quarta-feira, 24 de setembro de 2014

da metamorfose

morro até ao fim do mar
a morte maior que sinto
a dor maior que tenho
a força maior me rebenta
de dentro para fora
a onda estoura

sábado, 20 de setembro de 2014

encontrara a paz 
surpreendeu-o a ausência de tom no branco
compreendeu porque a rendição e a paz têm a mesma cor

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

quando o poema não é mais
que a sombra das palavras
apanhadas ao dizer
o flamejo que em teus olhos brinca

leio o branco
entre as linhas ponho a cor
onde as meninas crescem radiosas
e se franzem as pálpebras em sorriso

há felicidades que só os olhos pequeninos descrevem bem

terça-feira, 16 de setembro de 2014

ditador

as linhas do rosto inoxidáveis
cinzas frias e duras de aço 
o gume no olhar
fatiava tudo em volta
com a mesma frieza de que se fizera 
têmpera trabalhada dia a dia
todos os olhos se desviavam à sua passagem
chegavam-lhe ares de poder
que não o era
que o poder não existe no estado isolado

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

da vela

sei o equilíbrio frágil de chama
e embebo-me na auréola da cera iluminada

indago o fervor escorrente em inverso da ruga
e passeio na curvatura da luz e sigo
o bulício do reflexo da parede ao tecto

colho o cintilo espelhado pela íris

sou rasto de corpo tingindo de sombra a mesa
desejo desconter-me
e espraiar-me em corpo derramado

colorido

o azul é branco ou sem cor

o sopro perfeito abarca
o toque que faz a pétala

o corpo rumoreja
o idioma que a ave voa
a asa que baila e acolhe

a palavra é silêncio cúmplice
o aroma tem cio em tom de olhar

a cor sem nome é quente e será berrante

terça-feira, 9 de setembro de 2014

os olhos da velhice são turvos
de coisas vagas, escondem-se
não se lhes veja o embaraço
acontece despontarem
encantadores, límpidos
ao toque em sopro dum olhar

da cor

onde o oceano dorme
desperta o seio
em ti, aguardando
da borboleta colorida o pólen

que a essência embeba
na borboleta a cor
no seio o ser
a vida no ato

o sono do mar marulha bonito
lá escolhi pintar esta ideia

domingo, 7 de setembro de 2014

o curioso da amizade é ser um processo
iniciado algures, porém, inacabado
pelo qual nos revelamos reconhecidos
por termos sido os escolhidos

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

rancor

do teu peito já abalaram os pardais
também os chilreios e os pulos da passarada.

nele pairam outras aves
o negrume grasnante  dos corvos
e o mergulho do falcão para a bicada fatal.

do peito

peitos fazem-se de pulos de ave 
de sopros meninos em bolas de sabão 
de voos de borboletas
e a cor é a das flores

o sol é aquela luz emanante do peito

desesperança

a manhã não brota
não aparece
não se ilumina
será tarde e nem o relógio a ousa anunciar 
será um dia que só tem noite e depois a cinza do nevoeiro
será um dia em que meus olhos se embaciam e descaem até ao chão 
gostaria que quisessem rebolar-se na terra por um prazer menino de se sujarem 
antes, procuram as pedras para se abrigarem do desconhecido que tanto temem
do sol já nem se lembram do nome
e quando o ouvem a palavra é o vazio 
... e as manhãs não vêm

gosto quando soltas os lábios no beijo
e da forma como se engalfinham nos meus
então somos o que sempre fomos
essência

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

De manhã

Eis que sopra a manhã
Sem vento ainda 
Arrivam as memórias 
Uma a uma ou em bando 
Pousam como pássaros na linha
Que o horizonte ondula
As nuvens brincam nela às escondidas
O sol espevita-as de fora
Elas resplandecem de dentro como os pensamentos
Tem sabor a recreio o rumor da manhã

Onde me aguardas de olhos fitos
Sei-o e trago um sorriso para ti
Que embrulhei num toque
Com ternura

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

depois

abraço longo,
até ao esquecimento
um corpo repousa nas curvas sem fim
que o outro oferece — o corpo — linhas
de regaço, de colo em anca e seio e ventre
de carícia, mãos leves de dedos e pés
em pernas enlaçadas,
curso do olhar fixo e calmo
até ao acalento

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

de manhã

a manhã
o despertar foi o beijo que o coroou
os olhos que foram buscar-te ao adormecer,
ainda antes de se abrirem,
retornaram e tu estavas onde sempre estiveste
aguardando o sorriso que me levarias.
- que o mar precisa de peixes
que os jardins têm flores
que meus dias querem sorrisos, beijaste.

sábado, 23 de agosto de 2014

minha imagem é de um vulto numa ilha
meu amigo, o vento
dá-me colo ao pensamento
enriquece-o de mimos e folias
no regresso traz histórias, novas
de lá, onde a esperança é um reino
eu, que temo o delírio, abro os olhos
e toco o meu dia
e descortino-me, ao longe
um vulto numa ilha

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

puro movimento

onde as folhas rodopiam
há leveza, dança
pureza do movimento
passar de nuvem
vogar em barco
voo em ave
um sorriso
um pensamento
ritmo de poema
métrica do momento

dos jardins, a perenidade

o jardim a que chamo meu, porque o sinto, sei que é de quem o cuidar, ainda que sem trabalho laborioso; basta um simples olhar de entrega ao momento, e guarda-se em nós um pouco daquele jardim e será nosso, e nós dele, para sempre, que amar um jardim é assim...

e o jardim a que chamo meu é-o de cumplicidades, que não encerra, que não brota, que não expande: estão lá, como as flores, as árvores e as pedras que são visitadas pelos pássaros, pelas abelhas, pelas borboletas e pelos ventos, chegam e logo partem: poisam rodopiam e vão, chegam rodopiam e partem, dão movimento — cumplicidade — e tornam-se cúmplices deste acontecimento denominado jardim.

hoje os pássaros chegaram mais: mais próximos, mais pássaros, mais belos, mais lindos e, como ao jardim, senti-os mais meus. e eram-no, ignorando (ou talvez não). acontece sermos de alguém sem o sabermos, pelo incidente de ali passarmos, captarmos a atenção, um olhar e ficarmos alojados na memória — personagem de uma história de um momento —; é por esta necessidade de animação dos momentos que somos tão gregários, instintivamente(?) gregários, e nos pertencemos mutuamente sem que disso sejamos conscientes, sendo-o.

hoje, em meu jardim, meus pássaros chegaram mais belos, mais lindos e mais pássaros e mais meus, e pelos voos deles elevei meus olhos, primeiro mais alto, depois mais além e, finalmente, no horizonte, em linha. ao longe, uma casa, outra e outra, donde partiam os pássaros que chegavam, para onde iam os pássaros que abalavam. casas como a minha, talvez ajardinadas talvez sem jardim. os pássaros iam, pousavam, vinham, rodopiavam — no ar, no chão — como o vento, eram a cumplicidade entre jardins, que existem para aprendermos a estar com as flores, com os insectos, com os pássaros, com o sol e o vento e com todos aqueles cuidam e guardem um pouco do que chamamos nosso, ou de nós que somos gregários, por instinto.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

vocação de deus

ao escreverem-se, as ondas
ao correrem, as nuvens
descobrem-se, os sóis
de azuis que no céu e mar existem
celeste de prata marinho

rasteiam, as gaivotas
tecidas a branco e castanho
tracejando o céu entre a terra e o mar

sabem-no, as gaivotas, quanto as apreciamos
sentem-se deuses nessas alturas
e nem se importam com o facto

deuses são mesmo assim
ligam e harmonizam por vocação;
a mesma que os criou

domingo, 17 de agosto de 2014

descrevessem os nomes as existências
talvez eu viesse a entender-me um dia
antónio fazedor do ninho

e se tudo mais morrer
e se eu morrer
serei ninho

(versão 2)

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

amor e amar

os pássaros, como os frutos, criam-se nas árvores — que sempre foram ninhos,
as árvores — e amadurecem.
ganham cor — os pássaros —, fazem-se coloridos e partem à descoberta.
do bico — dos pássaros — pende-lhes um simples ramo de árvore ou
um canto de ave ou,
ainda, a banalidade inteira de um roçar de bicos.
já os frutos, sem bicos nem asas, amadurecem belos e oferecem-se
aos pássaros, entregam-se às gentes e outros animais.
árvore é lar, cria e alimenta de si mesma quem quer que passe por ela.
como o amor — de mãe —, que tem árvore algures na sua complexão,

e que estas — as árvores — entendem tão bem...
expõem seus troncos à paixão dos jovens amantes que neles se declaram;
a forma é de um coração desenhado a gume de canivete.
elas — as árvores — sabem que é um ímpeto de pássaro apaixonado
e correspondem com um gesto de amor — de árvore —,
pulsando um coração que sendo o seu, nele se grava o nome dos enamorados
inconscientemente unidos por um mui discreto ato de amor,
que apesar de  visível, para o ver é preciso procurar.
eis porque árvores, frutos, pássaros e pessoas são preciosos
para que se entenda a complexidade do amor e de amar.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

o horizonte é uma construção que se vê.
por ele impomos limites a nós mesmos, pelos olhos.
é fronteira, o além que precisamos tangível.
ainda que só os olhos ou os olhares lhe toquem.
que se saiba não há registo de alguém que tenha tocado o seu horizonte.
só os loucos vêem além daquela linha e fantasiam.
só os loucos se preocupam em ver dentro deles mesmos.
eis o universo ideal, limitado pelo olhar e oco.
recusamos ver dentro de nós algo que não seja mágoa.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

um certo pássaro grasnava em mim
levou-me ao carvalho que suportava minha casa
o que o fazia a minha árvore
eu era dali onde meu ninho se dera
que os homens, como os pássaros,
são dos ninhos
onde aprendem as emoções e descobrem os sentimentos
de onde saltam em voo livre e retornam
pelo desejo de chegar; chamam-lhes lar.
pintei o que não pude escrever
nem sei se meus olhos viram
meu carvalho tomando minha casa nos ramos
que brilham. que a natureza também ama

a luz de um sopro
na voz de canavial
onde caminham meus olhos
bamboleando 
ou uma viagem de corpo 
que a cadeira ensina
balouçando 

domingo, 10 de agosto de 2014

descrevessem os nomes as existências
talvez eu viesse a entender-me um dia
antónio fazedor do ninho

deitar-me-ei à beira-mar salgado; 
onde as ondas rebentam, 
a folia contida na viagem, 
e a espuma que rendilha as ondas é sal. 
limpará a alma do pecado original. 
o mais injusto dos pecados.

sítio

no sítio onde os pássaros voam
no sítio onde os pássaros pousam
no sítio onde os pássaros pulam
no sítio onde os pássaros gralham
no sítio onde os pássaros bicam
no sítio onde os pássaros andam
no sítio onde os pássaros vivem
também os cães latem em eco
e as abelhas zumbem
os chocalhos das cabras badalam
tal como o campanário nas horas
o vento restolha nas árvores 
o galo canta longínquo 
sem que se ouçam
sem que se vejam estão lá 
belos como sempre fazem o sítio onde tudo acontece
onde tudo chega 
onde a harmonia se respira e se bebe 
se olha e se entra
a liberdade que cada um tem para todos

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

caso os amigos fossem de ver, poderia, eu, vê-los passar, somente. 
porém, sinto-os antes de tudo
e por isso os poderia pintar de um só traço, fosse eu pintor, 
fotografar de um só clik, fosse eu fotógrafo, 
ou dedicar-lhes um poema, 
para que fique impresso no tempo a bondade do que sentimos: 
a que nos faz sorrir, gargalhar e trocar olhares,
e todas as demais melodias com forma de gente.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

nós

serei
sempre que me deixares
teu
sempre que me quiseres
ter-te-ei
sempre que me deixares
serás em mim
sempre que me quiseres
sei que há vontades
nossas
além de mim
além de ti

dos jardins

dizíamos que o jardim era nosso
partilhavamo-nos pela posse

na verdade, queríamos uma cumplicidade
algo que nos enleasse

que os jardins não têm dono
são, sem pertencerem, de quem os cuida

no jardim

há um olhar em cada flor...
- toques macios, afloraste
tu que encontras o toque
onde eu procuro olhares

das borboletas

da morte...
entendo-a, sei
que não é ruína
essa entra depois
se a deixarem

ao elevarmos os mortos
criamos a eternidade
o desejo de viver
pela morte se perpetua

já a ruína penetra
pelo latejo insano da imortalidade física
imutável crisálida

a vida é o gume
o resto será o que quisermos
eis o risco de vier

domingo, 3 de agosto de 2014

sobre homens

dos homens sabe-se pouco
o que falam de si é vago
o que dizem de outros é exagero
olham o mundo com desejo de posse e de mudança
encobrem-se nas palavras à medida que crescem
pelo silêncio desnudam-se, até ao estado de recém-nascido
sabe-se que geraram a humanidade e que por ela são paridos

diálogo interno

olho-te
folha branca
vazia.
vejo-te enrolar
dobrar em barco e peixe
depois em cisne e avião
e desenho de criança
que escrevi
não sei se é poema
mas era-me poesia

não se negue a ninguém o direito de cair:
sem ajuda, levantar-se-á mais próximo da vida;
apoiado em alguém, erguer-se-á íntimo de si mesmo.

a morte, talvez pelo seu género
tende a causar um certo fascínio
nos poetas, que são do outro género

o que tenho a dizer
não vai além de um poema
curto
acontece caber num verso
simples
às vezes é só uma palavra
outras, um silêncio

minha memória é fraca
velha e desatenta
e tem tudo para ser preguiçosa
que o é!
não guarda nada
do que leio ou escrevo
por isso escrevo.

acontece eu ler-me sem autor
acontece surpreender-me nessa escrita
agradeço à preguiça que a memória tem
quando me lembro...
tenho o hábito de agradecer a deus

terça-feira, 29 de julho de 2014

da palavra não dita

embargo de voz é uma forma de palavra encalhada;
a garganta dói dilacerante,
ferida de arestas da palavra que força a saída.

já o peito dói de esforço carregado profundo,
o peso de empurrar a palavra que não sai
e cai, retorno contundente, rebentando por dentro
o peito dorido.

um peito rebentado baterá sempre aberto e ferido;
ensurdecedor, o pulsar dum coração partido.

ser poeta é acreditar em banalidades como a utopia, a liberdade, a honra
o amor próprio, o amor aos outros...
e, se tal não bastasse, poeta escreve sobre essas banalidades invocando futilidades
como voos de pássaros e de borboletas, marulhos de mar e de rios
azuis que nasceram celestes, verdes sempre naturais
e a felicidade, que só os patetas conhecem,...
diz-se que os poetas também

mar

mar
é onde nos espraiamos
primeiro o olhar
depois o espírito
e então o corpo
- sem que saibamos como -
esculpimo-nos praia límpida de olhos e de água
cintilamos rocha banhada de sol e de ondilhas
o odor é de sal e de iodo
as algas sempre drapeiam embaladas na brisa
vestimos o corpo franzino de mar rendilhado
espuma
estremece a alma de tão marinha se vê
à transparência de um voo
que os voos transparecem os pensamentos das aves
por isso são coloridos
é inquieta a serenidade que nos fará voltar

da sonância

não sei quanto me pareço com o que escrevo
das ondas e dos voos
das cores e dos brilhos
do sossego de pairar e de mim

nem sei quanto me pareço com o rabisco
que desenha meu nome
e vem o retrato que olho e remiro
e não me reconheço

são as vozes - as sonâncias - que me encantam
não me nomeiem
musico-me nelas e nascem-me poemas
traços soltos que desenham o sonho
da criança em que adormeço

a guerra

enganam-se
os que procuram na guerra a vitória e a coragem
engana-se
quem procura na guerra grandes feitos e reconhecimento
enganam-se
se procuram a razão entre as razões da guerra

na guerra
encontrarão o terror e o ódio
toparão com a morte, com o medo e com a resignação
na guerra conviverão mano-a-mano com o sofrimento

há na guerra
um absurdo destino que empurra para a frente
o orgulho pateta que não deixa recuar
a cegueira que não vê a nobreza do viver e a miséria do matar

escutem do guerreio
o vazio que fica da morte
a vergonha escondida atrás da heroicidade
os olhares de agonia que o despertam no sono

vejam
o pranto de um pai e de uma mãe ante a morte do filho
o desespero em prostração de uma criança ante a morte dos pais

a gerra é uma vergonha que nunca foi proclamada

sobre a vida

i
a vida não tem tempo para nascer, gera-se no espontâneo, sem parto que sabemos ser um momento da vida;

ii
a vida pare-se a cada momento pelos significados das cumplicidades entre nós e o tempo.

caminhando na manhã

o ar perfumado de hoje
assobia-se na planície fresca
verão que se estende até ao mar
lá, onde a grandeza é a imensidão de uma onda
e o azul do céu rabiscado de voos que os pássaros declamaram.

o verde em volumosos tons que inspiram e expiram
brota dos castanhos de pó que geram a terra
uma forma de maternidade
quando molhada, amorna, exala um aroma a paz
que nos toma num movimento sentido de dentro
desvendamento de onde viemos e para onde iremos
sem viagem, nem caminho; passagem simples
caminhando na liberdade do ar e na companhia do vento
leves como as manhãs

segunda-feira, 28 de julho de 2014

é pelos sons que me embebedo
das coisas e dos silêncios
pela sonância me encanto
pelo poema
do arrastar da caneta no papel
dos pensamentos declamados como palavras

perguntei-me a mim mesmo
o verdadeiro significado de um verso
simples - respondi-me - fechei os olhos
ouvi a sonância das palavras
e arrepiei-me...
ainda o sorriso me despontava

sexta-feira, 25 de julho de 2014

omnipresente

para onde olhas eu estou
pequenino
acenando com o meu sorriso
o melhor que consigo
imaginar
para ti

quarta-feira, 23 de julho de 2014

a besta

o nome da besta
proclama-a pelo nome
expurga a besta
afasta-a
de ti, detesta ouvir
seu nome, indiferente ao ser
besta
a bestial
forma ou ser

sexta-feira, 18 de julho de 2014

do desapego

e se deixou ficar
sem desapego

até o do mundo dizer adeus
e tudo o que queria deu-se
o desapego

ao transpor a porta
nasceu o dia

pela morte (se) permanece
omnipresente, sempre
confronto em ausência confirmada
negação até à alternativa, memória
passado no presente, o que resta
omnipresente constante
constantemente

eternidade

viveremos até à geração seguinte
o cisne cantará o melhor e o pior da melodia
cujo mote compassámos
depois, caberemos inteiros com tudo o que é nosso
na moldura em uma parede, um canto, um móvel
até que o lugar se esvai em penumbras
sem derrocadas

a casa de deus

as gentes que entravam passavam em silêncio
seriam uma procissão
olhavam os tetos, procuravam o céu
retinham-se nos cantos, fotografavam encantos
alguns benziam-se outros posavam impregnados
de um místico devoto.
os sons eram de silêncios: sibilos de orações,
passos pousados e ruídos de vestuário,
rangeres de bancos, de portas e de dentes.
a janela filtrava a luz que entrava no templo
onde deus e a arte são íntimos.
as gentes sabiam-no do fundo de si mesmos.

trovador

corpo aparentemente franzino
de idade igual à minha, tudo em si se projeta;
a voz de música rola pela calçada hits da minha adolescência.
a guitarra que traz ao peito acompanha-lhe a voz
de um tom britânico de rua, de taberna, de povo.
por isso lhe assenta tão bem esta rua que vestiu.
povo é povo, sente puro e rude em todo o lado
qualquer que seja a música, a cidade ou a catedral.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

estreitura

quis fotografar a estreiteza das ruas
tem forma e textura. chamei-a estreitura.
entra-se e como quem se aproxima, de tudo:
das gentes, das coisas e das paredes das casas
— amigáveis, cumprimentam —
as janelas, as montras e as portas pestanejam
despertam-nos o olhar.
quando saímos delas, dessas ruelas,
é como sair de casa,
entramos num largo que faz de mundo
semicerramos os olhos
focando a distância e filtrando a luz
e a cidade é um lar vertido de dentro
das casas do peito dos olhos...

sem palavras

escrevo-te
entre a cabeça e o peito
não sei se é corpo
o que escrevo não tem palavras
tem borboleteios
tem chilreios e água
da fonte entoando
tem gente passando
palreios de corpos
arejos de alma
emoções que beberico
na esplanada um café e uma nata

quarta-feira, 16 de julho de 2014

luar

não pode tocar-se a lua
que nos toca
que a tomámos nos olhos
que a envolvemos, sem abraço

resplandecente,
ela o sente,
ela ousa e expõe-se cheia
e o olhar, nosso,
é crescente.

as estrelas se apagam
uma a uma

o recato dá-se a dois
se completa o momento:
o luar acontecente.

confesso

vivo no inóspito lado do não-sei-quê
meu lugar não aparece e a medida não é minha
nada me encontra
desconhece-me e é-me desconhecido

não vislumbro pontos nem cardeais de pensamento
em ordem, número ou qualquer outro entendimento

este lado - o do perdido - é-o em outro sentido
entendê-lo-ei ao renascer, bem depois de ter morrido

recuso ser fénix ou jesus cristo
sou um mero fariseu passando no fundo da agulha
ou almejando o céu

inapetência

i
a porta que se abria
acontecia nas costas;

ii
ao nascer-lhe o dia
doía de tão ofuscante;

iii
a noite se lhe derramava
sobre a ânsia e a solidão;

iv
a janela, de tão amarrotada
há muito nada inspirava
nem o ar passava por ela;

vi
o sofá se fez corcundo 
deformado profundo
molde do corpo cansado.

combustão

ardeu-me tudo, em fogo
de inferno, que era meu.
as cinzas se farão
ao vento
tingindo o negrume
do dia
sou eu

exaltação

sopram-se poemas
e bolas de sabão, desprendem-se
enlevos de fantasia, elevam-se
libertam aqui e ali salpicos de cristal
ao toque suave da mão que teimamos estender
não para agarrar, só queremos ter.
esta é a forma do desejo
e do riso que escapa nervoso-meigo
a quem toca a fantasia,
correndo e saltando por ela
ou nela, ou com ela,
sabendo que acaba e logo voltará;
lendo e relendo o poema
se amplia a poesia.

tudo o que nasce infinito nunca acaba

segunda-feira, 14 de julho de 2014

sexta-feira, 11 de julho de 2014

as manhãs têm sossegos que a elas pertencem
o sossego do acordar
o sossego tagarelo dos pássaros
e desperta em nós o dia que ainda não aconteceu

terça-feira, 8 de julho de 2014

ama-me
faz de mim o momento
do teu adormecer

ao sonhares
ver-me-ás aquele
que pintou um sorriso
em teu sono

ainda eu
te beijava o rosto
e já dormias

sábado, 5 de julho de 2014

corvo

há um pássaro negro que voa em mim
veste-me os olhos, adejam-me pensamentos
voejo em deslumbramento negro
dá-se o negrume de que me cubro
de noite até à noite

quinta-feira, 3 de julho de 2014

da iniciação

o meu experimentalismo
de ser
provador
dos sabores... as iniciais

soa-me a religião
se fosse de cristo
seria cristianismo

me inicio
até ao profundo
de palato desnudado
pronuncio sílabas
- sem palavras -
onde me demoro
e me atraso

retardo-me
orando as letras
numa só voz

ontem
pintei uma voz
soou-me...

hoje
nem escrevo
uma cor...

me inicio
à tona
onde nada principia


"quando eu morrer, voltarei para buscar os instantes que não vivi junto ao mar" - Sophia de Mello Breyner Andersen

leveza e amplitude

a flor se fez leve
queria pendular no vento
que também a fez rodar
bailou, a flor e gostou...
entregou o corpo à haste
e ao jardim, deu a alma

o vento gostou, e vai
e vem sem pêndulos, rodando
levando - levantando - as folhas
que no outono de fazem douradas
castanho de terra em pó
a flor já é semente
leve...
leve como a leveza que o movimento tem
cheia de vida, porém...

a raiz, ...era o princípio

quarta-feira, 2 de julho de 2014

vivo na solidão que as palavras têm
encanta-me.
nelas, por elas, com elas, atento
aos reflexos, desperto o olhar, toco-lhes
dedilho-as à passagem

por este deserto que há em mim
árido e inóspito, nada cria;
nele nada se cria.
o fogo que em mim arde
queima tudo, ainda em semente

beijo, pureza e poesia

a poesia de um beijo brota fervente
normalmente
à boca cheia, língua e lábios se amordaçam
e vocalizam
a melodia que as palavras desconhecem

fim

fim é, sempre foi,
algo que sinto em mim
dilacerante estar
que me arranca o peito
que antevejo sem ver

uno

aqueço-me na quentura tua
que recordo e guardo na alma
que foi minha
que é nossa

marinho em teu corpo bailando algas
solto na onda que tomei
que era tua
fez-se nossa

vício, poesia em estado puro

um cigarro
que fumo em pensamento
leva-me no vício,
enrola-me em círculos de fumo:
cachos de carateres encaracolados.
meus olhos amiudam-se sobre as memórias
das letras. nos fumos
abrem-se frestas cortadas a sol
aquecem-me, amorno-me no som das letras
que as palavras não proferem.
o fumo passa e se dispersa,
o sol roda e desvanece
atrás do monte das palavras
onde corre pura a poesia
no estado de ideia e melodia.

sábado, 28 de junho de 2014

amote até onde o amor pode ser
sem comprimento, sem distância, sem quantidade
um amor que é intensidade e momento

quarta-feira, 25 de junho de 2014

um homem toma num punhado toda a terra que pisa
no vento esvai-se o pó daquele momento

levadia

meus passos deixei-os na areia
abandonei-os. a nortada
fustigou-me o corpo
até ao rosto: o enlace
em que nos consagramos;
são assim os nossos encontros
bravos, encapelados...
os meus passos foram no mar

inconsistente

sou um arremesso de mim mesmo
em cada poema me inseguro
ao escrever não grito, nem choro
nem entusiasmo, não extasio.
não respiraria, se pudesse
sossegar-me-ia até à morte
e arremessar-me-ia
como sombra de uma brisa

terça-feira, 24 de junho de 2014

búzio

as ondas do mar se enrolam
em búzios, elegantemente
coloridos e luzentes
enovelam sonhos
que desatam em sons
e sussurram-nos ao ouvido.
o mar ribomba ao fundo
satisfeito
o búzio soa no peito

domingo, 22 de junho de 2014

incomensurável

sonho sempre
sempre que o mar é profundo
sempre que o céu é longínquo
os peixes e os pássaros pairam
em palavras, em versos
— elegantes —
e fim é só uma sílaba do infinito
que habita o poema

quarta-feira, 18 de junho de 2014

mãe
ensinaste-me histórias de animais
de meninos bons e de maus
eram eu, os meus anseios e os meus receios

mãe
que me vais ensinar hoje(?)
que ao fundo do jardim há uma árvore
ansiando uma história bonita

mãe
corro, correndo desalmado
descobrindo na árvore
mais uma história de mim

mãe
as tuas histórias sempre
terminam com o teu sorriso
quão linda sorris "FIM"

leituras

i
leio em modo de ócio
passos - voos - da manhã
leio um turista que vem
antecipo-lhe o passos
perdidos, atrás dos olhos
um corpo sobrevivendo à novidade
em êxtase hesitante
cansaço de peregrino
carrega as ainda não-memórias,
que o tempo ordenará,
religiosamente feliz

ii
leio o vagar de uma gaivota
rasando tudo o que quer
pousa em cume - imponente
fitou-me demoradamente
partiu, levou-me os olhos
deixou-me o olhar

divagando

quisera os sonhos fossem ondas
mar, em verde e azul prateados
rendilhado em véu de espuma branca
salpicos, brincando na areia
enrolando nos pés.
teus olhos correriam peixes;
formariam cardumes, os teus olhares,
que teceriam o horizonte em prata
povoado de sol, de vento e de gaivotas
encheriam as ondas que rebentariam
nas pedras, polidas, limpas e cintilantes
moldadas a água e a mar

era sonho..., quisera
o sal da lágrima é de mar

sobre pétala

era a pétala
o toque, a cor
o aroma
era o lugar do mundo
o encanto do universo

o que ensina um voo de abelha
um borboleteio
um bambaleio ao vento, flor
doação, gesto de paixão
florido no lar levita

na pétala há poesia nunca escrita

terça-feira, 17 de junho de 2014

a demanda

no resto de um dia
presente
um pôr-do-sol, sempre
de aberto radiante
a encoberto anuviado
nunca será distante
nunca será ausente
realmente
querer-se-á encontrado

saudade

no horizonte
os montes saltam sobre os telhados
as memórias saltam sobre o quotidiano
sobressaltos no horizonte

domingo, 15 de junho de 2014

pulsar

os olhos guardo-os no peito
juntos aos meus
no rosto plantei  janelas
a luz que irradia delas são olhares
dos olhos que se irmanam em mim
alvoroço de um pulsar

o que realmente interessa é aquilo que que se acredita: esse aquilo é a verdade.
o resto? que importa? por lá mora a mentira...

realmente importante

quero ser
uma existência pequenina
suave de vento — talvez
brisa — discreto,
de banalidade
cheia,
a frugalidade da calmaria
nascente de um sorriso em esboço
a vulgar felicidade
desprendida dos sentidos
dos meus amigos

quinta-feira, 12 de junho de 2014

de todas as dores
a mais dorida
chega-me
não sei como
nem sei de onde
sinto-a viver em mim

efémero acolhido

acolheu-se na lapela de um fato
preto, claro em cinza escuro,
um sorriso, pin de amarelo,
ou bandeira engalanada
quando a procissão que ia
no adro, passava.
antes mesmo que o pálio fosse visto
antes ainda da banda soada
caiu da lapela  o acolhido  creio
de empurrão, ou arrancado, e já
na calçada, o sapato que o pisou
agarrou-o, e no tacão o levou,
pisando-o, arrastando-o pelo chão

quarta-feira, 11 de junho de 2014

poema

onde a ave fez o ninho
onde a porta escancarou
onde o mar confidenciou
onde o rio pulou

onde a água tem aroma
e o sal abençoa
onde existe doce de água
onde a ave se sacia