quarta-feira, 11 de junho de 2014

o tempo
como todo o resto na vida
custa usar na míngua:
os ingratos últimos momentos

sobre o mistério da palavra

na poesia
arte do indizível
as palavras são sonância
uma melodia de fundo
e tomamos os significados
que enchemos e esvaziamos
das palavras, cheias,
que dispomos e compomos
ao som harmonioso das palavras

é uma arte a dois, de conivência
entre quem escreve e quem lê
só em cumplicidade se revela 
o inexplicável que o sentido tem

momentos não

um dia que devia não ter acontecido
um jeito no cabelo que estragou
um arranjo na jarra que a tombou
uma limpeza na moldura que a partiu
um arranjo na mesa e o copo derramou
um toque pessoal que desmoronou
momentos em que fomos a nossa desilusão

terça-feira, 10 de junho de 2014

que dizer de um homem
que escapa às vozes para ouvir os pássaros?
e de uma ave
que abandona o bando para pousar numa mão?

domingo, 8 de junho de 2014

terra de fragas

de onde nasci
as pedras eram duras
de pedra se faziam casas e lápides
monumentos
e outras moradias para as memórias

de onde nasci
o povo respeitava as pedras
a terra as plantas e tudo mais
deus conjugava as preces
que a vida era dura e incompreensível

de onde eu nasci
a terra era o cheiro a vida
os cantos escondiam as amarguras
que nasciam nos campos
ao lado do trigo

de onde eu nasci
a terra gemia a escravidão
de ignorância se tecia o véu
da servidão
de quem não nasceu senhor

de onde eu nasci
o tempo correu e tudo mudou
a terra tornou-se inculta
o senhor morreu, abandonado
da terra se fez monte

quadro

o sol não visitava a manhã
a passarada muda, andava
pelo chão picava aqui
ali bicava, migalhas
talvez de pão
tudo em sossego...
nem um som

a velha dava o que tinha
o regaço de rainha
dele voava pão
caía, rolando no chão
tagarelava uns mimos
desaparecidos na imensidão

sábado, 7 de junho de 2014

sábado à tarde

tarde de sábado, quase sete
o filme já visto, a tv está só
escorre a preguiça
inicio umas mini férias
aproveito o sabor da calma
que chega do cansaço
prefiro a que vem da paz

choveu, e o vento trouxe o sol
brincam com as sombras, todos,
e com os ramos das árvores.
fresco, o lá fora
aprazível
a cor é linda, o tom entardece
suavemente, como a preguiça
calmamente, como o cansaço

a tv abandonada fala em vão, já visto

um melro posa na árvore do fundo
ao centro, um chorão
perscruta à volta, pressente-me ao longe
sabe que o apanhei na imagem
e continua, a naturalidade de uma pose
como este texto que se sente gerado
letra a letra, entendendo as emendas
um e outro, elementos de um quadro
composição de um dia
espírito de um estado calmo
de sábado, pouco depois das 7 da tarde

quinta-feira, 5 de junho de 2014

se o dia te for pesado...
se tiveres de poisar o dia...
deixa uma parte de ti
de permeio entre o dia e o poiso
que os dias só serão teus
enquanto lhes tocares

andante

sonho até ao fundo do caminho, viajo
parto comigo mesmo
arrumo a partida em sonhos
a bagagem que se faz minha

viajar é assim
passear o sonho na avenida
apresentar-lhe os transeuntes e deixá-los entrar
e acompanharmos a paisagem

que a história é só uma, de viajem e de sonho
e o sonhador e o viajante são o mesmo narrador

mistério do beijo

beijos não se escrevem
nem se dizem
despontam
soltos, da entrega
pousam, de pluma
caem, de chapão
jorram, de nascente
humedecem, de orvalho
indescritíveis
mote de estrelas

incompreensível estado de ser feliz

o desconhecido era a arte que nos unia
o caminho que pisávamos com a satisfação de saltar nas poças
éramos crianças de olhos arregalados no horizonte
o sol nunca se punha e estava lá, sempre
de sorriso feito para nós
éramos piratas, dos bons, éramos pessoas heróis
éramos grandes, sem sabermos
que a nossa grandeza era ser o que éramos
e nem sabíamos o que éramos
sabíamo-nos felizes, e bastava
é-se feliz quando basta a felicidade para o ser
(feliz)
o sol ainda se detém no mesmo lado
seu sorriso permanece redondo de perfeição
hoje, temos a nostalgia de um passado feliz
e a felicidade, vinda não se sabe de onde
— não há mal nisso, sorri-me o pensamento
na verdade, que o que habita em nós não vem da lado nenhum
está lá!
o desconhecido de ser-se feliz, porque se é
razão intensa da felicidade em nós.
acontece passar a nostalgia; uma mirada complacente de-nós-para-nós
com esboço de sorriso colhido nos lábios e na ausência dos olhos

quarta-feira, 4 de junho de 2014

terça-feira, 3 de junho de 2014

partiríamos... vadios e errantes
que errar é a mais humana das virtudes
e vadiar a maior riqueza

segunda-feira, 2 de junho de 2014

dia poema

era luz, era cor, era perfume
era fruta, eram flores
vivazes, eram olhos
eram mãos, dadas, pousadas
inquietas, eram pombas
era sol em abóbada
era lago, fonte jorrada na praça
era dia
era dia poema que as palavras não contam
que em silêncio os olhos declamam
que no ar se semeia e se respira
era poesia
a poesia que faz o dia

domingo, 1 de junho de 2014

contorno movimento

li nos teus movimentos a ave
descobri o lirismo do voo
sei porque me paira o pensamento
vi onde converge o sol
compreendo o vento que te abraça
e se faz brisa
e porque arriva o perfume de mar

o que sei das gaivotas
sei o que buscaram em ti
o desejo de viver
o prazer de vadiar
e o amor ao mar

leio e releio o movimento
a ave
o voo
o poema
a brisa é sempre fresca
e o aroma de mar acentua-se
em essências, a cada passagem

outra face do óbvio

óbvio?
nem tudo é assim tão óbvio
não é óbvio que as árvores sejam poleiros das aves.
já vi pássaros com árvores nos bicos a caminho dos ninhos
eram arvores empoleiradas nos pássaros
com eles voavam
algumas batiam os ramos vigorosamente
intimamente sabiam que voavam
voavam mais que qualquer homem dentro de um avião...

não se diga que rancos não são árvores
se plantados na terra se fazem árvores frondosas
não seja o tamanho que defina a árvore
como se determina nos homens
afinal não é óbvio que um ranco não seja uma árvore
e, embora não o pareça, é obvio para as aves
serem poleiros de árvores que voam
que sentem o voo vigorosamente
é obvio.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

sobre sonhos

Sonho,
é somente uma parte do real
que aparentemente podemos modelar a gosto; e gostamos.
Então sonhamos
e o acontecer aproxima-se e nós abeiramo-nos dele,
e neste processo frenético de construção e desejo,
a extravagância convive com a utopia
e a desventura com a perseverança.
A este convívio ocorre retirarmos os afetos,
para não sentirmos a dor da perda e o desconforto da frustração;
então resulta a realidade,
sempre acética pela inevitabilidade: o ser/estar "sem tus nem mus".

Normalmente
tendemos a esquecer que sempre corremos por algo que ainda não aconteceu
e que damos por tão certo
que não lhe reconhecemos o devir próprio do sonho:
é a nossa impossibilidade de sair do imediato,
de nos projetarmos um pouco além daqui. E chamamos real
ao que ainda não aconteceu.
O tempo, o espaço e o sonho são curtos; têm a nossa perspetiva
de vida, que se recusa sonhar, que recusa o desconforto:
instala-se a incapacidade de arriscar.

Que arriscar implica uma perspetiva de futuro que só sonho tem.

desperspetiva

há algo em mim, sempre o soube,
que flui como as flores; não é perfume.
é verde rente ao chão; onde brota vida
que me refresca os pés; e me desprotege,
ao contrário dos sapatos,
e me revigoro, fresco, de flor

da terra regressa o eco das raízes
que a seu modo são flores nascidas terra adentro
aí suportam e alimentam as raízes viçosas
baloiçantes ao vento e, porque ganham cor, são flor

que pés desprotegidos ganham perspetiva

pó dos dias

porque só tinha uma vida
vivia-a avidamente,
sentenciava-se

os pássaros sabiam que não era vida
era só o frenesim
que levantava dos dias

que se sacode, na muda de roupa
que fica lá fora ao fecho da porta
que, como o pó, se espana à janela

quinta-feira, 29 de maio de 2014

estados d'água

gota a gota pequenina
cresceste e correste até mim
enxurrada. assustas-me mais
que o escuro da noite
que te brotou
isolas-me
invades-me
pequenina como sempre
cavalgas tudo
das ondas que te fizeste

aprendi a amar-te
lembras-te que éramos companheiros?
todas as estações
eu de dentro aguardava-te
tu de fora divertias-te
no meio nosso, a janela
nela te projetavas, corrias e escorrias
mostravas-me o mundo ao contrário
nas gotas que eras tu
trocávamos segredos de amigos
secretos...
uma vez menti-te e tu descobriste
zangada, fizeste-te enxurrada
e com ela levaste-me a serenidade
de confiar incondicionalmente em ti
não percebeste que eu folgara
amigos, por vezes, enganam-se por diversão pura
assustaste-me
e continuaste minha amiga muito querida
intolerante a brincadeiras

hoje afloras o meu medo
não te sorrio
temo que me leves algo importante
temo-te, achando que já me perdoaste
mas chegas-me suja sem o cristalino
que teu brilho tem
corres barulhenta de folia ou de raiva?
não sei
tu corres e eu temo-te
sou eu quem não te perdoará

abandono

olho(-te)
pela janela encaro o escuro
invade-me essa luz de farol de carro velho
tudo em mim é velho como eu e a roupa que visto
e a janela que assomo à luz desse farol
e o escuro, da noite que surge sem ser aguardada
mas chega e olho-o nos olhos que não tem
só isso!... e acerca-se velho
como o meu rosto.

há um cão que me olha nos olhos
tomei-o por meu amigo
contemplou-me
que saudades de um olhar, eu tinha...
urinou no muro e partiu; poderei censurá-lo
se lhe devo o olhar que trocou comigo?

chamam-me louco
desculpam-me por ser quem sou
quando sou só solitário e velho
sem o direito a existir ancião
a idade mo nega, os olhos de outrem também.
meus dias perderam a nobreza
de merecer um olhar, procuro-o
à janela, na escuridão
no farol de um carro
na atenção de um cão.

a forja

o fogo
arde em letras
crepitam desconhecidas
sonâncias vagas e longas
palavras fundentes
o tempo as curará
ditos e não ditos
tudo será
tudo fará
sentido

a voz

canto onde o corpo acaba
canto o som perpétuo dos ecos da alma
infinitos
canto o que a voz não pronuncia
canto os silêncios das palavras grandes
cheias
canto o que não entendo e que me é familiar
canto o que ecoa em mim
de todos os cantos que tenho

entre linhas

todas as frases são uma continuação
como a vida...
mudar de linha é continuar a ideia - digo vida - noutra linha
isto acontece porque os cadernos são finitos
e porque os poetas são seres inconstantes
e mudam de linha sem critério quantificável
escrevem frases pequenas
outras grandes
a que apelidam de versos - versejam.
a mim soam-me a cantos - pensamentos trauteados
que uns nomeiam poemas e poesia
que outros chamam tretas
eu sempre fui de tretas - que o resto me entedia
redijo-as em minúsculas
neste estado - eu e as letras - desrespeitamos as regras
e crescemos em todas as linhas
ou pensamos que sim
que é outra linha de crescer

segunda-feira, 26 de maio de 2014

quando nada houver para dar
estendam-se os braços, entregues ao vento
os pássaros entenderão e pousarão neles
agradecem-nos o que temos para doar
a herança das árvores

domingo, 25 de maio de 2014

voos de cegonha

voo fluente de asas amplas
agita, a cegonha em sossego
bicos no regresso ao ninho
onde olhos aguardam olhos

terça-feira, 20 de maio de 2014

melancolia

bebe-se a melancolia
pequenos goles, saboreando
doce-amargo seco nos lábios
arrasta-se na garganta
baldeia-se no peito
em estado inquietude

bebe-se na paisagem
que desliza devagar
arrasta-se peganhosa
em olhares fundeados
o amargo do sabor
tem um doce enganador

romper do outono

escrever é a minha mudez
o meu de-mim-para-mim
o meu interior - reboliço
sou todo folhas de outono em vento outonal
rodopiam, levantam, rodopiam e caem
perto - sempre juntas - indiferentes
como uma mão ignora a outra
na certeza da presença - pertença mútua
minha alma e meu corpo pertencem-se - em mim
se ignoram.

minha alma emudeceu
eu também...

sempre outonos
laureio-me entre outonos
todas as cores me levam ao outono
nele rimo terra de pó com fruto
versejo vento com poente
concordo morno com sossego
e escrevo - emudeço - de-mim-para-mim

minha alma preguiça num outono
que de mim rompeu

segunda-feira, 19 de maio de 2014

sina

não me fiz por minhas mãos
não pude, por isso morro
crucifico-me nas linhas
retorcidas e teimosas
morro todas as vezes que tento
nasço a cada letra fundida no imaterial
de que se faz a escrita
se minhas mãos me fizessem
seria um linha ondulante
eternamente, sem retas nem vértices

ambição

aguardei na flor do dia
pensei em primaveras
mas não era disso que se tratava
era de flores

queria o dia a vogar, sereno
mas os pássaros inquietos
desinquietavam-me
e não era primavera

um trevo acenou-me
e ancorou meu olhar
de cobiça
eu desejava a primavera

eu queria escrever
e não havia palavras
inventei um olhar
procurando a primavera

meu olhar me disse
que eu não sabia
escrever
perdera a primavera

guardei a flor do dia
era de flores que se tratava
nunca fora de primavera

tempestade de verão

o céu vinha de longe carregado
despejou-se estrondosamente longo e quebrou-se em relâmpagos
o rio - em corpo de dragão - aproveitou para cintilar salpicos
que a chuva encontrou em múltiplos círculos concêntricos
minha janela gostou; sabia que era verão e desempoeirou-se
iluminou-se perfeita de tranças ao vento, descortinada
elevou-se e quis-se bela
pintou-se rio, longo de dragão com nuvens carregadas nas asas
serpenteando ventos, clarões e estrondos
e um campanário, brincando

declaro

minha poesia é enteada
eu sou o padrasto, e de má rês
odeio-a!
de tão falha que a vejo
de tão imprópria de existir
deserdo-a do título de poesia
coloco-a abaixo de nota de merceeiro
que é só uma conta de somar
cada poema é um enguiço
só isso

meu lugar é lá
entre o sol e o mar
nascente, poema
poente, criação
do fundo do peito
respiro sal
húmido de espuma
a voz é do mar
a rima da gaivota
a métrica do peito
a alma - poema - pulsa espontânea
nascente, poente
entre o sol e o mar
o meu lugar

domingo, 18 de maio de 2014

entre

entre poetas
decifram-se, entre aspas
entendem-se, entre parênteses
respira-se, entre vírgulas
violetas, nascidas em versos

- entre, entre!
que entrem
que entre a fantasia!
entre olhares
entre dedos
entre lábios
entre dentes
entre tantos
entre nós
da poesia

sexta-feira, 16 de maio de 2014

sonhos, princesas e reis

- meu sonho era amar-te, dizia o príncipe
- e porque não me amas? - perguntou a princesa
- é que nunca estás em meu sonho, nele nem te conheço

- com que sonhas tu? – sonhava-se ela
com ousadia questionar o príncipe
e ainda sonhava a resposta, pelo príncipe:
- sonho com meu reino de terra e de povo
sonho que reinarei com sabedoria
sonho que serei rei de todos, para todos
sonho que reinando servirei
sonho que servindo reinarei
sonho com um reino de reis
sonho que os reis do meu reino servirão reinando
sonho que saberei jardinar este reino

e sonhava, a princesa, com a demanda
- e como esperas tu reinar um jardim
se não conheces as plantas?
se não lhes sonhas as flores
se não sonhas como se engalanarão à tua passagem
porque te entendem borboleta
te sentem a abelha que as fará reproduzirem-se
sementes que darão novas flores?
como entenderás teus reis
se não lhes conheceres os sonhos com as rainhas
se não souberes os filhos que sonharam
e os que enjeitaram?
como esperas entender porque as flores são colorias
tal como as borboletas ou as vestes  que usas?
não adornas tu, as janelas do teu castelo
quando sonhas em festa?
como queres reinar em natureza
se não sonhas amar,
amar e sonhar, sonhar um filho
como sonham todos os que queres sejam reis em teu reino?

sonhou quem nunca ousou perguntar,
a princesa sem lugar nos sonhos do príncipe.
como as princesas, de amor só ousam sonhar
que seu destino é um reino
conquistado à força de pesadelos
que dão corpo ao sonho de um reinado.

pelo sonho se adultera a vida
se falta a ousadia de o sonhar
e de o crescer

quarta-feira, 14 de maio de 2014

vertigens

no fundo
onde o horizonte se descobre
o sol
inclui-se entre duas montanhas
pousa nelas
entende-se até nós
sinto que me beijas assim

não me perguntes porque o sinto
não me perguntes porque o digo
são palavras que me saem
como pássaros que saltam do ninho
algumas fazem-me vertigens
como é possível senti-las assim?

não sei
mas sinto a vertigem do beijo
e sem palavras
os raios de sol estão lá
vejo-os
quando fecho os olhos

sobre poemas

engana-se quem vê no poema a palavra
a palavra é a limitação do poema

o poema é uma enfiada de afetos
unindo duas fantasias
o ápice
um ápice a cada instante
quando as visões se cruzam

névoas

pairam desertos dos sentidos
de quem já não sente
dos sentimentos sem sentido

pairam palavras-calhau
indiferenças
espalhadas na rua

pairam restaurações
horrores
que nos envergonharão

corpo e alma

nas veias circulam-me sonhos
batidos a peito.

as mãos tocam leves - digo,
sonhos - corpo pairando
na ternura de uma mão, tua.

instantes

por vezes escrevo fogo
ardor da alma aos dedos
fogueiam-me os pensamentos;
outras, escrevo gelo 
estalactite
aprumadamente perfurante;
há momentos que escrevo pedra
contundente 
firo as veredas a talho de golpes duros;
tem dias que escrevo sangue
a dor dorida
ora jorrando, ora correndo, paixão;
há horas que escrevo luz
relampejo nas trevas
ou sol no caminho;
de todas as vezes
por segundos escrevo-me
ápices da escrita que estoura
em mim, transcursos que me içam
e gero-me poema em folha de papel
quando não caibo no mundo
quando não me contenho em mim

segunda-feira, 12 de maio de 2014

sobre mar, sobre solidão

o mar acoitou-se
em nós
o tínhamos por grandioso
a solidão impregnou-se-lhe nas ondas
o desespero estronda-se na escarpa
fere-se nas frestas
que as rochas - magníficas -
oferecem
impávidas solidárias
que solidão é profunda
é neblina, encobre o mar
só o acoito de colo a esfuma

quinta-feira, 8 de maio de 2014

avessei-me

inversei-me
fiquei o avesso de mim mesmo
as entranhas retesaram-se
gélidas; asperaram-se
ressequidas
fiquei esta coisa hirta
esventrada, fora de mim
de humores ácidos
era a bílis

quarta-feira, 7 de maio de 2014

ama-me
meu olhar te procurará
na flor do monte
colina ao sol
inclinando a manhã
onde acordas
e esvoaçam teus olhos
logo estendo meu olhar
que tenham onde poisar
ama-me

a oriente

a oriente nascem as cores
delas se desprendem os aromas
doces, intensos fulgurantes
como as cores, divinas de sensualidade

a oriente montam-se arcos-íris
que se enleiam na terra
atam em fertilidade a chuva e o sol

a oriente, as almas respiram
o espírito é sempre solene
a oriente a cultura desabrocha da terra

chá de jasmim

era erma a madrugada, sem vislumbre
o chá era de jasmim e despertava, aromas
que houvera nas ruas, em tendas vendilhonas
perfiladas, ousadas de cores e adereços, e disponíveis
tanta simpatia...

este longo gole de chá de jasmim

- é bom para acalmar, só o aroma, então se o tomar...
vem do oriente...
um dito envolto na doçura de um sorriso
em voz meiga de mãe
e os olhos queriam-me bem

como não comprar?

sorrio-lhe deste ermo. continua pérola
sentada ou aninhada no fundo duma tenda vendilhona
olhando-me um chá de jasmim do oriente
para acalmar...
quando o vislumbre é ermo e a madrugada demora

terça-feira, 6 de maio de 2014

lugar de ser

porque sou água corrente
flutuavas em mim
minha folha de outono. coloriste-me
o leito, agradecida. a cor era tua
e ficamos nós
porção de rio, parte de árvore
vida corrente

o sol fitou-nos
até dobrar a colina

o firmamento nasceu regato
queriam as estrelas vogar
seriam folhas de outono

domingo, 4 de maio de 2014

entardecer

havia tudo
colinas, sol rasante
cantos de pássaros, sons de grilos
brisa fresca
e o entardecer
por eles chegara o prazer
de ali estar
ser um deles
sermos nós o entardecer

desconhecido

quando o corpo deixou de responder
relaxou
aceitou o facto
partiu! e só podia partir
sentia que ali já não pertencia
fora um momento acabado
esperava-o presente desconhecido
estava ali, sentia-lhe o bafo
também ele estranhamente desconhecido.
começou por atravessar a rua
era bom o outro lado
via ao longe aquele magote de gente
em torno do inerte
persistem
acreditam que persistir é uma qualidade
e era-o, mas fora-o, agora não parecia que fosse
neste desconhecido.

deixou o magote e procurou um sinal
desconhecido
viajou dias infinitos; dias sem fim;
dias que já não eram dias, quando o tempo não interessa
dias infinitamente dias
o desconhecido tem esta dimensão de infinitude
o desconhecido mostra-se concreto infinito
estado sem expectância e sem esperado
no desconhecido não há companhia
não há solidão
não há persistência; nem se desiste
acima de tudo não há consciência

no desconhecido os sentidos não fazem sentido
não se apreende pelos sentidos
ficaram pra trás naquele corpo que despojado num lado de uma rua
é infinito como o conhecimento
mas sem razão de ordem proporcional inversa
não há relações de proporção entre ambos
não há relações entre ambos
um é conhecimento
o outro é desconhecido
o erro sempre foi interpretar-le o desconhecido pelo que se conhece
erro metodológico crasso
por ele alimentam-se medos até aos terrores
do inesperado, da ausência, de tudo, até de expectativas

compreende-se o que fizeram os navegadores portugueses
entraram numa nau que fizeram
navegaram num rio e num bocado de mar que conheciam
de seguida ei-los no desconhecido e não voltaram para trás.
voltar era impossível
como agora que também não quero
move-nos para a frente algo desconhecido
o desconhecido move-nos para o desconhecido
mergulhamos nele, nadamos nele, submergimos nele
como peixes - que nadam - como aves - que voam
como minhocas - no interior da terra
mas não como homens animais de superfície terrestre
superficiais, desabituados a mergulhar logo após o nascimento
por ele nos condenamos ao conhecimento superficial
o mais multidimensional possível
mas tão enganador... será?

meu vizinho todos os dias comprava os jornal e nele lia algo acidentalmente
porém, como se fosse um culto lia diariamente os números de vários sorteios
embora nunca jogasse e condenasse o gesto
"uma forma de alimentar bandidos e preguiçosos"
a razão pela qual via ele os números faz parte do desconhecido
é o desconhecido
nunca a revelou, nem ele a sabia
encolhidos os ombros e murmurava que um homem tem de ter algum vício
fazia isto desde novo
e era algo verdadeiramente do domínio do desconhecido

claro que podemos usar o nosso conhecimento e explicar este desconhecido
podemos até encontrar um apetitoso trauma
que verdadeiramente nunca saberemos se existe
nem se a propriedade do trauma será mais dele ou nossa
podemos chamar-lhe maluco; uma das nossas formas de lidar com o desconhecido
é-nos insuportável o desconhecido
não combina com a natureza dos nossos sentidos
que existem para nos tornar conhecida informação
conhecimento que nos torne confortáveis

conheço pessoas que adoram surpresas
conheço quem as deteste
mas toda a gente tem medo de morrer
pânico de morrer, porquê?
suponho eu que seja pelo desconhecido

e eu montado numa semente dente-de-leão, percorro
disserto sobre desconhecido soer da morte
a dente-de-leão ignora-me
ela que partiu um dia e aceitou ser levada pelos caprichos vários
do tempo, do vento, dos acontecimentos ou do que quer que fosse
agora ignora-me
lembra-me que estou no reino do desconhecido
tudo o que conhecia era estar em meio de desconhecidos
estar no desconhecido é-me desconhecido
profundamente desconhecido.

tomei o meu lugar
relaxei o corpo e deixei-me ir
até ao outro lado da rua onde se iniciava o desconhecido.

o desconhecido é próprio de quem não ousa
também na morte é preciso ser ousado
é preciso ousar para que se morrer com dignidade
porque não há outra forma de enfrentar o desconhecido
ou de o afrontar
é possível o encolhimento...
a posição fetal e esperar que tudo passe
aprendemo-lo no ventre de nossa mãe
porém, agora não estamos envoltos em liquido amniótico
e nascer é mais desencolher
é esticar, encher o peito de ar, respirar e entrar no desconhecido

ponto de inserção

tinha uma história que não sabia como começar.
há histórias assim, não lineares, de início indefinível:
intrometeu-se um pensamento e aventou um circulares tão convicto...
e vi-me a orbitar a história para entrar nela
gostei da metáfora... um ponto se inserção
entrei!
na felicidade de quem acabava de ler no diário os números do sorteio do totoloto
procurava-os sempre, chegava a decorar a chave sorteada
nunca jogara
nunca jogaria
satisfazia-se pensando no dinheiro que poupara
satisfazia-se criticando "quem não sabia que fazer ao dinheiro"
o seu zénite: glorificava o seu estilo de vida
poupar
não arriscar
construir a idiotice de outrem para se autovalorizar
menosprezava os ganhadores: só recebiam a dízima do que lá meteram
a tragédia deste homem...

a tragédia deste homem era não rir, nunca rira.
um sorriso era o máximo que conseguia;
aprendera com uma foto antiga,
altiva, a personagem, enchia a foto,
transvazava da moldura e espalhava-se pela sala
tão distante, o avô, eterno chefe de família, morrera há anos
e sempre fora venerado, até na ausência.
um dia ouviu, ou pareceu-lhe ouvir, um "é todo avô!"
assumiu-se o exemplo, assumiu encher a sala com a sua presença
iniciou pelo sorriso que copiou por horas ao espelho
usava-o indiferentemente para rir e para sorrir
claro que distinguia entre rir e sorrir
a indiferença que sentia estava nos motivos

num outro ponto da história saboreávamos
(eu e ele) uma nata, apoiados ao balcão e olhar pregado na delícia
entre duas bocadas grunhi sobre a qualidade do pastel
"já comi melhor", vociferou, para que staff ouvisse
e só comia aquele bolo por ser o melhor que tinham.
terminado o repasto resvalou-me uma confissão entre-dentes
"não podemos gabá-los muito senão estragam-se; já vi muitos assim"

estranho modo de zelar pela pastelaria
paternal; também aqui se queria reconhecido
talvez um dia
haja quem veja por cima do azedume.
há sempre alguém que vê além com o olhar que a alma lhe deu.

maturez

indecifrável este ato
soa a auto-flagelação
matraquilhar no teclado
rodar a caneta nos dedos
forçar a saída do que ainda não está pronto
dores de parto antecipadas
um longo parto
(sente-se)
cheio de contrações
(mentais)
ilustram o indescritível
o que ainda não foi decifrado.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

insubstantivo

meus poemas de amor já não amam
meus poemas de amor não ardem
não poemam
meus poemas de amor são desertos
as flores são pintadas
e secam antes de crescerem
meus poemas de amor
rimam mas não rumam
têm métrica mas não pulsam
meus poemas de amor já não o são
nem poemas, nem de amor

momento

não se esgota o perfume da flor
seio em curva, emanante
não se apaga o raio de sol
que ilumina a fonte

onde a água corre pura
apaziguo a sede, minha
colho o brilho de teus olhos
que se iluminam de dentro
búzios inspirados de mar

o que se ouve
um troar longínquo
de calmaria

quarta-feira, 30 de abril de 2014

terça-feira, 29 de abril de 2014

bucólico

silêncio
as memórias não chocalham

as ovelhas, o pastor e o cão
salpicam a paisagem

o falcão rabisca no céu
traços em desenho livre

as cigarras cuidam das asas
afinam-nas

as formigas fardadas de negro cardado
seguem a montagem da linha

um pensamento a La Fontaine
em silêncio

a laboriosa melodia da cigarra
a vida zurrapa de formiga

há sons no silêncio
se as memórias não chocalham

leve e longo

tive um sonho
nele eu era capaz de te merecer
e tu, leve, cirandavas em pontas
nas dos pés, pulavas
nas dos dedos, tocavas o mundo
também leve e tão livre;

nele o teu sorriso era longo
enleante de abraço
da despedida ao reencontro
eterno desejado apaziguador
como o sonho que tive

nele me sentia capaz
de te ganhar
e tu gostavas
lia-se no teu olhar
do sonho que tive

segunda-feira, 28 de abril de 2014

senhores
libertem os olhos da imensidão
vejam pequeno e sem grandezas
que as utopias constroem-se construindo
e crescem num exercício coletivo

beira-mar

na praia
a areia aconchega o mar
e a onda roja no areal em que se deitou
a espuma branca é oferenda
a rocha a pureza da forma
talhada ao tempo que a vaga levou
o ar é um manto cor de neblina
que se agita em vento e repousa em brisa
e a gaivota redige e vadia o poema
que descreve no voo

poema de transição

um poema despontou, escrito no umbral
no inclinado do plano, entre um e outro degrau
na falha do corrimão, na vertigem do chão
um poema que era polen sem ter sido flor
um poema que sendo pó nunca será poeira
sabia-se de passagem entre uma e outra mão
sabia-se fugaz entre a paisagem e o olhar
entre o estilete e a dor
entre a emoção e a lágrima
um poema sem entretantos

só as gentes choram lágrimas na emoção
porque só elas encontram sagrado no sal

leve e suave

o que de mim é teu
voga, paira, serpeia
drapeia por ti
envolta tua

sábado, 26 de abril de 2014

gandaio

perguntas-me a morada e jamais saberei onde é
aconteceu no dia em que o sol chamou meus olhos
e eles foram, abertos, procurando
voos de vento de aves de nuvens das folhas
do mar

e ficaram gaivotas
gandaios até ao voar

sexta-feira, 25 de abril de 2014

agora que nos amamos, sem tempo
agora que sabemos que o tempo nos fez seus
agora  que o libertamos, já não é o nosso
agora que não contamos o tempo
é o tempo que nos quer, como referência
quer ser o tempo da nossa existência

segunda-feira, 21 de abril de 2014

sobre pastores (forma 2)

engraçado, este ofício de transcrever pensamentos:
que o sentido do pensado se tresmalha no escrito
e a palavra é pequena para tão grande significado.
é na leitura - no silêncio - e pelo pastoreio do pensamento
que arrebanha e inflama as palavras,
que o escrito é investido do rumo da forma
do pensado.

eis a razão porque a poesia, e a arte
em geral, é para ser sonhada enquanto se saboreia.

PS: e não há dinheiro que pague isto

sobre pastores (forma 1)

engraçado, este ofício de transcrever pensamentos: que o sentido do pensado se tresmalha no escrito e a palavra é pequena para tão grande significado.
é na leitura - no silêncio - e pelo pastoreio do pensamento que arrebanha e inflama as palavras, que o escrito é investido do rumo da forma do pensado.

eis a razão porque a poesia, e a arte em geral, é para ser sonhada enquanto se saboreia.

PS: e não há dinheiro que pague isto.

domingo, 20 de abril de 2014

leveza de ser

serei - se puder - as promessas que fiz a mim mesmo
que sempre soube - ainda antes de ocorrerem - serem desejos e ambições
utopias pessoais que alimentam de dentro para fora
como o sol - que aquece - irradia o que lhe vai por dentro
que a possibilidade - imaterial - é fonte de vida
nós que damos valor ao inconcreto

porque o homem é um sonho que se faz de sonhos
porque o homem é um sonho de deus;
o deus que o homem sonhou.

sábado, 19 de abril de 2014

olhares da utopia

num país bom
as pessoas sorriem pelo olhar
quando se cruzam
os olhares erguidos acontecem
quando todos se elevam
os olhares caídos sãos atados
a outros mais elevados
e a força de povo fá-los subidos
os olhares envergonhados
são puxados e de acanhados
passam a banais olhares incontidos
neste país de olhares
contam todos os sorrisos
a economia sem títulos
serve a felicidade dos olhares sorrisos
é essa a sua mais-valia

as avenidas

as avenidas fechar-se-ão para que o povo passe aclamado
as avenidas tingir-se-ão de vontade popular
as avenidas serão longas e majestosas como o povo que servem
as avenidas serão engalanadas com cobertas nas janelas das casas
nas casas das avenidas não mora gente que goste de ser do povo
o povo que passa nas avenidas anima os habitantes das janelas engalanadas
que belas vistas, que festa, como se divertem
as avenidas são um feliz espaço de convivência social

invernia

a morte vem
de onde não se conhece o nome
chega do indeterminado
ou do desconhecido
em silêncio enigmático
abeira-se
na lonjura da noite
na frescura do frio
no isolamento da solidão
no só do abandono
até ao medo hesitante do adeus definitivo

a morte é gregária
desperta fantasmas adormecidos
acorda memórias retorcidas em causas incompletas
espevita razões azedadas em ódios antigos
convive de mão dada com a rigidez
aproveita-se dos torpores do corpo
para mirrar a alma
que lhe cairá no colo
com a naturalidade de folha de outono
na geada fria de inverno

que a morte é glacial e frio o ato de morrer

sexta-feira, 18 de abril de 2014

quinta-feira, 17 de abril de 2014

chegadas

i
cheguei
num poema, o desentendo
desdobra-se, o poema
no silêncio do cachão
onde a leitura jorra

ii
cheguei
carreado num pensamento
que não alcanço, perdi-me
nele, que me encontrou
e me guiou até aqui

iii
cheguei
donde nunca regressara
donde o vento nunca sopra
donde o sol não descobre
donde tudo se envergonha

iv
cheguei
do outro lado da montanha
onde os desertos correm
em colinas que desaguam
em dunas espraiadas à beira-mar

v
cheguei
onde a luz se apagou
onde a casa morreu
onde o lar desistiu de ser
até ao verbo

vi
cheguei
do inferno do limbo
da dor moinha
da chuva miudinha
da partida do dia

vii
cheguei
do mais longe que pude
do outro lado da rua
onde avenida se encerra
para que passe o mar

viii
cheguei
de um linha sem fim
enovelado
de horizonte perdido
fio de estendal esquecido

ix
cheguei
donde não havia poesia
donde a vida é tão fria
donde o fogo não arde
nem conhece a paixão

x
cheguei
de onde o mar coalhou
de onde as ilhas se ancoram
desertas, humanamente
como os desertos são

xi
cheguei
onde nunca fui nem irei
onde ainda não existe
sabendo que quando existir
em vez de chegar, partirei

criação

sempre
sempre esta força escura
sempre este alcançar a claridade
a linha negra tinge a brancura
um rio em planície
destinado no turbilhão
do cachão se fez silêncio
na planura ecoa a cigarra
esse poeta de força escura
que aclara rios
e desenha cantos com as asas

quarta-feira, 16 de abril de 2014

geracional

vejo meus pais, adultos
o colo - disponível - que não uso;
primeiro não quis, agora não posso
nem por compaixão.

vejo-me pai, também de colo disponível
que meus filhos não usam;
não querem ou não podem.

o mesmo momento,
sinto ter ficado aquém de mim,

criança arrependida do pecado do desapego
da desobediência, da insensatez.

momento

Neste momento adocei o tempo
onde me instalei. Convivemos como 2 adultos,
mais ele, o tempo, que sempre vi adulto, culto,
de sabedoria contagiante.
Eu, sei-me adulto,
mas tudo me dói e me sorri como em criança;
eu não sei se cresci.

Apurei memórias - retratos de momentos - intimidades
entre mim e o tempo. Algumas delas queria-as entulhadas.

O recomeço não é a perda de memórias
tão somente recolocar os valores das recordações.

O começo é anterior à memória
e só há um! Só se existe uma vez.

Meu tempo, sinto-o
como um vento: sou levado
escorrego nele como em lençol esvoaçante;
sou ondulante, interiormente eufórico, rejubilante
pelo fresco no rosto que tanto amo;
pela vertigem que necessito;
pelo rebolar de corpo espraiado que me inspira;
pelo pairar no vazio que me extasia;
e pela ausência de chão, essencial à fantasia.

Intimidade com o tempo é euforia
o momento que esta escrita contém

terça-feira, 15 de abril de 2014

ócio

o tempo
quer ser divagado
vogado
de vaga em vaga
vagamente
que o vagar
gerou-o o tempo
entre vogais
e nomeou-o
ócio

seio

na vida e na morte
há um seio
o centro de tudo
que nos envolve
que nos alimenta
que nos ama
em torno do qual vivemos
enquanto nos rodeia.

também há o profundo
lá no fundo do seio
de onde nascemos
ou renascemos
sempre que chegados da profundeza
onde se gera o sentido da vida

sobre poetas

a amizade entre poetas é uma admiração mútua
o reconhecimento modesto
tímido, talvez
que se possa ter tocado a poesia
que o outro cuida no peito

segunda-feira, 14 de abril de 2014

momento

há um  tempo que chega sentado
fosse gente. dir-se-ia disponível
dedicado ao momento

a intimidade entre nós e o tempo

domingo, 13 de abril de 2014

não sei onde me guardas, sinto que me tens contigo

estrangeiro

sou estrangeiro
disse-mo esta angústia que me acompanha
este alerta de não ter sido germinado nesta terra
esta meu olhar que destoa na paisagem
sempre presente, esta angústia proclamou-me estrangeiro.

depois, há o que não entendo
o que a natureza não me diz e os sinais que procuro e não encontro
e a saudade que trouxe da minha terra
aqui cresce e floresce sozinha comigo
é a minha companhia de estrangeiro.

gosto de tudo o que vejo
como me falta o que deixei
no lugar que me gerou e onde me pari
uma fronteira em encosta escorrente para o mar
onde me banhava até à alma

meu corpo acha-me estrangeiro
a pele que o cobre não é a do sangue que o corre
o andar que o leva tem muito da alma que se arrasta
a dor cerrou os dentes e chamou a raiva da vida
e a angústia, contínua e maldita
declarou-me estrangeiro

estrangeiro em meu próprio corpo
estrangeiro em minha própria vida

e os pássaros cantam noutra língua
sou um estrangeiro

descobrimento

corre, corre para o mar
que o vento te leve
que leve chegues de velas desfraldadas
vogando nas ondas
saberás que a vida marulha

encontrarás aí a fonte límpida
mãe de todas as águas (doces)
a mais refrescante das nascentes

saberás porque o sal consagra
e porque o mar se salgou

saberás que a nascente nunca foi bica
foi brontante da terra
foi queda do céu
como tudo o que nasce
até o mar, que agora chamas teu.

pontos de vista

quando procurei a superfície da história, embrenhei-me
nela, cheguei-lhe ao centro
bem no interior observo a raiz dos acontecimentos
agora vejo a partir dos centros

onde a vida te é doce de vento
te sopra o cabelo leve sobre a face: é carícia
onde a vida se entoa pelos pássaros
soando confortos de ninho como recreios de infância
onde a vida se eleva em voos de borboleta
há poisos de abelhas em flores
que se oferecem das pétalas à corolas
que desta dádiva à vida haverá vida maior que a vida própria
a doçura da vida respira-se numa sesta de jardim

ápice

havia uma certa doçura de chuva em teu olhar
nele se lia tudo o que uma flor encerra
havia um perfume de ar, um sabor a vento
fresco de primavera, morno de outono
senti um colorido de verão em aconchego de inverno
dos pés às mãos nos tocamos
como envoltas leves e esvoaçantes
que para isso nascemos

quinta-feira, 10 de abril de 2014

peneira do tempo

o tempo
poderia peneirar-se

para um lado, para o outro
movimento de corpo
sincopado de mão
coreografado vai e vem

uns grãos passam leves poeirando
uns grãos que ficam rolando na rede
as memórias dos tempos peneirados

quarta-feira, 9 de abril de 2014

mãos de breu

tens mãos de breu
que te deu?
que nelas guardaste?
que nelas perdeste?
porque as manténs fechadas
cerradas e encerradas
pisadas escuras
de breu?

agora
que as queres abrir
e deixar partir
o acumulado breu
que nelas encerraste
ele não sai
ele não se vai
ele diz que é teu

sobre relógios

os ritmos fascinam-me
sempre me fascinaram
e a falta deles abana-me deliciadamente
normalmente gosto de surpresas
e do que delas resta
ainda que sejam só pensamentos
que arrumo ritmados
trauteando em assobio
uma música silenciosa

minha avó tinha um relógio de pêndulo
bem no meio da sala, enchia-a
enchia-a de tic-tac volumosos
imponentes e calmos
nunca contei os movimentos do pêndulo
mas conhecia-lhe os sons do movimento
sabia por onde andava
e eu quase ia com ele
dentro da caixa de madeira onde vivia
e pernoitava
na casa da minha avó ele era o maestro
de noite e de dia

na cozinha da minha mãe
filha da minha avó
havia um despertador de corda
marcava as horas num frenético tic-tac
à noite acompanhava-nos
levavamo-lo para o quarto e adormecíamos
embalados naquele ritmo frenético
verborreia
lembro-me que corria
e eu pronunciava-lhe os movimentos dos ponteiros
para os sincronizar com o som.
na cozinha da minha mãe
ele também era maestro mas não era rei
faltava-lhe a serenidade
levei-o comigo quando saí de casa para a faculdade
e calei-o à míngua de corda
cansava-me

e encontrei os silêncios
aquele momento entre um tac e um tic
tão saboroso
como o meu fascínio por ampulhetas.

eco da história

vem comigo
vem cavar o túnel desta história
donde ecoará a voz
a nossa voz que a contará
ecoada
de dentro do túnel da própria história
que cavamos
compassadamente
batendo, batendo
no ritmo que a história criou

terça-feira, 8 de abril de 2014

acostagem

meu ser barco
navega ao encontro do porto
emboca a enseada
entre braços de terra
abraço namorado
no seio de mar

ninho

calculo
teu voo pássaro, solto
aqueço
as mãos na chama
ardente por ti
te seduzo
se nas mãos me quiseres poisar
se pelas mãos afagar
teu corpo de voo
embalo de adormecer
canto dormindo
em meu sono

teimosia em olhar

meu olhar teima em mergulhar
meu olhar teima em voar
meu olhar teima em teimar
meu olhar teima em ver
meu olhar teima em procurar
meu olhar teima persistente
meu olhar teima em desfocar
meu olhar teima inquieto
meu olhar teima em viajar
meu olhar teima em perder-se
meu olhar teima em correr
meu olhar teima em ser olhar

domingo, 6 de abril de 2014

entre o íntimo e a intimidade

o íntimo é profundo
como a intimidade é ampla
sempre
que no íntimo se entra
que a intimidade é envolta

sexta-feira, 4 de abril de 2014

poesia

a poesia é filha
pare-se
ama-se como um filho
por mais animal que seja
ama-se e perdoa-se
sempre se perdoa
pela libertinagem a que se entrega
é a sua natureza
doce, meiga
amarga e ácida
agrada
e não existe para agradar
pura, profunda
e filha da puta

sobre o tempo

o lugar era vazio
tudo chegava em vagas
vagas de luz
vagas de ruídos de coisas
vagas de barulhos de gentes
vagas de formas vagas
vagas de mar
compassadas de vai-vem
metrónomo
só o metrónomo enchia o espaço
em batidas, ruídos de casa de avó
o eterno relógio de pêndulo

há um campanário sossegado
pelo compasso das horas
onde a gaivota escolheu poisar
calmamente perscruta em volta
alheia ao tic-tac
que as gaivotas seguem o ritmo do coração

o vento namora as dunas
enrola-se nelas
a areia eleva-se e solta-se esvoaçante
é a folia

adiante a criança experimenta e aprende
agarra a areia que lhe foge pelos dedos
de mão-cheia em mão-cheia compenetra-se
ensaia variáveis que desconhece
mais força, posição da mão
mão parada ou sacudindo
a areia sempre foge entre os dedos
sente o vento, olha o mar, concentra-se na areia da mão
sempre pouca
ignorando tudo o mais que os dedos não agarram
e ensaia e torna a ensaiar
ao ritmo da areia que se esgota das mãos
a primeira ampulheta

discreta ampulheta de vagas de areia
olha o tempo em  movimentos amplos de silêncio

uma vaga de areia
uma vaga de silêncios
uma vaga de memórias de fantasias
quando se cresce para adulto a nossa fantasia fica memória
a ampulheta sabe-o, o metrónomo berra-o
aprendeu-o com o primo relógio
e o relojoeiro, como a criança
desconhecia o invento que tinha em mãos
desconhecia que a vida foge por entre os dedos
como areia, sempre que se aperta na mão
como o tempo, sempre que se lhe conta as batidas
ou as voltas da ampulheta, onde se inicia e termina uma história
que a vida se conta em histórias
que também chegam em vagas

e tudo continua vago
há um minúsculo pedacinho de poeira
ou outra matéria reluzente que atravessa um raio de sol
chamou-me o olhar, que levou a minha atenção
e meu pensamento juntou-se-lhes ao momento de dança
daquela partícula
não lhe sei a forma, a atenção, que era minha , quer-lhe o movimento
aprecia movimentos - danças - emenda-me o pensamento
a tender para a fantasia.
lembro-me criança a sacudir a roupa da cama
e deitado apreciava as partículas dançando entre si
reluzentes, coloridas
olhava-as demoradamente e vi-as num recreio
brincavam inquietas alegres satisfeitas
eu agitava-as com meus braços, cruzando o raio de luz
o movimento multiplicava-se; ficavam felizes
quando eu brincava com elas, e eu também
entendiamo-nos naquele agitar
ora ao ritmo do meu braço
ora ao do rodopiar de uma partícula
ali não havia tempo que se contasse
ali o tempo não se contava
e agora também não
que esta partícula e a minha atenção
desligaram o metrónomo e encheram o momento
de luz, formas e movimento

o tempo é a abóbada dentro da qual nos abrigamos
para ficar perto do altar dos acontecimentos
o chão tem a forma de lago
a cada batida, as ondas do lago alargam-se
em círculos que se estendem para o exterior
a cada batida somos empurrados para a margem do lago
para fora e não sabemos viver sem abóbada
mesmo que esteja vazia
mesmo quando estamos solitariamente sós
ao som do tic-tac, contando vagas, balançando nas recordações
temendo a margem e o lado de lá do tempo e do acontecimento

ao reclamarmos liberdade ao tempo
procuramos que desligue os relógios, pare as ampulhetas
acalme as vagas ao nosso fluir
na verdade queremos aprisionar o tempo
nós que temos uma vaga ideia do que é liberdade.

chega-me um piano soando
vem de longe, trouxe-o uma vaga
chegou e encheu o espaço e domou o tempo
o do metrónomo e sossegou os relógios
embalou os corações e fê-los pulsar
o tempo era outro
(ou não seria tempo)
que interessa o tempo quando a vida é cheia
e um piano cabe na alma
e não foge como punhado de areia
como a vida fechada na mão
e não se escoa por mais que o apertem
ou que lhe definam o andamento
vivace, allegro, andante, adagio
nas teclas recebe a alma que lhe entoa na caixa
e sintoniza peitos
de quem se entrega na música
de quem sente o tempo
sem o dividir, sem o perder, sem o contar

que o tempo é uma leitura humana da natureza
aprendida numa praia à beira-mar
ao ritmo das vagas
contado em punhados de areia
éramos ainda crianças e as ampulhetas serviam para brincar
e cobiçávamos o relógio de bolso do avô.

a carta

a carta era tua
chegou-me no vento
que a trouxe esvoaçada
como teus cabelos
e como eles pousou em mim
li-a em teus olhos
iniciava com um dedicado "meu amor"
e terminava com um farto "amo-te"
o resto nem sei
se o li se o imaginei
era eu entre dois versos
entremeio de um poema
glosado a dois como o amor deve ser

a carta sei-a em mim
o papel foi com o vento
leio-a nos teus olhos
a caligrafia do primeiro verso
a redonda imponência do último
e rodam em mim outros versos
de uma poesia que nunca escrevo
para que tudo lhe sinta, tudo
entre "meu amor" e "amo-te"
a carta que me escreveste
a carta que me pousou e guardo em mim

quinta-feira, 3 de abril de 2014

solidão

meus olhos viviam ensombrados
que o sol os feria
com eles se ensombrou meu rosto
por simpatia com os olhos
afinal eram parceiros de uma mesma comunidade.
meu sorriso pediu à mão que o encobrisse
e a mão assim fez
interpôs-se
logo de seguida a fala
a minha fala aproveitou
e pediu à mão o mesmo que o sorriso
minha mão anuiu
e com o tempo tornou-se indispensável
ao meu rosto
ao meu sorriso
às minhas palavras
que agora eram imperceptíveis
e eu, ensombrado
sempre atrás de qualquer coisa
como uma mão
achava-me incompreendido
quando eu é que não compreendida
que era imperceptível.
achei o mundo feio
fugi
primeiro das pessoas
depois do que me ligava a elas
e ocupei os espaços vazios
com ódios, raivas e outras daninhas
que semearam raízes em todas as frestas.
eu estalava, quebrava
e já não era imperceptível
era irreconhecível
até para mim
foi então que fiquei só
sem mim
abandonei-me à solidão
das daninhas
que nem eu podia estar comigo.

dias do absurdo

mandam 3 gerações:
a dos filhos dos amantes da velha senhora;
outra, mais nova, a dos que se viram bons filhos nas boas notas, que estudaram todos os manuais, os recitam de trás para a frente e vice-versa, sem que alguma vez saibam o que leram, de tal maneira são frouxos de afetos;
e uma geração, tipo transversal às 2 anteriores, de sequiosos de poder, para quem amor só existe na forma de amor-próprio.
concluindo, temos uma síntese cristalina em forma de poder pelo absurdo, que faz o melhor que pode para agradar à senhora que desconhece, fá-lo de forma errante - um misto de timidez e arrogância -, adotou um conjunto de "ismos" e outros anglicismos que nega e odeia o povo que tresanda a insolência e a desconforto.
e este mesmo povo tem tido a lucidez para saber o que não quer.

páscoa

entre o céu e o inferno
há um lugar que a chuva lava
a imoralidade do limbo
onde dormem promessas e vinganças
geradas em iras e paixões.
só então (depois das chuvas) ficamos disponíveis
para o sol e para os amigos
para as emoções
aquele lado exagerado dos afetos
que nos empurra o sangue nas veias.

minhas mãos

apetecem a minhas mãos
lugares
onde pousam meus olhos

desejam minhas mãos
labaredas
de incandescer teu corpo

querem minhas mãos
embrenhar-se
pelos dedos em tua pele

ardem minhas mãos
por agarrar-te
até à fusão dos corpos

quererão minhas mãos
contornar-te
com a suavidade de um raio de sol

quarta-feira, 2 de abril de 2014

magnífico

no alto da montanha
onde o universo se faz nosso
o céu roça a terra com um raio de sol
ao que ela lhe arqueia o lombo
um acto de entrega
por natureza majestoso

quanto a nós 
solenizamos
aquela consagração
porque somos divinos
humanos e poetas

terça-feira, 1 de abril de 2014

dunas

escrever
é um lugar
nele se desenham
pensamentos
linhas de areia
bailando erosões...
aos poucos
lemo-nos nelas