segunda-feira, 6 de agosto de 2012

sentimento

quando a música amena
irrompeu do silêncio
aquele, dos pensamentos vagos
despertou-me as memórias
primeiro uma, depois outra
e mais uma... ou talvez mais
e não se conheciam.
conduzido pelo convívio
agarrei-te a mão
que beijei tão suave e profundo
quanto o permite o sentimento.
sorri-te...
e celebramos o momento.

há dias

há dias... em que surges exigindo
e levas de mim tudo o que tenho
ignoras-me a entrega.

então, fico sem nada para te dar
fico sem te poder amar.

domingo, 5 de agosto de 2012

futuro

os dias que partem daqui
irão para longe e irão perdurar
sem distância nem tempo
farão uma história para contar
e viajará enleada nas asas do vento.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

despertar

levanto-me, rabiscando
a poesia que tenho
vivi-a durante o sono
agora bem acordado
sonho-a, escrevendo
e algo em mim se fez bonito.

quem é assim...

assim...
é aquela parte de mim
que redescobriu a emoção
e foi viver em poesia.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

paixão, possessão

prendi-te no peito
guardei-te, pensei
não, prendi-te! aceito
porque te aferrolhei
algemei-te
não sairás! está feito.
violenta forma de amar.

memória de beijo

sabe-me a boca a saudade
guardo a memória...
um sabor doce de beijo
um aveludado quente de lábio
o vigor carinhoso de língua
e o conforto dos olhos fechados.
sabe-me a boca a saudade
do beijo que te dei
e do outro que te darei.

no mar...

no mar...
o rio perde-se
encontra-se
destina-se.

no mar...
a onda faz-se
eleva-se
esbanja-se.

no mar...
confesso-me
perco-me
encontro-me.

no mar...
eu e ele
ficamos íntimos
até ao próximo encontro.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

mágoa

são húmidas as palavras que escrevo
por serem nascidas à beira d'água
lugar onde mergulho a mágoa
na esperança de a lavar.
rasgo-me na página da escrita
mancho-me de tinta no papel
amargo as letras em fel
são húmidas as palavras que trago
marejadas, sem sal de mar
como olhos de marinheiro
perdidos, molhados por inteiro
lembrando onde foram feridos.

assim...
são húmidas as palavras que escrevo.

origem

fizemo-nos de abraços
dados, pela entrega
laços de nós
nunca procurámos a volta
só o dar, dar-nos
desejando
que o outro de nós
fosse generoso
para aceitar, aceitar-nos
de dádiva em dádiva
nos abraçamos
enlaçados
nos fizemos de abraços.

terça-feira, 31 de julho de 2012

partilhança

partilhar-nos-emos
quando soubermos
como sentir a partilha
quando entendermos que unidade
não é metade mais metade
quando soubermos
que não somos um
e que não somos dois.
partilhar-nos-emos, então
e teremos um sorriso
e uma felicidade
e um amor
em dois corpos
unidos numa só alma
de mão apertada na mão.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

superlativo

andei à chuva
molhei-me na espuma do mar
dancei na copa das árvores
rebolei em jardins coloridos
pulei de nuvem em nuvem
balancei-me nos raios de sol.
assim se me fez sentido
aquele abraço despido
com que te vieste entregar
na surpresa do dia.

amor

quis amá-la e fi-lo
amei-a mais e mais
mais que a mim mesmo
desejei até
que existisse em mim
e, se quisesse, por mim
que amor crescente, sem fim.
não tem mais por onde amar
quem deseja amar assim.

acordar

manhã bonita, preferida minha
despertaste-me para o dia
igual a outro qualquer
só que mais venturoso
porque mo fizeste querer.

toquei-o na ponta dos dedos
quis que pudesse voar
cheguei-lhe de leve os lábios
amei-o com tudo o que pude
e ele deixou-se amar.

foste tu manhã bonita
que me encontraste num sonho
onde eras a preferida
me sopraste no rosto
me despertaste p'rá vida.

pensamento

o tempo de viver não se conta em dias e os dias felizes não se vivem em tempo.
são de paz, podem ser de alegria e sucedem-se dia a dia, haja o tempo que houver.
quem vive da conta dos dias, medindo o tempo que cada um tiver, deixa passar a vida, passa o tempo a correr, sente o vazio de tudo e, se tiver sorte, também se sente morrer.

mágoa

porque me dás o que não preciso?
porque insistes lembrar-me o que te dói?
porque te esforças em mostrar-me o tamanho da tua dor
demonstrando que é infinitamente maior que a minha?
porque desejas sobrepor-te ao que sinto?
porque definhas quando o centro não te está destinado?
porque entras em pânico
quando não lês no meu olhar os teus desejos?
porque soltas a tua ânsia e nos sufocas?
porque te isolas de medo sem vida?
podias guardar teu sorriso e teu olhar
porque por eles te farás feliz.

sedução da morte

doce,
doce faz-se a morte
nasce
devagarinho, nas veias
em cada suspiro, pulsação
cresce
em doce aproximação
sem sinistro
instala-se lentamente
ronceiramente
faz-se desejada
aparece
provocante, também
na forma de poesia
faz-se chamar além.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

bucólico amanhecer

orvalho chegado do céu
límpido, cristalino
brilhando na flor
maduro, pronto a cair.
as árvores espreguiçam-se
ajeitam as sombras
no amanhecer.
erva fresca, cortada
por dentes famintos de frescura.
as vozes ao longe
comunicam
parecem cantar.
os passos sucedem-se
uns pulam, outros caminham.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

errante

aos poucos a vida sumiu, fugiu?
estranho, vislumbrei o horizonte
tão longe, tão longo
o que encontrei nem parecia meu
a vida vazia, perdida, arredada,
longe de tudo perto de nada,
sem que agarrar e sem mão para dar.
ofereci-lhe meu braço, cedi-lhe meu ombro
e a vida, então me gritou:
- NÂO!
a vida não partiu
também não fugiu e ali não ficou
anda por aí, onde sempre andou.

a nossa epopeia

a nossa epopeia de feitos extremos
tem grandes actos de gestos pequenos
doces e ternos, que os faz eternos
preciso uma vida para contar
uma troca de olhar
um sorriso curto, disfarçado
num dia atarefado
o que há de quente
num toque fervente, trocado
e como se lê um ar furibundo
de algo horrível que temos bem fundo.
a nossa epopeia...
fez-se em lua cheia, luzente, pungente
num quarto crescente
e foi lua nova e foi minguante
e de lua em lua se fez estação
outono, inverno, primavera, verão
e em cada uma delas
a nossa epopeia teve lua cheia
gestos pequenos e olhares eternos.
na nossa epopeia até a tristeza
de um dia bem triste
se fez feliz.