quarta-feira, 5 de setembro de 2018

ficar assim
ausente
em dormente estado
olho cerrado
como a repousar
e sentir pairar
viver a paz
ensaio da morte
ainda de ninguém
e que não me peçam
para ir a além

ouve-me

ouve-me
e desperta o dia
sem que acorde deste murmúrio de ser

inclinou-se
o tempo já não chega de raspão
entra e sai a pique
fende muros e corpos
ofende olhos e janelas
decepa almas e ilusões

ouve-me
não te inquietes
deixa o gato preguiçar no melhor lugar
toma-lhe esse prazer sem desejo
preserva  esse tesouro
breve, porém eterno
as árvores
aqueles seres que parecem pássaros
brotam ninhos
como flores
e se cobrem de verde cor de penugem
tocam o chão
e sendo árvores
voam ao tempo
como os pássaros
balanceando
o voo perpétuo
das aves
que sendo seres do céu
e quase árvores
habitam as árvores desde dentro
que se viu parecerem pássaros

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

aquela que em seus ais
amachuca o rosto entre mãos amargas
por destino

tem esperança.
trá-la ao peito
no sorriso invisível de um pensamento.

não é poesia
o que a leva ao mar
nem há versos em vento,
sal e espuma, só perdimento.

e perdida se cumpre


* inspirado em sophia de mello breyner andresen; aquele que partiu

terça-feira, 7 de agosto de 2018

comunhão

olha, soletra a cor do mar e diz
o que sentes, essa metamorfose
de chamar de dentro o que é de fora
para ser nosso e a nossa essência
...
que simultaneidade maravilhosa

quarta-feira, 20 de junho de 2018

o rubor ao soletrar-te, agarravas-me
pela mão, o dia nascia
inteiro, a nós se fazia
e o mimávamos, depois

montávamos nesse alazão
não pelo partir, só para chegarmos
onde as pétalas são

terça-feira, 15 de maio de 2018

se o sono corre atrás do que perdemos,
já perdemos tudo
pinta com teu amor
todas as coisas lindas que procuras
serão tuas ainda antes de respirares
minha mãe revela-me o mundo inteiro
a cada beijo
a cada carícia
a cada olhar
que eu vou descobrindo aos poucos
serei as promessas que faço a mim mesmo
que as soube, sempre, ainda antes de ocorrerem,
desejos serem, ambições até,
utopias a engrandecerem do peito para fora,
tal sol quente
que aquece
porque irradia o que lhe vai por dentro

quinta-feira, 10 de maio de 2018

eutanásia

o que de nós perpassa
é o gume frio do orvalho lúcido da manhã
ou o entardecer embalado pelo rumor do dia?

ontem recortávamos bonecos de papel
que desdobrámos pelas janelas. a casa era nossa e
a alegria pertencia-nos.

o jardim corre (ou corria?) para nós,
toma-nos para uma roda. e abandonámos a mão...

os olhares não urdem
nada.

é outono. a folha cai sem significado.
ao gelo da madrugada responde o adormecimento.

entardece invernoso e escuro.
o horizonte hoje não veio.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

teu nome

teu nome
escreve-o 3 vezes
lê-o 3 vezes
ouve-o, escutando-te
3 vezes, soletra-o
corre-o de trás para a frente
e no inverso
se zoar íntimo
teu nome será

a palavra

a palavra em si mesma é inacabada
o som que perpassa dá-lhe íntimo.
no verso suspende-se, a palavra viva
brinca, paira.
no poema a palavra enche prenhe
a cor e forma.
a leitura corre tonalidades
de onde despontam primaveras.
claro, isto são dizeres de
imperfeições suspensas
pendentes de intimidades
talvez fecundas, como as estações

segunda-feira, 9 de abril de 2018

empurravas-me
encosta a baixo que me fizesse ao voo
eu agarrava-te na vertigem do chão que fugia
e ficavamos-nos nos braços pairando
na permanência de quem se ama

sexta-feira, 6 de abril de 2018

glossário ainda sem título

nascer
a imortalidade em ideia
o voo ao futuro

imortalidade
tédio como modalidade
inalcançável

ideia
explosão na vacuidade
a luz
o estrondo
eureka
se germina é inodora
insonsa e insonora

voar
a arte de pairar
batendo asas
ou não

futuro
uma probabilidade
em que se acredita
escrita com efe ou fê
como fé

poemar
sem tempo
reformar o sentido para sentir
voar de pés na terra
voar nos pés da terra
poderia até
de um gesto acender a luz
que ilumina o firmamento
para ser todo
para ti

sexta-feira, 23 de março de 2018

alimento
a profunda angústia para escrever
impossibilidades que vão em mim
o desassossego de as tornar possíveis
as ânsias de as encarar
desenhei voos como os sentia
brisas e suaves em cor maresia
a borboleteei no tom de jardim
bulindo fora e dentro de mim

quarta-feira, 21 de março de 2018

galgar

o verbo dos galgos
da braveza do mar
da folia do brincar
da coragem a esbanjar
da extravagância do rio
da cobiça de vencer
do ímpeto de uma lebre que foge de morrer
de um galgo que tudo galga atrás dela a correr

segunda-feira, 19 de março de 2018

quando eu morrer será amanhã.
a luz apagar-se-á solene

mirarei a sala sem desejar ir

deixarei o murmúrio do público
entrando na noite lá fora

e pairarei, como eu gosto

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

monólogos

 de que lado me olhas?
 como se fosse sábado
 gostava que me visses domingo
 sábado é o início e o auge
 domingo é a solenidade
 e domingo é cansaço
 e o descansar
 acordar de ressaca
 domingo tem o entusiasmo da roupa nova, a festa e...
 gosto de partir ao sábado e deixar o domingo para reparar
 vês-me sábado?
 queres-te domingo?
(silêncio)
 acho que o lado esquerdo me favorece mais...

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

sonho com os dias
abertos à luz, simples,
de coisas belas como os voos,
essas aragens frescas e
rodopiantes.

à pedra, talha-a a água inquieta
nem sempre pura
afiada de macieza e convicção
de envolver envolvendo-se.

dizer é um compromisso
convicto de envolvência.

à sombra inaudível da palavra
o impronunciável responde surdo,
em gesto vago
sumido e rouco de coisa cansada.

e o dizer morre
ainda antes de nascer

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

são riquezas, as memórias
fragrâncias do olhar
entesouradas no íntimo
que se descobrem no peito

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

nascerão pássaros e voarão dias
a colina recortará sol e nuvens
o mar zoará rouco
o bucólico terá a brevidade de um sopro
a inexistência será minha por um instante
eu imitá-los-ei como fiz a vida toda

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

escrevamos todas as letras de uma vez só
PLAM!!!!!
e teremos um abecedário chapado
onde quer que seja, todas as letras
um gorgolejo
a sonância duma probabilidade

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

é manhã

as ruas correm, sem esvaziar,
para as vielas, adentram portas,
um corrupio de frenesins, onde pára a quietude?

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

as flores não caem, desfolham,
transformam-se para esvoaçar, pétala a pétala,
e o fruto prospera ao redor da semente, preparando a sementeira

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

fala-me de amor
esse murmúrio
conjuga-o com fogo e diz-me
ainda é dia?
pressinto
ainda há olhar

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

i
sobre  o casario estira-se a sombra
cobre o volume de cada coisa

há um modo embriagado de tomar o tempo,
aos tragos, sentindo-o no corpo

há o esvoaçar dos pássaros, libertador,
trespassa a sombra a golpes de asa e eleva-se

ao casario
em cujo ventre os dias habitam miudezas

ii
as cidades são de um respirar ofegante
correm pela pressa de chegar
geram o burburinho da partida que preenche e
apazigua os ruídos do próprio corpo
encobre a internalidade do dia, desodoriza
e o ar corre inodoro sensabor

impaciente, a cidade estende-se
devorando o tempo, imune aos esvoaços
e ao quebrantar da sombra
interpretando a criatura que a zelará

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

mãe, meu olhar sente-só
a saudade abunda no jardim
os lírios perguntam teu nome
as rosas desfolham-se
e teus passos não as acolhem
as pétalas vão no vento
errantes, sem destino
perdidas sem teu olhar

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

da tormenta à boa esperança

lançar o poema do avesso
ferrar o hálito da sede
fitar a pupila do vazio
dobrar o abismo da saudade
afundar na profundez do céu

terça-feira, 14 de novembro de 2017

o rio até à nascente
o alpendre sossega
as folhas esvoaçam
todos os outonos passam
aguardam um pouco e vão

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

há sítios onde estou, sempre
saboreando a permanência
dos ninhos nas palavras,
perpétuos, eu delirando
cada partícula, desfolhando-a
como um livro, orgulhoso
como se um poema me lesse

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

poder-se-ia colher a tarde e
como um fruto maduro, saboreá-la
suculenta doce carnuda cheia e
sobretudo...
sobretudo olhá-la de dentro
pulsar nela
ser o pulsar dela e dela ser
pertencer-lhe
como do jardim são os seres vivos e
os bancos, esses seres ondulantes
que tomam os olhares e acolhem
corpos em despojamento

poder-se-ia colher a tarde
sobretudo
enquanto a brisa a sobrevoa e
perpassa o corpo
hum.... morno de regaço que embala
amamenta e, colhendo-se,
sobretudo
não se consome

afinal é disso que se fazem as tardes
sentidos e corpo envolto em brisa
abraços que as tardes têm

domingo, 22 de outubro de 2017

o silêncio ensurdece quem dele abusa
é uma estirpe fastidiosa
de colher tédio

os regalos volatizam-se
soam a carrossel
suspendem-se na melhor volta
pelos olhos me incendeias
uma verdade forjada a fogo
indelével, a paixão
o sonho é
uma forma poética do desejo:
imiscui-se nas realidades e urde
o encantamento: o mesmo que
compõe cantos dos chilreios
escuta murmúrios nos marulhos
sorve frescura no gélido:
é ser inocência sem idade:
toma o pico de uma euforia sem tempo
alimenta a serenidade do entardecer

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

alguém terá a verdadeira noção de
quantos dias tem o ano?
meu dia, hoje, teve muitos dias
tantos que me esqueci de os contar
ou me perdi, perco-me sempre
na contabilidade dos dias
talvez porque sopro para o ar
na intenção de assobiar sopro as horas
voam como aviões de papel
longas e soltas, pousando aqui
e ali onde as cores chilreiam
desafiando a física do movimento
testando a química da emoção
e eu que não sei assobiar
que também não sei contar voos
esqueço-me
esqueço-me dos quantos vão
esqueço-me de mudar de dia
esqueço-me que não sei assobiar
e sopro
sopro e murmuro os dias todos de hoje
também os de amanhã, os de ontem, os de sempre
citá-os-ia como ladainha se
disso ocorresse necessidade
recordo-os como os vivo
indispensáveis, revigorantes como um banho
e imerso suponho-me onde as cores tagarelam
onde os pássaros doiram horas coloridas
que gracejam como aviões de papel felizes
alguém terá, realmente, a noção de quantos dias tem o ano?
e da insignificância dessa conta?
dessa impossibilidade insolente?

terça-feira, 5 de setembro de 2017

e sentava-me eu
nos limites do horizonte
fossem bordas
de um lago, de um rio 
de qualquer mar
com os pés mergulhados
em fresco molhado
súbito e refrescante
corpo acima, alma adentro
furacão
satisfação mãe de todos os sorrisos
de ser feliz

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

esta manhã a luz sofre
um breve torpor rotativo e
sobre si mesma pensa
melhor, se debruça cogitando
sobre o dia que pretende alcançar

acontece que as sombras se avolumam
e crescem tanto que
se fundem com o universo:
este tingido de cinza
não abrilhanta
não fulmina:
a luz agora baça e fria é triste

esta manhã a luz aprendeu
algo que encomendou ao poeta

a posição fetal é para os fetos
o caminhar
tropeça
nas imprecisões do tempo;
umas pedras soltas
que envelhecem
um pouco cada dia

segunda-feira, 17 de julho de 2017

irremediavelmente

aguardo
na invisibilidade a minha vez
não ouso. por nada me insinuo. temo
que não gostes de mim.
sol e coragem rimam até nos dias sombrios

sexta-feira, 14 de julho de 2017

o luar agrada às estrelas
obra sua, cintilam quanto podem
vivem como povos dos céus
desfilam pela noite erguendo a lua

quarta-feira, 12 de julho de 2017

suburbanidade

a pintura que doira na camisola
está-lhe nos olhos guardada
às pinceladas: uma após outra
como os olhares que bota sobre todas as coisas
tudo
é um nada aceso
enganando a escuridão
sou um saltimbanco
nomado-me
insatisfaço-me
procuro quem me ouça
quem me olhe sem me ver
desejo quem me responda
quem me like

santimbanco-me
pela falta do sossego
de ser de estar

cintilo no espelho da água
intolero a vertigem da profundidade
claustrofobia-me achar-me em mim

saltimbanca-me
minha ambição de cintilar-me

quarta-feira, 31 de maio de 2017

terça-feira, 30 de maio de 2017

josé

no dorso da senhora passeio
minha aventura enxergando
onde me extinguirei, em seu seio
pressinto frio corpóreo
roça-me cinza marmóreo
o que me consome é medo
se nela me quedo em sossego
e adormecer
e se acordar eu me nego

domingo, 28 de maio de 2017

para mim todos os poemas têm pássaros
que voam, só para haver esvoaçar em teus cabelos
que eu sei ser teu sorriso
e pudesse eu adormecer assim
um voo de pássaro
um sorriso amplo
um poema

segunda-feira, 22 de maio de 2017

silêncio em 12 estações

i.
há um truque qualquer, topei-o
sumido como se fosse na areia.

era de um sólido quase palpável
até invisível. creio que
por isso o encontrei


ii.
contei a mim próprio
todo o movimento eu tinha
para o mar

ondas a secarem-se nas rochas,
quase transparentes,
a espuma, branca, é a dos dias


iii.
há sempre alguém que se senta vazio
para descansar de nadas cansativos

se aturde pelo inesperado
que o invulgar tem: quase ilógico

e pela consciência de ser quase
(um) engano da sua própria existência

há sempre alguém que torpedeia as banalidades
e nos desflora até ao olhar

sorte! é tropeçar inadvertidamente na cegueira
e despertar


iv.
emociono-me
com o que sinto, não há palavras
para dizer


v.
silêncio no olhar
germina a ideia
peregrina
silenciosa


vi.
a assimetria das linhas no rosto revelava
minúsculos desentendimentos básicos entre as faces
cada uma com seu modo de ver


vii.
olhei
um rosto de silêncios estampados


viii.
invernia
diariamente
a noite chega
mais cedo
mais tarde parte
mais tempo fica
mais tempo dura


ix.
teu nome
um regaço em concha
aberto par-em-par
vista ampla para o mar

x.
às palavras
soletrei-as para desnudar
traços das parte íntimas
impronunciáveis
agora que as sonho
brindamo-nos na intimidade


xi.
tocou-me
uma longueza penetrante
chegada de uma lonjura impossível
o olhar fito de uma criança
trazia a ingenuidade sem lugar para vergonha


xii.
tens suspiros no olhar
acomodam coisas de acontecer
simples como teimosias
de aparência intermitente

transbordância

minha mãe
falta-me a alegria dos teus olhos
a essência da tua pele
esse sabor a colo
o conforto que me chega
quando dizes: − filho
o agrado que me faz
de dentro
do início
antes do orgulho de ser
quando a felicidade é só
sentido puro
e amar é!

quinta-feira, 18 de maio de 2017

édipo

minha mãe
falta-me a alegria dos teus olhos
a essência da tua pele
esse sabor a colo
o conforto que me chega
quando dizes: − filho
o agrado que me faz
de dentro
do início
antes do orgulho de ser
quando a felicidade é só
sentido puro
e amar é!

terça-feira, 16 de maio de 2017

pudesse eu ser olhar simples
de ficar na praça
borboleteando olhos
cruzando sóis
desenhando coloridos
na sombra do movimento

quarta-feira, 10 de maio de 2017

não escutei a forma que os pássaros libertam no voo
o gume do vento arrepiou-me a pele
o corpo virou-se do avesso, quis sentir de dentro
e nada aconteceu, nada, nada, nada
arrumar o dia num poema
corar as palavras ao sol
versos a enfunar
drapeio pensamento
trauteio leve do dia
palavra em bambo som e brando gesto
sonância do sentido

quinta-feira, 13 de abril de 2017

sobre o jardim que já não é
sopra a aridez as flores
desabotoam-se cinzas
no tom escurecendo
o breu longo do silêncio
dá sentido ao infecundo

sexta-feira, 17 de março de 2017

teu nome é
verbo em verso
aberto
seio em concha
par-em-par
explicar como se respira
uma inutilidade

comprar um colar vazio
uma inutilidade maior

explicar a inutilidade
uma heresia

querer um poema útil
uma heresia maior
a vida conjuga-se com viver
outros verbos conferem-lhe o tom
ora temporário, pouco definitivo
em tom de riacho
ameno
límpido
corrente
jorra o teu sorriso

ser azul

ser azul
tomar-se de várias cores, de azul
ser céu ou para lá rumar, em azul
estar inverso a inundar, de azul
e abarcar a terra, em azul
pintada da cor do mar, azul
e não caber, transbordar azul
de azul ser
tenho felicidades tuas, ainda
as cuidavas pela manhã, colhi-as
como quem as surripia, levei-as
no meu andar, passeio-as
voando na passada, trauteio
um tom de assobiar

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

eu corro em
teu sorriso simples e cheio como desenho de infância
colorido de recreio
eu pulo e rodopio
eu voo
eu me embalo
e permaneço

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

é dezembro, porém
as manhãs despertam maio
é em março que se inicia a primavera
corre um fresco que se fará doce ao florir
o vigor de junho alaga o corpo de alma
em setembro vindimam-se carinhos
e a pequena ave desponta do nobre ninho
em dezembro também
se o verbo parasse
e o movimento não fosse
de dentro da palavra
sucumbiria

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

pós-humanidade

houve tempo, os homens eram de pau
aparência seca, acastanhada, aqui
e ali uma greta na madeira fendida

flutuavam na água e no vento
sentiam-se primos das árvores
com ligação pueril à fauna
no peito suspiravam pelo pulsar universal

uns existiam no tempo do sol e das intempéries
outros especializavam-se, espantar as aves, por exemplo
alguns tomavam a vontade superior como sua,
diariamente, usavam cordões
e se moviam pela habilidade de mãos do criador

todos, mas todos mesmo, temiam o fogo que arde e queima
curtiam na boca o sabor a lenha
e adormeciam ao som do crepitar do inferno

hoje, nos tempos de hoje, os homens são
...

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

do fundo
além da crosta no furo e na fenda
limita o saco além da boca
rompe no peito o sentimento
tão forte e profundo como o pensamento
profundo profundo profundo
base suporte e balanço do mundo

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

desesperança

não há lugar para jardins
não há espaço para flores
e os pássaros não têm onde voar

tombam nadas da mão
pendem estéreis os sonhos
de nadas tão nada que são

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

encantamento

da flor
acerquei-me dela
como para...

sem verbo a pétala
mimosa
acerquei-me dela
como...

a cor delicada
macieza
o mimo
acerquei-me dela
só...

existindo

terça-feira, 15 de novembro de 2016

continuando

todos os tropeços
são almas que rosnam
não te inquietes
nunca te culpes
recorda, já passou, a tua mãe
afaga o beijo que te acariciou

de súbito

o de anuncia a eminência
que o inesperado pode ter
pontua de previsível, talvez

explica-se o nem sempre da surpresa
sendo esta um asseio
se se procura resposta a piropos
que  de súbito – são-no
todavia, esperados
criam lugar ao espanto
até justificam a estranheza

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

azul de azuis

encanta-me o azul das folhas
tingidas desta estação
um azul de árvore fosse
de azuis que o não são

têm um fundo de céu
juntam um toque de chão
uma pinta verde cor de verão
se os verões fossem verdes
de azuis que o não são

mas o azul das folhas é
luz que morde a atenção
límpida como o ar 
tem a frescura do mar
tão livre como o pairar
cadenciando ao pulsar azul 
do coração em azul peito
se os peitos fossem
azuis que o não são

terça-feira, 11 de outubro de 2016

existenciar

o passado é de matéria inconstante.
o futuro sustenta-se na ideia de eternidade.
o presente urde-se mutante e eterno; é
uma impossibilidade: em sentido concreto
confirma a existência como milagre.

preguiçar

encosto o olhar ao
pensamento em fim-de-tarde, por aí ficar,
largueza fora, planura
saboreando o ar

o ideal sem sonhar
pairar ameno, leveza em sentimento
instante pleno, ápice
corpo a assoalhar

piscos, os olhos teimam
fechar e tudo verem, ainda tocar
o reluzente acontecendo
crepitar do entardecer

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Coimbra

um certo ar de ser
Coimbra

corre-te nas artérias
um fundo encapelado
rimando com resignado
Coimbra

uma rima improvável
um quase sem sentido
como em ti, Coimbra
o o e o i recusam o ditongo
enleiam-se na consoante
e formam sílaba, a sua.
então unem-se na palavra
acentuando-se 

Coimbra
de vontades várias

Coimbra
de sonância assíncrona

sábado, 20 de agosto de 2016

ainda é tarde
ao tempo sobra o rumo

alguma vez serei luz?
ou só a manhã que não sabe existir?

à pergunta dos loucos
responde o puzzle dos significados

nem tudo passa, só,
há o que frutifica à passagem

ainda é tarde 
o tempo não se avoluma

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

a cor desacanha o dia 
é de azuis e amarelos
de verdes e vermelhos
em tom de ser alumia

é uma cor que grita, canta e ri
é uma cor que pula, voa e anda
é cor a porta, janela e autocarro
em tom de rua ensolarada
de manhã pequena desocupada
a passo gerúndio corado
é domingo ou será sábado
podendo ser até feriado

quinta-feira, 28 de julho de 2016

i.
as flores se aprimoram por gerações
para seduzirem, o que fazem com mestria:
são belas, ainda que se desconheça o propósito:
algumas para se alimentarem,
outras pelo nobre desígnio da reprodução

ii.
há um vento que concorda comigo
falo e ouve-me
ouço-o, responde-me rumor de folhas
e refresca-me
a cadeira em que repouso bamboleia
suave, pendulando concordância

quarta-feira, 27 de julho de 2016

ao rubro
é onde a dança nos põe
no olho da ebulição
o gesto deflagra movimento
há um inconsciente nisto
e a graciosidade que se espelha
vem de dentro

o rei dos peixes

eu pequeno
à lareira, meu avô dizia histórias fantásticas,
chamava-as de contos.
adorávamos o do rei dos peixes,
sabíamo-lo de cor: magnífico.
meu avô enchia-nos do melhor que imaginávamos,
era o rei, tal a força da sua generosidade,
eu era peixe para ter um rei assim

quarta-feira, 20 de julho de 2016

ares da beira-mar

o marulho deste mar tem
ondas pequenas, chegam e
enrolam-se nas pedras às risadinhas

vejo as pedras hilariarem-se pelo contorno
das ondas e pelos banhos de salpicos

foliam duas formas da mesma realidade

ao largo, as ondas são mais
vigorosas: enormes roncadoras como
fossem soltas de longa clausura
ou
empurradas por força maior
que desconhecem

provirão da agitação dos peixes
pujantes no bater de barbatanas e
nos jorros de água que expelem de guelras arejadas
ou
ainda, serão coisa de sereia:
sabe-se que instigam o mar
que ondula a voz de água e sal
em melopeia de encanto, se matiza
a aragem, cantando

a realidade tem uma presença de vento
toma todas as formas, até as mais invisíveis

sexta-feira, 15 de julho de 2016

o sopro

tomou a chama dourada
da vela enchameada
o pavio fumegou
afirmava a tristeza
pelo brilho que se apagou

dizer

no íntimo de
cada palavra vive
uma ideia que se aprimora
para ser numa história

é coisa breve de brisa
como borboleteando
obtém um quase soletrado
encorpando a natureza do voo

terça-feira, 28 de junho de 2016

há cavalos que perduram em seu rasto,
por mais paisagem que passe;
são de trote longo,
de galope poderoso
e têm vontade equina. frente ao sol
recortam-lhe o brilho na forma do seu perfil

sexta-feira, 17 de junho de 2016

floriu manhã
fresca de primavera

bebo manhã
e respiro primavera
o florido converteu-se olhar

ensaio respirar manhã
quero beber primavera
sondo o desconhecido em flor

o que faço poderá nunca ser
porém há olhos primavera

disgrafia

escrever
de luz apagada, escrever
palavras encavalitadas
de letras, também
em frases que se julgam versos
seres iluminados
emergentes
da escuridão que apaga a luz
no adro onde convivem cegueiras

rumoreja

rumoreja
por enquanto rumoreja, só
a um odor morno anunciador
do verão, ainda brisa

e ouve-se
esse bater de asa ocioso
a cigarra ou a abelha
que escuto borboleta
e rumoreja

vaga de onda
esse vai e vem sem fim
de um indecifrável embalo
rumoreja
em suspenso de flor
belo leve livre maior
de interpretar
saboreando o ciciar

rumoreja

terça-feira, 31 de maio de 2016

talvez
o dia seja uma partícula mínima
onde assentamos momentaneamente.
depois, algures durante o sono,
muda-se a partícula
e acordamos noutra que não distinguimos da anterior.

as partículas sucedem-se,
porém, vemo-nos sempre na antecedente,
há mudanças que nunca percebemos. por vezes,
esforçamo-nos para que tudo fique igual:
desejamos o imutável...

o passado, em todas as suas partículas,
ensinou-nos o desfrutar do presente,
o futuro serve-nos a utopia
com que ocupamos o agora, o que nos faz levantar,
preparar o pulo,
o que realizamos durante o sono,
para a partícula seguinte.
talvez.

a ocultação ou
a não aceitação de si,
no todo ou em parte,
geram o enigmático do ser;
traduz a intraduzível dificuldade:
entender-se.

o que se desoculta ou
o que se aceita,
transparece; este é,
porém, um processo interminável.

domingo, 29 de maio de 2016

fica-te bem o luar
com que atas o cabelo
que enlaças nos dedos
e tamborilas um mistério
a mesa é tua
fica-te bem
o luar o rumorejo
e a luz da vela
é bela
fica-te bem ao luar
cobiça-te o cabelo
transborda-te o olhar
fica-te bem a felicidade

sexta-feira, 27 de maio de 2016

pulsão

mantinha a luz acesa,
sempre, o quadradinho luzente
era seu; o ato: adornar a rua,
queria-a radiosa.
via-a menear-se vaidosa e nua
passeando sua
janela brinco, colar
pingente, anel,
jóia em corpo encastoada:
o luzir permanente.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

e se desconversássemos um pouco
— sugere-me o poema —

para despojarmos as palavras do comum
que o sentido lhes venha do som gerado no íntimo

para as conversas desabotoarem enredos
em vez de descreverem um enleado de tangentes

para que as pessoas sigam mãos-dadas com os poemas
fossem filhos com os pais

para ouvirmos a voz de dentro: a que declama
a poesia que desagua em nós

perfeitos são os versos ditos no olhar do encontro:
o poema cristalino

quinta-feira, 12 de maio de 2016

a oposição

eles
acumulam ódios
usaram os seus como lastro
acamam os restantes
camada a camada
enche-os um pesadume
afogar-se-ão berrando impropérios
todos precisamos quem reme
cada qual no seu estilo
todos no mesmo rumo

sexta-feira, 6 de maio de 2016

dos beirais

dos beirais
a água pula
gotejam pardais
líquidos chilreios
chapinham
traquinam
crepita abril
maio e muito mais

quinta-feira, 5 de maio de 2016

pelas borboletas reconhecemos o borboletear
dos dias
em modo sem remorso de ondear florindo
trajetos

há seres que recusam o voo direto
reto geométrico do pardal ou
do faísco de chuva

o encanto toma todas as formas
e ao movimento que as traça, demora-o
o necessário para encantar

como o dar-se da figura de bailado

segunda-feira, 2 de maio de 2016

4 fragmentos do amanhecer

1.
há rumor nas madrugadas:
um não-sei-quê do que poderia ser,
um odor a 2.ª oportunidade.

2.
as folhas libertam manhã: iluminam e
movem-se leves sem preguiça;
há um fresco de terra que as inunda.

e roçam-se pela cauda do vento
lá rodopiam um sorriso matreiro:

o burburinho do despertar.

3.
o sopro das palavras carrega-lhes a melodia;
todo o dito tem fundo de ventania.

4.
agrada-me em deus a esperança:
uma espécie de utopia endeusada.

passar da aurora

desabotoa-se a aurora
corpo morno em manhã fria
chama em luz vinda de seio
o que acarinha e alimenta
o que acolhe e irradia
até que aurora seja dia