sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

neste jardim

neste jardim
as velas se enfunam
só para acompanharem os pássaros
que voam pelo destino
que um dia escolheram
ainda habitavam o pequeno ovo
e já sonhavam, no calor do choco
com jardim do ninho
e o dia em que estenderiam asas
tremendo de coragem
saltariam. e vogando
seriam nau e descobrimento
deste jardim

aconteceu

tropou à porta de mim
que nem era minha
era de uma certa consciência
que eu nunca vira
que mal conhecera.
ela, que propalava ser minha
ignorou o tropar
ainda que este voltasse
mais e mais, sem sossego.
ora sucedeu
que o tropar emudeceu
e a consciência adormeceu

beata

teu colo é de um rosário
que acaricias nas mãos
conta a conta
onde intercalas ladainhas
suspiros e desejos
de tudo e do céu
carinhoso rumorejo
meiguice ao alto no olhar
cruzas teu peito
de um bailado de mãos
coroado dum ósculo
te consagras e proferes
"uma boa horinha"

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

loucura

a loucura tem um dia
como a morte
enlouca-se, morre-se
e nada se mantém
ou de nada valeu
enlouquecer eu morrer

no dia da minha loucura
enlouquece-me
como se tivesse frio
muito frio
e precisasse do teu corpo
para me enlouquecer

no dia da minha loucura
discorda de mim
concorda comigo
mas não me fites indiferente
nem me cites pelo que lês

no dia da minha loucura
sopra-me um beijo
se puderes
toca-me por um beijo
que a minha loucura
se fará pura
como qualquer forma de vida

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

beijos teus

teu beijos, acatei-os
uma a um
confissões de sentidos
onde as palavras mordiscam os sentimentos
onde a emoção consome a voz
eram húmidos
colavam-se na pele
onde fitavas o olhar
revelaram-se
e desvendaram-te

mar prateado

deste mar tirei um lago
longo, escuro, largo
nele cresci uma ilha
que não plantei
de tão sombria
o sol nem tinha luz
que a alumiasse

estive
até o sorriso me nascer
como sol da manhã
das memórias
que um dia guardei de ti

o mar
sempre navegante
evaporou o lago
onde a ilha já se havia afundado
e escolheu-se prata
para oferecer o brilho matinal

sábado, 30 de novembro de 2013

e eu
abismo feito de abismos
tombo em mim
vagueio
profundo sem fundo
sem fim
e se finco pé
em vez de me erguer
retombo
vadio
meu modo de ser

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

entregar-me?
escolheria ser flor
sempre cheia da vida que só uma flor tem
pássaro, borboleta, vento
perfumada de orvalho, de raio de sol
branca no toque, como uma rosa
silvestre

não sei nascer em jardins

dedicatória

sou os dedos
toda a redondeza de corpo
que encorpa a tua beleza
feminina de ser
animal de desejar
flor de cheirar
que num  beijo te entrego
eu, que pelo beijo me entrego
e me dou pelas mãos
por onde saio
genuinamente
teu

ser

vens de mim
como um pequeno adeus
tímido de feitio
desejoso de partir
sereno na chegada
indagador na estada
em silêncios
sempre em silêncios
onde vives
e vens de mim

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

ácido

seria ácido, corrosivo
sem condicional

se te declarasse meu amor
serias corroída, de dentro para fora

acontece às pessoas
momentos antes de deixarem de o ser!

procurei o pôr-do-sol que não se via
encontrei-o, aguardava-me, algures
entre o dentro e mim e o horizonte

no resto de um dia
desvenda-se um presente
há sempre um pôr-do-sol

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

retrato sapato

é assim:
uma vez um  retrato feito de um sapato
e para quem o plantou, retratava
quem lá não estava.

mistério indagava:
- como se pode retratar alguém sem lá estar?
poderá haver fotografia de uma imagem vazia?
assim explicava: assim daqui; assim dali;
assim não queria ser confundido com o dono do sapato
que trabalha em assunto sério
sem tema para poema, sem lugar para a poesia;
e, ainda, amava o mistério.

heresia! assim descobriu
o trabalho que fazia, melhorou com a poesia;
a poesia que escreveu, tinha tema muito sério;
a gente intrigada, devagarinho descobriu
o dono do sapato, usado e retratado;
e de boca pequena o assunto era falado;
o tabu estava instalado.

no 1º aniversário, depois de três ai jesus
assim fez trus, escolheu uma fotografia
tão próxima e detalhada que não escapava nada:
ruga, ponto negro ou papada.

agora sabem porque é assim?
é que se não fosse assim
como escreveria este poema?

exaustamente feliz

esgotaste-te
ainda estás estafado
como após um orgasmo
sente-se na tua face
nos teu olhos
como acariciam cada leitura
(interminavelmente)
do que escreveste
feliz, exaurido
amaste fodidamente

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

postal de s. valentim

desprende-te desses olhos pardos de tristeza
e deixa que se alegrem em alguém.
tropeça sem medo
nessa vida alinhada, engelha-a e amassa-a
machuca-te e aceita a cura de um beijo.
despe-te desse bafio ricamente adornado
limpa a maquilhagem que te greta as mãos
e a face
te seca o peito que já se parte de ressequido
exibindo-te o empedernido a que chamas coração;
como vês, não se compara com a imagem desse postal
que torturas na mão. a quem o vais dar?
não o escrevas: rabisca-o, rasura-o, porquê?
porque sim, porque é assim o amor;
ficas nervosa quando dizes que amas, e depois?
é porque amas e pronto, rasura-o
para que vejam, que saibam que tens ansiedade de amar.
e não te preocupes com a resposta,
talvez não seja a que gostarias, e então?
se o que queres é amar, ama! ama! e ama!
sem palavras românticas,
que o romantismo nunca esteve nas palavras
mora no peito e despeja-se pelo olhar e pela entoação.
sim, a entoação que se dá às palavras
sejam elas quais forem, mesmo que te pareçam impropérios;
já ouviste um palavrão que te acendesse o desejo de ser para ti?
ainda bem! pois não és um caso perdido.
e olha, esborrata-me bem esse postal com o teu batom
não precisas de uns lábios perfeitamente desenhados
mas de uns lábios bem amachucados nesse pedaço de coração de papel
já sentiste um beijo perfeito? saciante? carnudo?
doce e terno? desejado de tanto desejo?
pois bem, digo-te, tem lábios colados
gulosos, que nada têm a ver com esse fino recortado.

e o teu corpo? meneia-me esse corpo, dá-lhe balanço
realça-lhe as formas
ou de nada vale a dieta que estudaste e cumpres religiosamente
aceticamente,
sem uma pinta de desejo de pecar, de comer o proibido.
estala o verniz dessas unhas até à loucura
como aquela que imaginas sentir um dia, e ensaias
quando pronuncias para ti um "meu amor" forte e arrebatador
que entregarás ao teu amante que colocaste bem alto num pedestal.
pois bem, atira-te de cabeça, aplaca-o e rebola-te nele
despe-te rasgadamente e sorve-lhe o perfume
e mistura-o com o teu e devolve-lho pela pele
a tua pele na dele. vai-te a ele!
exibe-lhe os teus seios, mostra-lhos
como são bem nutridos
com os melhores cremes e carícias
que disfarças em massagens corporais
corporais uma treta!
são corporais porque também é corporal o prazer
e o desejo, aquele que faz as tuas mãos perecerem de outrem
e desejar-lhe os lábios, mais!
a boca bem aberta, bem cheia do teu seio
ah!! prazer! supremo! vai-te a ele
dá-lhe teu ventre, dá-lhe as costas
dá-lhe tudo o que sempre quiseste dar-lhe
vai-te a ele!
dá-lhe esse maldito postal torturado de mãos em agonia
imperfeito de tudo como o amor
que perfeito e mais que perfeito só o pretérito.

por isso corre, corre à chuva e salta na lama
constipa-te, se for preciso, engripa-te
enlameia-te tanto que os sapatos fiquem estragados
e põe-te na frente dele, barra-lhe o caminho
dá-lhe tudo o que tens e se recusar não interessa
tu ama-lo e és bela, que importa o que aconteça?

erigi-me (de pé)
entre máquinas engenhosas

devo ser engrenagem
ainda que meus joelhos não dobrem
erro de conceção

como sairei daqui?

estado de outono

o outono não chega
entende-se
depois bebe-se
aquele tom castanho avermelhado
de árvore e pôr-do-sol
morno prazeroso

acompanha-nos gentil
modesto, pelo acolhimento

e também não parte

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

e quando o estado de morto é o modo mais fácil de viver?

trajetos e estados

de cada vez que me sento à mesa
vejo um lugar onde posso escrever;
procuro um ponto, olho pela minha janela;
um ponto na minha janela para onde viajo
umas vezes só, outras levo comigo o desejo de fantasiar.
porto-me, então, como uma criança entusiasmada com a brincadeira
da qual tanto gosta, que precisa de a contar à avó:
e intermitentemente brinca e vem explicar o quanto se divertiu.
são assim as minhas idas e voltas
entre o ponto da minha janela e a folha de papel em que escrevo;
e palpitam-me os olhos e faísca meu peito.
o entusiasmo descreve-se a si mesmo pela impossibilidade de parar.
nestas alturas não respiro: inspiro e expiro
porque a fantasia e a escrita são destes estados.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

o pôr-do-sol

no sítio do horizonte
a montanha copiou-te a silhueta
arredondada, de corpo e de montes
de curva ondulada,
também um v bem vincado
onde o sol se quis acoitar; e lá se pôs
um pouco antes do céu estrelar
e da lua se encher para luar

galo de barcelos

esgravatei o chão
e não estavas lá
de madrugada cantei afinado
e não me atendeste
defendi o território corajosamente
que deixaste vago
alindei minhas penas, colori-as
e sorriste de mim
procurei-me num novo look
e deixei este lugar
agora, que sou do mundo, amas-me
e chamas-me teu

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

nós

se pelos olhares nos abraçássemos
como fios, que se dão em nós
cegos
ou outros, mais artísticos
como os de marinheiro, que ama
e teme o mar,
seríamos a bolina e a amura
seríamos o navegar.

fuga

creio que terás por aí
uma morte para mim
dá-la-ei aos meus pensamentos
aqueles que me torturam
é eu que não suporto não pensar...

essa morte matar-me-á
antes que eu descubra que estou morto
assim acontece a quem foge da dor
e morre-se pelo pensamento
por ele se define a vida

sábado, 16 de novembro de 2013

entrei no dia

um pássaro cantou um raio de sol
o sol fez um voo de pássaro nas nuvens
as nuvens exibiam-se volumosas de luz
majestades sem tempo. soprei,
quis influenciar o momento
e o tempo que era de calma
deixou-se afetar, como sempre, devagar

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

aquelas mãos dadas
não eram de passeio
eram de dança
mas naquele momento
era a mesma coisa

guardei uma gota de chuva
que mergulhei num raio de sol
e coloquei num arco-íris
o anel mais lindo que havia
e como te fica tão bem

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

biografia iii

nasci em 1961 e tremo de vara verde ante do peso quando me chamam poeta, pelo temor de manchar a primeira forma de literatura que amei.

sempre escrevi, escrevinhando, enquanto estudava psicologia e me tornei profissional. escrevia e acelerava o meu crescer, o meu ver. tive filhos que entraram na escola e me ensinaram a ingenuidade do escrever escrevendo simples. fascinava-me ouvir aquelas composições tão luminosas de gente.

hoje escrevo emoções pela alma que deixo desfiar em linhas que se enovelam em palavras e estas se alinham em escritos de fantasias que conheci na infância e nunca mais larguei. sacio-me ao escrever, necessito-me a desenhar, a rabiscar a rasurar algos com força de mote e métrica de peito.

embora o meu temor de macular a poesia conviva comigo diariamente, um impulso secreto e uma mulher maravilhosa impelem-me a que me desvende, o que tenho feito. já participei numa antologia de poetas portugueses e agora tenho a honra de colaborar numa antologia de poetas nascidos no Brasil e em Portugal, o que me faz muito feliz. sempre me deliciou a sonância que sinto poética do português falado no Brasil

maria

maria era livre quando sentia girassol
maria rodava, rodava, maria feliz
perseguindo o infinito, luzente e quente

maria seduzia quando sentia malmequer
maria dançava e em cada pétala maria semeava
ora incerteza de um não, ora a candura da mulher

maria apaixonava quando sentia poesia
maria soltava o corpo, maria encorpava a alma
maria entrava no sonho e ao meu colo, maria adormecia

estranho amor

contradição é viver num gume quando escrevo
e tirar a linha ao horizonte para que não haja limites

contradição é confiar no meu avesso
para sentir a profundidade e a serena doçura do olhar

contradição é saber que escrevendo não envelhecerei
e sentir que quando escrevo vou crescendo

contradição é parir um poema
e sentir-me fillho da poesia

estranho amor este
ser pai e irmão da sua arte

nota biográfica

escrevo entre o pânico e a necessidade: um gume. a necessidade é pessoal, transborda-me; o pânico é de mácula na poesia.

não procuro a perfeição, procuro tão somente sentir a poesia que pode viver no mais imperfeito dos seres. de outro modo, como se poderiam escrever poemas?

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

amarelo de van gogh

far-te-ia um poema em tela
de amarelo pincelado, forte
belo, de girassol
um ramo de girassóis
e teus olhos sendo dois
brilham, uma plantação
amarela viva
de onde tu despontarias

terça-feira, 12 de novembro de 2013

natureza

ao ser gente
tornei-me rio
corri
fiz corrente
empurrei a margem
pulei e aspergi
acalmei
parei
espelhei
espraiando
encontrei o mar
mergulhei
com ele me misturei

nada

sentei na beira do nada
por ser plano, confortável e fresco
como um degrau de escada

o que fazia ali? nada
onde me sentava? nada
em que pensava? nada

sentei-me na beira do nada

refugiado

vi a desgraça
pintada de negro
aguardando, pacientemente

vi a solidariedade
pintada de branco
atabalhoada, palrando

entre a dádiva e a necessidade
começou o abismo
onde se perdeu a dignidade
onde se plantaram justificações
estéreis como os problemas
havia sorrisos mas não houve flores

falou-se de desgraça frente aos desgraçados
ignorando-os
na passerelle das competências
desfilaram verborreias, inconsistentes
jardins sem flores
onde é negra a graça da desgraça
porque negra nasceu
e ninguém lhe falou
nada se lhe perguntou

delírio

a ideia
que chegou de ti
tinha tudo
até a dúvida
a dúvida assaltante
encapuçada
que encapuçou a ideia
vinda de ti
que não reconheces
sendo tua

caos

um dia…
a cabeça acaba por pousar na mesa
primeiro numa mão
depois na outra
nas duas
e aqueixa
o queixo na mesa
o olhar distante como no início
a força anímica menor
mínima
e expressão vazia
como o olhar, agora
o caos...
a cabeça tomba sobre a face
tudo na mesa
das migalhas, da chávena
de uma bebida qualquer
as lágrimas não vêm
ja avisaram

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

colar de migalhas

3 migalhas num colar queriam ser belas; desejavam brilhar
só faltava um pescoço para as passear.
deveria ser fino, formoso;
alto, mas não muito vistoso e que gostasse de as namorar.

o pardalito faminto e inquieto bicou o colar, queria as migalhas
o que não deu certo. salvou-as o melro que chegou mesmo a tempo:
que bem ficariam na plumagem escura, pensaram.
mas o esperto do melro, topou-lhes o sabor
e ao abrir o bico para as engolir de uma só bicada
intrometeu-se a pega, animada pelo colar, que viu uma jóia
de um cintilante brilhar que afinal era orvalho. furiosa
atirou as migalhas para bem longe. caíram aos pés de uma menina

que as apanhou feliz. encontrou o colar da beatriz
a boneca mais linda, feita e vestida pela avó
que hoje fizera um colar de migalhas de pão
e todas iriam passear, olaró.
cuidado que as migalhas não caiam ao chão.

o tombo da desilusão

tombou sobre mim a desilusão
descobri, a desilusão não chega
tomba, como um ataque
mas não ataca, tomba
pesa inerte, algures
entre o corpo e o espírito
mesmo quando não distinguimos um do outro
ou quando um e outro nos falta
ou quando gostaríamos que faltasse
este tombo...
inerte de desilusão...

"erres" de rio

e o rio correu-me
andei ligeiro, brincando
fugindo em pulos de pés
fingindo não os querer molhados
-- rio não molha, sorriu-me a margem
rio refresca, rio rega, rio rejuvenesce 
e outros "erres"
e rimos em altas risadas
que risota
eu, a margem e o rio

descoberta

descobrir lentamente
a noite por trás de escuro
a luar ao redor da lua
o dia seguindo o sol
a via à volta tua
o vazio da tua ausência

sábado, 9 de novembro de 2013

amor

queria tanto ver-te
que te procurei
primeiro no improvável
depois no impossível
e encontrei-te no inexgotável

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

envelheço

envelheço
e me antiguo
por ordens
me desconcerto
descompasso
de um tempo
que não tem passo
sem volta
sem 2º oportunidade

envelheço
e me antiguo
sem que entenda
sem que me entendam
espanta-se a lógica
deixam-me escárnios
em sorrisos e berros
querem que saiba
que envelheço
e me antiguo

peregrinar

se quiseres deixa-me
deixa-me. sei que nem sempre continuar é abandono
às vezes é só continuar por caminhos diferentes
quem se senta precisa ponderar a caminhada
quem muda de caminho segue a consciência
assim é a jornada de preregrino

minhas tias

quando minha alma me parece vazia
vou à infância e lá me deixo, em colos
onde aprendi a sentir a ternura em carinho
chegado na voz soada a peito
no aroma a corpo aconchegado
no prazer íntimo de colo gerado ali mesmo.
as minhas pequenas mãos lhes tocavam os rostos
para lhes sentir os sorrisos e acabavam beijadas.
agora, quando nos encontramos ainda sou puxado
para o colo das minhas tias
entre os meus 50 anos e os 70 delas somos crianças
amando-se com toda a meninice.
ao cruzarem-se, os nossos olhares resplandecem
um infinito brilho de iluminar a alma
de quem se ama almadamente.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

biografia ii

nasci a 4 de novembro de 1961, no Porto, gorducho de querubim em mão de fadas , pulava entre colos e sorria, e a felicidade, de pudesse ser emoção, seria a única que sabia. com os tios conheci a traquinice e com eles fui diabinho radiante. aprendi a ser feliz sendo angelical e amando a travessura.

a minha adultez chegou precoce. quando  aprendia a escrever as letras, depois as palavras e os textos, sonhava com um modo inintelegível de palavras que se decifravam por si como se não resultassem da justaposição de letras. era assim que via a escrita de adulto e enchia "lousas" e "lousas" de desenhos hieroglíficos que sonhava fossem palavras. um dia escreveria assim, afirmava secretamente para mim.

trabalhei imenso para ser um adulto bem comportado e aspergido de traquinas. licenciei-me em psicologia, fui pai de 2 filhos que me ensinaram a escrever depois de ter casado com aquela que o destino incumbiria de assolhar as rasuras que escrevi rasurando (e que apelidou de poesia.)

porque há algos que se perpetuam, ainda hoje sou impelido para desenhar linhas que deixo enovelar em sonâncias de alma, algures entre o silêncio e a euforia. assim abraço palavras com que urdo poemas; escritos, suspiros de vadias emoções sem céu nem inferno, tal como o horizonte que nunca teve linha e muito menos divisória.

neste vadiamento assumi-me assim e do advérbio de modo fiz meu nome por me soar mais almado antónio assim d'oliveira e o senti-lo mais apropriado ao meu ser desenhador.

nada

passei o dia no meio de nada
rodeado de coisas
coisas de nada que se espinhavam
e os pássaros, sempre espertos, nelas se empoleiravam

depois, o dia passou sem que partisse, mudou
e quando eu passei, se é que passei, que eu nem notei
nada não me arranhou, segurou o pássaro
e eu voltei, quando não sei, para mais um dia no meio de nada

espraiar

ouves?
este mar, onda a onda
espraiar...
na areia
tanto prazer numa dança
num enrolo
ouves
espraiar...
o ronceiro som do mar

ouves
tem sonância de corpo na cama
espreguiçar...
soada de lençol
escorregar...
ouves?
espraiar...

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

idealizando

viveria onde pudesse pairar
que os toques, a existirem, fossem de alma
e por eles se sustentassem os corpos
as mentes e as ideias
as mesmas que sustentam ideais
as âncoras da humanidade

pairaria incauto, como deve ser
uma existência feliz

ondear

quero um lugar de onda
onde possa ondear
mas não quero ser onda
que essas são filhas do mar
e eu que só me sinto perdido
é lá que quero estar
enterrado até ao pescoço 
mergulho a cabeça na água 
para me sentir renascer
ou para me fazer renascido
sem frutos que tenha de dar
possa meu estado ser peco
bravio, sem poda, vadio
resistente ou moribundo
como arbusto daninho
que vive para ondear

contemplação

bem no alto do calhau que nomeei meu
contemplo
as rugosidades do tempo
que chegam nas nuvens
salgadas, carregadas de mar.
toco com a língua no meu calhau
sinto-lhe o sal e a lisura da brancura
tão pura que eu amo tanto;
como amo este meu território
de guardar no bolso junto ao corpo
onde me sinto livre
verdadeiramente liberto
para lhe conhecer a grandiosidade

terça-feira, 5 de novembro de 2013

mirada

o mundo, do tamanho e forma de uma gota de água
resplandece quando tocado pelo sol
de tão cristalino que é
tal como as gotas de orvalho
e as lágrimas,
venham elas dos lados da alegria
ou nascidas da tristeza.

o sol, eternamente quente
que existe redondo que já o vi
tem o reluzente que sempre habita em nós
e alimenta-se de sentimentos
e cintila na emoção

pequenezes que fazem sorrisos
olhares radiantes
e belas fotos

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

domingo, 3 de novembro de 2013

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

testamento

se puderem, se vos for possível deixem-me morrer
sossegadinho, calminho como o respirar de um conto infantil
era uma vez... e eu morri.
e começa o enredo de magia e fantasia infinitas.
peço que não escolham réis, príncipes e princesas
nem animais de colo
prefiro vadios e transviados
e se quiserem mesmo animais, convidem os acossados.
criem um conto preferencialmente sem moral
sem felicidade final
somente uma história que possa continuar com todos
e tenha um dia seguinte.

doçura

era noite
queria que me agarrasses
como um favo, me abanasses, apertasses
tirasses de mim toda a minha doçura
que meu mel te cobrisse
que dele te deliciasses

e tu obreira rainha
fadando a noite
fizeste de mim o favo mais doce
atulhado de mel

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

intuitivamente

havia poemas nascidos
de quem ainda não escrevia
porque não sabia;
de quem sonhava e sonhava
sem paisagem e sem história,
via-se com uma pena
que da mão lhe saía, em linhas
encadilhadas em algos
a que dava voz.
os olhos moviam-se
para o céu, para si e para dentro
como acontece com os poemas
ele sabia
sem que soubesse porquê
ali havia poesia.

do estado das pessoas

ela abeirou-se
precisava saber se tudo estava bem
não estava, não estava...
nada estava bem
mas agora que se viram
tudo parecia melhor
e assim ficou...
melhor

sábado, 26 de outubro de 2013

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

cega paixão

desejo pedir-te, mesmo suplicar-te que me ames
que me ames como se não houvesse mais ninguém
a cegueira da paixão não me deixa entender
como serei mais amado quando me escolhes de entre outros

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

biografia

minha biografia escreve-se de banalidades, como as letras que a integram. nasci a 04.11.1961 e sinto que desde logo me pularam de colo para colo: pais, tias e avós. fui deles e eles meus, por inteiro. durante 6 anos fui a única criança daquele reino de fadas mimentas que me fizeram sentir querido, lindo e inteligente. aprendi a ser príncipe, a ser ouvido; senti o conforto do colo e o prazer de trocar carinhos pelas mãos, pelos sorrisos e pelas palavras, em noites à lareira, enquanto me crescia a fantasia dos contos lindos de impossíveis, do meu avô. ouvi-os vezes sem conta e nunca se repetiram. que lindos, dizia então; que poesia, lembro hoje.

o tempo impeliu-me a escrever fantasias. primeiro com um ardor dorido de adolescente (sempre apaixonado) em plena revolução. passei a jovem adulto, profissional de psicologia, competentemente adulto, que por um ímpeto sempre inexplicável pecava: perdia tempo escrevendo devaneios que obnubilariam qualquer adultez, os quais sempre fui encobrindo, não sei se por cobardia intelectual se por um desejo intrínseco de culto do secreto. foi um tempo de treino, talvez de experiência.

recentemente, já sem noites e sem lareira,  sem nevoeiros e sem manhãs,  sem mais nada para além da impetuosa necessidade de fantasiar, escrevi da minha alma os vagidos e as traquinices tal como os ouço e me tocam e dei por mim parindo-me a cada letra, verso a verso, umas vezes com a delicadeza brotante da nascente, outras com a crueza estrondosa do vagalhão, deixando emergir o que em mim sempre esteve e para a qual não encontro outro nome, senão mesmo natureza. foi então que me apropriei do advérbio que me define o modo e dele fiz nome meu; antónio assim d'oliveira.

solidão

a solidão dela fizera-se de abandonos
abandonos de memórias
primeiro as boas, depois as más
que antes de partirem escorraçaram tudo

um livro, só
um livro numa mesa
de pé de galo
ladeado de uma chávena, só
vazia de tudo
também havia uma caneta, só
e uma folha de papel
uma folha, só
quando chegou alguém
puxou uma só cadeira
sentou-se à mesa, só
de tudo debandou a solitude

dito e não dito

quando me olhaste: — doçura
eras meu mel

quando me sorriste: — bom dia
eras meu sol

quando soltei: — querida
gritava: — meu amor

quando te beijei: — bom dia
como desejava morder-te

terça-feira, 22 de outubro de 2013

frágil intelegibilidade

a fragilidade com que escrevi meu nome
como o constatei quebrável, sem que fosse cristalino
frágil; mole, sem que fosse moldável, sem que fosse flexível...

a fragilidade com que escrevi meu nome escorrente no papel
como tinta aguada, como gordura ao sol
sem forma, sem textura, sem mensagem

não entendo, porque não me aceito frágil

boa água

tanto espero e mais desejo
que meus olhos saibam dizer-te
o que eu não sei
o que não me perpassa os lábios
o que a garganta não desata
o que a língua não modela
a ideia que baralhei e não encontro
e na qual tropeço diariamente
constantemente

tanto espero e mais desejo
que meus olhos saibam contar-te
o rio em que minha alma se transformou
o prateado brilho, onde navegas
que em mim resplandece teu vogar
toque, corpo, água e sol
teu sorriso colorindo a janela
uma lágrima gritando
boa água

conversas ocas

foi tudo dito
tudo está dito
restam glosas e mais glosas
no mesmo tema
no mesmo assunto
sem nada acrescentado
sem nada mudado
sem novas vistas
falar e abafar silêncios
verborreia e mais verborreia
oiçamos o silêncio
entendamo-lo, sapientes

domingo, 20 de outubro de 2013

mudema

gosto das letras mudas
por mim, todas as letras seriam mudas
as palavras pronunciar-se-iam mudamente
com os olhos bem coloridos de expressão
os poemas seriam almados, plenos... enormes
os poemas seriam declamados com olhares

meu espelho

agasta-se dia a dia
o espelho em que me vejo
pica-se-lhe o espelhado
amarelece
ao ritmo das paredes onde se aninha
enquanto as rugas se lhe desenham
na imagem do espelhado
e no olhar que me reflete
vejo-lhe o brilho
que o espelhado imagina

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

nascente

onde a lua voa
e o pássaro passeia
onde as nuvens navegam
e a chuva caminha
onde as poças chapinam
e as crianças brincam
afaga-se a liberdade
e o poema corre rio

memórias

contam-se as memórias
uma a uma
sem contas, sem ordem
como a memória
sucedem-se
ligadas num punhado
fossem cerejas

assolham-se, limpam-se
alindam-se e guardam-se
tesouros sem tesouro
brilhos sem brilhantes
essência de existência
velam-se e ostentam-se
em pensamentos secretos
sorrisos enigmáticos
olhares perdidos

o indecifrável da compreensão

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

banho de vida

se te parece
que a vida te cai aos pés
não a pises
não a evites
não a ignores
sobretudo
nunca te lamentes
chapina nela
até te sentires mergulhado
de vida

trovoada

dormente
este céu de nuvens
espessas
penedos flutuantes
contundentes
quase ruidosos
quase faiscantes

tateei o luzente
simples
como um caminho
vadio
tinha aroma a tardio
despreconceituoso

um poema
talvez extraviado
ainda incompreendido
ansioso
para ser desvendado

fizemo-nos companhia
embrenhados na trovoada

o dia rompeu
não havia poema
nem eu

nós

teu dia chegou-me
perfumado de ventre
onde o sol nasce
meu dia enleou-se no teu
e conjugaste-nos com todos os segundos

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

verdade

assim
dispersa pela cidade
numa situação verdadeira
mente insustentável
fizeste-te de aragem
tal a tua ânsia de chegar
a todos, teus amantes
alguns indignos de ti
verdade
pela qual existem
muros e pássaros

pariu-me o vento
batizou-me o temporal
enchi-me do nada
do ar e voei
já que não podia andar
minha mãe chamava-me
cabeça-no-ar
compreendia-me

voto de humanidade

espero que a idade me cure
desta forma infiel de viver
não renascer em cada estação
não apreciar o vento e a neve fria

que eu ganhe cor e verdor
e ao ser homem seja alguém

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

desejo

se eu pudesse
correria até voar
rumaria com o vento
dançaria em teus cabelos
rebolaria em teus seios
abrigar-me-ia em teus dedos
confortar-me-ia em teu ventre
flutuaria no luar
voaria num só pé
brilharia como os rios
seria cristal sem tesouro

emociomar

deixem o mar destapado
o mar precisa-se aberto
cheio de água fervente
espuma tudo o que sente
vociferando encapelado
sintam o mar por perto
pois o mar é sagrado

fumar

o prazer de um cigarro
esfuma-se, no fumo
a memória aloja-se nos ossos
daí se solta
com o calafrio

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

desalento

caíam as mãos
peso do desapego
amargo da consciência
depois o corpo cansado
até para as mãos

que caíam
escorrendo pelo corpo
à frente dos braços
agora escorridamente longos
mais longos
tão longos que jamais abraçariam
e as mãos caídas, separadas
jamais se acariciariam

os anéis
tornaram-se largos
afastaram-se, impercetíveis

terça-feira, 8 de outubro de 2013

ídolo

sossega
o peito
pulsar
demais
pode ser
defeito

menina
corada
respiração
pesada
grito
engatilhado

pro herói
da banda
rosto
de revista
que canta
que dança
que artista
perfeito

não pulsa
demais
sossega
o peito

indecisão

vou
não vou
ainda
aqui estou
depois
de desejar
tudo
alcançar

se a poesia fosse um templo
os poemas seriam vitrais
contempláveis de dentro da capela

(baseado em Goethe; "Poemas são como vitrais pintados")

mais além

sentir-te é ir além dos sentidos
o mais além, sem distâncias
sentir-te a doçura da memória que te assalta
e te desconcentra
sentir-te o pensamento que me reservaste
e te contraria o momento
sentir-te a ligeireza com que te desprendes do dia
enleada te deixaste num detalhe de nós
sentir-te pelas incompreensíveis noções
de alma gémea, química, telepatia, seja lá o que for
sentir-te por algo que sinto como essência
do que chamamos amor
que nasceu de nós, cresceu
desmesuradamente, sem controlo
é o que sinto
e o que sinto diz-me que sei muito pouco
e o que sinto nunca se conjugou com medida e controlo

domingo, 6 de outubro de 2013

sorriso de pássaro

o sorriso num pássaro
tem voo e tem chilreio
tem olhar: primeiro um olho
depois o outro
tem distinção de plumagem
tem confiança: de se deixar mirar
e de vir comer às mãos
e não há alma que não lhe sorria

sábado, 5 de outubro de 2013

boa água

meu poema jamais se re-escreverá
jamais de repetirão as letras de que nasceu

o que minhas tristezas parem, não se escreve
e não há palavras para a insipiência deste sol peco

meu poema foi rio abaixo
boa água
por ali vogará
compondo-se no horizonte
onde os olhares se põem

viagem

segui a voz do cantar
acendi o sonho do poema
tocou no horizonte, a melodia
um pouco de mim não quer regressar

as viagens são assim

algo de nós por lá fica
algo de lá nos acompanhará, sem fim

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

urdêncios

um poeta vive nos silêncios
fios dobados, anovelados
deles urde poemas
em paciência de enxoval
em amor virginal, de entrega
um dia...

assolha-os ao tempo
ao vento
em silêncio, trauteando
um tesouro...

silêncios

silêncio, a soada que não se ouve
o silêncio escuta-se e entende-se
o silêncio de uma gargalhada
o silêncio da palavra
o silêncio do olhar
o silêncio do sorriso
o silêncio da tarde
o silêncio de um olhar sorrido num final de tarde
o silêncio de um poema
o silêncio de estarmos connosco
em silêncio

terça-feira, 1 de outubro de 2013

ressequido

esvaziámos nossas carícias
primeiro ocas, agora ressequidas
magoámo-nos na aspereza do toque
já não há corpo nem meio nem lugar
para as carícias

debandaram como corvos negros
gralharam horizonte fora
até ficarmos aliviados
agora magoamo-nos se nos tocamos

tempo de brincar

vi tantas histórias nos montes da areia da minha ampulheta;
cresciam em camadas, os montes e as histórias.
podiam ser doces, pareciam-me de açúcar
amontoado, destinado a um bolo guloso;
eram sagradas de sal imaculado
como o do batismo na minha igreja,
que só a santa mão do sacerdote tocava;
via-as areias de um deserto que alguém galgava
com ou sem amada, sempre uma aventura.
então o tempo parava e a hstória mudava,
o personagem renascia num outro episódio,
feito camada a camada,
que os meus olhitos de menino namoravam
e nelas se alimentavam brincando.
quando eu sabia brincar com o tempo.

a ampulheta

lembram-se da ampulheta?
instrumento maravilhoso
acumula o tempo
solta-o, devagarinho
caindo, em montinho
de cima para baixo
trabalho da gravidade
e o tempo lá dentro
não foge, caindo
se cima para baixo
depois tudo pára
também há a pausa
conhecem? a pausa?
ampulheta tem sempre pausa