trocar carinhos pelas mãos, pelos sorrisos e pelas palavras,
em noites à lareira, enquanto me crescia a fantasia dos contos lindos de
impossíveis, do meu avô. ouvi-os vezes sem conta e nunca se repetiram. que
lindos, dizia então; que poesia, lembro hoje.
o tempo impeliu-me a escrever fantasias. primeiro com um ardor dorido de adolescente (sempre apaixonado) em plena revolução. passei a jovem adulto, profissional de psicologia, competentemente adulto, que por um ímpeto sempre inexplicável pecava: perdia tempo escrevendo devaneios que obnubilariam qualquer adultez, os quais sempre fui encobrindo, não sei se por cobardia intelectual se por um desejo intrínseco de culto do secreto. foi um tempo de treino, talvez de experiência.
o tempo impeliu-me a escrever fantasias. primeiro com um ardor dorido de adolescente (sempre apaixonado) em plena revolução. passei a jovem adulto, profissional de psicologia, competentemente adulto, que por um ímpeto sempre inexplicável pecava: perdia tempo escrevendo devaneios que obnubilariam qualquer adultez, os quais sempre fui encobrindo, não sei se por cobardia intelectual se por um desejo intrínseco de culto do secreto. foi um tempo de treino, talvez de experiência.
recentemente, já sem noites e sem lareira, sem nevoeiros e sem manhãs, sem mais nada para além da impetuosa necessidade de fantasiar, escrevi da minha alma os vagidos e as traquinices tal como os ouço e me tocam e dei por mim parindo-me a cada letra, verso a verso, umas vezes com a delicadeza brotante da nascente, outras com a crueza estrondosa do vagalhão, deixando emergir o que em mim sempre esteve e para a qual não encontro outro nome, senão mesmo natureza. foi então que me apropriei do advérbio que me define o modo e dele fiz nome meu; antónio assim d'oliveira.
solidão
a solidão dela fizera-se de abandonos
abandonos de memórias
primeiro as boas, depois as más
que antes de partirem escorraçaram tudo
abandonos de memórias
primeiro as boas, depois as más
que antes de partirem escorraçaram tudo
só
um livro, só
um livro numa mesa
de pé de galo
ladeado de uma chávena, só
vazia de tudo
também havia uma caneta, só
e uma folha de papel
uma folha, só
quando chegou alguém
puxou uma só cadeira
sentou-se à mesa, só
de tudo debandou a solitude
um livro numa mesa
de pé de galo
ladeado de uma chávena, só
vazia de tudo
também havia uma caneta, só
e uma folha de papel
uma folha, só
quando chegou alguém
puxou uma só cadeira
sentou-se à mesa, só
de tudo debandou a solitude
dito e não dito
quando me olhaste: — doçura
eras meu mel
quando me sorriste: — bom dia
eras meu sol
quando soltei: — querida
gritava: — meu amor
quando te beijei: — bom dia
como desejava morder-te
eras meu mel
quando me sorriste: — bom dia
eras meu sol
quando soltei: — querida
gritava: — meu amor
quando te beijei: — bom dia
como desejava morder-te
terça-feira, 22 de outubro de 2013
frágil intelegibilidade
a fragilidade com que escrevi meu nome
como o constatei quebrável, sem que fosse cristalino
frágil; mole, sem que fosse moldável, sem que fosse flexível...
a fragilidade com que escrevi meu nome escorrente no papel
como tinta aguada, como gordura ao sol
sem forma, sem textura, sem mensagem
não entendo, porque não me aceito frágil
como o constatei quebrável, sem que fosse cristalino
frágil; mole, sem que fosse moldável, sem que fosse flexível...
a fragilidade com que escrevi meu nome escorrente no papel
como tinta aguada, como gordura ao sol
sem forma, sem textura, sem mensagem
não entendo, porque não me aceito frágil
boa água
tanto espero e mais desejo
que meus olhos saibam dizer-te
o que eu não sei
o que não me perpassa os lábios
o que a garganta não desata
o que a língua não modela
a ideia que baralhei e não encontro
e na qual tropeço diariamente
constantemente
tanto espero e mais desejo
que meus olhos saibam contar-te
o rio em que minha alma se transformou
o prateado brilho, onde navegas
que em mim resplandece teu vogar
toque, corpo, água e sol
teu sorriso colorindo a janela
uma lágrima gritando
boa água
que meus olhos saibam dizer-te
o que eu não sei
o que não me perpassa os lábios
o que a garganta não desata
o que a língua não modela
a ideia que baralhei e não encontro
e na qual tropeço diariamente
constantemente
tanto espero e mais desejo
que meus olhos saibam contar-te
o rio em que minha alma se transformou
o prateado brilho, onde navegas
que em mim resplandece teu vogar
toque, corpo, água e sol
teu sorriso colorindo a janela
uma lágrima gritando
boa água
conversas ocas
foi tudo dito
tudo está dito
restam glosas e mais glosas
no mesmo tema
no mesmo assunto
sem nada acrescentado
sem nada mudado
sem novas vistas
falar e abafar silêncios
verborreia e mais verborreia
oiçamos o silêncio
entendamo-lo, sapientes
tudo está dito
restam glosas e mais glosas
no mesmo tema
no mesmo assunto
sem nada acrescentado
sem nada mudado
sem novas vistas
falar e abafar silêncios
verborreia e mais verborreia
oiçamos o silêncio
entendamo-lo, sapientes
domingo, 20 de outubro de 2013
mudema
gosto das letras mudas
por mim, todas as letras seriam mudas
as palavras pronunciar-se-iam mudamente
com os olhos bem coloridos de expressão
os poemas seriam almados, plenos... enormes
os poemas seriam declamados com olhares
por mim, todas as letras seriam mudas
as palavras pronunciar-se-iam mudamente
com os olhos bem coloridos de expressão
os poemas seriam almados, plenos... enormes
os poemas seriam declamados com olhares
meu espelho
agasta-se dia a dia
o espelho em que me vejo
pica-se-lhe o espelhado
amarelece
ao ritmo das paredes onde se aninha
enquanto as rugas se lhe desenham
na imagem do espelhado
e no olhar que me reflete
vejo-lhe o brilho
que o espelhado imagina
o espelho em que me vejo
pica-se-lhe o espelhado
amarelece
ao ritmo das paredes onde se aninha
enquanto as rugas se lhe desenham
na imagem do espelhado
e no olhar que me reflete
vejo-lhe o brilho
que o espelhado imagina
sábado, 19 de outubro de 2013
sexta-feira, 18 de outubro de 2013
nascente
onde a lua voa
e o pássaro passeia
onde as nuvens navegam
e a chuva caminha
onde as poças chapinam
e as crianças brincam
afaga-se a liberdade
e o poema corre rio
e o pássaro passeia
onde as nuvens navegam
e a chuva caminha
onde as poças chapinam
e as crianças brincam
afaga-se a liberdade
e o poema corre rio
memórias
contam-se as memórias
uma a uma
sem contas, sem ordem
como a memória
sucedem-se
ligadas num punhado
fossem cerejas
assolham-se, limpam-se
alindam-se e guardam-se
tesouros sem tesouro
brilhos sem brilhantes
essência de existência
velam-se e ostentam-se
em pensamentos secretos
sorrisos enigmáticos
olhares perdidos
o indecifrável da compreensão
uma a uma
sem contas, sem ordem
como a memória
sucedem-se
ligadas num punhado
fossem cerejas
assolham-se, limpam-se
alindam-se e guardam-se
tesouros sem tesouro
brilhos sem brilhantes
essência de existência
velam-se e ostentam-se
em pensamentos secretos
sorrisos enigmáticos
olhares perdidos
o indecifrável da compreensão
quinta-feira, 17 de outubro de 2013
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
banho de vida
se te parece
que a vida te cai aos pés
não a pises
não a evites
não a ignores
sobretudo
nunca te lamentes
chapina nela
até te sentires mergulhado
de vida
que a vida te cai aos pés
não a pises
não a evites
não a ignores
sobretudo
nunca te lamentes
chapina nela
até te sentires mergulhado
de vida
trovoada
dormente
este céu de nuvens
espessas
penedos flutuantes
contundentes
quase ruidosos
quase faiscantes
tateei o luzente
simples
como um caminho
vadio
tinha aroma a tardio
despreconceituoso
um poema
talvez extraviado
ainda incompreendido
ansioso
para ser desvendado
fizemo-nos companhia
embrenhados na trovoada
o dia rompeu
não havia poema
nem eu
este céu de nuvens
espessas
penedos flutuantes
contundentes
quase ruidosos
quase faiscantes
tateei o luzente
simples
como um caminho
vadio
tinha aroma a tardio
despreconceituoso
um poema
talvez extraviado
ainda incompreendido
ansioso
para ser desvendado
fizemo-nos companhia
embrenhados na trovoada
o dia rompeu
não havia poema
nem eu
nós
teu dia chegou-me
perfumado de ventre
onde o sol nasce
meu dia enleou-se no teu
e conjugaste-nos com todos os segundos
perfumado de ventre
onde o sol nasce
meu dia enleou-se no teu
e conjugaste-nos com todos os segundos
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
verdade
assim
dispersa pela cidade
numa situação verdadeira
mente insustentável
fizeste-te de aragem
tal a tua ânsia de chegar
a todos, teus amantes
alguns indignos de ti
verdade
pela qual existem
muros e pássaros
dispersa pela cidade
numa situação verdadeira
mente insustentável
fizeste-te de aragem
tal a tua ânsia de chegar
a todos, teus amantes
alguns indignos de ti
verdade
pela qual existem
muros e pássaros
voto de humanidade
espero que a idade me cure
desta forma infiel de viver
não renascer em cada estação
não apreciar o vento e a neve fria
que eu ganhe cor e verdor
e ao ser homem seja alguém
desta forma infiel de viver
não renascer em cada estação
não apreciar o vento e a neve fria
que eu ganhe cor e verdor
e ao ser homem seja alguém
sexta-feira, 11 de outubro de 2013
desejo
se eu pudesse
correria até voar
rumaria com o vento
dançaria em teus cabelos
rebolaria em teus seios
abrigar-me-ia em teus dedos
confortar-me-ia em teu ventre
flutuaria no luar
voaria num só pé
brilharia como os rios
seria cristal sem tesouro
correria até voar
rumaria com o vento
dançaria em teus cabelos
rebolaria em teus seios
abrigar-me-ia em teus dedos
confortar-me-ia em teu ventre
flutuaria no luar
voaria num só pé
brilharia como os rios
seria cristal sem tesouro
emociomar
deixem o mar destapado
o mar precisa-se aberto
cheio de água fervente
espuma tudo o que sente
vociferando encapelado
sintam o mar por perto
pois o mar é sagrado
o mar precisa-se aberto
cheio de água fervente
espuma tudo o que sente
vociferando encapelado
sintam o mar por perto
pois o mar é sagrado
fumar
o prazer de um cigarro
esfuma-se, no fumo
a memória aloja-se nos ossos
daí se solta
com o calafrio
esfuma-se, no fumo
a memória aloja-se nos ossos
daí se solta
com o calafrio
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
desalento
caíam as mãos
peso do desapego
amargo da consciência
depois o corpo cansado
até para as mãos
que caíam
escorrendo pelo corpo
à frente dos braços
agora escorridamente longos
mais longos
tão longos que jamais abraçariam
e as mãos caídas, separadas
jamais se acariciariam
os anéis
tornaram-se largos
afastaram-se, impercetíveis
peso do desapego
amargo da consciência
depois o corpo cansado
até para as mãos
que caíam
escorrendo pelo corpo
à frente dos braços
agora escorridamente longos
mais longos
tão longos que jamais abraçariam
e as mãos caídas, separadas
jamais se acariciariam
os anéis
tornaram-se largos
afastaram-se, impercetíveis
terça-feira, 8 de outubro de 2013
ídolo
sossega
o peito
pulsar
demais
pode ser
defeito
menina
corada
respiração
pesada
grito
engatilhado
pro herói
da banda
rosto
de revista
que canta
que dança
que artista
perfeito
não pulsa
demais
sossega
o peito
o peito
pulsar
demais
pode ser
defeito
menina
corada
respiração
pesada
grito
engatilhado
pro herói
da banda
rosto
de revista
que canta
que dança
que artista
perfeito
não pulsa
demais
sossega
o peito
mais além
sentir-te é ir além dos sentidos
o mais além, sem distâncias
sentir-te a doçura da memória que te assalta
e te desconcentra
sentir-te o pensamento que me reservaste
e te contraria o momento
sentir-te a ligeireza com que te desprendes do dia
enleada te deixaste num detalhe de nós
sentir-te pelas incompreensíveis noções
de alma gémea, química, telepatia, seja lá o que for
sentir-te por algo que sinto como essência
do que chamamos amor
que nasceu de nós, cresceu
desmesuradamente, sem controlo
é o que sinto
e o que sinto diz-me que sei muito pouco
e o que sinto nunca se conjugou com medida e controlo
o mais além, sem distâncias
sentir-te a doçura da memória que te assalta
e te desconcentra
sentir-te o pensamento que me reservaste
e te contraria o momento
sentir-te a ligeireza com que te desprendes do dia
enleada te deixaste num detalhe de nós
sentir-te pelas incompreensíveis noções
de alma gémea, química, telepatia, seja lá o que for
sentir-te por algo que sinto como essência
do que chamamos amor
que nasceu de nós, cresceu
desmesuradamente, sem controlo
é o que sinto
e o que sinto diz-me que sei muito pouco
e o que sinto nunca se conjugou com medida e controlo
domingo, 6 de outubro de 2013
sorriso de pássaro
o sorriso num pássaro
tem voo e tem chilreio
tem olhar: primeiro um olho
depois o outro
tem distinção de plumagem
tem confiança: de se deixar mirar
e de vir comer às mãos
e não há alma que não lhe sorria
tem voo e tem chilreio
tem olhar: primeiro um olho
depois o outro
tem distinção de plumagem
tem confiança: de se deixar mirar
e de vir comer às mãos
e não há alma que não lhe sorria
sábado, 5 de outubro de 2013
boa água
meu poema jamais se re-escreverá
jamais de repetirão as letras de que nasceu
o que minhas tristezas parem, não se escreve
e não há palavras para a insipiência deste sol peco
meu poema foi rio abaixo
boa água
por ali vogará
compondo-se no horizonte
onde os olhares se põem
jamais de repetirão as letras de que nasceu
o que minhas tristezas parem, não se escreve
e não há palavras para a insipiência deste sol peco
meu poema foi rio abaixo
boa água
por ali vogará
compondo-se no horizonte
onde os olhares se põem
viagem
segui a voz do cantar
acendi o sonho do poema
tocou no horizonte, a melodia
um pouco de mim não quer regressar
as viagens são assim
algo de nós por lá fica
algo de lá nos acompanhará, sem fim
acendi o sonho do poema
tocou no horizonte, a melodia
um pouco de mim não quer regressar
as viagens são assim
algo de nós por lá fica
algo de lá nos acompanhará, sem fim
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
quarta-feira, 2 de outubro de 2013
urdêncios
um poeta vive nos silêncios
fios dobados, anovelados
deles urde poemas
em paciência de enxoval
em amor virginal, de entrega
um dia...
assolha-os ao tempo
ao vento
em silêncio, trauteando
um tesouro...
fios dobados, anovelados
deles urde poemas
em paciência de enxoval
em amor virginal, de entrega
um dia...
assolha-os ao tempo
ao vento
em silêncio, trauteando
um tesouro...
silêncios
silêncio, a soada que não se ouve
o silêncio escuta-se e entende-se
o silêncio de uma gargalhada
o silêncio da palavra
o silêncio do olhar
o silêncio do sorriso
o silêncio da tarde
o silêncio de um olhar sorrido num final de tarde
o silêncio de um poema
o silêncio de estarmos connosco
em silêncio
o silêncio escuta-se e entende-se
o silêncio de uma gargalhada
o silêncio da palavra
o silêncio do olhar
o silêncio do sorriso
o silêncio da tarde
o silêncio de um olhar sorrido num final de tarde
o silêncio de um poema
o silêncio de estarmos connosco
em silêncio
terça-feira, 1 de outubro de 2013
ressequido
esvaziámos nossas carícias
primeiro ocas, agora ressequidas
magoámo-nos na aspereza do toque
já não há corpo nem meio nem lugar
para as carícias
debandaram como corvos negros
gralharam horizonte fora
até ficarmos aliviados
agora magoamo-nos se nos tocamos
primeiro ocas, agora ressequidas
magoámo-nos na aspereza do toque
já não há corpo nem meio nem lugar
para as carícias
debandaram como corvos negros
gralharam horizonte fora
até ficarmos aliviados
agora magoamo-nos se nos tocamos
tempo de brincar
vi tantas histórias nos montes da areia da minha ampulheta;
cresciam em camadas, os montes e as histórias.
podiam ser doces, pareciam-me de açúcar
amontoado, destinado a um bolo guloso;
eram sagradas de sal imaculado
como o do batismo na minha igreja,
que só a santa mão do sacerdote tocava;
via-as areias de um deserto que alguém galgava
com ou sem amada, sempre uma aventura.
então o tempo parava e a hstória mudava,
o personagem renascia num outro episódio,
feito camada a camada,
que os meus olhitos de menino namoravam
e nelas se alimentavam brincando.
quando eu sabia brincar com o tempo.
cresciam em camadas, os montes e as histórias.
podiam ser doces, pareciam-me de açúcar
amontoado, destinado a um bolo guloso;
eram sagradas de sal imaculado
como o do batismo na minha igreja,
que só a santa mão do sacerdote tocava;
via-as areias de um deserto que alguém galgava
com ou sem amada, sempre uma aventura.
então o tempo parava e a hstória mudava,
o personagem renascia num outro episódio,
feito camada a camada,
que os meus olhitos de menino namoravam
e nelas se alimentavam brincando.
quando eu sabia brincar com o tempo.
a ampulheta
lembram-se da ampulheta?
instrumento maravilhoso
instrumento maravilhoso
acumula o tempo
solta-o, devagarinho
caindo, em montinho
de cima para baixo
trabalho da gravidade
e o tempo lá dentro
não foge, caindo
se cima para baixo
depois tudo pára
também há a pausa
conhecem? a pausa?
ampulheta tem sempre pausa
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